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quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Venezuela

Caros amigos

Caros amigos,

Perante os níveis verdadeiramente avassaladores da desinformação relativa à Venezuela, bem como os reais perigos de uma agressão dos EUA e de guerra em toda a região, tomo a liberdade de vos enviar alguma informação complementar, que não passa na grande comunicação social.

1) Apesar de dificuldades e carências, resultantes do embargo imposto à Venezuela, *não há crise humanitária* na Venezuela. Eis imagens, todas desta última semana, de supermercados e de mercados populares com abastecimentos garantidos pelo governo (videos do jornalista norte-americano Max Blumenthal, do site grayzoneproject.com):

https://www.youtube.com/watch?v=mbXqGiNlWWw
https://youtu.be/qlX3yfXNX_g

2) Eis imagens de algumas das muitas manifestações de apoio ao governo. Aqui numa zona fronteiriça no passado dia 20:

https://twitter.com/teleSURtv/status/1098318252114087944

e aqui em Caracas no dia 24:

https://twitter.com/VillegasPoljak/status/1099447611407429632

Já no passado dia 3 (logo no início desta tentativa de golpe promovida por Trump) tinha havido outra manifestação em Caracas:

http://albaciudad.org/wp-content/uploads/2019/02/DybsYOIWoAEu004.jpg


3) Programa da jornalista norte-americana Abby Martin, com entrevista a um Relator de Direitos Humanos da ONU, Alfred De Zayas, que esteve na Venezuela para investigar a situação:

https://www.youtube.com/watch?v=ii5MlQgGXyk


4) Uma peça do site norte-americano FAIR sobre as mentiras da grande comunicação social:

https://fair.org/home/venezuela-coverage-takes-us-back-to-golden-age-of-lying-about-latin-america/?utm_campaign=shareaholic&utm_medium=twitter&utm_source=socialnetwork


Um abraço a todos,

Jorge Cadima


OBRIGADO!
Um abraço a todos
S.R.

sexta-feira, março 09, 2018

Síntese de grande actualidade e oportunidade

 - Edição Nº2310  -  8-3-2018

Contradições


Chovem notícias indicando o aprofundamento da crise do capitalismo. A guerra comercial proteccionista, até aqui encoberta sob a capa de sanções, multas ou questões sanitárias, é cada vez mais aberta. Trump anunciou tarifas sobre todas as importações de aço (25%) e alumínio (10%), invocando a «segurança nacional» (Washington Post, 1.3.18). No ano passado o défice comercial dos EUA em bens e serviços foi de 566 mil milhões de dólares, «o maior desde 2008», com um défice recorde em mercadorias com a China de 375 mil milhões (New York Times, 2.3.18). Mas a China não figura sequer entre os dez maiores exportadores de aço para os EUA, sendo a lista encabeçada por quatro aliados dos EUA: Canadá (16% das importações dos EUA), Brasil (13%), Coreia do Sul (10%) e México (9%). O anúncio suscitou ameaças de represálias do presidente da Comissão Europeia, Juncker, entre outros. É previsível uma escalada. A cooperação é cada vez mais substituída pela confrontação entre potências que procuram sacudir para cima de outros os efeitos da crise.

O resultado das eleições em Itália é sintoma, e por sua vez factor de agravamento, da crise da/na UE. Por contraditório que seja, reflecte um profundo descontentamento com as políticas de ‘austeridade’ e com os efeitos devastadores do euro. Entre 2007 e 2016 o país perdeu uns estonteantes 22% da sua importante produção industrial (Repubblica, 23.9.16). O partido de governo, o PD, sofreu uma derrota importante. A tradicional revista da City de Londres, The Economist, propriedade dos Rothschilds e, desde 2015, também da família Agnelli (os grandes magnatas da FIAT), apelou nas vésperas da eleição ao voto no PD, cujo governo «introduziu reformas num sistema que ainda protege em demasia quem tem empregos permanentes, encorajando as empresas a empregar jovens apenas com contratos a curto prazo» (1.3.18). Não espanta que grande parte do voto popular tenha abandonado o PD e optado por quem era apresentado como crítico radical. Outrora um dos países mais ‘euro-entusiastas’, a Itália é hoje um dos mais ‘euro-cépticos’, e metade do eleitorado votou em quem criticou o euro. Como noutras paragens, as bravatas eleitoralistas de partidos do sistema que se proclamam ‘anti-sistema’ pouco têm que ver com as suas reais intenções. Mas a crise da UE vai tornar-se ainda mais complexa.

Digno de registo é o discurso do Estado da União do Presidente russo, sobretudo pelas declarações políticas, que não foram objecto de atenção mediática. Putin afirma que «estamos muito preocupados com certas passagens do [novo documento de estratégia nuclear dos EUA, anunciado por Trump em Fevereiro]. [...] Nós lemos o que está escrito. E o que está escrito é que esta estratégia [nuclear] pode ser concretizada como resposta a um ataque [apenas] de armas convencionais, ou mesmo a uma ciber-ameaça». Após reafirmar que a doutrina militar da Rússia apenas prevê a utilização de armas nucleares em resposta a um ataque nuclear, Putin acrescenta a seguinte frase: «Considero ser meu dever anunciar o seguinte. Qualquer uso de armas nucleares contra a Rússia ou os seus aliados, sejam elas de curto, médio ou qualquer alcance, será considerado como um ataque nuclear contra este país. A retaliação será imediata e com todas as consequências». Quem anda distraído, ou convencido de que a situação de quase conflito aberto entre as principais potências nucleares é coisa pequena, tem a obrigação de acordar.


Jorge Cadima

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Duas no cravo!

Do (quase) diário:
(...)
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 2 no cravo da ferradura
(no ditado popular, ao ferrar uma besta, o ferrador dá uma martelada no cravo e dá outra na ferradura não acertando no prego)
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 1 (uma na pata direita do lado interno)
- Edição Nº2305  -  1-2-2018
Dez notas sobre financiamento partidário
DEMOCRACIA Nos últimos meses, como aliás em momentos anteriores, a Lei do Financiamento dos Partidos, aprovada em 24 de Abril de 2003 e que o PCP sempre combateu e combate, serviu uma vez mais para uma violenta campanha antidemocrática contra «os partidos», mas visando o PCP e a sua independência. Nestas páginas procura-se contribuir para o esclarecimento acerca do que verdadeiramente esteve em causa com as alterações introduzidas em Dezembro último na Lei do Financiamento dos Partidos e do significado profundo desta lei.

1-Desde a primeira hora que o PCP considera a Lei do Financiamento dos Partidos Políticos e das Campanhas Eleitorais antidemocrática e inconstitucional. Esta lei, tal como a Lei dos Partidos Políticos, foi aprovada em 2003, simbolicamente no dia 24 de Abril; seguiu-se a lei que instituiu a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos.
Se a Lei dos Partidos pretendia impor um «modelo único» de funcionamento partidário, decalcado das opções de PS, PSD e CDS (sem que tivesse havido qualquer problema com a lei anterior que o justificasse) a Lei do Financiamento aumentava as subvenções públicas aos partidos que já então viviam sobretudo dessas verbas e ampliava consideravelmente as despesas eleitorais. Por outro lado, impunha inaceitáveis limitações à angariação de receitas próprias (quotas, contribuições de filiados) por parte dos partidos junto dos seus militantes e simpatizantes e em iniciativas políticas com angariação de fundos, eixos em que assentam a esmagadora maioria das receitas do PCP.
O Partido votou contra este pacote legislativo e deu expressão de massas a esta sua oposição por ver nele uma «inaceitável agressão, pela via da lei, aos valores fundamentais da liberdade de associação e autonomia dos partidos, até aqui respeitados como princípios fundamentais da ordem jurídica portuguesa pós-25 de Abril», como na ocasião afirmou na Assembleia da República. Contra tais leis promoveu, aliás, a Marcha «Liberdade e Democracia», no dia 1 de Março de 2008, com mais de 50 mil participantes, exigindo o restabelecimento das liberdades e direitos democráticos consagrados na Constituição e a revogação das leis antidemocráticas que visam atingir o PCP.

2-As recentes alterações à lei foram suscitadas pelo Tribunal Constitucional, que apelou à Assembleia da República que a clarificasse e eliminasse as inconstitucionalidades. Foram precisos 14 anos para que o Tribunal Constitucional confirmasse muito daquilo que PCP vinha dizendo desde 2003 sobre a Lei de Financiamento do Partidos e sublinhasse a necessidade de corrigir algumas das suas normas mais absurdas, regulamentadas pela Entidade das Contas. Os processos-crime instaurados a quem cede espaços públicos para a realização de sessões de esclarecimento, a proibição de uso de bandeiras de campanhas eleitorais anteriores, são exemplos deste tipo de normas.
Entre as questões suscitadas pelo TC junto da Assembleia da República estavam dúvidas de constitucionalidade relacionadas com o regime jurídico institucional do financiamento político-partidário e as «disfuncionalidades que tal regime acarretava» e a necessidade de corrigir arbitrariedades existentes na sua aplicação. De facto, às inaceitáveis normas de intromissão incluídas na lei somaram-se ao longo dos anos as interpretações abusivas da Entidade das Contas, fazendo exigências absurdas, comportando-se ora como legislador ora como uma verdadeira polícia política o que tem resultado na aplicação de coimas inadmissíveis.

3-Estas alterações não foram feitas «às escondidas», como determinados sectores procuraram fazer crer. Na sequência da solicitação do Tribunal Constitucional, o presidente da Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias – o deputado Bacelar de Vasconcelos, do PS – solicitou a constituição de um grupo de trabalho informal com vista a encontrar as soluções legislativas correspondentes. Durante meses, cada grupo parlamentar representado naquele grupo (PS, PSD, PCP, BE, CDS e PEV) apreciou o roteiro de sugestões apresentado pelo Tribunal Constitucional, reuniu com o seu presidente e vice-presidente e elaborou as propostas que entendeu, sendo depois possível alcançar um consenso alargado das alterações a introduzir.
O CDS participou no processo desde o início e, já no final, manifestou discordância com dois artigos, que foram destacados e votados em separado. O BE participou no grupo, votou favoravelmente todas as alterações e procurou depois demarcar-se do processo.
O debate realizado no plenário da Assembleia da República, na data definida pela conferência de líderes parlamentares, pôde ser acompanhado pelos órgãos de comunicação social, como qualquer outro.

4-As recentes alterações aprovadas por ampla maioria na Assembleia da República não representam qualquer aumento das subvenções estatais aos partidos. Abriu-se, pelo contrário, a possibilidade de uma maior iniciativa própria dos partidos políticos na recolha de fundos junto dos seus militantes e simpatizantes, sem prejuízo de toda a fiscalização e controlo existente. Ou seja, os partidos que o entendam podem ser menos dependentes das subvenções públicas.
O PCP propôs por diversas vezes ao longo dos anos reduzir as subvenções públicas aos partidos: a última, no final de 2016, visava a redução de 40 por cento, proposta que foi chumbada por PS, PSD e CDS. Nos dois últimos orçamentos do Estado, por proposta do PCP, foi congelado o valor das subvenções públicas aos partidos políticos.

5-Os partidos também não deixariam de pagar IVA com as alterações à lei. Não esteve em questão, em todo o processo de alteração à Lei do Financiamento dos Partidos, nem o alargamento do regime de IVA nem o seu fim. Os partidos pagam e continuam a pagar IVA por toda a actividade que não seja política – da mesma forma que todo o património partidário imobiliário não afecto à actividade política paga IMI. Ao que se procurou pôr cobro foi à «discricionaridade de interpretações que tem existido por parte da Autoridade Tributária» relativas ao pagamento e devolução deste imposto e ao que constitui ou não actividade política.
É um absurdo que, por exemplo, um partido que contrate uma empresa para a montagem de um comício tenha direito a ver o IVA devolvido, enquanto o PCP viu muitas vezes negada essa restituição pela compra dos materiais necessários à montagem e organização do comício pelos seus próprios militantes. Ou que a Autoridade Tributária não considere intervenção política e afirmação de identidade do PCP iniciativas do Centenário de Álvaro Cunhal.

6-Não há qualquer incoerência entre a votação favorável do PCP às alterações aprovadas a 21 de Dezembro e a sua oposição de sempre à Lei do Financiamento dos Partidos, como a generalidade dos órgãos da comunicação social procurou fazer crer. Como o PCP esclareceu no dia 27 desse mês numa nota do seu Gabinete de Imprensa, as alterações introduzidas não configuram uma nova legislação e mesmo as soluções propostas pelo TC que tiveram acolhimento nas alterações consensualizadas pelos partidos não são as que o PCP defende.
A lei, mesmo com as alterações introduzidas, continua a não ser democrática, pois mantém como objectivos centrais dificultar ou mesmo impedir a recolha de fundos assente na iniciativa própria e na contribuição dos militantes e simpatizantes, e a manter o pendor do financiamento público dos partidos, através das elevadas subvenções estatais. A lei mantém ainda a limitação da autonomia de financiamento dos Partidos face ao Estado e às entidades públicas.

7-As receitas em numerário não são sinónimo de receitas de origem duvidosa. A lei impõe regras de comprovação e justificação de todas as receitas, sejam elas em numerário ou não. O PCP não é nem nunca foi contra a prestação de contas e o seu rigor, mas condenou e condena a ingerência, devassa e condicionamento da actividade e liberdade de organização política que a lei procura impor. Todos os anos o Partido presta contas ao Tribunal Constitucional e os documentos sobre as contas de gestão são públicos. Poderão os bancos que o Estado português «resgatou» dizer o mesmo?
O que os autores e defensores da Lei de Financiamento dos Partidos realmente pretendem é atacar a independência do PCP através da limitação da liberdade dos seus militantes e simpatizantes de contribuírem financeiramente para o seu Partido. A lei actual não permite, por exemplo, que 358 militantes ou mais paguem uma quota de cinco euros em numerário, mas aumentou substancialmente as subvenções estatais aos partidos políticos, beneficiando fundamentalmente os que têm maior expressão eleitoral.
As moedas de dois euros e as notas de cinco euros deixadas nas acções do PCP representam contribuições limpas e honestas, o que não se poderá dizer daqueles cheques ou transferências bancárias de dezenas de milhares de euros que qualquer um pode fazer a partir de um banco ou off-shore. Por outro lado, nenhuma norma constitucional impõe às pessoas a obrigatoriedade de abertura de conta bancária, que só abre quem quiser.

8-As iniciativas de angariação de fundos são expressão da livre dinâmica de actividade dos partidos, como aliás de quaisquer outras organizações de cidadãos. Contudo, a Lei de Financiamento dos Partidos (aprovada em 2003 e entrada em vigor desde 2005) e a Entidade das Contas têm na Festa do Avante! um dos seus alvos privilegiados. Particularmente grave é o facto de as «iniciativas de angariação especiais de fundos que envolvam a oferta de bens e serviços» que pela sua própria natureza se diferenciam quer dos donativos de pessoas singulares quer das «receitas de angariação de fundos» às quais a lei actual já impõe limites rígidos e absurdos, passarem a estar também sujeitas a esses mesmos limites.
Ao longo dos anos, a Entidade das Contas pautou a sua actividade por interpretações no mínimo «criativas» da Lei, sobretudo no que à Festa do Avante! diz respeito: quis definir como produto da actividade de angariação de fundos do PCP toda a receita efectuada na Festa, como se esta não envolvesse avultadas despesas na sua construção, e procurou excluir das contas inúmeras despesas relacionadas com o seu funcionamento.
As contas da Festa do Avante! são apresentadas anualmente, com o rigor a transparência que caracteriza o PCP.

9-O PCP sempre defendeu que o financiamento dos partidos deve resultar da sua iniciativa própria e da contribuição dos seus membros e simpatizantes. Mais do que um simples slogan, trata-se de um princípio aplicado pelo Partido. Senão veja-se: do total de receitas arrecadadas pelo PCP só 11 por cento resultam de fundos públicos; os restantes 89 por cento provêm do pagamento de quotizações e contribuições de muitos milhares de militantes e simpatizantes, da realização de iniciativas e de donativos devidamente comprovados e justificados perante as autoridades competentes.
Quanto aos outros partidos, sem excepção, obtêm a maior parte das suas receitas por via das subvenções estatais e do financiamento público: o PS 69 por cento; o BE 78,8 por cento; o PSD 82,7 por cento; e o CDS 96 por cento. Percebe-se assim a verdadeira razão que os leva a defender exclusivamente o financiamento público dos partidos: porque, por esta via, têm garantido esse financiamento. Há partidos – os partidos da política de direita – a quem não faz falta a independência financeira nem sequer os meios próprios pois o capital fornece-lhes os instrumentos de propaganda de que precisam. Para o PCP, a independência financeira e os meios próprios são garantia da capacidade de intervir e de independência político-ideológica. Assim, ao procurar limitar a recolha de fundos por parte dos partidos a lei visa acima de tudo o PCP, como desde a primeira hora foi denunciado. Já o aumento das subvenções estatais beneficia os partidos da política de direita, que foram os seus autores.
É importante lembrar que foi só em 1999 que PS e PSD concordaram finalmente com a proposta do PCP de proibir o financiamento dos partidos por empresas. Como na altura se reafirmou, «o financiamento privado dos partidos políticos tem como razão última a opção político-partidária e essa opção é de pessoas e não de empresas». Por outro lado, acrescentava o PCP, «não se vislumbra que razões altruístas possam levar empresas a financiarem um partido político, já que, por natureza, o objectivo essencial e a razão de existência de empresas privadas é a obtenção e maximização do lucro».
As concepções do PCP acerca do financiamento dos partidos são claras e não podem ser mais transparentes.

10-No PCP, os fundos são colocados inteiramente ao serviço da luta dos trabalhadores e do povo pela democracia e o socialismo. Partido independente do Estado e do capital, o PCP procura assegurar pelos próprios meios o seu funcionamento e a divulgação da sua mensagem política – como se prova, aliás, pela origem das suas receitas e do seu património, assegurados na sua grande maioria pelos seus militantes e simpatizantes. Como princípios de funcionamento consagrados nos Estatutos do Partido conta-se a não admissão de vantagens e privilégios pessoais pelo desempenho de tarefas de responsabilidade ou cargos públicos. Também nisto se comprova que o PCP é um partido diferente dos que «são todos iguais».

2 (segunda, nas quatro patas da besta)
Mordomos NATO
Na véspera da visita a Portugal do Secretário-Geral da NATO, os Ministros da Defesa e Negócios Estrangeiros publicaram um artigo no Público (25.1.18): uma lamentável posição de submissão e seguidismo, contrária à Constituição de Abril. Conseguem, num mesmo parágrafo, recordar que Portugal é membro fundador da NATO (sem lembrar que foi no tempo do fascismo) e afirmar que «a NATO é, pela história e pelo presente, uma parcela marcante da nossa forma de conceber a Defesa Nacional, integrando o seu código genético». Os genes do passado andam por aí. 
O artigo junta a sigla NATO à palavra «segurança». Refere com orgulho que «Portugal é dos maiores contribuintes» para a missão NATO no Afeganistão «com quase 200 militares envolvidos». Mas o que é o Afeganistão ocupado, após décadas de subversão e 17 anos de guerra EUA/NATO? No sábado anterior ao artigo, um ataque talibã matou 22 pessoas e no fim-de-semana seguinte um veículo-bomba matou 100. O New York Times (27.1.18) citando a ONU, diz que ao longo de 2017 morreram em média dez civis por dia, sem recordar que muitos morreram em ataques aéreos dos EUA/NATO. A agência da ONU para os Refugiados (UNHCR) fala em cerca de 2,5 milhões de refugiados afegãos, só no Paquistão e Irão. Segundo outra agência da ONU, a UNODC, a produção de ópio, quase totalmente erradicada no ano anterior à invasão, disparou após 2001, tendo em 2017 a área de cultivo de papoilas aumentado 63% e a produção de ópio 87%. Papoilas afegãs produzem 90% da heroína mundial e o Afeganistão é o país com a maior percentagem de heroinómanos (BBC, 11.4.13). Nos EUA os utilizadores de heroína aumentaram de 189 mil em 2001 para 4,5 milhões hoje (Chossudovsky, global research.ca, 27.1.18). O jornalista A. Vltchek mostra campos de papoilas junto à base dos EUA em Bagram (21stcenturywire.com, 5.8.17). São antigas e bem documentadas as ligações entre os serviços secretos dos EUA e o tráfico de drogas. Quando o artigo diz que «somos [...] produtores de paz e segurança [...] em tantas outras partes do globo», citando concretamente o Afeganistão, é disto que fala.

Todas as guerras NATO geraram tragédias semelhantes, com um rastro de destruição dos Balcãs à Líbia e Médio Oriente. Os ministros anunciam que no «futuro próximo» Portugal irá «reforçar as capacidades, nomeadamente através da aquisição de novas aeronaves de transporte médio e do reforço da nossa capacidade naval» no âmbito da NATO. Entretanto, adia-se investimentos no SNS, transportes públicos ou na prevenção e combate a incêndios. Defendem «que a NATO se mostre cada vez mais preparada para a sua vocação a 360 graus», ou seja, o auto-proclamado ‘direito’ a intervir em toda a parte e sob qualquer pretexto. Mas a NATO é uma ferramenta criminosa de guerra, destruição, mentira e agressão imperialista. Que se acha acima da lei. Querem comprometer Portugal em futuras guerras contra o Irão, a RPD Coreia ou mesmo a Rússia e a China, decididas pelos EUA/Trump? Com que consequências? Para quê? 

Não é apenas em matéria de UE que este governo não rompe com políticas contrárias aos interesses do povo e do País. Tal como Tony Blair, há quem no Governo PS queira ser dos mais fiéis mordomos da NATO, agora sob a tutela Trump. É uma tradição antiga nas nossas classes dirigentes, trocar a soberania por um prato de lentilhas. Mesmo que seja, como em 1580, para se submeter a potências em declínio. Em declínio, mas criminosas e perigosas.


Jorge Cadima 

quinta-feira, janeiro 04, 2018

As desigualdades como consequência

 - Edição Nº2301  -  4-1-2018

Ricos e pobres

O Índice de Bilionários da Bloomberg revela que os 500 indivíduos mais ricos do planeta chegaram ao fim de 2017 com fortunas superiores em 24% ao que detinham no início do ano. Esta percentagem é idêntica ao aumento em 2017 do índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque, que desde a eleição de Trump já bateu por 87 vezes o seu próprio recorde (thebalance.com, 28.12.17). O novo máximo histórico de fim de ano foi ajudado pela nova lei fiscal de Trump, que ofereceu como enorme prenda de Natal às grandes empresas uma baixa da sua taxa de impostos, de 35% para 21% (thebalance.com, 27.12.17). Mas a mesma fonte informa que «as grandes empresas não pagam na realidade a taxa máxima de imposto federal [sendo] a taxa real de cerca de 18%» e não 35%. Segundo o professor norte-americano James Petras, «entre 67% e 72% das grandes empresas tiveram uma taxa fiscal nula, após as deduções e isenções... enquanto os seus operários e empregados pagavam cerca de 25% a 30% em impostos. [...] A taxa para a minoria das grandes empresas que pagaram algum imposto, foi de 14%» (globalresearch.ca, 5.10.17). Ao mesmo tempo, «as maiores empresas dos EUA estacionaram mais de 2,5 biliões de dólares em paraísos fiscais [...] e receberam 14,4 biliões em ajudas com dinheiro do Estado». Comenta Petras: «a classe dominante aperfeiçoou a ‘tecnologia’ de explorar o Estado» e não apenas os trabalhadores.

A natureza cada vez mais exploradora e parasitária do capitalismo actual merece reparo de Martin Wolf, economista chefe no Financial Times (20.12.17). Referindo números de desigualdades crescentes, escreve que esta tendência é má «não apenas para a paz social, mas até para a sobrevivência das democracias estáveis» dos países mais ricos. Escreve Wolf: «O poder cria riqueza e a riqueza cria poder». Perguntando se algo pode inverter o processo de crescente desigualdade diz: «sim [...], os quatro cavaleiros da catástrofe: a guerra, a revolução, as epidemias e a fome». De forma nada inocente, confessa que o capitalismo não é reformável. E repete: «no século XX, revoluções (na União Soviética e China, por exemplo) e duas guerras mundiais reduziram dramaticamente as desigualdades. Mas quando os regimes revolucionários amoleceram (ou colapsaram) ou as exigências da guerra se afastaram nas memórias [...] novas elites imensamente ricas emergiram, alcançaram o poder político e de novo o usaram para os seus fins».

A amálgama é venenosa. Não foram as guerras mundiais que ‘reduziram dramaticamente as desigualdades’, mas o facto de que essas guerras, geradas pelo capitalismo, conduziram às grandes revoluções sociais do século XX. E as vitórias contra-revolucionárias que de novo aumentaram dramaticamente as desigualdades foram efusivamente saudadas e promovidas por Wolf e os seus correligionários, que com elas lucraram. Agora Wolf quer deixar-nos a opção entre aceitar a pilhagem ou perecer num holocausto: «A implicação parece ser que, na ausência de algum acontecimento catastrófico, estamos de regresso às desigualdades sempre crescentes. A guerra termo-nuclear seria igualizadora. Mas a catástrofe não é uma [opção] política».
Separando o trigo do joio confusionista, o artigo de Wolf revela a verdade. Longe de ser uma ‘catástrofe’, a revolução é a única solução para quebrar a espiral de exploração e pilhagem sem fim dos povos. O capitalismo apenas traz a miséria e a guerra. Não é reformável.

Jorge Cadima

sexta-feira, outubro 13, 2017

Crónica internacional - PERIGOS

Leiam, por favor!

 - Edição Nº2289  -  12-10-2017

Perigos

A crise do capitalismo agrava-se de forma avassaladora. Trump dispara ameaças de acções militares em todas as direcções. Numa reunião com os principais chefes militares disse que esta «talvez seja a calma que antecede a tempestade» (cbsnews.com, 6.10.17). Multiplicam-se as indicações de que os EUA rasgarão o acordo nuclear com o Irão (Guardian, 6.10.17), e as ameaças contra a RPD Coreia (CNN, 8.10.17). Até o presidente republicano da Comissão de Negócios Estrangeiros do Senado dos EUA diz estar alarmado, pois Trump pode «conduzir à Terceira Guerra Mundial» (NY Times, 8.10.17).

É neste contexto que explode a crise catalã, mais uma expressão da profunda crise da UE, inseparável da sua natureza. Reagindo oficialmente à brutal intervenção policial contra quem queria votar no referendo, às prisões de membros do governo regional e à tentativa policial de ocupar sedes de partidos políticos catalães, o vice-presidente da Comissão Europeia, Timmermans, disse que «é dever de qualquer governo defender o primado do Direito, e isso por vezes exige um uso da força proporcional.[...] O respeito pelo estado de Direito não é uma opção – é essencial». As palavras de apoio ao governo de Rajoy podem parecer institucionalmente incontornáveis. Mas isso seria fazer de conta que não vimos a actuação das potências da UE no desmembramento pela força – pela ingerência e guerra – de inúmeros países, sempre violando o «primado do Direito», nacional e internacional. Quão diferente foi a reacção da Alemanha à proclamação unilateral da independência da Croácia e Eslovénia. Quão diferente foi a imposição pela força das armas da NATO da secessão do Kosovo que, mesmo segundo o acordo de cessar-fogo que pôs fim aos 78 dias de bombardeamentos da NATO, era parte integrante da Jugoslávia. As guerras que fragmentaram o Iraque, a Líbia, a Síria e outros países foram todas flagrantes violações do Direito Internacional. Hoje o feitiço balcanizador vira-se contra o feiticeiro. Semearam os ventos e estão a colher tempestades. E o outrora respeitável Washington Post não consegue melhor título para o seu editorial (2.10.17) do que o delirante: «A Catalunha realizou um referendo. A Rússia ganhou».
A situação catalã é complexa. São inegáveis os sentimentos nacionais de longa data e a vontade de soberania do povo catalão, bem expressos nas ruas e nas urnas. São também reais as manobras de sectores da burguesia catalã para canalizar para a questão nacional um descontentamento social crescente. É impossível conciliar a alegada defesa face a Madrid da soberania catalã, com a proclamada vontade de permanecer numa UE que destrói as soberanias nacionais dos povos. E é também impossível não ver a natureza do poder em Espanha, onde o franquismo que sobreviveu à ‘transição’ de 1978 está agora a deixar cair a máscara e a mostrar as suas garras. De saudação fascista em riste, nas ruas, mas também nas declarações dum dirigente do PP, que ameaçou esta semana o presidente catalão de seguir o exemplo de Lluis Companys, que em 1934 proclamou a República Catalã, acabando preso, e fuzilado por Franco em 1940.

É urgente para os trabalhadores e os povos retirar lições dos acontecimentos. Lições sobre a importância da sua acção independente em defesa dos seus reais interesses, de classe e nacionais. Lições sobre a natureza duma UE que – desde sempre – assenta na recusa da democracia e do respeito pela vontade soberana dos povos. Lições sobre a verdadeira face das ‘democracias’ do grande capital financeiro e sobre os enormes perigos que se adensam.

Jorge Cadima

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Um "salto qualitativo"?

 - Edição Nº2256  -  23-2-2017

Um Estado

Trump acolheu nos EUA o primeiro-ministro de Israel, o carniceiro de Gaza Netanyahu. Por entre declarações de amor mútuo na conferência de imprensa conjunta, Trump distanciou-se da política oficial da ONU ao longo de décadas: a promessa de dois estados em território palestino. Disse que tanto fazia uma solução de dois estados, ou de um Estado, e caberia a Israel e aos palestinos decidir. Falsa ingenuidade e falso distanciamento. A solução 'um Estado' de Trump e Netanyahu não é um Estado para todos quantos vivem no território histórico da Palestina. É o Estado judaico do Grande Israel, exclusivista e xenófobo, anexando a Margem Ocidental e erguido sobre uma ulterior limpeza étnica dos palestinos.


As manobras do imperialismo para dominar o Médio Oriente podem estar prestes a ter um novo salto qualitativo. No seu recente discurso perante a Assembleia Geral da ONU, Netanyahu disse que «as relações diplomáticas de Israel» com os países árabes «estão a sofrer uma revolução» pois estes «começam a reconhecer em Israel, não o seu inimigo, mas um aliado» (Jerusalem Post, 22.9.16). Os 'países árabes' de que fala são as petro-ditaduras do Golfo, os maiores promotores e financiadores do terrorismo fundamentalista que assola a região, ao serviço do imperialismo. Os países árabes laicos, nascidos da luta de libertação nacional dos povos árabes, têm estado a ser destruídos, um a um, pelo imperialismo e Israel. Pelos Bushs, Clintons, Obama e o terrorismo ao seu serviço.


Arábia Saudita, Catar, EAU estão há muito, pela calada, em intensa colaboração com Israel, não apenas na promoção dos bandos tipo ISIL e Al Qaeda mas também na compra de armas e, como relata um recente artigo daBloomberg (2.2.17), em negócios com empresas tecnológicas e de 'segurança' de Israel (uma das quais – a Athena GS3 – chefiada por um ex-chefe dos serviços secretos de Israel, a Mossad). Segundo a Bloomberg «não é que a Paz tenha chegado ao Médio Oriente. Não se trata de converter espadas em arados; é o resultado duma convergência lógica de interesses, baseada em receios partilhados: duma bomba iraniana, do terror jihadista, de insurreições populares, e de uma retirada dos EUA da região». Metade mentira e metade verdade. Não há bomba iraniana e o terror jihadista é obra deles próprios. O que realmente receiam é a resistência e revolta populares, e o enfraquecimento do papel hegemónico dos EUA.
Trump ameaça virar-se contra o Irão, o único país da lista de países a invadir elaborada pelo Pentágono (segundo o General Wesley Clark) que ainda não foi objecto duma agressão militar directa. Os aventureiristas imperialistas sonham com estender a esse grande país as suas receitas: a guerra, o caos e a destruição. As ditaduras árabes que aceitem colaborar terão, a prazo, o mesmo destino do seu antecessor Saddam Hussein: depois de trazerem a desgraça para os povos da região, serão varridas pelas próprias potências imperialistas que serviram, e que apenas cobiçam as suas riquezas. Ou serão varridas pelos seus povos.
O que se compreende mal, no meio disto tudo, é o papel da ONU. Notícias da imprensa israelita referem que Tzipi Livni (ministra da Justiça de Israel durante o massacre de 2014 em Gaza) foi convidada por Guterres para um lugar de sub-Secretária Geral da ONU (Haaretz, 12.2.17). O presidente de Israel Rivlin apoiou publicamente essa eventualidade (Haaretz, 13.2.17). Uma tal nomeação seria premiar o maior infractor de resoluções da ONU. Seria esfaquear pelas costas os palestinos, ao fim de 70 anos de promessas por cumprir. Seria colocar criminosos de guerra nas chefias da ONU.



Jorge Cadima

quinta-feira, dezembro 24, 2015

O imperialismo é isto!

 - Edição Nº2195  -  23-12-2015

Sykes-Picot no Século XXI

Em 1916, diplomatas ingleses e franceses cozinharam um plano secreto de partilha do então Império Otomano (turco). Enquanto enganavam os árabes com promessas de independência, planeavam entre si o controlo da região (com umas migalhas para o czarismo russo). Após a Revolução Russa de 1917, o jovem poder soviético descobriu o acordo Sykes-Picot nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e revelou-o ao mundo. Um século depois, repetem-se os planos de partilha imperialista.

Há quase uma década (Junho 2006), o norte-americano Armed Forces Journal publicava um mapa que redesenhava as fronteiras do Médio Oriente. Desde então, as guerras imperialistas deram lugar à fragmentação do Iraque e Síria e ao surgimento do «Califado Islâmico» ou ISIS. Agora começam a surgir as confissões públicas semi-oficiais dos objectivos. O ex-Embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, escreveu (NY Times, 24.11.15) que «a realidade é que o Iraque e a Síria, tal como os conhecemos, já não existem». E falando do que chama o «eixo russo-iraniano e dos seus intermediários», afirma sem pestanejar: «o seu objectivo de recuperar para os governos iraquiano e sírio as antigas fronteiras é um objectivo fundamentalmente contrário aos interesses americanos, israelitas e dos estados amigos árabes». Não querendo ficar atrás, o chefe dos Serviços Secretos franceses para o Estrangeiro (DGSE), Bernard Bajolet afirmou: «o Médio Oriente que nós conhecemos acabou e duvido que ele volte […] não sei bem em que moldes. Mas seja como for, será com um figurino diferente do que foi estabelecido após a Segunda Guerra Mundial», quando esses países deixaram de ser colónias francesas e inglesas. O portal belga que reproduz estas afirmações (www.rtl.be, 28.10.15) acrescenta que «o director da CIA [John Brennan] exprimiu um ponto de vista semelhante». Igual objectivo foi expresso pelo ex-Ministro de Negócios Estrangeiros inglês, William Hague, falando na Câmara do Lordes em apoio dos bombardeamentos ingleses na Síria: «Devemos estar abertos a novas soluções. Ao fim e ao cabo, se as comunidades e dirigentes não conseguem viver em paz na Síria e no Iraque, teremos de tentar que vivam em paz, mas em separado, através da partição desses países» (BBC, 2.12.15). Repare-se no desplante de fingir que estamos perante um problema de indígenas incapazes de se governarem, que nada tem a ver com duas décadas de guerras, invasões e agressões, nas quais o imperialismo inglês desempenhou papel destacado.



Os objectivos de dominação explicam o que de outra forma parece contraditório, como as alianças à la carte ou os pretextos para intervir na região: o governo inglês que em 2013 queria bombardear o governo sírio está agora a bombardear a Síria invocando a ameaça do ISIS... que combate o governo sírio. O pretexto é esse. A realidade é outra, como fica patente no cada vez mais claro papel da Turquia (potência da NATO) no apoio e tráficos que sustentam o ISIS. O governo sírio fez este mês queixa formal à ONU de que quatro aviões da «coligação anti-ISIS» chefiada pelos EUA bombardearam uma base do seu exército, «matando três soldados e ferindo 13» (www.cbc.ca, 7.12.15), numa «província em grande parte nas mãos do ISIL» (BBC, 7.12.15). Na semana passada, coube a sorte ao exército iraquiano em pleno combate contra o ISIS, que sofreu dezenas de baixas num ataque aéreo de aviões dos EUA (Press TV, 18.12.15). A «coligação anti-ISIS» dos EUA mais parece a Força Aérea do ISIS. Não surpreende assim que, como titulava o insuspeito Washington Post (1.12.15), «Iraquianos pensam que os EUA estão feitos com o Estado Islâmico».


O caos e o terrorismo são uma arma para justificar as guerras e agressões e, no plano interno, os estados de emergência e os mecanismos de repressão fora de controlo. Na raiz estão sempre os interesses económicos e de classe do grande capital. O imperialismo é isto.




Jorge Cadima

sábado, novembro 21, 2015

Não é só condenar!

 - Edição Nº2190  -  19-11-2015

Não só condenar


Para além da necessária e firme condenação, a criminosa carnificina de Paris obriga a extrair conclusões políticas. É intolerável que as mesmas forças políticas, económicas e mediáticas que multiplicam palavras de indignação contra o terrorismo fundamentalista em Paris, prossigam no seu criminoso apoio, promoção, financiamento e armamento desse mesmo terrorismo fundamentalista, quando ele se dirige contra países soberanos que não estão sob o controlo do imperialismo, como tem sido o caso na Síria ou Líbia. O caos, destruição e morte em Paris são filhos do caos, destruição e morte que – numa escala incomparavelmente maior, e como resultado das agressões directas ou indirectas do imperialismo – têm destruído países e regiões inteiras e gerado a vaga de refugiados que agora chega à Europa.



Não é admissível que haja silêncio ou conivência com os actos de terrorismo em Beirute, Bagdade ou Damasco – cometidos pelas mesmas forças que agora massacraram em Paris. E não é admissível que se finja que o terrorismo não tem padrinhos ao mais alto nível do poder político das grandes potências imperialistas e seus mais fiéis aliados. Padrinhos que usam o terrorismo como arma contra países e governos que não cumprem ordens. Quem pode negar tal facto, quando são os próprios padrinhos que o confessam? Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA reivindicou numa famosa entrevista à revista Nouvel Observateur (15.1.98) o patrocínio norte-americano aos fundamentalistas afegãos em 1979. Orgulhosamente, esclareceu que ao contrário da «versão oficial da história» esse apoio ao terrorismo fundamentalista não foi feito para combater a entrada de tropas soviéticas no Afeganistão (que apenas se deu mais tarde), mas para as «atrair para a ratoeira afegã». Não foi essa a primeira nem a última vez que o imperialismo recorreu ao terrorismo. Longe disso. Existe um fio condutor que liga os atentados terroristas das «redes Gládio» na Europa ocidental (nomeadamente em Itália), os «contras» nicaraguenses, as UNITAs e Renamos em África, a rede bombista no Portugal de 1975, e as Al-Qaedas, os «rebeldes sírios» e o ISIS, sem esquecer os massacres dos fascistas ucranianos. Esse fio condutor está nos apoios, abertos ou encapotados, do imperialismo, dos seus serviços secretos e militares, dos seus agentes e aliados no plano nacional ou regional. Em Outubro de 2014, o vice-presidente dos EUA afirmou em público que «os nossos aliados» Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos «despejaram centenas de milhões de dólares e dezenas de toneladas de armas nas mãos de quem quer que lutasse contra [o presidente sírio] Assad – só que quem os recebia eram a [Frente] al-Nusra e a Al-Qaeda e os elementos do jihadismo que vinham de todas as partes do mundo. […] Onde foi isto tudo parar? […n]esta organização chamada ISIL, que era a Al-Qaeda no Iraque […] E nós não conseguimos convencer os nossos aliados a parar de os abastecer» (Washington Post, 6.10.14). Mas os aliados não deixaram de o ser e o ISIS continuou a crescer. Biden é um falso ingénuo. Também o General Wesley Clark, comandante das tropas da NATO na guerra contra a Jugoslávia, confessou à CNN (18.2.15) que «o ISIS foi criado através do financiamento dos nossos amigos e aliados, porque como as pessoas da região lhe dirão 'se queremos alguém que combata até à morte contra o Hezbolá […] procuram-se os fanáticos e arregimentam-se os fundamentalistas religiosos – é assim que se combate o Hezbolá'». E é também assim que, no espaço de 24 horas, se deram os massacres terroristas no Sul de Beirute (43 mortos, 239 feridos) – alvejando os civis nos bastiões do Hezbolá – e os massacres de Paris.


Só nos faltava que as potências imperialistas que alimentaram o monstro venham agora usar os massacres de Paris para, invocando o combate ao ISIS, justificar uma escalada de guerra. Foi precisamente o que aconteceu após o 11 de Setembro, com as consequências dramáticas que estão hoje à vista.


Jorge Cadima 

domingo, junho 21, 2015

Imperialismo e conspiração

 - Edição Nº2168  -  18-6-2015

Conspirações

Não se trata de 'teoria da conspiração', mas de conspiração confirmada e documentada. O grupo norte-americano Judicial Watch publicou em Maio documentos oficiais dos ministérios dos Estrangeiros e Defesa dos EUA, obtidos após processo judicial. O jornalista Seumas Milne (Guardian, 3.6.15) refere «um relatório secreto dos serviços de informações dos EUA, escrito em Agosto de 2012, que estranhamente prevê – e na prática saúda – a possibilidade dum 'principado Salafita' no Leste da Síria e dum Estado Islâmico controlado pela al-Qaeda na Síria e Iraque. Em flagrante contraste com as alegações ocidentais de então, o documento da Defense Intelligence Agency identifica a al-Qaeda no Iraque (que se viria a tornar no ISIS) e os seus correligionários Salafitas como 'as principais forças que dinamizam a insurreição na Síria' e declara que 'os países ocidentais, os estados do Golfo e a Turquia' apoiam os esforços da oposição para controlar o Leste da Síria». Diz o relatório: «a possibilidade de estabelecimento dum principado Salafita declarado ou não» é «precisamente aquilo que as potências que apoiam a oposição desejam, de forma a isolar o regime sírio».
A confissão de que o súbito aparecimento e surpreendentes êxitos do 'Estado Islâmico' são «precisamente aquilo que as potências que apoiam a oposição [síria] desejam» não surpreendePelo contrário, ajuda a explicar muita coisa. O ISIS serve de pretexto para o regresso de tropas dos EUA ao Iraque (NYTimes, 11.6.15). 'Justifica' bombardeamentos e acções de tropas especiais dos EUA em território sírio (NYTimes 16.5.15), à revelia do seu governo. A confissão ajuda a explicar também a recente notícia da agência iraniana FARS de que aviões dos EUA, a pretexto de atacarem forças do ISIL, bombardearam sim um batalhão do exército iraquiano «matando 6 soldados e ferindo outros 8» (6.6.15). Explica ainda os repetidos apoios confessos de Israel aos extremistas islâmicos sírios, como no site ynetnews.com (versão Internet em inglês do jornal mais lido de Israel, o Yedioth Ahronoth), que titula: «Vídeo raro mostra soldados das IDF [forças armadas de Israel] a salvar a vida a rebelde sírio nos Montes Golã», e adianta: «muitos dos feridos sírios recém-chegados a Israel em busca de cuidados médicos pertencem a grupos islâmicos extremistas» (12.5.15). A Bloomberg noticiou (4.6.15) que «desde o início de 2014, representantes de Israel e da Arábia Saudita realizaram cinco encontros secretos para discutir um inimigo comum, o Irão. Na 5ª-feira, os dois países saíram do armário para anunciar esta diplomacia encoberta no Council of Foreign Relations, em Washington». O anúncio oficial do noivado israelo-saudita, apadrinhado por um dos principais think tanks da política externa dos EUA, contou com a presença do general saudita Eshki, conselheiro do ex-embaixador nos EUA príncipe Bandar bin Sultan, mais conhecido por 'Bandar Bush' pelas suas ligações a essa 'família real' dos EUA. Eshki defendeu uma «mudança de regime no Irão» e «um Curdistão independente, a ser constituido por território hoje pertencente ao Iraque, Turquia e Irão». Pelo lado sionista, esteve Dore Gold, ex-embaixador de Israel na ONU, que em 2003 escreveu o livro «'O Reino do Ódio', sobre o papel da Arábia Saudita no financiamento do terrorismo e extremismo islâmico». O ódio transformou-se em amor porque, explica Gold, o livro foi escrito «no auge da segunda Intifada, quando a Arábia Saudita financiava e angariava fundos para o assassinato de israelitas» e hoje «é sobretudo o Irão que trabalha com os grupos palestinos que continuam ligados ao terrorismo». Leia-se: à resistência.

A aliança EUA-Israel-Arábia Saudita une os principais padrinhos do terrorismo e da guerra no plano regional e mundial, todos mestres na mentira e na dissimulação sem princípios. E torna mais do que legítima a pergunta: o que se passou realmente em Nova Iorque, no dia 11 de Setembro de 2001?



Jorge Cadima

quinta-feira, setembro 11, 2014

"...O AVANTE! CONTOU..." é importante lê-lo!

- Edição Nº2128  -  11-9-2014

Alucinações bélicas


O Estado-Maior da guerra imperialista, a NATO, realizou uma Cimeira há poucos dias. O extenso comunicado final da Cimeira é alucinante. O ataque à Rússia foi o tema forte nesta Cimeira do Delírio. Mais uma vez, a guerra e a mentira andam de mãos dadas, ao serviço do imperialismo.

O chefe político da NATO é o dinamarquês Rasmussen, que deve o seu actual cargo (tal como o presidente cessante da Comissão Europeia, Durão Barroso) ao facto de, enquanto primeiro-ministro da Dinamarca em 2003, ter apoiado o eixo Bush-Blair-Aznar, na tão mentirosa quanto criminosa invasão do Iraque. Rasmussen não perdeu o hábito de mentir. Em Junho disse que os ambientalistas que se opõem às perigosas técnicas de injectar água com produtos tóxicos (fracking) para extrair gás natural preso em rochas sedimentares (o «gás de xisto») estavam a soldo de Putin. O jornal do grande capital anglo-saxónico, Financial Times, volta à carga, alimentando a patranha: «Muitos nas comunidades dos serviços secretos europeus levam a sério o comentário do Sr. Rasmussen» (FT, 28.8.14). Tal como «levavam a sério» as mentiras sobre as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. 

Não é demais lembrar que os países da NATO são responsáveis por todas as grandes guerras das últimas décadas e por mais de 75% das despesas militares do globo. Quando não podem vergar a ONU aos seus planos de guerra, atacam na mesma (Jugoslávia, Iraque). Financiam, treinam e armam os mais bárbaros bandos terroristas para servir como tropa de choque (como na Líbia, Síria, Ucrânia). Destruídos os países e chacinada a população, culpam as vítimas. A declaração da Cimeira tem o desplante de dizer (ponto 37) que «o regime de Assad contribuiu para o surgimento do ISIS [o “Estado Islâmico”]», entidade que é apenas a mais recente reciclagem das hordas fundamentalistas usadas pelo imperialismo para destruir os países laicos surgidos do movimento de libertação nacional árabe. Pouco importa que a própria imprensa inglesa diga que a Turquia, membro destacado da NATO, «tem mantido a sua fronteira aberta aos jihadistas que se opõem [a Assad], incluindo aos combatentes do ISIS» (Guardian, 24.8.14). A declaração alucinante da NATO também culpa (ponto 17) a «Rússia e os separatistas apoiados pela Rússia» pela «cada vez pior situação humanitária e destruição material no Leste da Ucrânia». Como se não fossem as tropas do governo golpista de Kiev e os batalhões de nazis – financiados pelos oligarcas ucranianos e armados pelas potências da NATO que também orquestraram o golpe de Estado de Fevereiro – que têm bombardeado, dia após dia, pequenas vilas e grandes cidades como Donetsk ou Lugansk, semeando a morte (como em Gaza) e chegando mesmo a usar fósforo branco e até mísseis balísticos. Pouco importa que até a imperialista BBC (2.9.14) titule: «Conflito ucraniano: a ONU diz que um milhão de pessoas já fugiram», para depois informar que mais de 80% desses refugiados fugiram … para a Rússia! A declaração da Cimeira tem o desplante de falar (ponto 91) na grande preocupação da NATO pelas crianças. Mas nem 113 pontos de Declaração chegaram para alguma vez condenar Israel, que passou os dois meses que antecederam a Cimeira a chacinar a população de Gaza, incluindo quase 600 crianças.

A natureza criminosa das potências imperialistas que comandam a NATO é tão chocante, que até um ex-embaixador inglês (Craig Murray) fala do seu país nestes termos: «é um Estado patológico que representa uma ameaça para o mundo, um Estado marginal e um Estado disposto a fazer a guerra para tornar ricas algumas pessoas […]. Matámos 15 000 pessoas quando a NATO bombardeou Sirte [na Líbia], algo que a BBC nunca vos contou» (Ria Novosti, 28.8.14). Mas o Avante! contou (9.2.12).

Jorge Cadima
(obrigado, Jorge)