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sábado, julho 08, 2017

Autor execrando, peça abjecta

 Quando digo que somos todos demasiado complacentes com o PCP estou a incluir-me nesse “todos” – e por isso publicamente me penitencio. Também eu tenho dificuldade em resistir à pele tisnada de Jerónimo de Sousa, aos sulcos campesinos da sua face, aos impecáveis passos de dança de um profissional dos bailes, ao notável reportório de pregões, máximas e analogias populares. Álvaro Cunhal metia medo. Carlos Carvalhas metia dó. Jerónimo de Sousa parece o avô escanhoado da Heidi – austero por fora, amável por dentro. É assim que eu o imagino. É assim que quero que ele seja. É assim que nós, ex-jovens que não vivemos o Verão Quente de 1975, que temos de ir ao Google ver como se escreve Soljenítsin, para quem a URSS era apenas o país dos louros que o Rambo metralhava, gostamos de olhar para o PCP. Não como um partido, mas como um pedaço de memorabilia. Uma agremiação de amigos da classe operária para a qual olhamos com um misto de indulgência e nostalgia.
É impressionante a força desta armadilha sedutora. Não sou só eu que me predisponho a ser enganado – é o próprio PCP que promove essa ambiguidade. Nas entrevistas aos seus líderes, há sempre um véu entre aquilo que dizem e aquilo que realmente pensam. Quando algum comunista mete o pé na argola – Bernardino Soares a declarar que a Coreia do Norte talvez seja uma democracia, por exemplo – há sempre um sururu, mas logo surgem os paninhos quentes: o PCP já virou oficialmente costas ao estalinismo; a ditadura do proletariado tem nuances; e por aí fora. As posições internacionais, onde o PCP-troglodita mais facilmente se manifesta, são deixadas para artigos obscuros no Avante!. Perante as câmaras de televisão, só ouvimos defender os direitos dos fracos e dos trabalhadores. E quem está contra os direitos dos fracos e dos trabalhadores?
E, no entanto, esta complacência tem um custo, como se viu esta semana. Uma agremiação chamada Conselho Português para a Paz e Cooperação – mais uma daquelas instituições, como Os Verdes, que finge ter autonomia do PCP mas que se limita a ser uma mera extensão para efeitos propagandísticos – resolveu promover uma “acção de solidariedade” para com “o povo da Venezuela”. Tradução: uma manifestação em defesa de Nicolás Maduro, contra aqueles que pretendem – e cito – “atacar o processo bolivariano e as suas realizações” (basicamente, todos os esfomeados do país). A esta bonita iniciativa juntou-se, imaginem, a Banda do Exército, porque alguém inventou um “acto protocolar” de comemoração do Dia da Independência da Venezuela junto à estátua de Simon Bolívar. Repare-se na perversão do empreendimento: à boa maneira soviética, os meios do Estado são colocados ao serviço da propaganda comunista e da defesa de um regime abjecto.
Ora, convém que sejamos claros, até porque das fotos do evento consta o próprio líder parlamentar do PCP, João Oliveira: isto ultrapassa em muito os textos trogloditas do Avante!. É uma vergonha para o país. E devia ser uma vergonha para o PS. Não há qualquer diferença no nível de abjecção entre ver João Oliveira no meio da rua a defender Maduro ou o líder do PNR a defender o fascismo. Para a próxima vez, talvez José Pinto-Coelho possa recrutar a Banda do Exército para tocar o hino da Mocidade Portuguesa. São níveis absolutamente equivalentes de repugnância – e, numa altura em que a Venezuela “bolivariana” se afunda e o PCP sustenta o Governo em funções, sublinhar isto é uma obrigação moral.

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Este senhor tem esta opinião. Está no seu direita, perdão... direito.
Embora “aquilo” não seja uma opinião.
“Aquilo” é um chorrilho de ideias (mal)feitonas e de agressões sem fundamento,
de informações falsificadas e de ironias insultuosas pretensamente graciosas.
Um jornal (de referência, dizem eles…) publica as suas opiniões. Está no seu direito.

Eu, militante do PCP há 60 anos, li-o.
E tenho uma opinião sobre “aquilo”. Estou no meu direito.
Merecerá tão ruim defunto o consumo de uma vela?
Se fosse da direcção do Partido, discutia-o.
Como não sou, quero publicar, AQUI, a minha opinião. Estou no meu direito.
Este opinioso cavalheiro é execrando, a sua peça abjecta.

Mas merece publicação! 
Porque ilustra como se pode descer tanto na luta de classes.

7 comentários:

  1. Este gajo é um vómito que vive de provocações

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  2. Então o homenzinho,
    tem que fazer pela vidinha,
    tenham lá dó dele,
    coitadinho!

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  3. Manuel Augusto Araújo8/7/17 18:21

    Que outra coisa se poderia esperar deste anão mental? (anão em sentido figurado, como metáfora! nada de confusões!) Um direitinha que já habituou, a quem tem paciência e tempo para gastar em traquitanas iletradas, às parvoidades que debita para ganhar a vidinha como a formiguinha do O'Neill.

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  4. Muito se poderia dizer, mas seria dar-lhe a importância que ele queria ter.
    Mais um produto da JSD, como tantos outros....
    Apenas mais um triste.

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  5. O amigo Sérgio sintetizou bem o que sinto. Não sou militante do PC mas este texto é não só execrável para p vosso Partido mas para todo e qualquer activista de esquerda.
    A Merckel avisa já sobre a criação de um base de dados de activistas no rescaldo da Cimeira do G20. Pelos visto o escriba começa a preparar terreno par que se tente fazer isso por cá.
    Não terá, pela conjuntura política, sucesso... de momento.
    Apenas que se começa a tornar necessário uma resposta politica colectiva a estas enormidades

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  6. É isso! Esta peça abjecta justifica bem mais que apostrofar como merece o execrando escriba. Justifica a atenção vigilante para o que está no estaleiro da luta de classes. Em que vale tudo, em que há quem não recue perante nada... a não ser o receio da riposta.

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