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terça-feira, dezembro 25, 2018

Nesta noite de natal


“AQUELA NOITE DE NATAL”

“porque los que son guerreros
verdaderos
no descansan descansando.”

[Tragicomédia de Amadis]
Gil Vicente

Nos livros de José Casanova, ao rancor não é dado espaço porque a ternura pelos outros é de tal forma intensa que a própria animosidade, mesmo a mais subtil, não encontra lugar na sua escrita.

Os seus livros revelam-nos também que a liberdade nunca nos foi entregue de bom grado pelos seus algozes; só homens e mulheres de ideais firmes e de coerência aferida na luta e estruturada pelo sofrimento onde se arriscava a vida, perdendo-a por vezes, a conseguiram resgatar.

Como eram e como se movimentavam essas mulheres e esses homens que, num total anonimato, “não descansavam descansando”? Quem foram esses “guerreiros verdadeiros” que ajudaram a abrir as janelas da liberdade? Na verdade, a mais elementar justiça impõe-nos conhecê-los e com eles comungar a beleza da sua abnegação, por havermos colhido o saboroso fruto dessa difícil seara luminosa.

Ao ler “Aquela Noite de Natal”, sentimos que todo o nosso porvir repousa e será fruto das nossas profundas convicções e da determinação em concretizá-las; se assim o entendermos, sentiremos a tranquilidade dos que se constroem construindo e empenhar-nos-emos, até às derradeiras consequências, na edificação de uma sociedade onde a justiça e o amor sejam possíveis.

José Casanova, escritor que se afirma numa temática de esperança, desprendimento e total entrega a valores que só vividos são possíveis de revelar tão intensamente, abre-nos horizontes em que a realidade e a ficção se confundem e a emoção nos perturba.

E porque todo o enredo se passa nas poucas horas que antecedem a mística ou mítica refeição, neste seu livro, o simbolismo da consoada vai para além do clã familiar, e do ameno recolhimento que a noite protege: e o amor e a solidariedade saem para a rua, melhor dizendo, para a realidade cinzenta e fria.

A trama tem, assim, como fio condutor o amor que, por vezes, se eleva na sua sublime tecedura ficcional, ao nível dos melhores e mais fortes ideais.

Seguindo os passos e os temores das personagens de José Casanova, somos também enlevados pelos aromas tradicionais das refeições natalícias, onde, com minúcia e desvelo, os pormenores da sua feitura não são deixados ao acaso. Visitamos a Lisboa baça dos anos sessenta e convivemos com personagens características desses tempos. Somos confrontados com gente insegura que sofre pela debilidade que não consegue ultrapassar, e também com aqueles cuja firmeza nos transmite o equilíbrio necessário para cumprir uma escala de valores que nos eleve.

As figuras criadas por Casanova transmitem-nos também uma profunda confiança no ser humano – que tantas vezes nos desilude – e porque jovens são as principais personagens é-lhes dado o lugar que lhes compete, o de continuadores desta epopeia sublime: a da construção de uma sociedade onde se viva com dignidade.

Este é, pois, um livro que se lê com entusiasmo e relê com emoção; ao oferecê-lo cumprimos um gesto de amizade e tecemos um fio de cumplicidade e amor.

Cid Simões
 (crónica lida na Rádio Baía)

domingo, novembro 15, 2015

Foi há um ano!

Como há pouco ouvíamos dizer ao Eduardo Galiano, e por aqui deixámos para que mais o ouçam e ao significado profundo da frase
.
nos estamos viendo!


Mas a presença viva do Zé, amiga, pedagógica, sempre com a palavra e o gesto certos, necessários, faz-nos tanta falta. 
Imprescindível, dizia o Brecht

quarta-feira, maio 20, 2015

Gosto desta foto!...

...embora doa. Muito!

segunda-feira, novembro 17, 2014

Ainda (e sempre) a morte do Zé

Para muitos, terá sido uma notícia inesperada. E brutal. Para alguns, terá sido a notícia adiada nos seus últimos dias de luta. Nem por isso menos brutal. Que nos impede de trabalhar, com a sua perda e já saudade a ocupar-nos o pensamento.
E, para todos, foi tudo tão rápido! Sobretudo, depois da notícia ser posta a correr nas nossas vias de comunicação. No sábado de manhã, o Zé morreu, à tarde, o enterro é amanhã com cremação no Alto de S. João às 19 horas. Assim, a correr. E assim foi! E assim talvez tivesse de ser. Mas ficou-nos um vazio dentro do vazio que a morte e o enterro do Zé deixaram em tantos de nós. Que vamos recuperando, enchendo-o com tudo o que o Zé nos deixou.
Sinto-me incapaz de retomar, com normalidade, o trabalho e a luta (que quero ligados) sem deitar  cá para fora duas ou três observações que me ocupam.
O Zé há tempos que tinha problemas de saúde, desde o deixar de fumar, que tanto o abalou, aos diabetes e outras rasteiras que a idade nos vai armadilhando. Mas a sua morte que tanto nos dói foi provocada por circunstâncias que nos indignam (ou deviam indignar!). O Zé ia ser sujeito a uma intervenção sem grandes riscos (embora todas e tudo os tenham) num hospital e, nesse hospital, aconteceu-lhe o que parece ter passado a ser a condenação de todos, ou quase todos, que aos hospitais têm de recorrer. Foi invadido por uma bactéria que, apesar dos esforços para a expulsar, se multiplicou numa colónia de bactérias. O Zé não resistiu à septicémia. A morte do Zé, pelas causas que teve, teria sido evitável se outra fosse a política em relação aos hospitais públicos, ao Serviço Nacional de Saúde.
Depois, magoa viver um tempo em que morte de um homem como o Zé, pelo exemplo de vida honrada e dedicada a um viver mais humano e a uma Humanidade em construção, pela sua cultura, pela sua intrínseca humanidade, pelo seu currículo, tenha ocupado o espaço e o tempo que ocupou na comunicação social, tempo e espaço que se pode dizer que nenhum foi relativamente ao que lhe era devido se os critérios editoriais não fossem de classe e o Zé um exemplo da luta da outra classe.
Foi tudo tão rápido (e silencioso) que se poderia quase dizer que apenas teria sido a morte de mais um (como foi!), mas foi  também de mais um que, pelo que fez da sua vida durante a sua vida, bem justificou a emoção de tantos mil que o quiseram acompanhar até ao fim físico. E que o acompanharam, tristes e lamentando não o fazerem num cortejo fúnebre até ao cemitério, enchendo aquele curto trecho das ruas de Lisboa. Todos os que estiveram no Alto de S. João sentiram (e continuarão a viver) a importância que o Zé teve nas suas vidas e nas lutas que se travam a todos os níveis, e a muitos custou ter de fazer aquele pequeno trajecto nos passeios encurtados pelos carros estacionados, e sentiram como uma violência ver o carro que transportava o corpo do Zé ter de parar nos semáforos, ao sinal vermelho.

Viva o José Casanova!
Pelo que foi e pelo tanto que nos deixou.        .