Algumas histórias/estórias acompanham-nos a vida. Pela importância que tiveram na nossa vida, pelo modo como as vivemos. Depois, contamo-las e recontamo-las. Às vezes, acrescentando uns pontos aos contos e aos contares. Nunca foram exactamente assim. Mas servem de exemplo. Como esta.
O quadro superior da OIT mostrou desejo de sair dos gabinetes ministeriais, de “sentir” como estavam “as coisas no terreno”.
“Coisas” como a reforma agrária, tão falada e tão denegrida pela comunicação social, que reportava um Alentejo “a ferro e fogo”, que até teria sido perigoso atravessar no "verão quente de 1975"… se é que ainda não o eraum ano passado, sem que tivessem parado as ocupação e "a terra a quem a trabalha".
Contei-lhe a minha “aventura”, nesse tal verão quente de ano anterior, em que atravessei o Alentejo em várias direcções e como, numa dessas travessias, em Santiago de Cacém, enquanto bebia uma imperial numa esplanada, tive o privilégio de ouvir uma missa atirada aos ares e ventos por altifalantes na torre sineira, e em que o sermão era uma peça de oratória de primário e feroz anti-comunismo que merecia ter sido gravada.
O meu testemunho era evidentemente suspeito… e lá partimos para Évora.
Pelo caminho e nas redondezas, visitámos cooperativas e unidades de produção, vimos, conversámos e, num final de tarde bem alentejana, sentámo-nos à volta de uma mesa, numa reunião entretanto combinada com responsáveis vários de várias entidades ligadas à tal vilipendiada reforma agrária.
Depois de algumas descosidas exposições iniciais, a conversa começou a ter sentido e rumo, e foram-se levantando dúvidas e colocando questões, e, de passagem, fixámo-nos num (aparente) pormenor.
Um bancário referiu uma livrança que titulava um crédito que o latifundiário pedira para a sementeira na herdade que, entretanto, fora ocupada pelos trabalhadores rurais. Em nome destes, um deles falou: “… atão qual é o problema?!, o gajo semeou com esse dinheiro, nós vamos colher… nós pagamos essa coisa da livrança com o fruto da sementêra…”, ripostou o bancário: “… mas a livrança está assinada pelo latifundário, ele é que é o responsável…”, e logo veio a réplica pronta: “… e óspois, ele não se serviu das massas para comprar um carro, ou jóias para uma amante… foi para fazer a sementêra… nós cuidámos dela, vamos colher e ficar com o que ela renda… pagamos a livrança ou lá o que é, tá visto…”.
E passou-se ao ponto seguinte da ordem de trabalho que se fora organizando.
No regresso a Lisboa, Michel Wallin (alto quadro da OIT, de que guardo saudade e a quem presto homenagem) dizia-me que não se lembrava de ter recebido uma tão esclarecedora lição de economia.
O episódio terá contribuído para a criação, pela OIT, de uma missão multinacional para elaboração de um plano de médio prazo (1977-80), com o nome “emprego e necessidades essenciais em Portugal”, no contexto de um Programa Mundial do Emprego e de uma estratégia também chamada de “emprego e necessidades essenciais”, de que Portugal poderia (!) ter sido pioneiro.
Tudo se perdeu? De modo nenhum… já lá dizia Lavoisier…
Tudo teria sido tão diferente se muitos mais portugueses tivessem visto, ouvido e sentido a Reforma Agrária com os seus próprios olhos, ouvidos... e coração, em vez das versões dos criminosos Soares e Barreto.
ResponderEliminarAbraço.
A isso chama-se honradez - conceito esquecido por tanta gente...
ResponderEliminarTemos um povo mesmo bonito, só é pena deixar-se maltratar tanto tantas vezes!
ResponderEliminarMagnífica lição para os que dizem que renegociar a dívida é não a pagar.
ResponderEliminarO alentejano nem por sombras pôs a hipótese de não pagar a livrança(ou lá o que é).Pagá-la-ia com o seu trabalho.E a enorme dívida deste País terá que ser paga à medida do seu desnvolvimento assente, em grande parte, no aumento de produção.
Um beijo.
Assim com honra era a força dos trabalhadores alentejanos.
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