sábado, janeiro 02, 2016

Leitura recomendável para o fim de semana



O “crime” do padre Edgar
(páginas 185 a 192 na 2ª ediçao)


No seio da Igreja da Madeira muitas vozes se têm levantado contra a subordinação/colagem dos bispos pós-Abril ao poder político em vigor -para profunda irritação das hierarquias eclesiástica e do partido no poder. Mas o caso do padre Edgar dá que pensar.

O pároco de Porto Santo, Bonifácio Santos, em entrevista ao DN-M em 6 de Setembro de 94, a propósito das acusações de que a Igreja está muito subordinada ao poder político, diz que a coisa é mais profunda:
“Não se trata de estar ligado ou não ao poder político. Há um problema, talvez maior, que é o domínio do poder político-partidário em relação a toda a vida da sociedade. Em termos desportivos, culturais e até económicos”.
Em 11 de Julho do mesmo ano, no mesmo jornal podia ler-se uma conversa com o padre José Pascoal, que afirmou sem hesitar que nas paróquias da Calheta, onde na altura exercia a sua actividade, havia “verdadeiramente sinais de miséria”. Falou da existência de alcoolismo e focos de analfabetismo. Sublinhou que os pobres eram esquecidos, que denunciar não é uma atitude partidária e defendeu que um padre não se deve meter em partidos mas pode, sim, ter uma atitude política.
E quando a jornalista – Teresa Florença – lhe perguntou como é que via o ‘rótulo’ de marxista atribuído a quem levanta a voz para falar dos problemas da população, respondeu
“Talvez seja mais fácil rotular as pessoas e ignorar os verdadeiros problemas. É mais fácil encontrar um bode expiatório, uma desculpa”.
Já em 2006, o padre José Luís Rodrigues, a exercer no Funchal, numa longa entrevista concedida ao semanário Tribuna da Madeira, intitulada “Ninguém pode atirar pedras à Igreja por estar ligada ao poder político”, criticou frontalmente o facto dos subsídios à Igreja a terem “atirado para um canto”. Mas, sublinhou, não é só à Igreja que parece acontecer situações destas: “A mais pequena associação e tasca desta terra estão aprisionadas porque senão perdem o subsídio ou existem represálias”.

Obrigado, padre Edgar. Tomadas de posição semelhantes – umas inidividuais, outras colectivas - têm-se verificado com regularidade ao longo dos últimos anos no seio da Igreja madeirense.
Voltemos a 1994. Nesse ano, em 20 de Outubro, o “DN-M” publicava uma desenvolvida notícia intitulada: “Oito padres escrevem em defesa de Edgar”.
O texto, assinado por H.C., contava a seguinte história :
“O padre Edgar Silva, num artigo publicado neste jornal, criticou recentemente a orientação da Igreja madeirense. Disse que a instituição, na Madeira, estava hipotecada, financeira e politicamente. O Gabinete de Informação da Diocese do Funchal respondeu que os escritos e as atitudes do padre Edgar devem ser vistos à luz de alguém que afirma ter pouca fé, o que o leva a perder o sentido religioso e sacerdotal."
As divergências, já antes observadas no meio eclesiástico da Região, não ficaram por aqui. Um grupo de oito padres, descontente com a posição do Paço Episcopal, fez chegar ao padre Edgar uma carta de agradecimento e apoio pelas atitudes assumidas.
Na missiva, os sacerdotes dizem: “Obrigado Padre Edgar por seres cristão. Por seres, antes de tudo, cristão. Por nos lembrares que a Fé não é um cortejo de devoções ou um ritualismo intimista. Por nos lembrares que a Fé não suporta o conformismo dos temerosos e a boa paz dos que se demitem”.
Trata-se de um documento indirectamente pouco brando para com as  directrizes de D. Teodoro. As palavras de incentivo ao padre Edgar revelam claramente a aceitação de todas as observações do artigo assinado por aquele membro da Igreja madeirense.
A carta considera a exposição de Edgar como um forte apelo ético. Com considerações como esta: “Acreditamos que as tuas iniciativas e propostas de reflexão têm sido, ao longo destes anos, uma provocação cívica estimuladora e uma contribuição notável para a consciência daqueles direitos fundamentais da Pessoa Humana, tantas vezes ameaçados, na vida dos mais pobres”.
A solidariedade evidenciada pelos oito padres é ainda expressa por uma citação da Carta de S. Tiago - “Tu acreditas que o caminho para Deus é a Pessoa Humana e que ninguém pode amar o Deus que não se vê se não ama o Irmão que vê” (...)

Maior frescura eclesial. O padre Edgar já há muito andava nos jornais, dada a perseguição de que era alvo por parte dos poderes político e religioso. Um verdadeiro study case, o do padre Edgar - e uma das chaves para se perceber, conhecendo a sua história, a natureza ditatorial e persecutória do regime jardinista.
Vejamos, pois, o caso do padre Edgar - à luz do que foi sendo publicado na imprensa periódica da Madeira e do Continente.
Comecemos pela edição do DN-M do dia 8 de Julho de 1990, que dedicava um dossiê aos novos ventos que sopravam no seminário do Funchal.
Entre várias histórias, aparecia a do padre Edgar, que tinha sido ordenado um ano antes. Começava assim:
«Presentemente faz parte da equipa coordenadora do Seminário Diocesano do Funchal, é assistente de movimentos de acção católica, dirige um centro de reflexão cristã - ARCO – e trabalha com os miúdos da pedincha que vagueiam nas ruas desta cidade.
Não é um beato de sacristia e muito menos traja o colarinho e uma vestimenta a identificar a sua formação e missão eclesiásticas. É mais um dos tantos jovens que preferem os jeans, as práticas t-shirts, dando razão ao aforismo de que ‘o hábito não faz o monge’.
Deambula frequentemente pela cidade, promove conferências sobre temas de actualidade e, neste momento, está apostado em ajudar as crianças que pedem esmolas nas ruas do Funchal.
Entrou no Seminário com 16 anos e despertou para tal pela “via das questões sociais”, pois afirma ter sentido sempre “uma enorme inquietação perante o escândalo da pobreza e das desigualdades”..
Concluído o curso de Teologia, confessa que chegou a hesitar se deveria ou não ser padre. A dúvida residia em torno da questão ‘até que ponto tomar essa opção tão radical poderia constituir uma opção solidária contra a pobreza e as injustiças” (...).»

Uma história exemplar. Com estas ideias e este posicionamento, a hierarquia eclesiástica e o governo olharam de soslaio o novo padre que, ainda antes de ter sido ordenado, já leccionava desde 1987 no Seminário do Funchal, onde dera nas vistas pelos métodos seguidos e o arejamento provocado.
Assim, não causou grande surpresa que logo em 1991, o hoje desaparecido semanário O Jornal tivesse publicado uma matéria intitulada “O crime do padre Edgar”, com a seguinte chamada:
“Pressões cruzadas da hierarquia da Igreja e do poder político regional afastaram da Região o ‘amigo dos putos da pedincha’”.
O resto do texto explicava tudo: as ideias e as práticas do padre Edgar estavam a incomodar e assustar muita gente, quer dentro da Igreja, quer no próprio Governo. A energia do jovem padre e o sucesso das suas iniciativas – quer no ARCO - Espaço de Reflexão Cristã, quer no Seminário junto dos seminaristas, quer ainda na Escola Aberta frequentada pelos putos da pedincha que estavam a ser alfabetizados para transformar – podiam pôr em perigo o status quo.
Era preciso, pois, afastar o padre e dar ouvidos às pressões que grupos organizados de sacerdotes tradicionais faziam junto da hierarquia da Igreja, sem esquecer os recados que vinham do lado do Governo. 
Por isso D. Teodoro convidou o padre Edgar a abandonar a Madeira para ir tirar um mestrado ao estrangeiro. O convite não foi aceite – mas pouco depois foi nomeado pela Conferência Episcopal Portuguesa para o cargo de Assistente Nacional do MCE -Movimento Católico de Estudantes, o que o levou para Lisboa.
Aí, durante um ano, por opção pessoal, viveu numa barraca no Bairro da Curraleira, “ao lado de dealers da coca e de heroína”, como escreveu Lilia Bernardes no DN de Lisboa .
Em 93, contudo, regressou à sua Madeira, agora como objector de consciência: recusou-se a fazer serviço militar, para cumprir o serviço cívico no trabalho com crianças de rua. Isto é, arranjou forma de voltar ao Movimento que ajudara a criar e que, inicialmente até teve o apoio do governo e da hierarquia da Igreja.
O seu regresso não foi bem visto por quem tinha o poder político e religioso. Mas o padre Edgar não era homem para desistir. Por exemplo: uma vez, ao fim do dia, viu um casal com duas crianças nas arcadas do Tribunal do Funchal preparando-se para se deitar e passar ali a noite a dormir ao relento. Abordou-os e o casal respondeu que não tinham para onde ir. Disse-lhes: sou padre católico e o meu dever é estar aqui convosco até o problema ser resolvido. E perguntou importam-se que vá buscar o meu saco-cama? Foi, voltou e ali dormiu com eles. Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público, contou esta história – que teve grande destaque na imprensa e incomodou o poder.
Noutra vez, estava sentado numa esplanada a tomar café com os miúdos da pedincha. Tinham dinheiro para pagar – mas o dono daquele espaço, não gostando da presença daqueles putos que podiam afastar turistas, quis expulsá-los. O padre opôs-se e explicou que os miúdos tinham todo o direito a estar ali como qualquer outro cidadão. A polícia foi chamada e a cena repetiu-se. Com uma diferença: o padre foi preso e levado para a esquadra. Quando pediram a identificação a Edgar e perceberam que era padre, ficaram aflitos. Mas Edgar Silva não aceitou ir embora: quis saber qual tinha sido o seu crime.
Em Outubro de 93, regressado de Lisboa, foi preso novamente, agora na própria Sé. Mais uma vez, a pergunta sacramental: qual o crime? A resposta não tinha nada que saber: a polícia estava de novo a enxotar os putos das caixinhas (esmolas) que se encontravam no adro da Sé, local muito visitado por turistas. O padre Edgar interveio, questionando a legitimidade dos cívicos. “A observação foi tomada como interferência na missão dos agentes que, de imediato, detiveram o padre para identificação na esquadra e abertura do respectivo processo”- escreveu Tolentino de Nóbrega.
Por sua vez, a jornalista Isabel Stilwell, do DN de Lisboa, abordou a questão do seguinte modo:
“É assim na Madeira quando começa o dia. Varrem-se da rua padres edgares, pobres e outras poeiras que se podem introduzir nos olhos do turista. Mas não se julgue que isto de prender padres que falam aos pobres é uma ilegalidade ou um atentado aos princípios básicos do ser humano. Na Região Autónoma há um decreto-lei que proíbe mendigos e indigentes de frequentar certas ruas. Lá, já se imagina um sinal redondo com um maltrapilho pintado a encarnado à entrada de certas ruas (...)”

Escola fechada por ‘razões de Estado’. Regressemos ao texto “Igreja madeirense depende de Jardim” que, na sequência da prisão do padre Edgar no adro da Sé, Tolentino de Nóbrega escreveu no Público.
«Querem acabar com esta imagem que dizem ser prejudicial ao turismo, mas não tomam medidas de fundo para acabar com a pobreza. Estão contra estes miúdos pobres porque eles são diferentes, não dependem da caridade laica ou da caridade da Igreja, são ousados e atrevem-se a vir para as esplanadas onde estão os turistas e as outras pessoas a consumir. É por isso que a polícia os persegue” – diz Edgar, para quem o problema não se resolve com o seu internamento, pois a pobreza advém de “questões estruturais da sociedade, não é apenas o resultado de problemas individuais”».
«(...) Edgar assistiu desgostoso ao encerramento da Escola Aberta, frequentada pelos miúdos da rua. A decisão partiu do governo madeirense e vem na sequência da denúncia feita pelo MAC – Movimento do Apostolado das Crianças sobre alegados maus tratos infringidos pelos agentes da PSP às “crianças das caixinhas”».
O secretário regional da Educação invocou “razões de Estado” para, retirando os apoios atribuídos há três anos, encerrar a escola.
«“Razões de Estado? Não pomos em causa a segurança do país, não somos uma rede bombista. Somos um movimento da Igreja!”», responde Edgar Silva.
“(...) O sacerdote madeirense critica ainda Jardim por transformar a Madeira numa sociedade totalmente subsidiada, procurando subsidiar tudo e todos para criar uma multiplicação de dependências”.
Por isso, Edgar defende: “A Igreja deveria manifestar a sua total independência em relação ao poder político e até deveria recusar todos os apoios financeiros, como forma de evitar dependências. O próprio Concílio Vaticano II, na “Gaudiam et Spes” (documento sobre a Igreja no mundo actual) recomenda que a Igreja, quando essa independência não está suficientemente clarificada, deve recusar os apoios financeiros, mesmo aqueles a que legitimamente tem direito. Essa é uma das situações que se aplica nitidamente à Madeira, onde a Igreja está subsidiada e, portanto, dependente do poder político”.

Fidelidade aos mais pobres. Pois bem: passado este tempo todo, a Escola Aberta continua fechada. Os putos da pedincha, que todos os anos se renovam, continuam na rua. A pobreza de tanta gente naMadeira mantém-se. O silêncio de muita gente, também.
Edgar Silva já não é padre. Em 1997 comunicou ao Bispo do Funchal a sua desvinculação em relação ao exercício do ministério sacerdotal. Porém, não mudou uma vírgula aos seus princípios e convicções. Como escreveu Mónica Bello numa belíssima entrevista publicada em 1994 pela revista Grande Reportagem, mantém “uma fidelidade inabalável aos mais pobres”.
Em 1998 inscreveu-se no PCP, foi eleito sucessivamente para a Assembleia Legislativa e actualmente lidera localmente o partido.
Edgar Silva, com quem conversei longamente no Funchal, impressionou-me fortemente. Pelo carisma, serenidade, determinação, convicções sérias e consequentes. Conhece a realidade madeirense como poucos e não diz uma palavra a mais do que é preciso dizer - aos jornalistas como aos seus colegas deputados da Assembleia Regional.
Assisti a várias sessões do orgão legislativo da Madeira e vê-se, nele, a diferença: extremamente educado e seguro, não entra nunca na chicana. Não responde a provocações. Mantém o rumo, denuncia, propõe. Coloca o dedo na ferida, imperturbável, tantas vezes sob comentários alarves e arruaceiros dos representantes da maioria. Não será, seguramente, o único deputado a exibir tal dignidade – mas é, sem sombra de dúvida, aquele que o faz de forma mais segura e impressiva. Todos o respeitam - e mesmo aqueles que aparentemente não o fazem, olham-no de baixo para cima.

2 comentários:

cid simoes disse...

Uma peça a divulgar.

Rogerio G. V. Pereira disse...

"Acreditamos que as tuas iniciativas e propostas de reflexão têm sido, ao longo destes anos, uma provocação cívica estimuladora e uma contribuição notável para a consciência daqueles direitos fundamentais da Pessoa Humana, tantas vezes ameaçados, na vida dos mais pobres”.

e continuamos a acreditar