Mostrar mensagens com a etiqueta Cid Simões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cid Simões. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Opiniões e critérios

Ontem, ao começar o ano, li o que em baixo se reproduz e quer partilhar!

TERÇA-FEIRA, 1 DE JANEIRO DE 2019


“Eleições, tão livres como na livre Inglaterra.”


No balanço do ano político, hoje, primeiro dia do ano, os Manholas da SIC abriram as goelas ao Bloco em que todo o naipe, do Robles em recuperação, ao patriarca Louçã, sem esquecer a Mortágua e terminando com a sacerdotisa Martins, apresentaram o seu espetáculo. O CDS apareceu com os mediáticos artistas, Cristas de frente e de costas, primeiros planos, em campo aberto, uma festa. O senhor Costa e o Rio, que não diz por onde vai correr, mantiveram-se taco-a-ataco, como o senhor Feliz e o senhor Contente. Aos partidos com assento na Assembleia da República foi dada visibilidade e voz, menos ao Partido Comunista Português, para o PCP, nem a mais leve referência.

Aproxima-se o acto eleitoral, e vão-nos fazer crer que “as eleições vão ser tão livres como na livre Inglaterra.”

O MANHOLAS DA SIC PROMOVE A ALA LIBERAL DE QUE ERA PARTE, É A RAIZ ATIVA DA ASSEMBLEIA FASCISTA, PROPALADA COM ESTE CARTAZ.

terça-feira, dezembro 25, 2018

Nesta noite de natal


“AQUELA NOITE DE NATAL”

“porque los que son guerreros
verdaderos
no descansan descansando.”

[Tragicomédia de Amadis]
Gil Vicente

Nos livros de José Casanova, ao rancor não é dado espaço porque a ternura pelos outros é de tal forma intensa que a própria animosidade, mesmo a mais subtil, não encontra lugar na sua escrita.

Os seus livros revelam-nos também que a liberdade nunca nos foi entregue de bom grado pelos seus algozes; só homens e mulheres de ideais firmes e de coerência aferida na luta e estruturada pelo sofrimento onde se arriscava a vida, perdendo-a por vezes, a conseguiram resgatar.

Como eram e como se movimentavam essas mulheres e esses homens que, num total anonimato, “não descansavam descansando”? Quem foram esses “guerreiros verdadeiros” que ajudaram a abrir as janelas da liberdade? Na verdade, a mais elementar justiça impõe-nos conhecê-los e com eles comungar a beleza da sua abnegação, por havermos colhido o saboroso fruto dessa difícil seara luminosa.

Ao ler “Aquela Noite de Natal”, sentimos que todo o nosso porvir repousa e será fruto das nossas profundas convicções e da determinação em concretizá-las; se assim o entendermos, sentiremos a tranquilidade dos que se constroem construindo e empenhar-nos-emos, até às derradeiras consequências, na edificação de uma sociedade onde a justiça e o amor sejam possíveis.

José Casanova, escritor que se afirma numa temática de esperança, desprendimento e total entrega a valores que só vividos são possíveis de revelar tão intensamente, abre-nos horizontes em que a realidade e a ficção se confundem e a emoção nos perturba.

E porque todo o enredo se passa nas poucas horas que antecedem a mística ou mítica refeição, neste seu livro, o simbolismo da consoada vai para além do clã familiar, e do ameno recolhimento que a noite protege: e o amor e a solidariedade saem para a rua, melhor dizendo, para a realidade cinzenta e fria.

A trama tem, assim, como fio condutor o amor que, por vezes, se eleva na sua sublime tecedura ficcional, ao nível dos melhores e mais fortes ideais.

Seguindo os passos e os temores das personagens de José Casanova, somos também enlevados pelos aromas tradicionais das refeições natalícias, onde, com minúcia e desvelo, os pormenores da sua feitura não são deixados ao acaso. Visitamos a Lisboa baça dos anos sessenta e convivemos com personagens características desses tempos. Somos confrontados com gente insegura que sofre pela debilidade que não consegue ultrapassar, e também com aqueles cuja firmeza nos transmite o equilíbrio necessário para cumprir uma escala de valores que nos eleve.

As figuras criadas por Casanova transmitem-nos também uma profunda confiança no ser humano – que tantas vezes nos desilude – e porque jovens são as principais personagens é-lhes dado o lugar que lhes compete, o de continuadores desta epopeia sublime: a da construção de uma sociedade onde se viva com dignidade.

Este é, pois, um livro que se lê com entusiasmo e relê com emoção; ao oferecê-lo cumprimos um gesto de amizade e tecemos um fio de cumplicidade e amor.

Cid Simões
 (crónica lida na Rádio Baía)