quarta-feira, agosto 15, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 8

Ela, em Lisboa,
nos mesmos dias, mês, década, século

Enquanto acontecia o que em Estrasburgo aconteceu, ela, em Lisboa, congeminava.

No intervalo de duas reuniões e de três telefonemas multilingues, começara a tricotar um plano secreto, que melhor lhe chamaria contra-plano se adivinhasse o que em Estrasburgo originara aquele eureka.
Sorriu‑se quando lhe veio a ideia.

"Ele ia ver...oh!, se ia…".

Ele, Sua Excelência, o senhor deputado, que tinha a mania que dispunha de muita capacidade de manobra e argumentação… nem sequer fora capaz de conseguir adiar uma reunião em que, ao que dizia, não podia deixar de estar presente.

"Ele ia ver... ai ia, ia...".

Ele,
ainda em Estrasburgo

Em Estrasburgo, ele, o deputado, programava a sequência das operações, entre uma intervenção num debate, uma declaração de voto, uma reunião do grupo, uma gravação para a televisão.

Acção prévia: organizar os seus passos em articulação com uma informação e uma publicidade (só dirigidas a ela) sobre uma sucessão de acontecimentos fictícios... e credíveis.

Cautelas a tomar: sobretudo, aguentar os próximos “quinze dias” sem fugas de informação, sem "escorregadelas". Tinha de se controlar nos telefonemas e nas conversas "ao vivo" nos fins-de-semana. Nada fácil, nada fácil...

terça-feira, agosto 14, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 7

Foi uma noite agitada

Passou a noite meio desperto, entre dúvidas e contradições.

De manhã, meteu‑se no duche como quem procura uma terapia que o desperte para um dia novo, lavado da insónia, limpo das teias de aranha com que as noites mal ou não dormidas enchem as cabeças.

Mais uma vez, como gostava de fazer, ele interpretava aquela subtileza linguística que valoriza o português face ao francês. É que, enquanto os franceses não fazem mais que "se laver les cheveux", os portugueses lavam é a cabeça. Às vezes com tanta força que até o fazem por dentro... Como ele o fez naquela manhã.

De repente, do meio da espuma espalhada pelo cabelo, barba e resto do corpo, saiu o eureka tantas vezes repetido desde que um grego - parece que filósofo - o gritou no banho de imersão em que flutuava sem saber porquê até esse tal eureka que o fez saltar da banheira.

Foi depois desse preciso, concreto e aportuguesado eureka, soltado do duche e não do banho de imersão, que começou a lenta e laboriosa montagem de um plano, peça por peça, como se fosse um assalto a um comboio-correio. Ou uma conspiração. Como, no “antigamente”, participara em algumas.

"Ela ia ver... ah!, ela ia ver...”

domingo, agosto 12, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 6

Durante o dia,
que se prolongou pela noite

Durante o resto do dia, no turbilhão do trabalho - que muito era sempre, e ele ainda lhe somou aquelas "habilidades" -, distraiu a vontade de telefonar e, quando chegou a noite, quando finalmente falou para ela, não lhe disse nada da mudança. E ficou surpreendido e irritado.

Primeiro, por ela nada lhe ter perguntado. Depois, por ele próprio ter calado o que não lhe saía da cabeça.

Na cama do hotel de Estrasburgo, o sono não queria terminar aquele dia, como o cansaço habitualmente o apressava.

Até lhe viria a parecer que não teria mesmo chegado. Dormia, se dormia, pouco e mal. E, se não tinha razões para isso, foi‑as inventado.

Magoava-o, sobretudo, o desinteresse dela, o não lhe ter perguntado se ele conseguira alguma coisa com os esforços que lhe dissera ir fazer. Custava-lhe que ela não lhe tivesse perguntado se ele conseguira o que, afinal, conseguira mesmo.

Sentia irritação e amuo. Só atenuados, ou impedidos de crescer, por se lembrar vagamente que lhe teria dito, antes, no telefonema anunciador da “catástrofe”, que seria quase impossível vir a ter bons resultados nessas eventuais tentativas, que nem valia a pena esperar.

No entanto…

Miguel Torga

Em tempos que vivemos, sabia este poema de cor e, de vez em quando, gritava-o! Porque não queria chorar, porque não sabia cantar, porque recusava fugir.
Também hoje, neste tempo que vivemos, por vezes apetece cantar, apetece chorar, apetece gritar, apetece fugir. Mas, nesses tempos que vivemos como neste que estamos a viver, há que gritar, há que chorar, há que cantar. Há que lutar, seja cantando, ou chorando, ou gritando!

Dies irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga

sábado, agosto 11, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 5

Assim estavam as coisas

Ora, estando assim as coisas, na manhã do dia seguinte, em conversa com o presidente da dita comissão especializada, conversa que ele provocara para trocarem impressões sobre emendas a um relatório em votação naquele plenário de Estrasburgo, descortinou uma aberta inesperada numas reticências processuais.

Com argumentação algo capciosa, apoiou o “caro colega presidente” nessas reticências, e tomaram a decisão de cancelar a tal reunião de Bruxelas ("desde que os outros não tivessem objecções, obvuamente...") em que se iria discutir e votar o relatório que tanto o perturbava (por razões não trazidas à conversa, que não tinham nada de a ela virem, claro), incluindo‑a na ordem de trabalhos da reunião ordinária já antes calendarizada.

Foi ele mesmo que andou numa roda-viva, de deputado em deputado, arranjando tudo, e que foi ao secretariado anunciar e dar instruções para o cancelamento da reunião extraordinária. "O caro colega presidente que não se incomodasse..."

Tudo tratado, libertado daquele compromisso, quase eufórico, a sua primeira reacção foi a de ir telefonar para ela, dar‑lhe a boa nova.

Mas não quis precipitar‑se uma segunda vez, reconhecendo que a má notícia fora dada cedo demais, sem ter esperado sequer pelos eventuais resultados da sua própria capacidade de iniciativa e manobra.

Sobre o "estado da blogosfera"

Está-se quietinho no seu canto, fazendo as matinais incursões pelos "favoritos". Blogosfera-se em circuito fechado. Até que, numa dessas quotidianas passagens, se encontra um "aqui" que convida a ir "lá fora", a sair do circuito. E "ali", naquele primeiro "aqui" encontra-se outro "aqui" também convidativo. E assim sucessivamente.
Regressa-se, assustado, ao canto. O "estado da blogosfera", reflectindo o "estado da nação (e do mundo)", é assustador. Ainda mais ilustrativo que aqueles programas de rádio que dão a palavra ao ouvinte, como se isso fosse... a democracia.
Tanta gente cheia de saber coisa nenhuma a ter opiniões definitivas sobre tudo, apenas informada pelo afinado "aparelho ideológico" do capitalismo global usando os grandes meios, mal compensada informação (ainda) pelo que é a sua/nossa experiência de vid(inh)a.
Bem difícil é o caminho da tomada de consciência para a chegada ao "reino da liberdade".

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 4

Ela,
em Lisboa

Ao telefone, emprestando boa voz à má fortuna, ela respondeu que também não tinha grande importância – "deixa lá…" –, jantariam dois dias depois, até se metia o fim-de-semana a seguir, e podiam pensar num programa mais interessante e repousante.

Ele,
em Estrasburgo

Com mais umas blasfémias, em que vários presidentes, funcionários do secretariado e deputados de outros partidos não foram muito bem tratados, ele fugiu a reagir à relativa irritação que lhe provocara a calma aceitação, por parte dela, de algo que o estava a perturbar e a estragar planos comuns.
Mas, nessa fuga a falar do que não queria, acrescentou que ainda faltavam duas semanas, com dois fins-de-semana em Lisboa, e uma ida a Bruxelas.

Os dois.
um em Lisboa, outro em Estrasburgo

“Logo se verá”, disseram os dois.

No entanto, antes de desligarem, ainda a ele lhe escapou um comentário muito rápido, a modos de resmungo, "parece que não tiveste grande desgosto... ainda bem!".
Ela fingiu não notar, sabendo que melhor seria não atirar achas para a fogueira da irritação daquele cavalheiro que tão bem conhecia.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Conversas à soalheira

- Não percebi nada daquilo de Timor?
- Pois é… só metendo explicador!
- Ajuda-me…
- Vou tentar… com um suponhamos.
Então é assim, suponhamos que em 2009, a nível nacional, se repetiam os resultados para a Câmara de Lisboa:
  • 35% de mandatos para a lista do PS
  • 20% para uma lista “dissidente” do PSD
    18% para a lista do PSD
    10% para a lista da CDU
    9% para uma lista de cidadãos “independentes”
    5% para a lista do BE
    3% para a lista do PP
tendo ficado sem eleitos, isto é, sem mandatos, 6% dos votos distribuídos por várias outras listas…
- … em Lisboa não foi bem assim…
- Foi mais ou menos (se reparares 6 vereadores em 17 é 35% e não 29% como foi a percentagem de votos no PS). Aliás, isto é para arredondar, e tem a ver com o facto da distribuição dos mandatos, no caso das legislativas não só não coincide com a da votação mas é distorcida pela implantação distrital… De qualquer modo, isto é só um suponhamos.
- Continua, continua…
- Depois de consultas, negociações e outras manigâncias e manipulações com promessas de distribuição de ministérios e de outras prebendas, suponhamos que o PR, o inefável Cavaco Silva, tomava a decisão de encarregar da formação do governo o presidente do PSD, sabendo que este teria o apoio dos seus dissidentes (ou dissid’antes), dos cidadãos eleitos na lista dos “cidadãos” ("independentes" e chateados com o PS por não os terem metido nas suas listas, assim regressando alguns à “casa de partida” com uma secretaria de Estado ou mais) e do em vias de desmascaramento total BE, desta forma alcandorado ao desejado estatuto de oposição por dentro… de um ministério (ou mais).
- 'Tou a ver..
- Pois ‘tás… e pega na máquina de calcular: 20+18+9+5 igual a 52% de mandatos e 46+41+20+12 deputados igual a 119 em 230 deputados... isto é, maioria absoluta e ainda com os 3% e 7 deputados do PP de reserva.
- E assim o PS, com mais votos, clara maioria relativa e larga maioria relativa de deputados (81!, seguido de 46 do PSD a quem se atribuía a formação do executivo) ficava fora do governo da nação.
- Claro…
- Pois é… e os 20 deputados do PCP e mais os 3 dos Verdes eleitos na CDU, e representando 10% dos mandatos não contam?
- Ah! isso representaria outra enorme vantagem desta “solução democrática”: não ser preciso contar, para a solução institucional, nem com os comunistas nem com os "verdes", não obstante a sua real implantação na vida social portuguesa.
- Coisas da democracia ocidental…
-… burguesa, burguesa…
- Dizes bem…
- Pois é… até porque também é oriental… e não nos esqueçamos de Timor que era o começo da conversa.
- Tens razão… mas é fácil: é só mudar alguns nomes e designações. Experimenta: vê lá onde hás-de pôr Ramos Horta, Xanana Gusmão, Fretilin.
- Não há-de ser difícil…
- E acrescenta petróleo e Indonésia e Austrália... EUA não vale a pena acrescentar porque esses estão em todo o lado.
- ‘Tá feito.
- ‘Tamos mas é feitos!

(ajudado, ou inspirado…, pelo Imaginemos do Henrique Custódio no Avante! de ontem)

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 3

Ele, em Estrasburgo,
nuns dias quaisquer
de um mês que não importa,
na primeira metade da década de 90 do século xx

Mas o que os homens fazem ou sonham, o Parlamento Europeu pode desfazer, e, na sessão plenária de Estrasburgo a que ele fora, como deputado no Parlamento Europeu, foi desfeito o que sonho era e projecto se ajustara à partida de Lisboa.

E desfeito foi porque, entretanto, lá num dos intervalos do plenário, se marcou para Bruxelas uma reunião de comissão, com discussão e votação importante para o seu trabalho, e precisamente para a manhã do dia seguinte à noite do desejado jantar.

Ele viu logo que não havia maneira (ou avião!) que lhe possibilitasse jantar em Lisboa e estar em Bruxelas antes do meio-dia. Logo naquela semana em que não tinha outras reuniões que exigissem a sua presença em Bruxelas e que, por isso, vinha mesmo a jeito para o “tal” jantar.

Correu a telefonar‑lhe a notícia, praguejou como fazia frequentemente nos últimos tempos, disse que ainda ia ver se conseguiria alterar as datas para poderem jantar juntos nesse dia querido.

Mas foi avisando que lhe parecia quase impossível, pois já não haveria qualquer reunião da comissão até à que se iria realizar em Bruxelas, naquela fatídica manhã. E acrescentou coisas sobre a “pontaria destes gajos”, gajos que ele nunca se cansava de etiquetar com palavras mais pesadas.

quinta-feira, agosto 09, 2007

6 e 9 de Agosto de 1945

A Maria, de O Cheiro da Ilha, no dia 6 de Agosto lembrou-nos a "Rosa de Hiroshima" para nos lembrar Hiroshima. Fez bem. Agradeci-lhe e saudei-a. Retomo, hoje, a lembrança.
Hoje, e sei porquê, aqui voltei
Hoje, e sei porquê, de novo ouvi os Secos e Molhados
e de novo ouvi o Ney Matogrosso cantar Vinicius de Moraes
Hoje, e sei porquê
Hoje, porque não chegava Hiroshima,
Hoje, 9 de Agosto,
porque ao horror de Hiroshima se quis juntar o horror Nagasaki
Hoje, e sei porquê,
porque é hoje - também - que é preciso dizer "oh não se esqueçam"!



Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexactas

Pensem na mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioactiva

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atómica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

postalinhos...

(fresquinhos... já de hoje):

No noticiário das 9: a Galp aumentou os seus lucros em x-por-cento (muitos!).

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(Ontem, e anteontem, e transanteontem, foram outras, dos seguros e da banca, que aumentaram – e muito – os seus/deles lucros).

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Ainda na rádio, e parece que apropósito…, ficámos a saber que o preço dos combustíveis deve aumentar.

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Tirei os olhos do computador e fiquei a pensar, perplexo…

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Ah! já sei… é a teoria dos vasos comunicantes… para que umas coisas aumentem, outras têm de diminuir.

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Era assim a teoria?

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Sei lá… é assim a realidade.

postalinhos...

(do caderno VII "os primeiros dias segundos", ontem):

Fui almoçar ao Borsalino.

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"Borsalinadas", claro, na toalha de papel…

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A diferença entre os homens!

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Como os homens são diferentes!

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Uns, falam alto, tão alto que todos à volta os ouvem…

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… até os que não os querem ouvir!

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Outros, falam baixo, tão baixo que nem os mais próximos os ouvem…

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… mesmo os que têm de os ouvir!

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Vivemos o tempo (histórico) da narcotização global.

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As questões fulcrais:

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1. Que mundo nos recebeu?

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2. Que mundo ficará para depois de nós?

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3. Que fizemos nós no intervalo?

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4. Para que contribuímos?

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5. Gozámos ao menos a nossa vid(inh)a?

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS - 2

Parte 1
PRIMEIRO DESENCONTRO
POR AMOR DE DOIS


Intemporal
ou uma história do que é eterno enquanto existe

Não era igual. Não podia ser igual ao que tinha sido há 20 anos.

Mas continuava a ser amor.

Tinham, ao longo dos anos, criado o hábito de jantar num dia certo do ano no mesmo restaurante em que, há 20 anos, os juntara os primeiros convite e aceitação. Nunca falhara, apesar das idas e vindas, de dificuldades várias.

Não se tratava de comemoração, diziam, até porque houve anos em que alargaram o jantar a amigos porque dera jeito, sem que lhes tivessem comunicado alguma razão especial para aquele jantar, ou para que o jantar fosse só (ou particularmente) deles.

Mas, talvez porque 20 é um número redondo, naquele ano esperavam a data com alguma relativa ansiedade.

Talvez porque havia alguns problemas na vida de cada um que se reflectiam numa certa necessidade de se refugiarem na vida que deles era. Talvez porque novos trabalhos e outras tarefas mais os afastassem e fizessem sentir saudades do que continuava a ser.

Assim se disseram, e assim pensaram fazer.

Tendo falado disso com uma inabitual antecedência, naquela despedida que, como todas, semana a semana, já preparava o regresso.

quarta-feira, agosto 08, 2007

UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS

PRÓLOGO

Nada do que vai ser contado aconteceu.

Ou melhor (para que melhor se conte):
o que vai ser contado não aconteceu… mas podia ter acontecido!

Aliás, já está contado em várias formas e formatos. Mas apenas para “consumo interno”. Isto é, em círculo muito restrito. Entre os dois (quase) protagonistas.

Agora, vai sê-lo na versão folhetim-blog.

Novo, inovador? Não, decerto. Mas talvez sim…

Um episódio por dia (se não houver falhas…), durante 20 dias.

Com eventual prolongamento.

Duas informações

1.- No "blog" som-da-tinta continua a viagem no "cavalo de pau com Sancho Pancho". Atravessam-se, agora, as difíceis passagens dos encontros que, segundo Aquilino, Cervantes teria tido com o Santo Ofício, entre a 1ª e a 2ª parte do D. Quixote. São conversas muito interessantes, de que se retiram curtos (?!) excertos, a partir do que Cervantes escreveu, analisado à lupa por aquele Tribunal, e como estas conversas teriam condicionado, dado Cervantes ser homem de "cautelas e manhas", a 2ª parte de D. Quixote. Sei que não estou a fazer a viagem sozinho mas, ainda que o estivesse, bem compensado me sentia...

2.- A partir de hoje, do próximo "post", e durante 20 dias, vou publicar o (meu) primeiro folhetim-blog. Será a 1ª parte de UMA HISTÓRIA DE AMOR ou DE (S) ENCONTROS, que terá 2ª parte ou não. Depende.
É uma história que estava há longos anos (para aí uma década) na gaveta, e tem tido vários tratamentos formais. Vamos ver o que vai dar este...

terça-feira, agosto 07, 2007

Quem é que ganhou?...

- Então… como foi o jogo?

- Ahnn… não percebi lá grande coisa…

- Mas quem é que perdeu?

- Neste jogo os que perdem não jogam…

- ‘Tá bem… então, quem é que ganhou?

- Os que ganham sempre… aliás o jogo não acabou.

- Ah não!, porquê?

- Por avaria técnica… tudo muito esquisito...

- E agora?

- Agora, o jogo continua… isto é um verdadeiro casino!

- ... e sempre os mesmos a perderem sempre e sempre os mesmos a ganharem sempre.

- 'Pera aí... não foi o James Bond que disse nunca digas sempre?... ou foi o Jardim Gonçalves?... Se calhar foi o outro...

- Olha que não, olha que não... se calhar foi o Marx...

postalinhos...

As fotografias entraram-me pelos olhos dentro, li os títulos, passei adiante.

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No actual estado de cousas, não é tema que estime prioritário.

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Apesar da questão tornada central serem mais de 20 mil euros por mês (e quantos meses?)… isto são apenas trocos.

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Bem mais no cerne, no osso, estão os milionários lucros dos bancos, das seguradoras e etc. e tal, em confronto com o papel que se quer atribuir ao Estado e aos seus trabalhadores, aos directores-gerais e… aos outros, à ralé.

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Aliás, as fotografias não me foram agradáveis à vista – o homem não é fotogénico (do que não tem culpa nenhuma… nem o fotógrafo) – e não gosto de dedos espetados.

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E os títulos, se escolhidos para serem atractivos, repeliram-me.

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Tal como não gosto de dedos no ar em frente do nariz, aquelas coisas do estilo “o erro está…”, “a maior doença é…”, “os piores ganham demais” são demasiado afirmativas, pesporrentas, para meu gosto, repelem-me.

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Agridem-me.

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Entretanto, e talvez pelo último título citado e pela aparente consensualidade que rodeia as frequentes afirmações e aparições públicas do senhor, dei por mim a querer reagir.

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Não que sinta qualquer acicate (ou invejinha) por o trabalho do homem ser tão excelentemente remunerado (mais em 1 mês que em 4-anos-4 de salário mínimo, quase tanto em 1 ano como em 30-anos-30 de um salário de 1000 euros mensais!)

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Não que defenda qualquer forma de igualitarismo e de menosprezo pelos méritos de cada um.

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O que me faz reagir é que defendo, defendi e defenderei, uma organização da sociedade em que, havendo direitos – à vida, ao trabalho, à saúde, à educação – que são universais, isto é, de todos, tal como há o dever de cada um contribuir para a satisfação deles à medida das suas capacidades, a partir desses pressupostos os seres humanos devem ser compensados proporcionalmente ao seu contributo para o bem-estar colectivo.

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E, depois, quando o “reino da liberdade” puder substituir o “reino da necessidade” porque haverá abundância, cada um deverá ter acesso ao que lhe satisfaça as suas necessidades, entre elas, claro, a de trabalhar e de ser útil a todos.

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Não que defenda a aplicação mecânica de fórmulas que, pela sua simplicidade, se podem tornar simplistas, mas, no caso e com as ditas reservas, parece-me oportuno lembrá-las.

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Se não, a sociedade assemelhar-se-á a uma selva de individualismo e competitividade.

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Haverá quem goste… enquanto se sentir com força predadora.

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Por mim, opto pela solidariedade.

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Feitios…

segunda-feira, agosto 06, 2007

Eu queria responder ao Marquês...

... mas o Marquês, recolhido no albergue dos danados, não se deixa comentar. Aliás a minha resposta à pergunta seria uma pergunta: Qual Guadalupe Müller tem a ver com a máquina dos flippers (ou com os matraquilhos?), a Vanina, a Beatriz ou outra qualquer?.
Poupa-me, pá!

Leituras na madrugada

"Um sistema que se baseia na corrupção de figuras públicas não pode tratar bem figuras públicas que se recusam a ser corrompidas".
(Confissões de um mercenário económico - a face oculta do imperialismo americano, John Perkins, ed. GESTÃOplus, Cascais 2007)
... e tão mal as trata que, por vezes, as (consegue) assassinar... como o autor tão bem sabe e, confessando, o conta...

domingo, agosto 05, 2007

Informação

No blog Som-da-Tinta "postaram-se" mais dois pequenos (?) excertos de No cavalo de pau com Sancho Pança, os 45 e 46 da série, estes sobre justiça e juízes no caminho percorrido por Aquilino Ribeiro (e nós com ele por excelente companhia) para chegar à governação como forma de arbitrar equidade, como exemplificou Sancho Pança enquanto Governador da Baratária.