páginas de um quase diário:
Começo por pegar na “lição”
de António Barreto que passou a ter o privilégio de as dar ao sábado no Público (ou têmo-lo nós, leitores, de as
recebermos).
O grande sociólogo (mais de um metro e oitenta
tem ele), há três semanas seguidas anda às voltas e reviravoltas com as esquerdas
(As duas esquerdas, Saudades da luta de classes e Ainda as duas esquerdas).
No 1º artigo, o douto autor
deixou escapar uma lagrimazita pelo “afastamento
dos governos de iniciativa presidencial e de unidade nacional” para que se estava mesmo a ver que seria, ele, personalidade indicada, e entrega-se à
dissertação sobre a inevitabilidade de um debater (de bater) sobre as alianças
políticas, num tripé, como as mesas da bruxaria: esquerda, direita, bloco
central.
E logo avança com o seu
vaticínio: “a decisão pertencerá
sobretudo à esquerda, ao PS em particular” e, assim postas as cartas na
mesa, o que importa ao sociologador é se, havendo “duas ou mais esquerdas”, se elas decidirão (ou o PS em particular)
unidas ou separadas.
Colocada deste modo a situação
e sendo estes os protagonistas da sua evolução, António Barreto disserta sobre
quais as esquerdas, o que as define e divide, ou seja, quais as condições para
as unirem ou separarem.
Tudo é fácil para AB, o C de
conclusão, definitivo, é “o essencial da
política, como a liberdade e a democracia”… e Barreto não se poupa e diz-nos o que é liberdade e o que é democracia,
não admitindo que sejam outras coisas que não as que ele define.
E aí está o engulho, pois
nem todas as correntes de pensamento - político, económico, cultural, social - aceitam que
liberdade e democracia sejam palavras-dogma com definição única e barreta.
Para ele-Barreto, liberdade não é, não pode ser, de nenhum
modo se aceita que seja consciência da
necessidade, o que implicaria debater o que é consciência e o que é necessidade; para ele-Barreto, democracia exclue
– como ele escreve, peremptório – «As variantes
adjectivas, democracia “cultural”, “social” ou “económica”, por exemplo, são
outras coisas. Em geral, fantasias.»
É de mestre (de obras
feitas)!...
Para Barreto, democracia é só a política e mais nenhuma, o resto são meras variantes adjectivas,
fantasias.
A partir desta base, há a
esquerda democrática e a que não o é, e merece uma chusma de adjectivos e de “mimos”
que nada têm a ver com intenções e realidades mas com caricaturas a traço
grosso e feio.
Dá ideia que no artigo
intermédio, António Barreto teve um sobressalto.
Mas foi alarme falso, pois
se é verdade que se dedica a anatematizar o que outros (que não ele) chamam “causas
fracturantes”, diversões de causas que se centram nas relações entre o capital
e o trabalho, não se percebe muito bem como coexiste a sua saudade “de combates em redor da organização do
Estado, da defesa nacional, da paz e da guerra e da segurança colectiva”,
as suas saudades “dos tempos em que se
lutava por valores essenciais da política,
do trabalho e do emprego, dos direitos dos trabalhadores e dos patrões”
(sei lá que mais… ele escreve e assina), saudades do que, no artigo anterior,
colocara em fantasias, em variantes adjectivas de democracia.
Para o 3º artigo (por agora…), António Barreto traz o título Ainda as duas esquerdas… quer dizer,
deixa de insistir em várias, são duas: a democrática e a não democrática (sendo
ele o passador de atestados).
Explica-se explicitamente
que a esquerda democrática é a do PS (mário-soarista)… mas nem sempre porque, às
vezes salta-lhe o pé p’rá chinela, ou
seja, vai na conversa da esquerda não
democrática.
Tim-tim por tim-tim:
«Na sua melhor tradição (mário-soarista),
os socialistas opõem-se aos métodos revolucionários, à violência, ao
terrorismo, à colectivização, à destruição da iniciativa privada, à opressão da
Igreja, ao monopólio do Estado na educação e na saúde, à aniquilação das Força Armadas
e a formas de governo não democráticas e não parlamentares (uff!, exemplos
escolhidos a dedo)».
«Mas também sabem que nas esquerdas há muito fortes tendências
exactamente contrárias (isto é: violência, terrorismo… e toda a demais lista de malfeitorias,
segundo AB), com especial inclinação para
destruir o mercado livre e a iniciativa privada , cm um estranho afecto por
formas “populares” de governo, com obsessão do monopólio do Estado e com uma
absoluta aversão pelo investimento privado.»
«Estão ainda conscientes de que as esquerdas radicais têm uma concepção
elástica dos direitos fundamentais, sobretudo dos direitos cívicos e políticos;
assim como têm convicções condescendentes sobre a guerra civil e a luta de
classes, a violência e o terrorismo (se este for de esquerda, das minorias, de
tudo quanto é anticapitalista e antiamericano…) contrárias às tradições
socialistas(…)»
… e continua em rol, devendo
espumar…, com referências ao despotismo
tropical latino-americano, às ditaduras militares africanas e asiáticas e
etc., mas confesso cansaço…
Só ainda quero fazer uma
rectificação indispensável: escreve ABarreto «… quando, há seis anos, António
Costa decretou o “fim do tabu”, isto é dispôs-se a governar com aliança com as
esquerda radicais…» falseia descaradamente (por decreto?) o facto histórico de, há seis
anos, ter sido Jerónimo de Sousa que afirmou que o PS só não seria governo se não
quisesse, quando António Costa cumprimentava os “vencedores” e Cavaco Silva
dava, a estes “vencedores”, o poder de formarem governo, que a Assembleia da
República lhes não reconheceu.
Mas, como é evidente, referir
a verdade história contrariaria o começo da caracterização de que ABarreto parte,
neste artigo, para a reconfiguração da política portuguesa: «... O imobilismo comunista…»
Imobilismo? Engana-se (se é
que é engano...) quem tem saudades da luta de classes.
Há quem faça essa luta (e há 100
anos!) e recomendar-se-ia revisão de matéria dada a quem tem sociologia como
formação e/ou cartão de visita.