sexta-feira, agosto 14, 2015

AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS CONTADAS AOS PEQUENITOS - 1

O "nosso" cartoonista de piquete enviou-nos uma série de 8 cartões em que conta as eleições aos pequenitos, comentados pela sua - e nossa! - pequenita.
Acolhe-se a iniciativa com grande satisfação até porque é de pequenito que se torce (ou se tenta distorcer) o cidadão... 


terça-feira, agosto 11, 2015

Revendo matéria dada nestes últimos 20 anos - 3

(...)
25. Quanto ao calendário da introdução do ecu como meio de pagamento legal, o que temos na sub-comissão monetária é um projecto de relatório do deputado Metten, na continuidade de um relatório já existente do grupo de peritos para a transição para a moeda única (MAAS).
26. Este projecto de relatório, de que também deixo cópias, é um documento bem diferente do de Katiforis, não obstante serem ambos do PSE (Partido Socialista Europeu), um vindo da Grécia e outro da Holanda.
27. Metten torna clara, para não dizer despudorada, posição no sentido do "desejo de que a 3ª fase da UEM se inície o mais breve possível" não importa como nem com quem... desde que seja depressa.
28. Assim, o seu projecto de relatóro propõe que, de acordo com Maastrich, o Conselho Europeu decida, até 31 de Dezembro de 1996, se a maioria dos Estados-membros que desejam integrar a UEM satisfazem os critérios para a passagem, a partir do pressuposto de que essa maioria - que é de 8 em 15 Estados-membros - existem.
29. Embora seja mais que discutível a previsão "optimista" de Metten, pois hoje só 3-4 Estados-membros estão relativamente seguros quanto ao cumprimento dos ditos critérios de convergência nominal, é utilizado o argumento, que tem laivos de cinismo, de que não vale a pena esperar pela segunda data de Maastrich - 31 de Dezembro de 1998 - porque também então não seria possível ter os 15 em condições de passarem à 3ª fase, acrescentando que o adiamento da decisão "não representa uma solução para a desgradável perspectiva das duas velocidades num único mercado interno"... pelo que avança o útil (para as transnacionais) apesar de desgradável (para os países que não estarão em condições, e para a dimensão social).
(...)
31. O que é significativo é que, no projecto de relatório, para além da referência à "desagradável perspectiva das duas velocidades", não haja qualquer outra referência aos Estados-membros susceptíveis de estarem no "pelotão da frente", mas decerto Portugal não se encontraria entre eles mau grado as escavacadas presunções (e água benta...).
(...)
34. No entanto, tudo isto parece ficção, embora seja, na nossa perspectiva, um espectro, pois representará a consagração de um passo que, servindo as transnacionais, terá consequências sociais graves, quer para os Estados-membros que poderão e quererão entrar na 3ª fase, quer, sobretudo, para aqueles que não o possam, mesmo querendo-o os seus governos, que, com esse objectivo, mais agravarão as já desfavorecidas e deterioradas situações sociais.  
(...)
40. Começaria pela economia nacional e sublinharia  que, além dos condicionalismos já enunciados e resultantes - e agravados - da forma como o governo PSD (e o PS à sua não melhor maneira) obedecem à estratégia transnacional de dimensão comunitária, importa acrescentar algo sobre a palavra-chave competitividade.
41. O conceito-instrumental competitividade, tal como é usado e abusado, é uma arma da luta de classes pois visa a moderação salarial, a flexibilidade do "mercado do trabalho", a desprotecção social, ou seja, a mercadorização da força de trabalho beneficiando da variável estratégica desemprego.
(...)
45. Em relação a este aspecto (clientes), só acrescentaria a importâcia que têm, em Portugal, país de emigrantes, as remessas dos emigrantes que, nesta óptica, deixariam de ter quaisquer virtualidades no que respeita a meios susceptíveis de fomentarem desenvolvimento económico, para serem canalizados para off-shores em aplicações especulativas, esvaziando-as de sentido social e criando eventuais e bem prováveis novas formas de discriminação.
46. Por último, umas observações quanto aos trabalhadores, e partindo do mesmo conceito de competitividade pois ele é o fundamento e a justificação da dispensa de recursos humano, eufemismo para despedimentos em massa, e de critérios de recrutamento e admissão.
47. Do relatório da Federação de Bancos da UE, tira-se que o ratio de activos por trabalhador,nos bancos comerciais, em 1993, era de 1,95 em Portugal e de 4,3 na UE, e que o ratio  relativo a depósitos era de 1,18 e de 2,17, respectivamente, o que levava a considerar que, para se atingirem níveis "europeus" de produtividade/competitividade, haveria que eliminar entre 27 a 32 mil postos de trabalho, entre 45% e 55% dos existentes,
48. Há quem esteja fazendo estas contas, no cinzentismo dos critérios de convergência nominal e na ausência de opções e políticas nacionais tendo objectivos prosseguidos por políticos portugueses e partindo de situações e recursos portugueses, há quem esteja disposto a servir-se destes cálculos para fundamentar políticas e acções só travadas, no curto prazo, pelo forçado escalonamento de tão impopulares e insuportáveis consequências sociais.
(...)
50. Vou acabar, porque cheguei ao ponto 50 que era o meu limite, e nem sequer me referi às directivas, particularmente à do branqueamento de capitais que me parece muito significativa; espero ter trazido alguma informação minimamente útil, útil para alimentar a nossa luta porque o aparente beco sem saída em que nos encontramos tem uma porta larga que é a de uma outra política, e a ela se chegará se formos capazes de ser melhores na luta, mais informados, mais informemos os outros e, por isso, mais a lutar.  

Revendo matéria dada nestes últimos 20 anos - 2

Parece que tudo anda em órbita à volta do euro. Mas o euro não é mais que uma ferramenta, ou instrumento criado (juntamente com a instituição Banco Central Europeu) como resultado e ao serviço de uma estratégia.
Não, não foi um erro. Quanto muito teria sido um erro técnico para servir uma estratégia política errada (numa valoração em critérios sociais ou humanos). Assim a modos de uma demonstração da fórmula escolar menos por menos dá mais.
A arrumar papeis - ciclópica tarefa de inevitável periodicidade - encontrei o guião da participação num debate partidário sobre o sistema bancário, para trabalhadores da banca. Em 1995, no dia 13 de Maio. Como uma aparição para condizer com o lugar e a data em que vivo e "arrumo" papeis...
Foi a minha contribuição introdutória para o debate, "consequências e efeitoa para o sistema (bancário) da integração europeia na perspectiva dos 
- trabalhadores
- clientes
- economia nacional"
aproveitando a circunstância de então estar no Parlamento Europeu e na tarefa de pertencer a sub-comissão monetária, verdadeiro estaleiro para a construção da moeda única, da passagem à 3ª fase da União Económica e Monetária, seguindo Maastrich.
O guião tinha 5 recheadas páginas com 50 tópicos, de que respigo alguns, com a amarga satisfação de ter cumprido a missão. Não a de ter razão, mas a de ter interpretado bem a "leitura" histórica a fazer do episódio em que participava. A informar, a prever, a alertar, a prevenir, a mobilizar, a procurar que fossemos mais a mais e melhor resistir ao que se apresentava como fatalidade. Fatalidade que, antes de ser, já o era. E se continua a procurar a apresentar como sendo uma fatalidade. E que o é... mas não no sentido de inevitabilidade!
«(...) 8. A tão decantada globalização corresponde, na nossa terminologia, à extensão do capitalismo a todo o espaço planetário, adequando as formas de exploração e de sobre-exploração a condições locais concretas, interligando-as numa estratégia mundializada por via da transnacionalização.
9. Como é evidente - ou deveria sê-lo - a "sociedade de informação" e as respectivas "autoestradas" são o resultado de conquistas técnicas da Humanidade postas ao serviço do capital transnacional, acelerando as deslocalizações do capital financeiro transnacional.
10. O aproveitamento destas novas tecnologias faz-se no quadro de uma decretada livre circulação de capitais, decorrente do mercado único - de 1992 e UEM -, tornada libertina por se pretender à margem de qualquer regulamentação e potenciando o ritmo de implantação e extensão dos "factos" crédito e desprezo dos objectivos sociais empresariais.
11. O neo (ou ultra)-liberalismo, a globalização e a monetarização da economia fizeram com que, "naturalmente", ao serviço do que sempre esteve, a integração económica europeia tornasse prioritária a construção da União Económica e Monetária, a passagem à sua 3ª fase, que representará a adopção da moeda única e do Banco Central Europeu.
(...)
16. O que quer dizer que, com pretexto - se assim é permitido considerar - de se atingirem metas à partida consideradas inatingíveis por muitos dos Estados-membros, impôs-se, a todos os Estados-membros, uma política que mais financeirizou as economias, que mais as monetarizou, que mais degradou as situações sociais, que mais cavou as diferenças económicas e sociais que tinham entre si, o contrário do objectivo da coesão económica e social também nos tratados mas muito maltratado ou ignorado.
17. De certa forma, acelerou-se, e de maneira que ultrapassa os limites de velocidade que a realidade poderia aceitar, a evolução dos factos que, entre outros, referi como característicos do capitalismo contemporâneo, e que teriam a ver com o crédito e a especulação. 
18. Neste enquadramento muito rápido, umas palavras/sentenças sobre os chamados produtos derivados, sobre o calendário para introdução do ecu como meio de pagamento legal e seus desenvolvimentos, e sobre o primeiro relatório do Instituto Monetário Europeu.
(...)
21. Esse documento de trabalho faz uma pedagógica retrospectiva sobre esses "produtos" enquanto herança de ancestrais operações de expectativas, antecipações, crédito, especulação, opções de compra e opções de venda, de certo modo comentando criticamente o que se chama "campanha de tranquilização (e não de manipulação, nem pensar nisso!) de vários auto-proclamados amigos das finanças".
22. Não me vou alongar muito, até porque deixo cópia do documento para consulta e estudo, mas refiro que segundo o autor (de um relatório do PE sobre o documento do IME), o deputado Katiforis, "qualquer um se pode tornar especulador, e mesmo com sucesso. É esta a beleza do ofício. Conta Aristóteles que o filósofo Tales de Mileto comprou uma opção sobre prensas de lagar de azeite porque adivinhou pelas estrelas que a próxima colheita de azeitonas ia ser excelente..."


continua (o resumo!)...

segunda-feira, agosto 10, 2015

Revendo matéria dada nestes últimos 20 anos - 1

Pega-se no Expresso. Espesso. Passam-se páginas. Nalgumas, para-se. Com maior ou menor irritação. Chega-se ao caderno Economia. Aí, há mesmo que parar! Há que ler, que estudar. Há que rever matéria (alguma dada e repetida incessantemente nestas últimas décadas), e procurar perceber como "vão as coisas" (na economia...).
Uma paragem mais prolongada na página 5, até para se refrescar com o poema escolhido (quase sempre muito bem escolhido, particularmente nesta semana a assinalar a morte de Ana Hatherly com uma merecidíssima homenagem: "... A gente/só é dominada por essa gente/quando não sabe que é gente"!). E ler, mastigando, o "editorial" de Nicolau Santos  
Lentamente, pergunto-me eu? Ah! sim... mas há vinte anos, como instrumento criado por/para uma estratégia montada e posta em prática, vencendo resistências e lutas na relação de forças, tropeçando aqui, caindo ali, até ao tropeção final. 
Cumprido o papel, procurar-se-á voltar ao ponto de partida. Nas condições criadas. Por uma moeda que serve as economias fortes para ficarem mais fortes, periferiza as economias fracas a ficarem mais enfraquecidas. E mais dependentes.
Mas... que escreve NS?:
"...Indisciplina das finanças públicas desde 1974..."? Por inocência, incompetência, ou verdadeira armadilha como a "ajuda do FMI" e a dívida? 
Além disso, cuidado com as conotações e conexões. Desde 1974?! Depois do 25 de Abril de 1974 e até final de 1975, houve disciplina quase inacreditável, dadas as condições em que se fez a passagem do fascismo para o começo de  uma democracia avançada... a avançar.
Mais tarde, bem... depois veio a "construção" e introdução do euro...
Continue-se:

Está (quase) certo. Mas a finalidade, o objectivo, a obsessão é "... permanecer no euro..." ... já que nele entrámos, ou ele em nós entrou? 
"Como é que se sai deste imbróglio sem sair do euro?". A proposta de Hollande, embora cheirando a recauchutada, será uma via? Mas não seria, para nós, mais um adiamento, uma espécie de eutanásia, ou euronásia, ou euronáusea? Não seria continuarmos a ser "matados" lentamente?.

E temos de aceitar a fatalidade de que "e não há muitas mais" por fuga a encarar as outras vias?!
Como dizia Ana Hatherly "...O que é preciso é gente/que atire fora com essa gente..."

cam panhas

Obrigado.
GR7!

domingo, agosto 09, 2015

Para este domingo... de novo e sempre

La maza é uma canção composta por Sílvio Rodriguez em 1979 mas só editada em disco em 1982, em "Unicornio" 


LA MAZASi no creyera en la locura
de la garganta del sinsonte
si no creyera que en el monte
se esconde el trino y la pavura.

Si no creyera en la balanza
en la razón del equilibrio
si no creyera en el delirio
si no creyera en la esperanza.

Si no creyera en lo que agencio
si no creyera en mi camino
si no creyera en mi sonido
si no creyera en mi silencio.

Qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Un amasijo hecho de cuerdas y tendones,
un revoltijo de carne con madera,
un instrumento sin mejores resplandores,
que lucecitas montadas para escena.

Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Un testaferro del traidor de los aplausos,
un servidor de pasado en copa nueva,
un eternizador de dioses del ocaso,
júbilo hervido con trapo y lentejuela.


Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.

Si no creyera en lo más duro
si no creyera en el deseo
si no creyera en lo que creo
si no creyera en algo puro.


Si no creyera en cada herida
si no creyera en la que ronde
si no creyera en lo que esconde
hacerse hermano de la vida.

Si no creyera en quien me escucha
si no creyera en lo que duele
si no creyera en lo que quede
si no creyera en lo que lucha.


Ay, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Un amasijo hecho de cuerdas y tendones,
un revoltijo de carne con madera,
un instrumento sin mejores resplandores,
que lucecitas montadas para escena.

Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Un testaferro del traidor de los aplausos,
un servidor de pasado en copa nueva.

Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Un eternizador de dioses del ocaso,
júbilo hervido con trapo y lentejuela.

Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.
Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera,
qué cosa fuera la maza sin cantera.

En una entrevista concedida a la revista "La bicicleta" en 1984Silvio Rodríguez vino a aclarar todo esto al ser preguntado por el significado de La maza:

"La maza" es un poco la razón de ser artista, de su compromiso, que no se deja seducir por los artificios y superficialidades que suelen acompañar a algunas manifestaciones escénicas...

-¿La cantera es el pueblo?

La cantera es donde se sacan los cantos, la maza es con que se golpea. Si no hubiera una cantera de donde sacar un producto, algo, para qué serviría la maza.

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Que cada um faça a "sua" tradução
... na "língua" que melhor entenda 
e com que melhor se faça entender.

QU€ FAZER?

Sim!...

QU€ FAZ€R?

... pois o que temos de fazer:
lutar (como sempre),
criar as condições (com),
prepararmo-nos (para).

sábado, agosto 08, 2015

Pagina da Organização Regional de Lisboa do PCPOnde comprar EP no
distrito de LisboaPágina da Festa do Avante

25 anos do Fórum de São Paulo

 - Edição Nº2175  -  6-8-2015

Fórum de São Paulo

Terminou no dia 2 de Agosto a XXI edição do Fórum de São Paulo, um importante espaço de articulação entre partidos comunistas, progressistas e de esquerda da América Latina, em que participam actualmente 105 partidos de 26 países da América Latina. O Fórum assinalou os 25 anos da sua primeira edição, realizada em São Paulo e em que participaram Fidel Castro e Lula da Silva.
Nestes 25 anos aquela região do globo mudou muito e, independentemente de recuos e avanços, de maior ou menor consistência política de alguns dos processos, o sentido da evolução daquela realidade é muito positivo e projecta a América Latina para a primeira linha da resistência anti-imperialista. Os resultados dos processos progressistas e revolucionários que ali decorrem são muito palpáveis para grandes massas da população. No plano das relações internacionais, a América Latina é hoje um fulcro dinamizador de relações de natureza anti-imperialista e um importante actor no complexo processo de rearrumação de forças que marca a evolução mundial.
O Fórum de São Paulo é hoje um espaço com grandes responsabilidades na definição da visão estratégica para a América Latina. Se na sua primeira edição apenas o Partido Comunista de Cuba tinha responsabilidades governativas, hoje são mais de dez os partidos-membro do Fórum que estão à frente dos destinos dos seus países e é por ali que passa o importante processo de integração latino-americana.
Mas se a confiança e a determinação marcaram esta edição do Fórum de São Paulo, emergiu também a necessidade de unidade e luta contra a renovada ofensiva imperialista e das forças reaccionárias latino-americanas. Sabotagem económica, desestabilização e conspiração, manipulação mediática e dos sistemas de Justiça, recurso a grupos e gangues provocadores fascistas, são os métodos pelos quais o imperialismo tenta, em variados países, fazer aquilo que por via eleitoral não conseguiu nestes 25 anos: derrotar os processos progressistas e voltar a submeter a América Latina.
Se a observação dos trabalhos do Fórum nos permitiu olhar com confiança para aquela realidade e testemunhar o papel central de Cuba socialista neste processo, também nos demonstrou a importância crucial de reforçar a nossa solidariedade com as intensas e decisivas lutas que ali se travam.


Ângelo Alves

sexta-feira, agosto 07, 2015

GPS & MEDIA - um blogue para melhor se orientar...



... na floresta de enganos da comunicação social.

É esta a intenção. 
InFormarmo-nos!

Façam uma visita:
GPS & MEDIA
https://gpsemedia.blogspot.pt

T(á)Visto - O estranho caso do PM tagarela

 - Edição Nº2175  -  6-8-2015

O estranho caso
do PM tagarela

Era uma vez. Ou melhor, não é assim que se deve começar porque não vai tratar-se aqui de uma estória de faz-de-conta, mas sim, bem pelo contrário, de um episódio da vida real, breve mas verdadeiro e até porventura eloquente para quem o saiba decifrar. Assim, não se dirá que «era uma vez», mas antes que «é», ou talvez melhor que «foi», aqui e agora, nesta amargurada terra que se chama Portugal e assim continuará a chamar-se se as «reformas» incansavelmente encomendadas pelos que de facto parecem julgar-se os verdadeiros «donos de isto tudo» não chegarem ao atrevimento de mudar o nome do País. Foi, pois, uma vez, mais uma, em que o senhor primeiro-ministro se abeirou da dupla câmara/microfone, a arma temível e eficaz que lhe permite impingir ao espoliado povo os «contos para crianças» com que conta renovar o seu consulado lá para os princípios de Outubro, e falou. As suas falas, que por sinal são geralmente debitadas em tom convicto e por vezes quase convincente, com todo o ar de quem acredita que a realidade não é o que toda a gente vê e sabe mas sim o que ele inventa, costumam não ser matéria que valha a pena desmentir: é da mais remota sabedoria popular que a mentira nunca vai longe quando se aplica a substituir os factos, e que é assim com ainda maior evidência quando os factos têm o sabor das lágrimas da esmagadora maioria de um povo. Desta vez, porém, a coisa foi um pouco diversa da rotina: inesperada e estranhamente, o senhor PM aplicou-se a semear a inquietação de milhares de portugueses ao fazer queixa pública da Caixa Geral de Depósitos, o banco público a quem muitos confiaram as suas economias talvez exactamente por ser público neste tempo de derrocadas ou perigosas oscilações de bancos privados.

Uma inevitável dúvida
Concretamente, o que disse o senhor primeiro-ministro? Revelou, em tom de denúncia, que a Caixa Geral de Depósitos ainda não pagou, como já deveria ter feito, uns noventa mil milhões de euros que o Estado há uns tempos lhe emprestou e que já lhe deveriam ter sido devolvidos. Estava assim o primeiro-ministro a acusar a Caixa Geral de incumprimento, a revelar ao País um indício de dificuldades de liquidez por parte do grande banco do Estado, a sugerir implicitamente que a CGD talvez possa revelar-se um dia destes como não sendo uma instituição confiável. Não era apenas, por parte de um senhor primeiro-ministro, uma espécie estranha de tagarelice, era uma inconfidência surpreendente e grave, tanto e de tal modo que não escapou a uma admoestação branda mas nítida por parte de Marcelo Rebelo de Sousa quando do seu comentário semanal. Suponhamos, é claro que por inacreditável absurdo, que o senhor primeiro-ministro queria destruir a credibilidade da Caixa Geral de Depósitos junto da sua clientela e dos mercados: não é verdade que este aparente desabafo se adequaria ao fim em vista? Mas as boas maneiras e porventura o bom senso mandarão afastar essa tenebrosa hipótese: restará então, como probabilidade alternativa, a da incompetência, pois é óbvio que um PM competente e ajuizado não anda por aí, perante microfones e câmaras, a assestar golpes verdadeiramente baixos no maior banco português e único banco estatal mesmo que porventura se tenha tratado apenas de uma «gaffe» não premeditada ou de um momento de distracção. Acresce que qualquer memória de cidadão minimamente atento se recorda de um dado embaraçoso: de que o mesmo senhor, agora PM, em tempos anunciou o desejo de privatizar esta mesmíssima Caixa Geral de Depósitos. Como terá dito Henrique VIII em circunstâncias muito diferentes, «honni soit qui mal y pense», mas é inevitável a emergência de uma dúvida: esta inconfidência terá sido resultado de uma leviandade ou um passo numa estratégia? E, de qualquer modo, uma conclusão irrecusável: não é coisa que se faça.


Correia da Fonseca

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Já por aqui se tratou deste estranho caso, a que então se chamou abstruso. Não faltariam adjectivos para tão esconsas motivações do primeiro ministro, e nesta (como sempre) oportuna crónica CdaF é certeiro e ironicamente contundente. Não se resiste a duas observações (uma, aliás, justificada por comentário ao "post" de 30 de Julho):

  • É uma dúvida: o tal empréstimo da "troika" à banca não estava vedado, por ingerentes imposições da U.E., à banca pública?, não se tratou, por isso, de uma fórmula/artifício de aumento de capital?
  • A tagarelice do dito 1º (muito bem acompanhado,,,) não funcionou exactamente com sentido inverso no caso do BES, ao pretender tranquilizar o povinho, escondendo-se-lhe a desastrosa situação?

"Café da manhã"

Começo a ficar "agarrado". Eu, que deixei o "cafézinho da manhã" há quase 40 anox (consequência da contra-revolução e a tensão a 18/24...), começo a não passar sem um "expresso curto" para iniciar o dia. Por inconsciente (?) justo reconhecimento a "convites" à leitura como a desta "oferta" do jornalista Valdemar Cruz, de que deixo duas "amostras" e a sugestão de leitura completa: 


Valdemar Cruz
Por Valdemar Cruz
Jornalista

7 de Agosto de 2015

O Homem Invísivel 
ou as sombras da Europa

São 6h47 minutos. Começo a tirar-lhe o Expresso Curto. A esta hora, algures no Mediterrâneo, nas fronteiras da Líbia, do Iraque, do Paquistão, há gente em fuga. Homens e mulheres desesperados. Fogem de uma não vida. Procuram uma vida. Recordemos uma canção. "Clandestino", de Manu Chao. Fala da vida deixada entre Ceuta e Gibraltar e de vidas proibidas. Talvez seja uma boa oportunidade de dar dimensão ética à condição humana. E perceber como, afinal, nenhum homem é clandestino. Nenhum homem é ilegal. Sobretudo quando esse homem representa a figura do outro. O outro sobre quem todas as violências são admissíveis. O outro para quem olhamos sem ver. O outro transformado em inexistência. O outro feito inimigo, apenas por ser outro.
(...)  
Às vezes os jornalistas não conseguem continuar a olhar para o lado. E voltam. E voltamos a ter notícias sobre os naufrágios no Mediterrâneo. Regressaram às primeiras páginas nos últimos dias. A esta hora, lá vão eles e elas em frágeis embarcações carregadas de refugiados. De alguns ouviremos falar. De outros nunca saberemos. Nem dos seus vivos. Nem dos seus mortos. Estamos perante uma das maiores crises de refugiados das últimas décadas. Falam-nos agora dos refugiados em Calais, das mortes no túnel da Mancha. E não sabemos nada da morte. E não sabemos nada dos desaparecidos em silêncio. Sem testemunhas. E não queremos saber porque vêm. São empurrados aos milhões pelos conflitos na Síria, no Iraque, na Ucrânia, no Afeganistão , onde a morte pode estar também nas infinitas minas pessoais.
(...)
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E é preciso, é urgente irmos mais longe. 
Não no espaço, não no tempo. 
Ou não só no tempo e não só no espaço. 
Ir mais longe. Dentro de nós. 
De nós que somos o outro.
À procura das causas. 
Esquecidas. Ou escondidas. 


quinta-feira, agosto 06, 2015

Ainda hoje - 70 anos depois...

escolhemos este poema de Papiniano Carlos,
do seu livro caminhemos serenos





dos "depoimentos poéticos" 
insertos no livro editado em1967

Hiroxima - 70 anos

Já decidira referir-me, nesta manhã, à inesquecível efeméride deum monstruoso crime contra a Humanidade. Antes de o fazer, passei os olhos pelos mails e "tomei" o meu expresso-curto. Deixando para outro e bem diferente mensagem a frase "... e o nascimento de umanova ordem mundial, que tem vigorado quase intocada até aos nossos dias", que tem que se lhe diga, aqui fica um parágrafo de um texto de Nicolau Santos que merece ser lido e reflectido 70 anos depois

«Exatamente há 70 anos, numa manhã de sol tão bonita como esta que está hoje em Lisboa, um bombardeiro batizado Enola Gay, largava sobre Hiroxima a primeira bomba atómica a ser lançada no mundo. Morreram instantaneamente pelo menos 140 mil pessoas. Três dias depois, uma nova bomba de urânio foi lançada sobre Nagasaki, matando pelo menos mais 80 mil pessoas. Foi o início do fim da II Guerra Mundial e o nascimento de uma nova ordem mundial, que tem vigorado quase intocada até aos dias de hoje. O poder destruidor foi de tal ordem que Shintaro Yokoshi, um sobrevivente, diz no seu arrepiante testemunho publicado hoje no jornal i: "Pensei que tinha caído o Sol"(...).»

Em 1967, publicava-se em Tomar um caderno com "depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 20º aniversário da destruição de Hiroxima e de Nagasaqui"


voltaremos

quarta-feira, agosto 05, 2015

O "meu" emprego/desemprego


 Esta manhã, Luísa Meireles "oferece-nos", no expresso curto, umas informações e uns comentários que me desafiaram. Trouxe para a mesa, e bem servido..., o indispensável prato de emprego e desemprego:

"(o eleitor) até pode estar empregado, mas numa daquelas qualidades que as estatísticas (de há longos anos!) contabilizam como tal, para além de ter um emprego certo: ocupado num trabalho que lhe ocupa uma hora por semana, a fazer uma formação que, no fim das contas, não dá para nada, ou num estágio findo o qual vem para a rua. Desempregado só mesmo quem não faz nada destas coisas e, ainda por cima, procura ativamente emprego. Porque, se não procurar, já não é uma coisa nem outra, é simplesmente inativo.
Confuso? Também eu. Mas tenho clara a ideia que a realidade - ou a perceção que as pessoas têm dela - choca de frente com os números. Estes são o que são e, hoje, que se espera mais um boletim do INE sobre o desemprego (segundo trimestre) temos garantida a continuação da polémica (...)  A verdade chã é que Portugal tem hoje menos 26 mil desempregados do que no arranque da legislatura, mas também tem menos 210 mil pessoas a trabalhar, num aparente paradoxo (...)".

Sendo esta "a verdade chã" - menos 26 mil desempregados contabilizados, menos 216 empregos estatísticos - de onde se parte para o boletim de INE do 2º trimestre -, há que lhe juntar a verdade não menos chã e de mais difícil contabilização e estatistificação dos inativos por desencorajamento e dos emigrantes. que aproximaria a realidade da sua representação demo gráfica. Para eleitor ver... e "políticos" (no sentido restrito e empobrecedor da democracia) se assanharem.

Lido com estes aparentes paradoxos - que só o são por se pretender que a representação manipulada substitua a realidade viva - há décadas, labuta que mais se acentuou quando, em Agosto de 1975, fui nomeado Director Geral do Emprego e daí arranquei para um percurso de vida de década e meia em que a prioridade (quase exclusiva) de trabalho e estudo foi a problemática específica dos "recursos humanos" - com um "despedimento político-partidário" no 1º Governo Constitucional (e ganho de recurso), missões da OIT em Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique, um doutoramento -, pelo que leio o que agora se debate como se fossem provocações que, abusivamente, tomo por pessoais. Pelo que reajo e me atrevo a contribuir, com frases que sintetizam o que exigiria "semestres" mas pretendem ir ao âmago das questões... em questão ou em que estamos:

  • Deve entender-se o emprego como epifenómeno do trabalho, como sendo a aplicação da força de trabalho com a finalidade da produção e distribuição do produzido para a satisfação das necessidades humanas, produzindo-se o ser humano nessa actividade.
  • Por isso, o desemprego (real) não é a doença, é um sintoma (e gravíssimo!) da doença da sociedade, e não se ataca a doença com estatísticas (aspirinas...) para diminuir os sintomas (as febres).
  • Assim se iludem os pacientes (em toda a acepção da palavra) com (cont)habilidades e mézinhas à míngua de tratamento.    

E confesso ter recuado 4 décadas nesta manhã, e ter voltado, em correria, aos dias de hoje.

domingo, agosto 02, 2015

Lê-se e não se pasma


Mails amigos vão-me facultando informação vária para completar aquela que procuro de moto próprio (ou de bicicleta velha...) na cidade vizinha. É sempre útil, embora às vezes tropece em notícias e opiniões que dispensaria conhecer, como foi o caso neste domingo de alguma folga.
Na sua coluna dita & feita, o sr. José António Lima dedica a sua opinião (?) ao PCP. Com uma evidente irritação, que não consegue esconder ou disfarçar, por o PCP ter resistido a tantas certidões de óbito e manter, e até alargar, o seu "nicho de mercado eleitoral" (!).
Modere-se, homem. E não pasme com o que tanto o irrita. Assim, até se engana nas contas e fala de acontecimentos de há duas décadas e meia como se fossem de há 35 anos. Mas isso, década a mais ou a menos, não tem grande importância. Importãncia tem a raiva com que vira ao contrário frases ou interpreta perversamente posições explícitas, claras como água e que vão acolhendo adeptos em vários "leitores" do curso da História ("adeptando" as posições... não o PCP).
1. Não é só o PCP que acha que, com as derrotas do socialismo a leste, o mundo ficou (e está) mais perigoso, mais desequilibrado, embora talvez seja o único (das entidade ou personalidades) a ter as razões que tem e a dizê-las há décadas, e não só depois de tanto "caldo entornado"...
2. Não é só o PCP a considerar que se deve preparar a saída de Portugal do euro - por o povo português o decidir ou por interesses alemães e outros nos expulsarem. Valeria a pena citar Hollande e em ir buscar a uma outra secção do mesmo jornal a frase do ex-comissário António Vitorino "o GREXIT" não desapareceu, apenas foi escondido"? 
3. É claro que sempre houve quem preferisse meter a cabeça na areia a dar um pingo de razão ao PCP, como se este alguma vez tivesse feito "a exigência da saída de Portugal do euro e o regresso (imediato e sem mais) ao antigo escudo" (onde tresleu JAL isso?).
4. E sobre a Grécia que pontaria mais zarolha. Informe-se, homem... porque seria bom que JAL aprendesse alguma coisa sobre o PCP para não errar tanto o alvo, e não esburacar tanto tantos pés. E para sair do pasmo em que está.
5. Pasmo que não é inocente, diga-se. Que é de quem, sem reconhecer a luta de classes, tomou partido - e violento... pelo menos nas palavras - por um dos lados, pelo que lhe convém. Por isso, lê-se JAL e não se pasma. Lamenta-se.  
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sexta-feira, julho 31, 2015

1 de Agosto de 1975 - a coexistência pacífica e a ACTA DE HELSÍNQUIA

Por “encomenda” do avante! elaborei um texto publicado a 16 de Julho, na secção HISTÓRIA, sobre a Acta de Helsínquia assinada em 1 de  Agosto de 1975. A importância da efeméride justificava a “requisição” e para cumprir a tarefa recorri à memória e procurei documentação. Nem tudo foi aproveitado, até por razões de paginação, e – hoje – queria ainda aproveitar alguma. A começar por esta foto, que me parece muito elucidativa pois mostra Erich Honecker, da RDA (República Democrática Alemã), e Helmut Schmidt, da RFA (República Federal da Alemanha), em debate animado durante a conferência que levou à acta.  





A propósito, será oportuno melhor esclarecer o conceito de stato quo em que Lenine muito insistia e que é um pilar da coexistência pacífica. Stato quo não se traduzia, então, por imobilismo mas fazia prevalecer a dinâmica das massas, da consciencialização destas. Pela Paz, nunca como trégua na luta de classes, como Lenine frisou, no 8º Congresso (de 1920), no relatório sobre as concessões, ao apresentar duas teses: “primeira, toda a guerra é uma continuação da política do tempo de paz; segunda, as concessões em que acordámos, que nós somos obrigados a acordar, são uma continuação da guerra sob uma forma diferente, por meios diferentes.”
Como procuro relevar no texto para o ávante!, para Portugal a segurança e cooperação tem particular significado. Antes do 25 de Abril, por ser um Estado fascista e em guerra colonial, logo, contrário aos princípios em gestação; depois, por tais princípios coincidirem com os do Portugal democrático e revolucionário.
Em texto bem informado[i] conta-se que a situação portuguesa teve lugar de destaque em Helsínquia, com pressões ingerentes sobre Costa Gomes – sobretudo pelo 1º ministro do Reino Unido e o chanceler da RFA (ambos socialistas) com ameaças de cortes de apoios – e sobre Brejnev – também pelos socialistas europeus e por Kissinger que, em conferência de imprensa a 30.07.75, avisou (ou ameaçou?): «Uma actividade substancial levada a cabo por um país estrangeiro em Portugal será considerada inconsistente com o espírito, e mesmo com a letra, da declaração da CSCE» – pressões (e práticas entãoprosseguidas) evidentemente contrárias aos princípios (a)firmados!
Como referência pessoal mostrando como então considerei a assinatura da Acta uma importante mudança na dinâmica do processo histórico, convidado a dar testemunho num programa de televisão que M. A. Valente então conduzia sobre o facto mais relevante daquela semana ou mês, em Agosto de 1975 respondi, com alguma surpresa dado estarmos no escaldante “verão quente português”, que o facto mais relevante dessa semana teria sido a assinatura por Costa Gomes, em nome do Portugal democrático, da Acta de Helsínquia
Tanto mudou nestes 40 anos!





[i] - Tiago Moreira de Sá em http://janusonline.pt/2008/2008

quinta-feira, julho 30, 2015

As preocupações do dito nosso primeiro-ministro e a CGD

A preocupação do primeiro-ministro português em relação à Caixa Geral dos Depósitos (portuguesa), da forma como foi confessada em público, seria das coisas mais abstrusas se não estivessemos a viver o tempo e o lugar em que estamos. Com este desgoverno e na sequência destes anos e décadas de destruição. De destruição da economia produtiva, dos serviços públicos, de tudo que é nacional (... é nacional, é mal - é publico, é mau, é privado... é pior).
De qualquer forma... a forma como o dito primeiro.ministro se refere à gestão de um empréstimo de que é o primeiro responsável dos dois lados do empréstimo é realmente... abstrusa! 
Nem no confessionario e a um padre de confiança... como é suposto serem todos para o crente em confissão.

T(á)Visto - Avós...os que já têm pouco tempo para lutar por uma melhor vida para os netos

- Edição Nº2174  -  30-7-2015

No Dia dos Avós

O passado domingo, dia 26 de Julho, foi o Dia dos Avós pelo menos em Portugal e no Brasil, tendo a data sido escolhida, ao que consta, em consequência de o dia ser também consagrado a Joaquim, santificado por ter sido avô de Jesus graças à extraordinária gestação de sua filha, Maria. Não será uma razão e um vínculo parental exageradamente fáceis para o comum das gentes, nem geralmente o são as vidas dos santos e a sua projecção nos diversos quotidianos, mas é claro que não é isso que importa: o 26 de Julho é o Dia dos Avós em Portugal, aliás apenas desde 2003, e pronto. Tanto que pelo menos a TVI, talvez recordando-se um pouco dos bons velhos tempos em que era o canal de assumida inspiração cristã no quadro televisivo português, dedicou à efeméride cerca de uma hora no seu TVI24, acessível por cabo, decerto confiando em que os netos portugueses que apenas têm acesso aos quatro canais abertos se lembrassem dos seus avós sem que para tanto fossem ajudados pela televisão. De resto, não há motivo para descrer em que a inspiração dos céus possa servir também para recordar estas pequenas coisas, ela que, infelizmente, não parece que lembre as coisas grandes, fundamentais, às cabeças dos que têm a estrita obrigação de nunca as esquecer. Passemos. Para registar que na TVI24 foram entrevistadas pelo jornalista Henrique Garcia duas senhoras avós de excelente aspecto, com formação universitária e de nível cultural decerto acima da média portuguesa que, como se sabe, é baixinha de um modo geral e não apenas entre as avós. Sem nada que especialmente as recomendasse foram, sem dúvida, duas entrevistas agradáveis. E assim a TVI festejou, com perdão da palavra que é excessiva, o Dia dos Avós no Portugal de 2015.
Os que não têm tempo
Acontece, porém, que isto dos avós portugueses aqui e agora é assunto que na verdade exige muito mais do que a consagração de um dia em cada ano, como uma espécie de desobriga pascal transferida para os calores do estio pouco ou nada celebrada na TV ou fora dela. Como a própria televisão por vezes nos vai permitindo saber e como o nosso encontro pessoal com a realidade nos revela, a generalidade dos avós portugueses é talvez o sector social mais vergastado pela impiedade do Governo Passos Coelho e também o mais indefeso. Os avós, isto é, os velhos, assistem impotentes a que os pais dos seus netos sejam despojados do posto de trabalho que permitia a manutenção de uma vida familiar sustentável; vêem os netos a serem condenados a um quotidiano de privações várias que muitas vezes inclui a fome e noutras vezes passa pelo recurso a esmolas que pouco ou mal disfarçam a humilhação que implicam; desesperam-se ao verificarem que as suas pensões assaltadas por taxas e impostos não bastam para salvar os netos das privações e os filhos das múltiplas desgraças que são lançadas sobre eles por quem quer, pode e manda. Os avós portugueses são, hoje, o elo mais impotente de uma sinistra cadeia de infelicidades contra a qual já pouco ou nada podem porque são avós, isto é velhos, e além do mais o desapreço pelos velhos é um dos mandamentos não escritos mas cumpridos nesta sociedade «pragmática» e desinibida, isto é, sem remorso nem vergonha. Os avós são, como regra geral, os que estão marcados para sofrer e menos municiados para a defesa do modesto minimundo que puderam construir com enormes custos pessoais ao longo de décadas. Por tudo isto, que está muito longe de ser tudo, bem se justificava uma generalizada celebração, séria e consciente, do Dia dos Avós, na televisão e fora dela. Melhor: bem se justificava multiplicar essa celebração pelos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Para que, enfim, à generalidade dos avós portugueses fosse prestada não apenas a carinhosa homenagem que merecem, mas também o socorro de que talvez a larga maioria deles, por motivos directos ou indirectos, necessite. Socorro que é urgente e inadiável. Porque os velhos não têm tempo. Para esperar.



Correia 
da Fonseca

quarta-feira, julho 29, 2015