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quarta-feira, abril 21, 2010

Pode um País ir à falência?

Anda a falar-se muito desta possibilidade. A propósito (ou a despropósito) da Grécia, da Islândia, da Irlanda, da Espanha, de Portugal e outros... dos PIIGS.
Mas pode um País, um Estado, isto é, uma Nação politicamente organizada, ir à falência?
Só o diz, ou insinua, ou avisa, solene e solerte, quem (uns falaciosamente, outros inocentemente) assemelha ou assimila Estado a empresa, e reduz toda a actividade a empreendedorismo, esse neologismo execrável que, ao fim ao cabo, quer dizer (quando não o explicita…) que tudo tem de mexer e de se avaliar pelo único critério do investimento do capital-dinheiro próprio ou alheio (por crédito bancário por vias e a taxas de juro variáveis) e da sua reprodução e acumulação.
Um Estado não é uma empresa grande!
Um Estado não vai à falência por ter dificuldades resultantes dos caminhos e das gestões/administrações públicas que foram sendo tomadas por si, em seu nome. Tem, ou pode ter, défices, como antes de todos, i) o alimentar se os seus residentes tiverem de recorrer a recursos externos primários ou destes derivados por os próprios serem escassos ou mal/in-aproveitados ou exportados, ii) o da balança comercial, por cobertura desse défice alimentar, e outros, através de importações superiores às exportações, iii) o do orçamento, por o Estado estar a ter despesas a mais (e quais?) e receitas a menos (e porquê?), iv) o défice/dívida pública, por, em resultado de todas as contas, o Estado ter dever mais do que tem a haver.
Então, e se o que existe nos "cofres do Estado", como ouro, divisas, o que for e para os cofres se possa fazer entrar sob essas formas, não chegar para cobrir a dívida, não está falido? Em hermenêutica empresarial estaria, porque esse seria o seu património, o seu activo. Mas o "activo", o "património" de um Estado, é muito mais e diferente do que está nos "cofres do Estado" e coisas avulsas (como empresas públicas) que, vendidas, nele possam entrar ou ir directamente para os credores!

A imagem que me assalta é que nos foram levando (sempre com resistências, sempre com avisos, sempre com prevenções e luta, mas sem que a relação de forças as conseguisse impor) por caminho direito a um abismo e, agora que estamos à beirinha, nos empurram para... dar um saltinho em frente. Porque os mercados decretaram que estamos falidos, como se fossemos uma loja da esquina.
Há é que mudar de políticas, das políticas que nos trouxeram à borda do precipício. E não há que recuar, há é que dar dois passos atrás, virar à esquerda e aproximarmo-nos da ponte que nos leve ao futuro.
Há que valorizar os trabalhadores, os nossos recursos naturais e adquiridos, dar importância vital ao mercado interno porque isso quer dizer mais consumo e melhor viver para os portugueses, há que, claro, incentivar as actividades de exportação mas não as tornar o maior e, muito menos, exclusivo deus ex-machina da economia (porque este são as necessidades das pessoas e a sua satisfação), menos banqueirismo e financeirismo só qb para que a economia funcione.
Podemos fazê-lo sozinhos?
Nada se faz sozinho... mas nada se faz sem sermos nós, onde e quando, a fazê-lo! Esta, sim, é uma imagem em que o Estado pode ser assimilado ou assemelhado a tudo o resto. O mundo internacionalizou-se e está cada vez mais internacionalizado. A interdependência é um facto incontroverso. Mas não pode ser – não será! – tão assimétrica como é e como este caminho que estamos percorrendo a faz.
Mas pelo mundo - que não se reduz à Europa e à União Europeia e Estados Unidos -, vão acontecendo coisas...

12 comentários:

  1. Muito bom! Assim dá gosto...

    Abraço.

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  2. Grande texto! Excelente explicação e levo-a emprestada.

    Abraço

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  3. Gostei muito. Obrigada

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  4. Eu estava mesmo a precisar de ler isto! Vou repetir e repetir e repetir sempre que possa!

    Porra que me emocionei! Tou farto de tanta falácia capitalista!

    Obrigado Sérgio e um enorme e tremendo abraço,

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  5. Aprender, aprender sempre.
    Obrigado

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  6. Gostei mesmo do que li. O Estado são os seus trabalhadores, os seus recursos próprios e as ajudas sempre necessárias, terão que ser solidárias, nunca afectando a nossa independência ou impondo-nos outra vontade, que não a nossa.
    Um grande, grande abraço.

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  7. José Rodrigues21/4/10 23:51

    É por isto ser tão necessário para a compreensão das coisas da vida de todos nós que eles não cumprem o artº 38º da Contituição.Muito bem...e venham mais!

    Abraço

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  8. Amigos (incluindo anónimos!),
    Este texto saiu-me bem cá das entranhas, portuguesmente.
    Fico mesmo recompensado pelos vossos comentários.
    Não pelo texto que escrevi, mas pela intenção com que o escrevi.
    Usem-no, alterem-no (não tem direitos de autor), divulguem-no à vossa maneira sem qualquer respeito pela autoria... excepto pela intenção do autor, que os vossos comentários mostraram ter bem entendido (o que nem sempre me acontece...)

    Obrigado e abreijos

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  9. Tão claro-claro-seguro...que deveria ser
    policopiado
    e panfletado
    atirado pelo ar e pelos caminhos.
    Em vez das "songas" notícias.
    Abç

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  10. ..."há é que dar dois passos atrás, virar à esquerda e aproximarmo-nos da ponte que nos leve ao futuro."

    Esta é a frase da confiança e da luta!
    Excelente texto!

    Beijos.

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  11. Texto exemplar, claro como água límpida!

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  12. Excelente texto. O futuro depende de nós, isso é certo. Há por aí cada vez mais malta traída, é preciso despertá-la do desalento, pô-la a mexer.

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