terça-feira, janeiro 17, 2017

DAVOS-2017 – Desfazamento chocante entre a “moral” das empresas e a desconfiança e o descontentamento dos cidadãos






Os membros, porta-vozes responsáveis das maiores empresas mundiais, parecem divididos, segundo esse estudo, sobre os benefícios do que chamam “mundialização”, mas estarão “extremamente positivos” quanto às previsões de crescimento.
 Na continuidade destes trabalhos e acompanhamentos da evolução da economia mundial, do Global Risk Report, o estudo sublinha a queda dos níveis de vida da grande maioria das populações dos países industrializados e a desconfiança crescente relativamente às elites políticas e comerciais, o que ameaça a situação política e económica actual.

Não obstante este ambiente geral de descontentamento, numa escassa maioria, os inquiridos (51%) dizem-se “extremamente positivos” face às perspectivas de longo prazo para as suas empresas, comparados com os cerca de 30% quando o inquérito foi publicado pela primeira vez. Além disso, 38% dos altos dirigentes declaram-se optimistas quanto ao futuro das suas empresas para os próximos 12 meses, em confronto com os 35% do ano passado.
O inquérito teria revelado que os responsáveis se tinham adaptado à incerteza que continua a dominar as relações comerciais. Também se consideraram capazes de aproveitar as oportunidades criadas em períodos turbulentos.
A saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Trump nos Estados Unidos teriam sido prova do descontentamento generalizado perante as perdas de emprego em certos sectores, e do crescimento das desigualdades nas sociedades ocidentais. A "mundialização" e as novas tecnologias exacerbaram essas tendências, convergindo numa profunda desconfiança para com o institucionalizado, segundo o relatório.
Cita-se Branko Milanovic, economista e professor em Nova Iorque, que explica que “os mais importantes ganhos da mundialização caíram nas mãos de uma pequena elite cada vez mais rica nos países industrializados e da classe média asiática, cada vez mais importante. Ao contrário, os maiores perdedores são as pessoas de fracos rendimentos dos países desenvolvidos”.
Neste contexto, os chefes de empresa estão divididos quanto aos benefícios da "mundialização". Por um lado, o comércio quadruplicou nestes últimos 20 anos e a circulação na internet explodiu; os progressos tecnológicos e a "mundialização" preencheram vazios entre os rendimentos e os países e mil milhões de pessoas saíram da pobreza extrema, sobretudo na China. Por outro lado, entretanto, em vez de trazer a prosperidade aos países desenvolvidos, que teriam sido os primeiros a adoptar a "mundialização", o sistema provocou perturbações sociais no mundo ocidental; como facto revelador, 44% dos chefes de empresa pensam que a "mundialização" não conseguiu diminuir o fosso entre ricos e pobres,
“Todo o sistema capitalista será posto sob pressão pelos trabalhadores que não aceitarão mais as actuais diferenças na distribuição da riqueza”, estimou um director com base no Reino Unido.
Novo indicador
Em relatório separado, o WEF mostrou que os rendimentos medianos tinham baixado 2,4% em média em mais de 50 países, para caírem para cerca de 2500 US$ (2.300€) por família. “Está no centro do descontentamento público”, declarou G. Corrigan, investigadora no Fórum.
Para além de desígnios puramente retóricos por um crescimento inclusivo, R. Samans, membro do directório do WEF, lamentou a falta de “consenso prático” entre os decisores políticos e os chefes de empresa para o realizar.
Bob Moritz, director de PwC, mostrou-se um pouco mais optimista, declarando aos jornalistas que 2017 deverá ser o ano em que as palavras se transformarão em acções. Segundo ele, os PDG e os decisores políticos estão atentos às inquietações dos cidadãos. Graças às redes sociais, existe uma “tomada de consciência crescente como nunca antes”, acrescentou.
Para começar, o WEF propõe adoptar um novo indicador sobre o desenvolvimento inclusivo, como alternativo ao PIB. O rendimento mediano das famílias estará “no centro” do novo indicador, baseado em 12 critérios, explicou R. Samans, assegurando que reflectirá melhor o desenvolvimento económico.
O estudo do PwC previne, no entanto que “o descontentamento popular não ameaça apenas o crescimento; o bem-estar social e a igualdade são motores de um resultado económico a longo prazo”. Neste contexto, um crescimento económico incerto tornou-se a ameaça número um dos PDG (ou CEO), à frente da sobre-regulamentação.
Apesar do contexto político difícil e da incerteza que reina em volta da administração Trump, os Estados Unidos ultrapassaram a China como fonte potencial de crescimento mais importante para o próximo ano, segundo altos dirigentes. Além disso, o Reino Unido parece mais popular entre os homens de negócios este ano que em 2016, e isso apesar da incerteza que resulta das negociações Brexit.
As palavras inquietantes de Trump visando os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos conjugaram-se com a promessa de um reforço orçamental sob a forma de despesas em infra-estruturas e reduções fiscais. Estas promessas "drogaram" claramente o optimismo dos chefes de empresa nas suas perspectivas comerciais com os Estados Unidos.

O estudo foi publicado na véspera da chegada do presidente chinês Xi Jinping a Davos, onde deverá posicionar a China enquanto defensora da mundialização quando se dirigir aos membros, hoje, 17 de Janeiro.
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O texto (e o "post"...) estará longo. Mas contém informação, com base em larga recolha de inquéritos a protagonistas, que parece útil. Pelo que revela, e pelo que pretende que seja conhecido como "ambiente" nas grandes empresas e grupos. A medida anunciada de um novo indicador alternativo ao PIB é significativa. Ignora um indicador já existente, com quase 30 anos e muita informação, criado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), com o nome de "desenvolvimento humano", que completa e corrige o PIB com dados de vária origem, focalizados na saúde e na educação. Esta "invenção" de Davos revela perturbação e objectivo de diversão.
S.R.

A(s) estatística(s) da pobreza e a(s) pobreza(s) da estatística - 2

Como se mede a pobreza?























































Uma mudança na estatística fez 
estranhamente cair o número de pobres no mundo
"A revisão do indicador de referência da pobreza do Banco Mundial coincide estranhamente com a saída da extrema pobreza  de 200 milhões de pessoas..."

Traduzo o parágrafo final, o Contexto:
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) “uma pessoa vive em pobreza extrema se não dispõe dos rendimentos necessários para satisfazer as necessidades alimentares essenciais – habitualmente definidas com base em necessidades calóricas mínimas (…).”
A extrema pobreza diminuiu de maneira significativa nas duas últimas décadas. Em 1990, cerca da metade da população dos países em desenvolvimento vivia com menos de 1,25 US$ por dia: esta proporção caiu 14% em 2015. A nível mundial, o número de pessoas vivendo em extrema pobreza diminuiu de mais de metade passando de 1,9 milhares de milhões em 1990 para 836 milhões em 2015. Os progressos ocorreram sobretudo desde 2000.

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Para mim, há uma questão de fundo: o dogmatismo da consideração da medida monetária ("dispor dos rendimentos necessários para...", 1,25 US$/dia... ") quando a moeda se desmaterializa, se torna fictícia, os créditos e os juros avassalam a economia real, e as necessidades, em grande parte parte, se satisfazem - ou se vão satisfazendo - marginalizando-se de um circuito monetário-fiscal que as quer garrotar... e ter sob medida única o preço. Há que recuperar a medida custo, em termos de dispêndio de horas para uso de recursos que satisfaçam necessidades essenciais, não estas apenas animais - calóricas e etc. - mas também, e sempre mais, humanas, socializadas.

isto são reflexões soltas
 (largadas) ao correr das teclas 

A(s) estatística(s) da pobreza e a(s) pobreza(s) da estatística - 1

Na manhã, uma avalanche de “informações” sobre a situação da pobreza no mundo (Oxfam, PNUD e etc. de derivados), que parecia mesmo ao encontr(ã)o da minha abordagem de ontem do artigo do Paul De Grauwe sobre a desigualdade e seus aspectos teóricos. 
Informações úteis e trabalhos interessantes numa EurActive Newsletter que me está a alimentar e não quero guardar para mim!
As desigualdades exacerbam-se a grande velocidade
"Em 2016, a riqueza concentrou-se ainda mais no mundo, afirma um relatório da Oxfam..."

Mas, sobretudo, quais as causas da concentração da riqueza versus o aumento da pobreza?
("de quantos pobres se faz um rico"?)
Mas... quem e como se mede a pobreza?

continua



segunda-feira, janeiro 16, 2017

Desigualdade, desigualdades, causas e consequências

Não. Não leio tudo... mas leio mais que o avante! (mas leio o avante!, sim senhor... e far-me-ia imensa falta se o não lesse!). Só assim me informo... e quero ser um cidadão inFormado.
Se me irrito com NSantos (e fico triste... não desiludido - atenção! - porque, para isso, teria de me ter iludido), porque desinforma (!), já me sinto compensado por, no mesmo caderno Economia, na pág. 39, Paul De Grauwe (professor da Universidade de Lovaina) me informar que morreu Atkinson, tecer interessantes considerações sobre o "regresso do estudo da desigualdade nas economias desenvolvidas", e afirmar que a Atkinson se deveria tal mérito.

(,,,)
Logo me convoca, tal abordagem e sua exposição, a dizer duas coisas primeiras (e primárias?):
  • que, sem tirar o valor do contributo de Atkinson para esse regresso à problemática das desigualdades, tal "regresso" resulta sobretudo da realidade se impor, impedindo que seja ignorada (que se varra para debaixo da carpete dos cada vez mais ricos a multidão dos cada vez mais pobres);
  • que esse "regresso" seja detectado por uma elite bem comportada de estudiosos  da realidade que adoptaram a postura de avestruz ao meter a cabeça na areia ao rejeitarem "a predição marxista de que o capitalismo levaria a uma crescente desigualdade" (diz Paul De Grauwe, que assim se confessa... mas não se alarga em penitência!)
Há, na verdade teorias e curvas muito curiosas, alimentando ilusões explicativas sobre a realidade, que esta vai desmentindo. Mas logo novas descobertas se fazem e empolam numa escalada pseudo teórico-explicativa que, para combater (ou escamotear) os efeitos, escamoteia o fundamental, as causas.
E por aqui me fico, em aponta mente, com o sempre adiado mergulho na consideração do conceito de pobreza/pauperização enunciado em 1848, em há que aprofundar as necessidades e a diferença entre ser pobre (e desigual) há 170 anos, sem automóvel nem telemóvel, e ser pobre hoje, com tudo que o trabalho trouxe para o viver em sociedade. Mas em que as causas das desigualdades são as mesmas, e estão nas relações e na correlação de forças sociais!

domingo, janeiro 15, 2017

É com tristeza e desproveito...

É com tristeza que se toma a decisão de cortar relações - ainda que em sentido figurado...- com alguém por quem se tinha respeito e admiração, não obstante desacordos de fundo e pontuais.

Há alguns anos leio, aos sábados (ou nos dias seguintes), a página Cem por Cento do Nicolau Santos, no caderno Economia do Expresso (e noutros espaços o vinha lendo). Com interesse e proveito, muitas vezes o transcrevendo e confessando ter sido informado e aprendido. Era a posição de um keyneseano ("graças a Deus", como ele se confessava) e merecia ser conhecida e reflectida (digo eu...).
Até ontem à noite, antes de adormecer sobre a leitura deste texto:


Que NS admire Mário Soares e que, no contexto, o viesse dizer encomiasticamente é seu pleno direito pleno. Mas fazê-lo como o fez contraria, totalmente, o conceito em que o tinha. "Valha-lhe Deus"... que até Keynes deve ter esquecido tão obnubilado pelo panegírico.
Confesso (é a minha vez...) que me surpreendeu. O NS que tem a leitura da história que aqui se ilustra em quatro quartos de coluna e uma "caixa" (que "caixinha"!), que catastrofiza a situação da economia portuguesa em 1975 (com enormes e evidentes problemas, bloqueios, sabotagens), a que chama "economia em cacos" mas que  a OCDE (com Krugman) dizia "surpreendentemente saudável", que não vê no lançamento dessa economia "nos braços do FMI" e no abrir-se toda - e servilmente - aos tentáculos de uma solução "europeia" cegamente ideológica, não é o NS que eu conhecia. E lia. 
Pelo meu lado, com uma opção ideológica clara, não aceito o radicalismo ideológico (argueiro que vê no olho de outros), o dogmatismo, o sectarismo. Por isso, estou onde estou; por isso, gostava de ler - e aprendia com - NS. Com o que assina este texto? Não conheço...
     

Para este domingo

sábado, janeiro 14, 2017

Hoje, em Ourém



SMN e TSU e o observador do interior...

... mas procurando estar no interior (no imo) das coisas:

  1. é evidente que, depois de série (mais) negra de anos de ataques aos trabalhadores, entre outras muitas coisas o congelamento do salário mínimo nacional (SMN), havia que melhorar algo essa conquista do 25 de Abril, mas já com trabalho técnico relevante anterior;
  2. neste período de condições para recuperar parte das consequências mais nefastas da política com consequências tão nefastas para os trabalhadores e a população em geral, o SMN era questão (e sinal!) a privilegiar;
  3. em vez do Estado cumprir sem titubear a sua obrigação constitucional, foi procurada uma negociação tripartida (à maneira da OIT, trabalhadores-patrões-governo);
  4. porque a parte dos trabalhadores está dividida por existência de uma "central sindical" criada para esse efeito, chegou-se a acordo (sem o acordo dos representantes sindicais!) na fixação de uma subida do SMN e acrescentou-se a cedência numa descida da Taxa Social Única (TSU), "velha" reivindicação patronal, já mais de uma vez patrocinada pelos seus representantes na AR, o PSD;
  5. esperava-se a aprovação do acordo na AR, quando se dá um golpe de teatro de bonifrates da política: o PSD anuncia ir votar contra por estar contra (pasme-se!) a descida da TSU tal como o BE e o PCP (este também a favor de mais alta e fundamentada subida do SMN);
  6. e, como é próprio de teatro de pantomima, vira-se do avesso a questão do aumento do SMN, que passou a secundária ou ignorada, para a questão do TSU que viera à boleia do oportunismo do aumento do SMN;
  7. só  se fala, "politicamente", da questão do TSU, só se refere a convergência parlamentar entre o PSD e o BE, o SMN e o PCP (claro!) deixam de existir à luz (filtrada) da comunicação social e todo o trabalho deste Partido (e da central sindical) a favor do SMN - e explicando o oportunismo da inclusão da TSU no acordo sobre o SMN - é ignorado;
  8. Assim se descredibiliza a política, se indignifica a democracia (isto observa o observador do interior...)   

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Porque será?

JMTavares, que s'assina jornalista, está a passar um mau bocado. Que vai até ao ponto de afirmar, num texto a que dá título uma dúvida crucial, temer que os seus filhos estejam condenados a ter de viver com brinquedos, perdão, heróis dos outros (que se presume filhos que tiveram a sorte de  ter outros pais que não ele). 
Qual a angustiada pergunta do dito (por si) jornalista: 
"Por que foi tão pouca gente ao funeral de Soares?"
E começa por dizer que é muito triste, e etc, e etc.


O texto é confrangedor. Cheguei a sentir o que menos desejo: 
ter pena do homem. Sobretudo quando se vê forçado, na via (ou na veia?) jornalística, a ter de argumentar e justificar o abismo na adesão popular relativamente a outro funeral, ao de Álvaro Cunhal, numa segunda feira e também em não-feriado.

Talvez não devesse gastar esta cera, até porque decidira não vir engrossar o espaço ocupado pela morte de Mário Soares, que se lamenta como todas. Mas não se resiste a um balanço de exéquias como este de JMTavares, particularmente quando acabo de ler a mensagem de um amigo da Galiza que me enviou cópia de artigo em que respondia a outra pergunta "Quen era Mário Soares", de que reproduzo um parágrafo, após e antes de outros em que procura ajudar vizinhos seus a conhecer o multifacetado e complexo personagem: 

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Esclareci mentes

Oferece-nos a comunicação social, alguma radiosa e não sei se radiante, que o salário mínimo acordado para vigorar a partir de Fevereiro estará posto em causa por duas razões

  • porque o PSD estaria disposto a opor-se, tal como desde o início o afirmaram o BE e o PCP, à descida da Taxa Social Única que faz parte do acordo, colocando o PS em minoria;
  • porque, sem essa descida da TSU, "o acordo não existe" porque os "patrões" dele se retirariam.

(respigado do Público de hoje)

Ora, para além do curioso do episódio e da afirmação de intenções, bem reveladoras do que é a "baixa política" e os seus golpes e conluios, importaria esclarecer que essa "coincidência" de intenções não anularia o salário mínimo e, sobretudo, a quem compete ele ser estabelecido.
Na minha velhinha cábula constitucional de não-constitucionalista 






lá está 

que é obrigação do Estado (art. 54º)



e, embora a edição seja a 1ª (a de 1976), apesar das 7 revisões continua a mesma redacção, embora actualmente no artigo 59º ponto 2. e com o corte da frase entre vírgulas bem como do salário máximo, que também era constitucional obrigação do Estado estabelecer e actualizar todos os anos. 
Que acordos sejam desejáveis não se nega. Mas, com certa gente, são eles possíveis?

Agenda

Amanhã, em Abrantes:

depois contarei...

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Aponta mento - 2

Quase naufragado na enxurrada de notícias - se é que tal se pode chamar ao que transbordou a alcunhada comunicação social - tropecei numa que me surpreendeu estupidamente (o qualificativo é-me auto-endereçado...):

houve uma condenação à morte naquele país do 3º mundo dos direitos humanos 
chamado Estados Unidos da América!

Viva a República Portuguesa!