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sexta-feira, agosto 23, 2019

As 1001 faces e disfarses da luta de classes

 - Edição Nº2386  -  22-8-2019
Que linda barquinha!

Em miúdo, havia uma cantilena de um jogo que rezava mais ou menos assim. «Que linda barquinha, que lá vem, lá vem! É uma barquinha que vem de Belém!»
A lembrança foi imediata quando vi uma das muitas notícias sobre a viagem de Greta Thunberg (a jovem sueca que é o rosto visível da chamada Greve Climática) até Nova Iorque, onde discursará na Cimeira do Ambiente a 23 de Setembro.
Dá-se o caso da jovem, catapultada a estrela mundial, ter decidido não ir de avião por causa da, indesmentível, pegada ecológica desse meio de transporte e optado pela via marítima.
Nada haveria a registar, não fosse dar-se o caso de os poderes deste mundo, que ela diz contestar, lhe terem facilitado uma viagem num catamarã de luxo (um iate que, segundo o Público, custará mais de 4 milhões de euros), tendo como tripulante um dos netos do Príncipe do Mónaco.
A decisão – tomada vá-se lá saber onde e por quem – foi transformar esta viagem, que poderia ser feita num normal cruzeiro regular por pouco mais de mil euros e em menos tempo, numa aventura, numa autêntica epopeia, que até tem direito ao acompanhamento permanente de um realizador de cinema.
Afogado na sua crise sistémica, incapaz de encontrar soluções que lhe permitam mais do que fôlegos temporários, o capitalismo procura arranjar distracções, elementos dispersivos e heróis de ocasião.
O dramático é que os problemas ambientais existem mesmo, e enquanto as mãos escondidas que manobram as marionetas encenam o próximo filme, com potencial para garantir uns milhões de bilheteira, o modo de produção capitalista está a atirar o Mundo para um abismo, colocando, de facto, em causa a Natureza e a nossa casa comum.

A esperança vem de sabermos que só quando se puser em causa o capitalismo este filme pode ter um final feliz. Nós sabemos o caminho!


João Frazão 

sexta-feira, novembro 24, 2017

Com a força de muitos...

O prazer - amargo mas de esperança - de ler (e de transcrever) um pequeno texto muito vivido e... bem escrito.

 - Edição Nº2295  -  23-11-2017

Um pinheiro de Natal

Em Póvoa de Mosqueiros, Santa Comba Dão, já faz frio. As noites pedem lareiras acesas, mas foi a conversa a propósito dos incêndios, no salão da Associação local, que aqueceu o ambiente da passada sexta-feira.
Afirmada a avaliação do Partido sobre as origens e os responsáveis da dramática situação vivida este Verão, e a exigência de que o Governo responda, com clareza, às necessidades imediatas das populações e aos apoios à restituição das condições de vida e de trabalho, as opiniões e perguntas sucedem-se, vindas de quem viveu a tragédia e tem para contar momentos de horror, mas também de coragem, de sobrevivência e de capacidade de luta pela vida que continua.
No seu olhar seguramente septuagenário, rugas no rosto cansado mas vivo da experiência, na sua determinação de mulher beirã habituada às agruras dos dias, a primeira intervenção põe tudo a nu.
«Nós aqui perdemos a floresta toda. Desde aqui até ao Mondego não há uma árvore que tenha ficado viva. Isto foi só o seguimento do que nos fizeram ao longo destes anos todos. Nós não temos médicos, não temos escolas, não temos transportes. Estamos para aqui abandonados por toda a gente.»
Compreensível sentimento de abandono por sucessivos governos, de quem, apesar de todas as evidências, não consegue identificar na política de direita a origem dos seus problemas.
Da mesa, os camaradas de lá lembraram os que sempre lá estiveram, na luta contra o encerramento do SAP de Santa Comba Dão, contra a privatização da água, bem como na vitoriosa luta contra o encerramento do Tribunal.
A septuagenária não desarma. «Olhe que nós aqui já nem temos sequer um pinheiro para o Natal». A noite já vai longa e escura. Tão escura como estão hoje os pinheiros que outrora deram verde e vida àqueles lugares.
Voltamos com a certeza de que o que faz falta àquele povo é um pinheiro de Natal onde se possa pôr uma outra política, patriótica e de esquerda. Mas esse tem de ser cortado com a força de todos.

João Frazão