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terça-feira, agosto 28, 2007

Ai... como isto está!

.........................“Apoiar a igualdade de “chances” significa
.........................equiparar os alunos dotados
.........................a angolanos requerentes de asilo”
.........................
(Ueli Maurer, presidente do principal partido
.........................suíço, Partido do Povo,
.........................in Expresso de sábado)

Que o mundo é feito de contrastes já por cá se sabia. Mas não era preciso exagerar tanto! Porque, assim, há os com trastes e há os sem trastes. E alguns há que são mesmo uns bons trastes.
Que a vida é feita de contradições deveria ser por todos sabido. Mas não valia a pena que as contradições estivessem tão em contradição com o humano ser.
E se o mundo é feito de contrastes e a vida de contradições, o homem é feito de hábitos (embora não façam o monge…), e, ao folhear o Expresso, que habitualmente leio ao fim de semana com prolongamento pela semana que entra, fiquei impressionado. Vejam lá, com esta idade e tudo o que vivi ainda me impressiono...
Ele foi, na página 15, «Isaltino (que) constrói bairro para “gente rica”», e eu a pensar na gente que vive no concelho de Oeiras e da Amadora, em verdadeiras “favelas”.
Ele foi, logo na página impar seguinte, na 17, os «cavalos (que) trazem “reis das Arábias” a Portugal», com os impressionantes (e insultuosos) números e cifrões (perdão, já não é $, é €) tudo aos milhões, menos os Porsches Cayenne Turbo alugados há semanas e que são só às dezenas, e os andares do Hotel Ritz (e parceiros) requisitados/reservados há meses e que são apenas às unidades, e eu a lembrar-me que, para o dia desse evento “hépico” (8 de Setembro) em Alcochete, estarei por ali perto, no meio de outra gente, de muita e variada outra gente, de outra festa (da Festa!), de outra vida para que a vida seja outra.
E viro as páginas à pressa – para delas me libertar, para afastar estes cálices de mim – mas ainda apanho com o «megaprojecto de “A nova Luanda”», que, ao ler em diagonal, me deixa confuso, triste, sei lá… e não consigo, eu que conheci Luanda em 1958, antes da guerra, e a conheci depois da guerra mas ainda guerra outra, com “carnavais da vitória”, ver o Mercado Roque Santeiro – a mais espantosa manifestação de sobrevivência e imaginação, ao nível de um povo que resiste, com tudo o que há de excelente e de péssimo no ser humano, e de onde vislumbrei(-me) com a deslumbrante baía de Luanda – “a dar lugar à construção de uma nova urbanização, que incluirá a edificação de uma gigantesca unidade hoteleira com capacidade para 700 quartos” e a imponentes “hipers” , “shoppings centers” e essas coisas.
Sei lá... Fico absorto. Diria, como o Cervantes disse, pelas bocas do D. Quixote e do Sancho Pança, que este mundo está mesmo torto, muito torto. E oscilo entre a vontade de desatar à espadeirada a todos os moinhos de vento e a desesperança tolstoiana, confinando-me – até me finar – a este cantinho do Zambujal.

A propósito (ou a despropósito), poderiam vir sheiks a cavalgar cheques, Isaltinos com gente rica atrás a a(ba)rrotar euros, empreendedores amarelos da China, pretos da África ou deslavados da Rússia pós-o-que-foi sempre à procura de Angólias e de Allgarves, toda essa chusma a querer também apropriar-se e ocupar este pedacinho desvalioso – porque nada lhes pode escapar… – e teriam uma resposta gritada aos berros, se preciso com apoio de caçadeira: não está à venda, nem a terra nem quem dela é dono!
E mandá-los-ia para a mãe deles, acossados por obscenidades que lhes largaria nas costas e nos rabos entre as pernas, com as quais, diga-se neste suponhamos, não quero ofender os olhos de quem me lê (se é que há…).

8 comentários:

  1. Claro que há olhos que te lêem. Vários pares. Só que nem sempre comentam... e eu percebo que não o façam, até porque faço o mesmo...
    É por estas e por outras que os 3 dias da Festa (e todos os anteriores, que também são Festa) nos "carregam baterias" para aguentarmos e nos dar mais força, ainda, para continuar a luta....

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  2. ò homem, viva vida que tem tanta coisa boa e deixe-se de azias. a vida não são só € e não fique tão agastado com partições e repartições... é que afinal, você que terra tem, parece mais aborrecido que os que terra não teem mas alegres vão vivendo a vida.

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  3. Começo pelo fim. Ó homem, alegre vou vivendo a vida. Mas responsavelmente.
    A alegria com que vivo a vida não vem da terra e casa que tenho, embora estas me dêem muita alegria, porque é lá que sinto mergulhar as raízes.
    Devo exprimir-me mal, porque não sofro de azia e se há coisa que sei e que pratico é que a vida não são €. Quanto às "partições e repartições" não será agastado o termo que traduz o que sinto. É a raiva que cresce enquanto a esperança se multiplica!
    Saúde.

    Maria, bom dia! Ou melhor, boa tarde... mas não rima.
    Pois, as baterias! Por acaso não estão baixo - embora pareça que parecem... - mas a Festa dá reservas para a eventualidades de incidentes e acidentes que provoquem mau funcionamento...
    Além de que, quando se escreve sobre o que é preciso ter coragem para enfrentar e escrever... não se fica lá muito eufórico!
    Até já. Vou editar o 3º episódio para outra freguesia...

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  4. Com azia e azeda fico eu, com estas notícias sobre o pequeno rectângulo, terceiro mundista!
    Construção de bairros para gente rica (como terão ganho o dinheiro?!!!),
    Sultões, cavalos e milhões!
    Corruptos e ladrões!
    O país dos ricos, com mais de 10 milhões de pobres!
    Conheço um homem paraplégico (40 anos), necessita urgentemente de fazer uma operação renal 5500 €, o Hospital público (Norte) não faz, só no privado!
    Dizia-me ele hoje: “ Estou muito mal, não tenho dinheiro! o melhor é mesmo por termo à vida”. Não lhe respondi, para não lhe dar força à ideia!
    A vida não é só cifrões. Porém, sem eles morre-se, sem saúde, sem dignidade, sem nada!
    O Mundo vai mal!
    Portugal bateu no fundo!
    Para alguns, não Vale a Pena Lutar!

    GR

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  5. Tantas estórias.
    Há mais no novo blog
    http://lampreiaseica.blogspot.com/
    Apareçam!

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  6. É engraçado, estava eu a ler o que tu escreveste e a pensar que há pessoas que são capazes de ver injustiças gritantes e, comodamente, virarem a cara para o outro lado. O pior é que, ao virar da esquina, surge um "pobre" que, álém de não querer ver, fica incomodado por outros verem. Surge então,com um tom pretensamente irónico mas que apenas consegue ser rídiculamente intrometido, a lançar pérolas de sabedoria.Enfim,o que vale é a paciência ser uma qualidade tua que eu admiro. Eu, pela minha parte só posso dzer: "já não há pachorra".

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  7. E que tal este poema de Armindo Rodrigues (POETA muito esquecido, inclusive na blogosfera)?:

    Homem,
    abre os olhos e verás
    em cada outro homem um irmão.

    Homem,
    as paixões que te consomem
    não são boas nem más.
    São a tua condição.

    A paz,
    porém,só a terás
    quando o pão que os outros comem,
    homem,
    for igual ao teu pão.

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  8. Muito do que lemos é lido com olhos de nojo e não de desesperança. Se não sentimos o que lemos melhor será não abrir os peçonhentos jornais ditos de referência, e é na emoção que vamos buscar a força. Lembrei-me do meu "amigo" Matias Aires tão esquecido: «não há vitória sem combate, e se a há, é sem glória, e sem merecimento. Contra campo aberto não há desejo, nem ardor; a vaidade tem repugnância em entrar pacificamente, armada sim; a muralha incita, porque impede.»

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