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terça-feira, outubro 16, 2018

Sobre o resto do mundo... a ter de transformar!

 - Edição Nº2341  -  11-10-2018

A defesa do Sahara Ocidental no Parlamento Europeu
Os acórdãos proferidos pelo Tribunal de Justiça da União Europeia contra os acordos comerciais assinados entre Marrocos e a UE são mais um elemento que dá razão à Frente Polisário e à luta pela autodeterminação e pelo reconhecimento internacional da República Árabe Saharauí Democrática. Sucede no entanto, que a UE, tão lesta em utilizar os direitos humanos em acções de ingerência, assobia para o lado perante a violenta repressão do povo Saharaui por parte do exército de Marrocos e procura agora impor uma nova versão dos acordos comerciais, ignorando até as decisões das suas próprias instituições judiciais, o que diz muito sobre o real papel destas.
O Tribunal de Justiça da União Europeia publicou dois acórdãos, um a 21 de Dezembro de 2014 (C-104/16) sobre o acordo comercial UE-Marrocos e outro a 27 de Fevereiro de 2018 (C-266116) sobre o acordo de pescas. Nestes acórdãos, é dito preto no b(r)anco que os acordos não se aplicam aos territórios do Sahara Ocidental, hoje considerados pelas Nações Unidos como um território ocupado. Convém dizer que 95% do esforço de pesca previsto no acordo abrange as águas territoriais do Sahara Ocidental. Por outro lado, uma parte significativa do comércio afecto ao acordo comercial baseia-se em recursos do Sahara Ocidental (com destaque para os fostatos) ou bens agrícolas igualmente produzidos naquele território. A reformulação de ambos os acordos implicaria o consentimento do povo Saharaui através do seu legítimo representante, a Frente Polisário.
Em 20 de Julho a Comissão Europeia tornou pública a «Declaração conjunta da UE e do Reino de Marrocos sobre o fim das negociações para um novo acordo no sector da pesca», onde reafirma que «as duas partes concordaram assim sobre as disposições e melhorias introduzidas nestes textos, a fim de maximizar os benefícios para as populações locais nas áreas abrangidas». Ou seja, ignorando o direito internacional e as próprias determinações do «seu» tribunal - que recomendam a negociação e elaboração com a Frente Polisário de um acto separado ao acordo, com disposições específicas relativas aos territórios ocupados do Sahara Ocidental -, a Comissão Europeia mantém a decisão de negociar exclusivamente com Marrocos, acompanhando essa decisão de uma encenação de ilusionismo e manipulação que visa «satisfazer» a «comunidade internacional» e criar as condições para que a hipocrisia perpasse a discussão no Parlamento Europeu. Nesta encenação não faltam as associações de pseudo-representantes da «população do Sahara Ocidental» (omitindo-se deliberadamente a expressão «povo Saharaui») e o habitual folclore de ONG, como o Conselho Nacional de Direitos Humanos que continua a ignorar as torturas dos prisioneiros de Gdeim Izik.
Numa altura em que a revisão do acordo de pescas se encontra em discussão na Comissão de Pescas do Parlamento Europeu, os deputados do PCP continuam firmes da defesa dos direitos do Povo Saharaui. Estes acordos são uma afronta à soberania da República Árabe Saharaui Democrática, hoje reconhecida oficialmente por mais de 80 países, bem como aos direitos do povo Saharaui à sua autodeterminação e à sua pátria livre, independente e soberana.

Miguel Viegas

quanta memória pessoal!
de conversas informais e fraternas 
com representantes da Frente Polisário,
 nas noites do "24 de Setembro",
 em Bissau, em 1978;
de relatório na comissão de pescas do PE,
em 2004...

Como as lutas são várias e longas!

S.R.




segunda-feira, outubro 15, 2018

Neste nosso mundo - Brasil

 - Edição Nº2341  -  11-10-2018

A escolha

O resultado da primeira volta das eleições gerais no Brasil é um caso de estudo e um sério aviso às democracias ditas representativas. A votação no candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro, sendo o aspecto com maior repercussão mediática, remeteu para segundo plano uma realidade que está longe de ser irrelevante: o descalabro eleitoral do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Os 46% dos votos alcançados por Bolsonaro a 7 de Outubro causaram perplexidade e interrogações. Como é possível que um candidato com posições declaradamente fascistas, homofóbicas, racistas, xenófobas e machistas, e que graças a um muito estranho atentado disputou as eleições sem um único confronto directo com os seus adversários, tenha congregado tanto apoio para si e para o seu partido, o Partido Social Liberal (PSL), que nestas eleições se tornou no segundo maior em número de eleitos na Câmara dos Deputados, logo atrás do PT?
A resposta a esta questão, não sendo linear, não pode ser dissociada da história do Brasil desde o fim da ditadura militar e dos partidos que governaram o país desde então: o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, o PMDB de Michel Temer e o PT de Lula da Silva. Não por acaso, os inúmeros casos de corrupção que atingiram aqueles partidos e a profunda crise económica em que o Brasil está mergulhado foram apresentados como tendo um único responsável, o PT. E no entanto, nestas eleições, assistiu-se a uma clara transferência de votos do PSDB e do PMDB para o PSL.
É sintomático que Gerald Alckmin (candidato do PSDB) tenha recolhido apenas cerca de 5% dos votos, enquanto o candidato do PMDB, Henrique Meirelles, pouco foi além de 1%.
Não menos sintomático é o facto de o PMDB, embora mantendo a maior bancada no Senado, ter perdido 40% da sua representação, passando de 18 para 12 senadores, e ter reduzido para metade (de 66 para 33) a sua representação na Câmara dos Deputados. Já o PSDB perdeu quatro senadores e passou de 54 para 29 deputados.
Enquanto isso, Jair Bolsonaro colhe o apoio da «bancada BBB» que domina o Congresso: armamentistas (da bala), agrários (do boi) e evangélicos (da bíblia), as forças mais reaccionárias e conservadoras do Brasil. A mesma «bancada», lembre-se, que com a prestimosa ajuda de Eduardo Cunha teve um papel determinante no processo de destituição da presidente Dilma Rousseff.

O Brasil está dividido, sim, mas entre os que querem recuperar e expandir os seus privilégios – o programa de Bolsonaro, aplaudido pelo capital, assenta em privatizações e destruição das conquistas sociais – e os que com os governos do PT foram pela primeira vez tratados como cidadãos de pleno direito. Na segunda volta das presidenciais, dia 28, muitas máscaras vão cair na escolha entre fascismo e democracia.


Anabela Fino

para quem (todos nós) não tem tempo para ler tudo!