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terça-feira, maio 28, 2013

Berlim e o muro - 2 de 2

Recomece-se por um excerto da internet (Wikipédia), que virá bem prejudicar a pretendida objectividade, não obstante disso se mascarar:

«O Muro de Berlim era uma barreira física, construída pela República Democrática Alemã durante a Guerra Fria, que circundava toda a Berlim Ocidental, separando-a da Alemanha Oriental. Este muro, além de dividir a cidade de Berlim ao meio, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: República Federal da Alemanha (RFA), que era constituído pelos países capitalistas encabeçados pelos Estados Unidos; e República Democrática Alemã (RDA), constituído pelos países socialistas simpatizantes do regime totalitário soviético. Construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961, dele faziam parte 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas com alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Este muro era patrulhado por militares da Alemanha Oriental com ordens de atirar para matar (a célebre Schießbefehl ou "Ordem 101") os que tentassem escapar, o que provocou a morte a 80 pessoas identificadas, 112 ficaram feridas e milhares aprisionadas nas diversas tentativas.»

A ilusória objectividade dos números! Não vou comentar e confrontar quilómetros, mortos e feridos e relativizá-los com outras situações e números correlativos, com centenas e milhares de vítimas. Uma vítima que tivesse havido, nos 28 anos do muro, seria demasiada!


Retranscrevo o que já por aqui deixei, a 28 de Abril:

«1. Vende-se “o muro” como se vende um detergente, embora com todo o “tempero” implícito dos “direitos humanos”, a puxar pela emoção.
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2. Promove-se “o muro” como se fosse uma inocente atracção turística, mas a apelar  à indignação e ao repúdio da brutalidade.
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E é difícil, mesmo muito difícil, procurar racionalizar, raciocinar, contextualizar, juntar a dimensão tempo em todas as suas dimensões, relativizar a dimensão dos inegáveis direitos pessoais e familiares que foram atingidos.
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Mas o caso é de tal monta, e tão bem “montado”!, que dizer uma palavra que vá contra as ditas e reditas, ousar um argumento que contrarie o consensual(izado), é (quase) inútil.»

Mas não me fico por essas notas “a quente”. Que tomei depois de ter estado na chamada Igreja da Reconciliação e de ver a pequena escultura que lhe está ao lado, num conjunto em que tudo teria justificado o desabafo escrito, Depois confirmado após curta investigação.

Numa zona de Berlim, no espaço entre as duas paredes do muro, havia uma igreja, que ali se manteve de 1961 até 1985, sem ter sido destruída e, ao que parece, podendo mesmo ter culto para os habitantes do lado oriental. Em 1985 (4 anos antes da sua abertura e derrube), a capela explodiu, em circunstâncias não clarificadas, havendo várias versões, não faltando a que atribui a sua destruição à construção do muro, em 1961!… Aliás, Berlim tem currículo de destruições e oportunos e incriminadores como a do Reichstag, de 1933 para “ajudar” Hitler na sua ascensão ao poder.
Mas o visitante, naquele quadro, fica com "informação" de que a causa de todos os males foi o muro, nascido por maldade de uns ocupantes banidos por obra e graça...

Ali, na área da capela reconstruída, de interesse arquitectónico, foi criada uma zona de turismo e “informação” (permito-me colocar as aspas), que inclui uma cópia da escultura da autoria de Josefina de Vasconcelos, britânica de origem brasileira, criada para a catedral de Coventry de Londres, destruída pela aviação nazi na guerra de 39-45, e de que há outra cópia em Hiroshima.
Assim se faz a História e a conotação dos horrores. E a luta ideológica na luta de classes. Que é a História.

... e se algum comentador 
(anónimo ou não...)
me vier acusar de defensor de muros,
e de cúmplice de hediondos crimes,
só responderei na presença do meu advogado! 

segunda-feira, maio 27, 2013

Berlim e o muro – 1 de 2

Berlim é uma cidade especial. Todas o serão, por serem criação humana, cada uma plasmando séculos de convivência e cultura. Por terem a sua história. E se Berlim tem história...
À minha conta, como já aqui escrevi, visitei-a como militante do movimento da Paz (antes e depois de 1974), integrado numa delegação conjunta do Governo/MFA, em Maio de 1975, como deputado no Parlamento Europeu, já nos anos 90, agora (em  2013) com o estatuto (?) de turista.
Em Berlim respira-se, sente-se, o peso da sua história. E há um muro sempre presente. No mostrado e no dito, no não-dito ou no insinuado. Berlim “é” a cidade do muro, e o muro “é” de Berlim, quando Berlim era e é cidade antes e para além do episódio do muro, quando havia muros em outras cidades antes de Berlim ter um, e continua a haver muros a dividirem cidades e países, sem serem o que houve em Berlim de 1961 a 1989.
Porquê esta aparentemente umbilical ligação de duas palavras? O que separou o muro em Berlim?
É preciso saber-se (e dizer-se!) que, no final da guerra, as conferências de Ialta e de Potsdam decidiram a ocupação do país derrotado pelos “aliados”,

E que, em 1949, foram criados dois Estados, a RFA, nas zonas desde o final da guerra sob controlo dos três “aliados” capitalistas – EUA, RU e França – e a RDA, na zona desde o final da guerra sob controlo da União Soviética, com 15 distritos e a capital em Berlim (15º distrito), onde os EUA, o RU e a França mantiveram a ocupação (ou não desocuparam) a parte da cidade sob seu controlo. 









Ou seja, num Estado reconhecido e membro das Nações Unidas, a República Democrática Alemã, o muro veio, em 1961, separar uma parte da sua capital, Berlim ocupada (ou não desocupada) por três outros Estados, do resto do seu território, como uma fronteira física, real, depois de 12 anos de coexistência sem se regularizar a insólita (é o menos que, objectivamente, se pode dizer) situação.










Esta é a História (resumidíssima...)! Sem juízos e contra os pré-juízos…

O "muro de Berlim" foi sendo tornado uma “marca”, um ar que se respira, um motivo turístico, com informação explícita, conotada ou insinuada.


Muito se poderia acrescentar e contar mas, para encerrar a série de notas e apontamentos a partir da última visita a Berlim, apenas se deixará mais um “post”... talvez amanhã. 

sexta-feira, novembro 13, 2009

Entre vista - 3

Entre vista
a Todo o Mundo & Ninguém,
realizada em nenhures,
num dia destes, a qualquer hora

3ª parte
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TM&N – Mas trata-se de efemérides... fale-me de Berlim, da tal RDA…
Cá Eu – De efemérides? Preferia falar do 7 de Novembro, da Revolução Soviética… Fica para outra altura… Sobre Berlim, só lhe posso dizer que, como parte da RDA, em Berlim-Leste, foi dos sítios em que mais passeei, em que melhor me senti...
TM&N – Não era isso que sentiam os berlinenses…
Cá Eu – Decerto não todos, e decerto não muitos e muitos a quem chegava os cantos de sereias que vinham em ondas avassaladoras por cima das fronteiras e muros, daquele pedaço de cidade ali incrustrado no meio da cidade e do Estado. E a todo o lado oriental da Europa e do mundo... Ondas amplificadas por alguns que, por lá, no interior, se “passavam” para cá, e ajudadas por outros que se esqueceram do que deveriam ter aprendido e que, agora – se vivos fossem alguns desses – muito torceriam as respectivas orelhas como parecem fazer os que sobreviveram e parte significativa dos descendentes. Mas, olhe…, eu respondi-lhe como me sentia quando lá ia…
TM&N – Falava com as pessoas, em Berlim?
Cá Eu – Tanto quanto me permitia o meu desconhecimento da língua… Já agora conto-lhe uma das estórias que vivi (verdadeira, hem!), não em Berlim mas que em Berlim poderia ter sido, e que foi das que mais me impressionou na minha vida. Já depois de várias quedas, no Parlamento Europeu ai há uns 15 anos, estava num intervalo de uma reunião a apanhar umas résteas de sol no castelo de Budapeste, nos altos da cidade, quando fui abordado por homem já maduro (isto é, velho como eu hoje sou… não tenho é netos!), um senhor, com excelente aspecto, dirigiu-se-me na língua dele. Depois de várias tentativas, lá nos encontrámos no francês… e, envergonhadamente, pediu-me esmola. Perante o meu espanto, explicou-me “sabe?... é que quero levar o meu neto ali ao museu que eu conheço muito bem de antigamente, do tempo do socialismo, e, agora, veja lá!..., tem de ser pago e eu não tenho dinheiro para lá entrar para mostrar ao miudo... ajude-me, por favor.”
TM&N - …
Cá Eu – Nunca esqueci este episódio. E, agora, com estas sondagens, voltou… mais vivo!
TM&N – Mas se isso era assim (não é que esteja a duvidar das estórias que me conta…), além das pessoas fugirem de lá, porque que é você (estes jornalistas e o emprego do… você!) não foi viver para lá?
Cá Eu – É gira a pergunta, embora não surpreenda. Olhe, por um lado, eu sempre estive entre os privilegiados do lado de cá, mesmo quando preso, torturado, condenado a muitas coisas. Razão pessoal! Nunca estive desempregado, tinha a vida que queria, lutava contra o que achava mal. Depois, razão de outro tipo, nasci aqui e aqui é que quis e quero viver, com os meus mais próximos. Que são a minha pátria. Tantas vezes parecendo madrasta, mas sempre mãe. É aqui que quero ajudar a mudar o mundo.
TM&N – E seria para melhor?
Eu Cá – Eu acho, pelo que li, vivi e comparo, que será bem melhor. E virá a ser!, porque o mundo tem melhorado sempre para melhor para os humanos, mesmo quando se passa por momentos – períodos do tempo histórico que é feito de séculos e milénios – que não são fáceis e em que parece que a roda está a desandar. Logo andará no caminho certo...

Entre vista - 2

Entre vista
a Todo o Mundo & Ninguém,
realizada em nenhures,
num dia destes, a qualquer hora
(parte 2)

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TM&N – Escandalizado não será o termo, mas lá que é estranho é…
Cá Eu – Será estranho dada a informação que a todo o mundo e a ninguém é instilada de forma sistemática e massacrante. Tem, por acaso, conhecimento dos resultados de uma recentíssima sondagem feita por um instituto de opinião dos Estados Unidos (www.pewglobal.org), vinte anos passados, e de que apenas há ecos em surdina?...
TM&N – Não, não temos… mas, afinal…, quem entrevista quem? Fale-me, por favor das efemérides, dessa tal RDA… foi lá quando ela existia?
Cá Eu – Tem razão… quando começo a conversar destas coisas, disparo…
Fui, sim senhor, fui a essa “tal RDA”, a Berlim, a Desden, antes e depois do 25 de Abril…
TM&N – … visitas oficiais, enquadrado em delegações, recebido para só lhe mostrarem o que era para mostrar…
Cá Eu – Engana-se. À RDA fui mais que uma vez, nunca como militante ou dirigente do PCP, fui (como a outros países “do Leste”, como à Bélgica, a Áustria, à Islândia), mais que uma vez, integrado no movimento pela Paz, pela coexistência pacífica, pela segurança e cooperação europeias, essas coisas terríveis que o chamado “mundo socialista” acolhia e estimulava, juntamente com católicos, de outras confissões religiosas, socialistas… se há que colocar etiquetas às pessoas que, então, defendiam o mesmo, ou seja, a Paz, partindo de posições ideológicas diferentes.
TM&N – E gostou do que via?
Cá Eu – De um modo geral, sim. E olhe que não levava antolhos nem óculos fumados. Sobretudo me agradavam os esforços que via ou pressentia para que o mundo viesse a ser outro, em paz, mais solidário, ao contrário do que encontrava cá pelos nossos lados.
TM&N – Mas… e a liberdade? E as igrejas fechadas? E as proibições? Isso não viu, claro…
Cá Eu – Isso não vi… claro! Por acaso, uma vez, em Budapeste, tivemos uma reunião – e não foi clandestina, foi acompanhado por católicos, também defensores da Paz, do desarmamento, e etc. e tal - com um alto dignitário da Igreja Católica, assim acima de bispo (não sei muito dessas hierarquias...), e o cardeal ou lá o que era mostrou-nos o “livro de assentos” dos actos religiosos, e disse-nos uma coisa que não esquecerei (sabe como a memória é selectiva, e esta escrevia…), “a verdade é que, aqui, a Igreja e o culto não são atacados se não se meterem na vida política, aqui não somos privilegiados ou protegidos… mas os locais de culto são-no, e o Estado cuida deles como património, alguns como monumentos nacionais… disso não nos podemos queixar…”
TM&N – E as pessoas, a gente da rua, os que fugiam para o Ocidente, os que, nesta efeméride, corriam todos os riscos para atravessar o muro à procura da liberdade?
Cá Eu – Que quer que lhe diga? Não tinham desemprego, tinham educação e saúde como direitos, tinham transportes públicos a preço da chuva - o mesmo bilhete a preço irrisório em Moscovo e em Odessa, isto comprovei eu! –, tinham cultura para todos e não nivelada por baixo, preparava-se um futuro diferente em condições muito difíceis, em muitos casos mal, muitas vezes cometendo-se erros ou que, hoje se avaliam – e muitos já então – como erros…

TM&N - ... espere aí, espere aí... tenho de mudar de cassette...

Cá Eu - Fazfavor... isso não é piada, pois não?...

.

(segue no próximo e último número... e com outra cassette)

quinta-feira, novembro 12, 2009

Entre vista - 1

Entre vista Cá de Mim
a Todo o Mundo & Ninguém,
realizada em nenhures,
num dia destes, numa hora qualquer
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TM&N – Obrigado pela sua disponibilidade… Podemos falar sobre efemérides?
Cá Eu – Sobre o que quiser… mas começo por lhe dizer que fiz a promessa de durante 20 anos não falar sobre o muro de Berlim…
TM&N – … mas era por aí que íamos começar…
Cá Eu – … o que não quer dizer que não fale sobre a RDA, Berlim, os países socialistas, essas coisas…
TM&N – Ah!, bom... Então podemos começar... o que é isso da RDA?
Cá Eu – A RDA era um Estado chamado República Democrática Alemã, criado no âmbito das Nações Unidas, na sequência da derrota da Alemanha nazi e do desmantelamento do Estado nazi alemão, tendo vindo a criar-se dois Estados, a República Federal da Alemanha, RFA ou Alemanha Ocidental, e essa tal RDA, a República Democrática da Alemanha, ou Alemanha Oriental.
TM&N – Ah!, bom… Então, e Berlim?
Cá Eu – Berlim, de onde vêm aquelas bolas gostosas, era a capital da antiga Alemanha, a sede do Reich, estava (e está) no lado oriental, no meio da RDA. No entanto, teve um estatuto especial, e que deveria ser provisório, com um sector de ocupação ocidental – anglo, estadounidense, francês – e outro soviético.
TM&N – Ah!, sim?... depois?
Cá Eu – Bem, além de terem morrido as vacas e ficado os bois…. uma vez que o provisório não havia meio de o deixar de ser, os soviéticos entregaram formalmente o seu sector à RDA, passando a fazer parte integrante do Estado, ficando ali o sector de ocupação tripartida ocidental como um, digamos, corpo estranho incrustrado no meio de um outro Estado…
TM&N – Não sabia… É interessante… Nunca ninguém me tinha dito… E o muro?
Cá Eu – O muro aparece depois…
TM&N – … a dividir a cidade em duas…
Cá Eu – Não! À volta do sector anglo, estadounidense, francês da cidade, ali no meio da Estado RDA… mas sobre o muro já falei demais… só daqui a 20 anos.
TM&N – Mas não me diga que estava de acordo...
Cá Eu – … não digo nada, não presto declarações sem a presença do meu advogado. Mas, imaginemos uma fronteira, com ou sem muro (há por aí tantos…), escandalizo se disser que preferia o modo como se vivia na RDA ao modo como se vivia na RFA, incluindo o bocadinho lá no meio da RDA?
TM&N – Não me diga!
Cá Eu – Vê? Escandalizei-vos, a vocês tão bem informados, isto é, de(sin)formados… Pois digo! E digo-vos porquê.

(segue num próximo número)