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segunda-feira, agosto 29, 2005

Auto-retrato a pedido...


Com um abraço para a Carmen Zita e o Sérgio Poupado, este "retrato aos 68"
(sem retoques e já desactualizado... embora me sinta em melhor forma que quando o escrevi)














Retrato aos 68

UM CORPO QUE ENVELHECE
UM HOMEM QUE ENTRISTECE
…MAS AINDA COM A SORTE
DE SORRIR À MORTE
(com meia cara…)
Um joelho que claudica
Um ombro qu’artrose
Uma coluna que são só hérnias
e entorta
Um libido que não endireita
(a não ser de 15 em 15 dias…)
Um pé e dedos que engrossam
gota a gota
Um coração que hipertense
e umas veias que colesterolam
Os músculos que, destreinados,
afrouxam, frouxos
Os nervos que, sempre à beira de um ataque,
relaxam, relapsos
Uma cabeça que encanece,
cabelos que caem e/ou embranquecem,
olhos que nem ao perto nem ao longe…
(… só com progressivas em progressão)
ouvidos qu’ensurdecem,
dentes de comprar, tirar e pôr,
uma voz qu’enrouquece
E uma memória que esquece,
projectos que fenecem,
uma massa cinzenta que s’acinzenta
(e como é que se chama o raio do alemão?)
Bom… já são quase setenta![1]

29.12.2003
[1]e está muito bem para a idade, dizem eles e elas!
Ora porra!, digo eu…

12 comentários:

  1. Obrigada por ter aceite o desafio.
    Este poema vale mesmo a pena ser lido, declamado, divulgado.
    Um beijinho: Carmen Zita

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  2. ... se a este desabafo datado se chamar poema...

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  3. Este retrato escrito é mais psicológico que real, há por ali muita "liberdade poética", digo-o eu que sei!

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  4. Concordo com a Justine.
    Quem não o conhece ao ler este “desabafo” imagina uma pessoa enfadonha, parada. Nada de mais errado. Tomara muitos jovens de 20 anos ter a força física e psíquica do Sérgio.
    Que pena os Ourienses não aproveitarem essa força de um homem cheio de qualidades (mais que comprovadas) para “defender” a sua terra.
    Mas ainda estão a tempo.

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  5. Pensando melhor,para o caso não tem importância nenhuma, o que interessa é que o texto, formalmente, está totalmente conseguido.

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  6. É isso Justine: o texto formalmente está genial.
    Não é muito importante se o "eu-poético" coincide com o poeta em si.
    É um excelente poema por si só!
    Carmen Zita

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  7. ... e o autor, tímido, arrependido de tanto se ter exposto, recolhe ao camarim, no entanto feliz pelos aplausos, de onde vêm, e fazendo festas no seu ego.
    E dizendo, displicente, tenho melhor... A seu juízo (que é mau, claro!)

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  8. Anónimo1/9/05 10:57

    Desvendar-nos, dar-nos a conhecer, transmitirmos ao exterior a imagem que temos de nós próprios é sempre um processo complexo. Há um eu íntimo que resiste a ser exposto. Este poema é um acto de coragem.
    E não tanto porque nele esteja a descrição cabal da pessoa que o escreveu, mas porque nas entrelinhas também se desvendam segredos.
    Parabéns pelo poema e obrigada por partilhá-lo connosco

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  9. Anónimo5/9/05 13:09

    É interessante a separação que se faz do eu-poético com o poeta em si. Quanto a mim que disto pouco ou nada sei atrevo-me a dizer que não há diferença nenhuma.

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  10. Toda a escrita é uma conversa connosco, antes de ser, quando é, uma conversa com outros.
    Não há um eu-poeta e um poeta-em-si (aliás, para isso era preciso que houvesse poesia no que eu escrevo...), há um homem a conversar consigo, antes de abrir a conversa a outros, quando o faz!
    E a sorrir à morte... com meia cara (como escreveu o José Dodrigues Miguéis).

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  11. Anónimo8/9/05 01:46

    Obrigado por ter aceite o desafio.
    Penso que terá sido " a gosto " de todos quantos o leram.
    Tem piada, ao ler o poema não consegui deixar de ouvir as suas palavras, a sua forma de o dizer!
    Por mais voltas que desse não conseguia encontrar outra, que não fosse a sua interpretação.
    Não consegui mesmo uma segunda versão para o seu poema...
    Tem piada!

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