domingo, março 07, 2021

VERGONHA

 De vez em quando, dos sombrios recantos da direita, surgem uns personagens com ares sobranceiros de quem sempre teve certezas (mesmo que as de hoje sejam diferentes das de ontem), de quem nunca teve dúvidas (razão pela qual nunca aprenderam nada) e vociferam. 

Agora, aí veio aquela criatura de que suspiramos de alívio por o termos visto sair de cena, aquela escavacada figura. Procurando uma pose que não tem, uma postura grave que só lhe aumenta o ridículo, lendo mal e disfarçadamente umas cábulas que só ele (ou algum seu familiar ou apaniguado) podia ter escrito,  tartamudeou umas invectivas e insistiu, no seu curto vocabulário, na palavra que um outro usa com veemência mas igual despropósito: vergonha.

Vergonha, sr. Cavaco Silva, tenho eu de ter assinado, como presidente da direcção CDUL, o cartão de atleta de um jovem pernilongo da minha escola (ISCEF), e tê-lo afirmado todo contente porque esperava vê-lo voar sobre as barreiras nos 110 metros e afinal... nada. Vergonha pequenina, mas que nunca esqueci porque bem maiores se lhe vieram somar.

De outras, pequenas ou pontuais vergonhas, não falo, mas escrevo, persisto e assino, que vergonha, essa sim e grande, foi de o ter tido como Presidente da República.

Mas, se esse era um custo a pagar por se ser cidadão em liberdade e democracia, após luta contra o fascismo e a guerra colonial, aguentava-se. Não resignado. Em luta, em condições de liberdade e democracia (mesmo que bem mitigada) para que a vergonha não demorasse muito.

Agora o que é insuportável, o que envergonha a imagem da liberdade e democracia em que vivemos, é que venha Cavaco Silva a apresentar-se como doutrinador e julgador. A ditar como deve ser a democracia, a decretar como vergonhosos números que nos deveriam solidariamente preocupar e que outros bem piores seriam se tivéssemos tido o desastre de ter Cavaco Silva como PdaR e se tivesse conseguido impor algumas das suas intenções, suas opções e agentes seus. 

Tenha vergonha!


                               


 todo impante

No 1º dia depois do 1º centenário...


100 anos
100 acções
em Torres Novas

A LUTA CONTINUA!

 

sábado, março 06, 2021

BOM DIA, CAMARADAS!

 Hoje é o dia em que completamos 100 anos.

Parabéns, camaradas!


Nascemos assim, num sindicato!, faz hoje 100 anos. Poderia ter sido, como muitos outros, como mudança de um partido já existente. Mas não... nascemos assim! 
Assim, nascemos, como organização política, nova, na sede de uma organização sindical de trabalhadores.
Assim crescemos e somos FUTURO.







Abracemo-nos (virtualmente, como tem de ser, mas abracemo-nos!).

Abracemos os nossos amigos 


segunda-feira, março 01, 2021

Esquerdas e luta de classes, segundo ABarreto

páginas de um quase diário: 

Começo por pegar na “lição” de António Barreto que passou a ter o privilégio de as dar ao sábado no Público (ou têmo-lo nós, leitores, de as recebermos).

O grande sociólogo (mais de um metro e oitenta tem ele), há três semanas seguidas anda às voltas e reviravoltas com as esquerdas (As duas esquerdas, Saudades da luta de classes e Ainda as duas esquerdas).

No 1º artigo, o douto autor deixou escapar uma lagrimazita pelo “afastamento dos governos de iniciativa presidencial e de unidade nacional” para que se estava mesmo a ver que seria, ele, personalidade indicada, e entrega-se à dissertação sobre a inevitabilidade de um debater (de bater) sobre as alianças políticas, num tripé, como as mesas da bruxaria: esquerda, direita, bloco central.

E logo avança com o seu vaticínio: “a decisão pertencerá sobretudo à esquerda, ao PS em particular” e, assim postas as cartas na mesa, o que importa ao sociologador é se, havendo “duas ou mais esquerdas”, se elas decidirão (ou o PS em particular) unidas ou separadas.

Colocada deste modo a situação e sendo estes os protagonistas da sua evolução, António Barreto disserta sobre quais as esquerdas, o que as define e divide, ou seja, quais as condições para as unirem ou separarem.

Tudo é fácil para AB, o C de conclusão, definitivo, é “o essencial da política, como a liberdade e a democracia”… e Barreto não se poupa e diz-nos o que é liberdade e o que é democracia, não admitindo que sejam outras coisas que não as que ele define.

E aí está o engulho, pois nem todas as correntes de pensamento - político, económico, cultural, social - aceitam que liberdade e democracia sejam palavras-dogma com definição única e barreta.

Para ele-Barreto, liberdade não é, não pode ser, de nenhum modo se aceita que seja consciência da necessidade, o que implicaria debater o que é consciência e o que é necessidade; para ele-Barreto, democracia exclue – como ele escreve, peremptório – «As variantes adjectivas, democracia “cultural”, “social” ou “económica”, por exemplo, são outras coisas. Em geral, fantasias.»

É de mestre (de obras feitas)!...

Para Barreto, democracia é só a política e mais nenhuma, o resto são meras variantes adjectivas, fantasias.

A partir desta base, há a esquerda democrática e a que não o é, e merece uma chusma de adjectivos e de “mimos” que nada têm a ver com intenções e realidades mas com caricaturas a traço grosso e feio.

Dá ideia que no artigo intermédio, António Barreto teve um sobressalto.

Mas foi alarme falso, pois se é verdade que se dedica a anatematizar o que outros (que não ele) chamam “causas fracturantes”, diversões de causas que se centram nas relações entre o capital e o trabalho, não se percebe muito bem como coexiste a sua saudade “de combates em redor da organização do Estado, da defesa nacional, da paz e da guerra e da segurança colectiva”, as suas saudades “dos tempos em que se lutava por valores essenciais da política, do trabalho e do emprego, dos direitos dos trabalhadores e dos patrões” (sei lá que mais… ele escreve e assina), saudades do que, no artigo anterior, colocara em fantasias, em variantes adjectivas de democracia.

Para o 3º artigo (por agora…), António Barreto traz o título Ainda as duas esquerdas… quer dizer, deixa de insistir em várias, são duas: a democrática e a não democrática (sendo ele o passador de atestados).

Explica-se explicitamente que a esquerda democrática é a do PS (mário-soarista)… mas nem sempre porque, às vezes salta-lhe o pé p’rá chinela, ou seja, vai na conversa da esquerda não democrática.

Tim-tim por tim-tim:

«Na sua melhor tradição (mário-soarista), os socialistas opõem-se aos métodos revolucionários, à violência, ao terrorismo, à colectivização, à destruição da iniciativa privada, à opressão da Igreja, ao monopólio do Estado na educação e na saúde, à aniquilação das Força Armadas e a formas de governo não democráticas e não parlamentares (uff!, exemplos escolhidos a dedo)».

«Mas também sabem que nas esquerdas há muito fortes tendências exactamente contrárias (isto é: violência, terrorismo… e toda a demais lista de malfeitorias, segundo AB), com especial inclinação para destruir o mercado livre e a iniciativa privada , cm um estranho afecto por formas “populares” de governo, com obsessão do monopólio do Estado e com uma absoluta aversão pelo investimento privado.»

«Estão ainda conscientes de que as esquerdas radicais têm uma concepção elástica dos direitos fundamentais, sobretudo dos direitos cívicos e políticos; assim como têm convicções condescendentes sobre a guerra civil e a luta de classes, a violência e o terrorismo (se este for de esquerda, das minorias, de tudo quanto é anticapitalista e antiamericano…) contrárias às tradições socialistas(…)»

… e continua em rol, devendo espumar…, com referências ao despotismo tropical latino-americano, às ditaduras militares africanas e asiáticas e etc., mas confesso cansaço…

Só ainda quero fazer uma rectificação indispensável: escreve ABarreto «quando, há seis anos, António Costa decretou o “fim do tabu”, isto é dispôs-se a governar com aliança com as esquerda radicais…» falseia descaradamente (por decreto?) o facto histórico de, há seis anos, ter sido Jerónimo de Sousa que afirmou que o PS só não seria governo se não quisesse, quando António Costa cumprimentava os “vencedores” e Cavaco Silva dava, a estes “vencedores”, o poder de formarem governo, que a Assembleia da República lhes não reconheceu.  

 Mas, como é evidente, referir a verdade história contrariaria o começo da caracterização de que ABarreto parte, neste artigo, para a reconfiguração da política portuguesa: «... O imobilismo comunista…»

 Imobilismo? Engana-se (se é que é engano...) quem tem saudades da luta de classes.

Há quem faça essa luta (e há 100 anos!) e recomendar-se-ia revisão de matéria dada a quem tem sociologia como formação e/ou cartão de visita.

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Ângela Merkl e a vacina russa

 extractos de um (quase-)diário

Ontem, ao ouvir jornal 2, o que se ouve cá em casa, em regime de pandemia e acautelando o estado mental… mesmo assim sempre a ser posto à prova,
pois ontem, dia 24 de Fevereiro, entre as 21.30 e as 22 horas, ao fazer o ponto da situação do surto epidémico (do que é que havia de ser?!), o "pivô" foi até Moscovo cavalgando uma notícia que, francamente, espantou (como é que ainda?...). 
Dizia ele que Ângela Merkl estava a encontrar uma saída para o problema das vacinas, para o que estava em contacto (ou negociações?) com Putin, 
e o que ele disse foi confirmado por aquele ponta-de-lança que a televisão portuguesa tem em Moscovo desde a Idade Média, perdão, desde que há por cá televisão.
Mais disse esse português com sotaque russo (ou será russo com sotaque português?), que falou em diplomacia da vacina e acrescentou que a Rússia não iria desprezar a opotunidade, antes a aproveitaria, como aproveita tudo para se afirmar, e ainda acrescentou que a Hungria e São Marino já estão a vacinar moscovita, ou russamente, as suas populações.

Fiquei absorto, e absorto continuo, passada uma noite mal dormida (não só por dessa e de outras noticias). 

Mas então não há uma União Europeia que, com os seus 27 Estados-membros (acertei no número?), está unitária e europeiamente a resolver?
E dessa União Europeia não faz parte a Hungria?, e São Marino não é uma espécie de seu enclave, com o euro como moeda e tudo?
Como se explica a intransigente ausência de alternativas que o Estado português, pelo seu executivo e presidência da República, adoptou como aluno exemplar que pretende sempre assumir?

E, já agora, cabe perguntar qual é o papel da Presidência da U.E., por acaso portuguesa, perante as iniciativas de Ângela Merkl?

 


INFORMAÇÃO (zinha)




A CHINA VAI ENVIAR VACINAS 

PARA MAIS 19 PAÍSES AFRICANOS

A China enviou vacinas para o Zimbabwe e a Guiné Equatorial, e irá ajudar mais 19 países de África como parte do compromisso de tornar as vacinas um bem público mundial, afirmou um funcionário do governo.
Trabalhadores descarregam as vacinas doadas pela China no Aeroporto Internacional Robert Gabriel Mugabe, em Harare, capital do Zimbabwe, no dia 15 de Fevereiro de 2021 CréditosShaun Jusa / Xinhua

Wang Wenbin, representante do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, disse esta segunda-feira que o seu governo se propõe apoiar o continente africano no menor tempo possível.

Wang referiu-se às doações feitas ao Zimbabwe e à Guiné Equatorial, destacando que, com estas acções, o país asiático quer fazer das suas vacinas um bem público mundial.

Afirmou que se trata de uma clara manifestação da amizade tradicional entre a China e África, acrescentando que o seu país irá continuar a fornecer apoio e assistência dentro das suas capacidades e tendo em conta as necessidades do continente, informa a agência Xinhua.

Além dos países referidos, o responsável governamental disse que a China irá ajudar, concretamente, outros 19 países africanos, doando vacinas àqueles que se encontram em situação de maior desvantagem e apoiando empresas a exportar os seus produtos contra a Covid-19 para países africanos que deles necessitam com urgência e que aprovaram a sua utilização.

CHINA APOIA OS ESFORÇOS DO OCIDENTE 

PARA APOIAR ÁFRICA

Wang reagiu desta forma às declarações proferidas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, no contexto da Conferência de Segurança de Munique, em que exortou europeus e norte-americanos a enviar o mais rapidamente possível para África doses suficientes de vacinas contra a Covid-19 para proteger o pessoal da Saúde, defendendo que, assim, «o Ocidente será considerado em África» e que, de outra forma, «os nossos amigos africanos irão comprar doses aos chineses, aos russos».

«A força do Ocidente será um conceito e não uma realidade», disse o chefe de Estado francês, citado pela Prensa Latina.

Ao ser questionado para comentar directamente estas afirmações de Macron, Wang Wenbin disse que a China valoriza e apoia o esforço da França e de outros países europeus e americanos para fornecer vacinas e ajudar África a combater a pandemia.

A China tem actualmente 16 vacinas contra a Covid-19 a ser testadas, sete das quais na terceira fase dos ensaios clínicos, e aplicou as quatro mais avançadas a mais de 40 milhões de pessoas.

O país asiático enviou as suas vacinas contra a Covid-19 para 53 países em desenvolvimento, como forma de ajuda, tem acordos de exportação com mais 22 e entregou dez milhões de doses ao mecanismo Covax, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), indica a Xinhua.

A OMS está a estudar as vacinas produzidas pelas empresas chinesas Sinopharm, Sinovac e CanSino para determinar se cumprem os padrões mundiais de qualidade e segurança, antes de as incluir na sua lista de fármacos aprovados.

Ver original em "AbrilAbril" na seguinte ligação:

https://www.abrilabril.pt/internacional/china-vai-enviar-vacinas-para-mais-19-paises-africanos

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

  - Edição Nº2464  -  18-2-2021

Criminoso bloqueio

Pelo seu conteúdo, os «resultados preliminares da visita à República Bolivariana da Venezuela» (realizada de 1 a 12 de Fevereiro), apresentados pela «relatora especial da ONU sobre o impacto das medidas coercivas unilaterais no exercício dos direitos humanos», representam uma importante denúncia do crime contra o povo venezuelano que constitui o conjunto de medidas e sanções impostas pelos EUA contra a Venezuela.

Adoptadas na sua maioria pela Administração Trump – e vergonhosamente seguidas pela União Europeia e alguns governos, incluindo pelo Governo português –, as sanções norte-americanas configuram um desumano bloqueio comercial, económico e financeiro que, de forma premeditada, visa atingir o povo venezuelano, promovendo metodicamente a degradação das suas condições de vida, procurando impossibilitar a existência das condições que possam assegurar o cumprimento dos seus direitos.

Recorde-se o colossal saque de activos do Estado venezuelano, no valor de milhares de milhões de dólares, particularmente dos 1,2 mil milhões de dólares do Banco Central da Venezuela retidos em Portugal. Meios financeiros que, face ao cruel bloqueio imposto pelos EUA, o Governo venezuelano procura utilizar para dar resposta às necessidades mais essenciais do povo venezuelano, incluindo alimentares e de saúde – tão mais urgentes no contexto da pandemia de COVID-19 –, e que são inaceitavelmente retidos pelo Novo Banco, perante a condescendência do Governo português.

É significativo que a relatora da ONU enfatize que as sanções unilaterais constituem uma violação do direito internacional e que «o propósito anunciado da campanha de “pressão máxima” – para mudar o Governo da Venezuela – viola o princípio da igualdade soberana dos Estados e constitui uma intervenção nos assuntos internos da Venezuela»; e que sublinhe que «o congelamento do património do Banco Central da Venezuela […] viola os direitos soberanos do país e impede o seu governo efectivo de exercer o dever de garantir as necessidades da população».

Recordando a obrigação dos Estados perante os princípios e normas da Carta das Nações Unidas e do direito internacional – como a não intervenção nos assuntos internos dos Estados –, a relatora da ONU ressalta a inadmissibilidade de aplicar sanções extraterritorialmente e, entre outras importantes recomendações, «insta o Governo dos Estados Unidos a pôr fim à emergência nacional em relação à Venezuela, rever e suspender as sanções contra o sector público da Venezuela, rever e levantar sanções contra terceiros Estados e abster-se de impor sanções ao fornecimento de óleo diesel que provoquem uma crise humanitária de proporções sem precedentes»; assim como «insta os Governos do Reino Unido, Portugal e dos Estados Unidos e os bancos correspondentes a descongelar os activos do Banco Central da Venezuela».

Face ao sublinhado pela relatora da ONU, vai o Governo português continuar a alinhar com a política adoptada pela Administração Trump contra a Venezuela? Vai o Governo português continuar a alinhar com o cruel bloqueio e saque de activos, que tão dramáticas consequências têm imposto ao povo venezuelano, assim como à comunidade portuguesa que vive naquele país latino-americano?

Pedro Guerreiro

A saga do vaci-negócio

de páginas de um quase-diário:

19.02.2021

Ontem coloquei, em dois posts, intervenções de deputados no Parlamento Europeu, sobre o magno problema das vacinas.

Um, do João Ferreira, que sublinhava aspectos muito relevantes sublinhando a operação público-privada em benefício evidente dos privados, e outro, de deputada francesa, que se dirigia à presidente da Comissão, com grande acutilância, e denunciava a submissão da dita Comissão aos grandes laboratórios privados.

Nesta intervenção, a deputada Manon Aubry mostrou um dos documentos do acordo da Comissão com os laboratórios, a que apenas com muitos esforços os deputados tinham tido acesso… mas em que partes do acordo estavam ocultas, ilegíveis.

O que, sendo estranho, é inaceitável num equilíbrio institucional, os eleitos parecem ter de se submeter a executivos nomeados sabe-se lá (a U.E.) como, embora tenham de passar por um ritual aparentemente democratizante.

Essas partes do contrato mostrado, com tiras a negro em documento dactilografado (melhor se diria computorizado ou digitalizado) seriam evidentemente as que mais interessariam, sobre preços, calendário de entregas (e se isso nos interessa!), cláusulas de responsabilidade…

Hoje, na informação de que me “alimento” ao pequeno-almoço, encontrei, num documento dos promocionais da imagem da U.E., uma informação que considero interessante:

Biontech et Pfizer exigeaient 54 euros par dose de vaccin 

en juin

[Politique] Les sociétés pharmaceutiques Pfizer et Biontech avaient demandé 54,08 euros par dose de vaccin en juin dernier, montant qui a ensuite été ramené à 15,50 euros par dose lors de négociations.

A isto chama-se “marralhar”: o vendedor começa por oferecer a mercadoria, em Junho, por 54,08 euros a dose de vacina e acaba por a contratar por 15,50 euros a dose… em que prazos de entrega, com que cláusulas de responsabilidade em caso de não cumprimento?

E importaria também conhecer qual o investimento público para que o privado tivesse a mercadoria e… a patenteasse como sua propriedade industrial.

E eu a lembrar-me de texto de 1848 sobre a não neutralidade social do aparelho de Estado nacional (ou, actualizando, associação de Estados com apregoadas virtudes públicas mas submetendo-se e beneficiando vícios privados – e vacinas...)   

A U.E. de joelhos perante as transnacionais farmaceuticas...

... e nós, de rastos!
(é preciso fazer um desenho... ou traduzir?!)

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

Direito à vacinação - que outros "direitos" o condicionam?


 

Crimes sem castigo... e tantos são!

  - Edição Nº2464  -  18-2-2021


Crimes sem castigo

A 30 de Janeiro começou em França o julgamento de várias multinacionais da indústria química (entre elas a Bayer-Monsanto e a Dow Chemical) que venderam aos EUA o Agente Laranja utilizado massivamente como desfolhante na agressão militar ao Vietname: estima-se que entre 1961 e 1971 tenham sido despejados sobre as florestas do Sul desse país, como nas do Laos e do Cambodja, 76 milhões de litros deste produto.

Segundo a Associação Vietnamita de Vítimas do Agente Laranja, 4,8 milhões de pessoas foram expostas a este químico e são três milhões os que actualmente vivem com as suas consequências, entre as quais se incluem a diminuição da imunidade, os distúrbios endócrinos, neurológicos e reprodutivos, os cancros e as malformações, muitas delas particularmente graves e incapacitantes. Ninguém sabe ao certo quantas gerações poderão vir a ser afectadas, mas são muitos os bebés que, ainda hoje, nascem condenados a viver estes e outros dramas.

O processo judicial foi movido pela cidadã franco-vietnamita Tran To Nga, exposta à dioxina em 1966, quando era uma jovem jornalista e activista patriótica no Vietname do Sul. Desde então, desenvolveu diabetes e alergias raras, padeceu de cancro e contraiu tuberculose por duas vezes. Uma das suas filhas morreu com uma malformação no coração e as netas também já têm doenças. «Não luto por mim, mas pelos meus filhos e por milhões de vítimas», afirmou antes do início do julgamento, que muitos consideram já histórico, pelo precedente legal que poderá abrir.

Até ao momento, apenas veteranos militares norte-americanos, australianos e sul-coreanos foram indemnizados pelos efeitos do Agente Laranja, precisamente por algumas das empresas que agora enjeitam qualquer responsabilidade pelo modo como o exército norte-americano utilizou os seus produtos. Ao mesmo tempo, nem um dos milhões de vietnamitas, laocianos ou cambojanos expostos ao químico (e os seus filhos e netos) foi sequer considerado vítima em qualquer processo judicial internacional, pese embora os esforços feitos durante décadas nesse sentido pelas autoridades da República Socialista do Vietname.

Este está longe de ser o único crime lento, cruel, hereditário, cometido pelo imperialismo nesse crime maior que é a guerra: a radiação ainda faz vítimas em Hiroxima e Nagasáqui, assim como nos Balcãs e no Iraque, onde foram usadas em grande escala munições com urânio empobrecido. Todos sem excepção permanecem por julgar.

Independentemente de qual venha a ser a decisão do tribunal francês, que deverá ser conhecida em Maio, o principal criminoso ficará impune, pois nem sequer está sentado no banco dos réus. O seu julgamento será feito pela História. O veredito, esse, foi já ditado.

Gustavo Carneiro