"As várias regras definindo metas de
dívida [pública], velocidades de ajustamento em direção a esses objetivos, e
flexibilidade para responder a uma possível procura persistentemente fraca, têm
de ser revisitadas. Mesmo se eram corretas antes, não podem estar corretas
hoje",
disse Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, falando na
cimeira do BCE de Sintra, promovida por Mario Draghi.
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Então porquê a sistemática recusa, ou até sequer a consideração, da
necessidade de negociar a dívida?
&-----&-----&
A
resposta é fácil: quer a dívida, quer a recusa de negociação são arma(dilha)s da luta de classes!
Assinalaram-se no passado dia 6 de Junho,
em França e na Inglaterra, os 75 anos do desembarque na Normandia. As
cerimónias juntaram Trump, Macron, Theresa May, a Rainha Isabel II, Trudeau e
Merkel, entre outros. Num momento em que tanto se fala do combate à
desinformação e às fake news é profundamente elucidativa a operação mediática
montada em torno deste acontecimento da II Guerra Mundial, que repete e
amplifica uma das maiores fake news do século XX.
A operação militar de desembarque na Normandia foi de facto uma grande
operação militar, tal como foi também um enorme banho de sangue. Mas esta
operação militar está longe de ter sido «o dia D», ou a «reviravolta» nos
destinos da II Guerra Mundial. O desembarque da Normandia marcou a abertura da
frente ocidental na Guerra, algo que a URSS já reivindicava há muito. Uma
decisão tão mais tardia quanto a aliança entre os EUA e a Grã-Bretanha não
pretendeu, durante vários anos, derrotar a Alemanha nazi, mas sim empurrar para
a frente leste a guerra, esperando que a URSS e Alemanha nazi se matassem
mutuamente e que após isso britânicos e norte-americanos pudessem ditar qual o
desfecho político da guerra. Mas o Exército Vermelho e o povo soviético
alteraram os planos anglo-americanos.
Foi em Janeiro de 1942, quando o Exército Vermelho repele as forças nazis
às portas de Moscovo e inicia a contra-ofensiva, que se dá a verdadeira
viragem. Seguiram-se as grandes e célebres batalhas de Estalinegrado e Kursk,
que ditariam definitivamente o rumo da guerra. É precisamente nesse quadro que
se dá o desembarque na Normandia, ou seja quando já era evidente a derrota nazi
e estava iminente a chegada do Exército Vermelho a Berlim. A verdade que se tenta ocultar é
que foi a URSS e o seu heróico Exército Vermelho que contribuíram decisivamente
para a derrota do Nazi-fascismo. E foi por essa razão que Putin não foi
convidado para a «festa» do revisionismo histórico em que se chegou ao ponto de
referir Merkel, ou seja a Alemanha, como parte integrante dos Aliados.
Uma gaffe, com certeza, mas elucidativa.
antifascista que
lutou pelo direito das enfermeiras ao casamento
Morreu, nesta terça-feira, 11 de Junho, Isaura Assunção da Silva Borges
Coelho. A resistente antifascista morreu na Parede, onde residia com o marido
de há décadas, o historiador António Borges Coelho. Nascida em Portimão, a 20
de Junho de 1926, foi presa e torturada pela PIDE – Polícia Internacional e de
Defesa do Estado, pela sua actividade de resistente antifascista, que
incluiu a luta pelo direito às enfermeiras se poderem casar. Em 2002 tinha
sido agraciada pelo então Presidente da República Jorge
Sampaio com a Ordem da Liberdade.
E o casamento de ambos, a 4 de Janeiro de 1959, foi peculiar, porque
decorreu no Forte de Peniche, onde o futuro historiador estava detido. Em
Julho, ele descreveu a “boda” como “um acontecimento” que quebrava a monotonia
dos dias da prisão política e que foi vista como “um espectáculo” pelos outros
detidos. “Mandaram-me um fato para o casamento, só que o fato era grande
demais. O meu colega de prisão, que era alfaiate, o Mestrinho, de Fafe, arranjou-o
e eu fui de fato ao casamento. Em que consistiu? A noiva foi levada de Lisboa
pelos padrinhos e também pelos meus padrinhos. Os meus padrinhos eram o [poeta]
Alexandre O’Neill e a [Maria] Alçada Padez e os meus
cunhados eram os padrinhos da Isaura. A noiva estava de um lado com os
padrinhos, os sogros e os convidados. O meu sogro começou a andar de um lado
para o outro, dizendo que não era justo, e então lá puseram a noiva ao lado do
noivo”, contou.
Antes, já Isaura passara também pelas prisões da PIDE, depois de ter sido
presa em 1953, quando se dirigia à sede do Movimento de Unidade Democrática
(MUD) Juvenil, a que se juntara. Outros jovens, presos como ela na mesma
altura, foram libertados, mas Isaura permaneceu detida, por ter sido
identificada pelos agentes como “a casamenteira”. É que pouco antes, ao tomar
conhecimento que doze colegas enfermeiras do Hospital Júlio de Matos tinham
sido despedidas por se terem casado, Isaura encabeçara um abaixo-assinado,
dirigido ao presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, ao Cardeal
Cerejeira e ao enfermeiro-mor dos hospitais, exigindo a revogação do artigo do
decreto-lei n.º 28794, de 1 de Julho de 1938, que exigia que as
enfermeiras (e também as empregadas domésticas) fossem “mulheres solteiras e viúvas,
sem filhos”. A proibição das enfermeiras se casarem só desapareceria em 1963.
A prisão de Isaura gerou grande contestação, sobretudo ao tomar-se
conhecimento da brutalidade com que a jovem foi tratada pela PIDE, tendo mesmo
sido arrastada pelos cabelos na presença do seu advogado. Em Lisboa, circularam
panfletos exigindo a sua libertação, e no dia do seu julgamento, no Tribunal
Plenário, agentes da polícia política recorreram à estratégia corrente de
ocuparem grande parte dos bancos dedicados à assistência, para impedir que os
apoiantes da enfermeira pudessem estar presentes.
A mulher seria condenada a dois anos de prisão e depois desta decisão
continuaram os protestos. Nos arquivos da PIDE guardados na Torre do Tombo,
está um panfleto com o título “Vamos libertar Isaura Silva”, que classifica a
sua condenação como “um grave acto de terrorismo que espalhou entre nós a
indignação e o espanto.”
Isolada durante sete meses
O documento referia: “Depois de um processo monstruoso, verdadeiro atentado
contra a consciência humana e a liberdade, procuraram tirar-lhe todas as
possibilidades de defesa. Mantiveram-na isolada sete meses e dez
dias. Prenderam a irmã, também enfermeira, Hortênsia da Silva. A dias do
julgamento prenderam o advogado de defesa, Dr. Lopes Correia,
impossibilitando-a assim de apresentar o rol de testemunhas dentro do prazo. No
julgamento, a PIDE fez evacuar a sala, enchendo-a de agentes para assim
pressionar o ‘tribunal’ e atemorizar a assistência.”
Por causa das medidas de segurança, Isaura Silva acabaria por cumprir
quatro anos de prisão, em Caxias, sendo libertada em 1957, numa altura em que
pesava apenas 30 quilos, e já depois de ter estado internada por causa do seu
estado de fragilidade. Domingos Abrantes, um histórico membro do Partido
Comunista Português (PCP), conheceu-a nesta altura e tornaram-se amigos para o
resto da vida. Uma amizade “profundíssima”, disse, esta quarta-feira ao
PÚBLICO. “Conheci-a quando saiu da prisão e era uma pessoa de uma generosidade
enorme e com uma alegria de viver contagiante, mesmo nos momentos mais
difíceis. Alguém que apesar de todo o sofrimento, nem nos momentos mais
difíceis perdeu o ânimo, a coragem, a alegria e a vontade de continuar a
lutar.”
Conceição Matos, casada com Domingos Abrantes e também ela ex-presa
política, brutalmente torturada pela PIDE, descreve Isaura Borges Coelho como
alguém que teve “uma vida inteira dedicada à luta da liberdade, muito corajosa,
muito solidária e que enfrentou com dignidade e coragem a passagem pela
prisão”.
Desta vez, Conceição Matos não se refere a Isaura como “um vulcão de
energia na entrega sem limite às causas em que se empenhou”, mas foi esta a
descrição que fez, recentemente, ao ex-preso político e vereador da CDU na
Câmara de Cascais, Clemente Alves, e que ele recorda agora ao PÚBLICO. Amigo do
casal Borges Coelho, Clemente Alves refere-se a Isaura Silva como “a mulher
mais doce que se possa imaginar”, apesar da sua força. E uma presença constante
na vida mais mediática do marido. “Mesmo quando a Isaura não estava com ele,
ela estava sempre presente. Ele tinha sempre de apresentar um pretexto para
falar da Isaura, ela era como um terceiro pulmão do António Borges Coelho.”
Quando saiu da prisão, em 1957, Isaura Silva não foi autorizada a visitar
Borges Coelho na prisão, por não serem casados. Durante a separação, tenta
contactar com ele enviando-lhe cartas em que se faz passar por uma tia, mas o
esquema é descoberto pela PIDE. Os dois só puderam voltar a ver-se depois do
casamento no forte.
Delegada sindical
Membro do PCP, Isaura Borges Coelho trabalhou como enfermeira e foi
delegada sindical das enfermeiras na Maternidade Alfredo da Costa até se ter
reformado. No ano passado, a Câmara de Portimão homenageou-a com a Medalha de
Honra do Município e o título de cidadã benemérita da cidade em que nasceu.
O funeral é na sexta-feira, às 13h30, no Centro Funerário de Cascais
da Servilusa, onde também decorre o velório, a partir das 18h desta
quinta-feira.
Ontem, beneficiei da ajuda de Pedro Tadeu no Diário de Notícias, hoje de Valdemar Cruz, no Expresso-Curto, e do Google (para a fotografia). Assim procuro honrar memórias e testemunhos:
«Crónicas da Idade dos Mídia
13 de Junho de 2019
Inspirei-me, para o título
deste Curto, em Rúben de Carvalho, o histórico dirigente do PCP cujo funeral se realiza no domingo
para o cemitério do Alto de São João, em Lisboa. O corpo estará em câmara
ardente nos Paços do Concelho da capital a partir de sábado.
(...)
Dedico este momento final
do Curto de hoje a Rúben de Carvalho. É pouco. É quase nada.
É uma absoluta insignificância se o que está em causa é valorizar a memória
de um homem para quem o mundo era um fascinante mosaico de culturas não
hierarquizadas. Cada
homem era um homem em toda a sua plenitude. Cada povo era um
povo em toda a sua dignidade.
Ontem, como muitas vezes
fazia, resolvi regressar a uma das suas fantásticas “Crónicas
da Idade Mídia”. Quem o fizer perceberá de imediato o título dado a este
espaço. São incontáveis os livros,
os discos, os filmes que passaram a entrar no meu imaginário por
sugestão direta, mas a maior parte das vezes indireta, das intervenções de
Rúben naquele seu programa transmitido durante anos na Antena 1.
Recuperei o mais antigo ainda disponível na RTP Play,
intitulado “Eles
escolhem…”. Tem data de 3 de outubro de 2011, embora creia
que o início das emissões, nas quais tinha como interlocutora Iolanda
Ferreira, remonta a, pelo menos, janeiro ou fevereiro de 2009. A pretexto da música, ou das músicas,
cada emissão é uma lição. De história. De cultura dos povos.
De aguda perceção de movimentos culturais e sociais, mesmo distantes. Rúben
chegava ao estúdio carregado de livros e discos. Às vezes entusiasmava-se com as histórias que
desencadeavam histórias que entroncavam em novas histórias, e
quase se esquecia da música. Fazia-o com a elegância do saber adquirido em
vivências várias. Talvez precisasse de muitas vidas para narrar os mundos que
o habitavam.
A emissão de “Eles
escolhem…”, cujo título se aplica na perfeição a um homem que
nunca abdicou de escolher, abre com uma belíssima canção interpretada por
Yves Montand, intitulada “Le temps des Cerises”. A partir dali começa
uma viagem como só um trota mundos como Rúben saberia conduzir. Desde logo
com a fascinante história
de uma canção hoje celebérrima, interpretada ao longo dos
anos por gente tão diversa como Juliette Gréco, Nana Mouskouri, Tino Rossi, que na sua origem é apenas um
tema de amor, mas circunstâncias históricas diversas transformaram numa
canção emblemática da Comuna de Paris (26 de março a 28 de maio de
1871). Rúben conta os
detalhes da sua escrita por Jean Baptiste Clément em 1866,
antes, portanto, da Comuna, e como, quando publicou um livro com as suas
canções, Clément, ele próprio um “communard”, dedica a canção “à valente
cidadã Louise, enfermeira da Rue de la Fontaine au Roi”, uma das últimas barricadas da Comuna a
cair, no dia 26 de maio de 1871. Aqui chegados ainda vamos a
um terço do programa.
Tantas histórias ainda
por contar, como sucederá ao longo dos anos. A RTP Play tem
261 episódios ainda disponíveis, com emissões dedicadas a temas tão
diversificados como a banda
sonora da guerra do Vietnam, Ella Fitzgerald, 50 anos de
música africana, Mahalia
Jackson, Léo Ferré, José Afonso, Jacques Brel, ou até as
marchas dos santos populares em “Cá vai Lisboa episódios 1e 2.
Revisitar “Crónicas da
Idade Mídia”, além de um mergulho profundo em múltiplas
manifestações da cultura popular, é manter vivo o legado de um homem glorificado na sua morte,
e que só o tremendo
preconceito (ideológico) vigente em Portugal impediu de ser
uma presença mais assídua nos órgãos de comunicação social enquanto vivo.
Tínhamos agendada uma
conversa com vista a um trabalho em preparação para a Revista
do Expresso e no qual, acredito, Rúben poderia ter um papel crucial na
reconstrução de muito específicas
vivências culturais e políticas em Portugal nos anos de 1960
e 1970. A distância entre o meu Porto e a sua Lisboa gerou sucessivos
adiamentos. Até ser demasiado tarde.
Despeço-me com a primeira parte de mais um dos programas de Rúben
Isaura Assunção da Silva
Borges Coelho estava entre as mulheres que protagonizaram a luta contra o
fascismo português. Estava a escassos dias de completar 93 anos e morreu nesta
terça-feira na Parede, concelho de Cascais, onde residia com o marido, o
historiador António Borges Coelho. Natural de Portimão, onde nasceu a 20 de
Junho de 1926, foi presa e
torturada pela PIDE pela sua atividade de resistente
antifascista, que incluiu a luta pelo direito às enfermeiras se poderem casar.
Em 2002 foi condecorada pelo então Presidente da República Jorge Sampaio com a Ordem da Liberdade.»
Curioso! Por casualidade, saltaram-me para o visor do computador, posts de Junho de ... 2009. Não resisti a lê-los. Como não resisto a transcrevê-los.
Como a luta - como a luta de classes - as reflexões continuam. Umas mais actualizadas que outras, sofrendo os embates de um verdadeiro carrocel nas microcósmicas reviravoltas.
Vai passando o tempo sobre as eleições para o Parlamento Europeu e, contra dados e factos, vai-se instalando uma consensualidade: derrota da esquerda, vitória da direita e, até, da direita mais racista e xenófoba.
Ao nível da... Europa... Esta “leitura”, para além do menosprezo pelo rigor que os números lhe poderiam emprestar, assenta em pressupostos, de que, neste breve comentário, se intenta denunciar um deles. Por agora.
É ele o de que a social-democracia é de esquerda ou, até, que é a esquerda….
Podem os PSs se etiquetarem como partidos de esquerda, fazerem disso bandeira quando conveniente e, nas últimas horas, virem distanciar-se do neo-liberalismo, pisando com espectáculo (e berraria) o rabo do do gato do capitalismo que escondem, mas a sua derrota, a sua queda em várias formas e com expressões diversas, é o castigo da sua política, da sua inescamoteável responsabilidade no neo-liberalismo, na política de direita.
Um dos mais expressivos reflexos da derrota social-democracia nestas eleições para o Parlamento Europeu estaria na perda de muitos deputados no grupo que se instituiu em Partido Socialista Europeu (à conta dos portugueses foram menos 5 em 12!), mas essa queda foi relativamente compensada por algumas “transferências” para o que até teria sido necessária mudança de nome, passando a chamar-se, o grupo, Aliança Progressista de Socialistas e Democratas, cujo é curioso…
Em contrapartida, no mesmo momento em que confrontamos os resultados, o outro grande grupo – o Partido Popular Europeu – não tinha tido subida correspondente, o que, se não permite, ainda!, concluir que também a bi-polarização foi penalizada pela política de direita em alternância partidária, que caracterizou o neo-liberalismo, pode ter essa “leitura”, até porque os conservadores britânicos estarão na origem de um grupo fora do PPE, o Grupo Conservador e Reformista, isto é, a direita a não "fazer grupo" com quem tem sido mais responsável pela política de direita!
Em complemento numérico, é significativo que o grupo que mais teria aumentado nestas eleições, tenha sido o dos Verdes que teria passado de 5,6% para 7,2% (1,6 pontos percentuais, isto é, quase 30%). Também neste reforço dos Verdes “europeus” se pode encontrar o voto de protesto – quando expresso – relativamente à política de direita praticada pelos partidos do “centrão”, devendo sublinhar-se a heterogeneidade entre as diferentes componentes nacionais e mesmo dentro destas, e também para o que pode servir esse voto, para canalizar descontentamento e desilusão de quem vota (ou não vota).
Outra das expressões com talvez maior significado nas eleições para o Parlamento Europeu está na(s) abstenção(ões) verificada(s) e nos votos nulos.
Nos números destas votações (ou ausências de votações) se pode encontrar a forma como largas massas de votantes manifestaram a sua desilusão… por se terem iludido com a fachada representativa da democracia burguesa, com uso e abuso da demagogia e da manipulação, assim descredibilizando a democracia por diminuição até ao zero, ao nada, da vertente participativa.
Em reforço desta interpretação, ela parece particularmente curial se se centrar a análise nos países que do final da guerra até aos anos 80 procuraram vias de socialismo e que, depois de várias quedas (e trambolhões) e da adesão à União Europeia – com o “entusiasmo” da chegada
do voto igual a "democracia"… –, observam taxas de abstenção acima de 70% - República Checa e Eslovénia, 72%, Roménia, 73%, Polónia, 76%, Lituânia, 79%, Eslováquia, 80%!
Faz pensar, não faz? A mim faz, mas deve ser defeito meu...
A OCDE anunciou a "saída da crise" à vista (menos - ainda! - para a "zona euro")! Tudo se prepara para, nesta campanha de recuperação da confiança perdida (mas o que é que se passa com a "zona euro"?...), se utilizarem os indicadores económico-financeiros e as instituições ligadas às injecções de dinheiro e ao crédito para se virem dar "boas notícias", e para continuarem subalternizados os indicadores económico-sociais (desemprego - e que desemprego! -, dispersão, divergência, assimetrias regionais... pauperização) e as instituições não financeiras (FAO, UNESCO, OIT, e etc.).
· Por vezes, procuram-se palavras nossas e há palavras de outros que, por tão bem traduzirem o que esses outros sentem, Vêm tomar o espaço das que seriam as nossas ou as tornariam supérfluas. Mesmo quando não dizem exactamente o que as nossas palavras diriam por serem outras as condições, os relacionamentos. Mas por serem tão sentidas e tão bem arrumadas. Palavras escritas por Pedro Tadeu na morte de Ruben deCarvalho.
Milhares de vezes, quando aquele
número aparecia no mostrador do meu telemóvel, soava no auscultador a voz do
Ruben de Carvalho: "Olá Pedro, estás bom?... Olha lá, como é a tua vida
hoje?".
Por causa dos telefonemas do
Ruben, desde que o conheci, em 1983, a minha vida profissional incluiu o jornal
"Avante!", a Festa do "Avante!", a Telefonia de Lisboa, o
Lisboa 94, e lembro-me lá agora de tantas outras coisas que fiz com ele, de
tantas outras coisas que fiz para ele, de tantas outras coisas que fiz por
causa dele. Ruben de Carvalho foi meu chefe.
Por causa dos telefonemas do
Ruben, tive milhares de horas de conversa, milhares de jantares, milhares de
discussões sobre política, história, sociologia, arte, música, relações
humanas. Ruben de Carvalho foi meu mestre.
Por causa dos telefonemas do
Ruben fui obrigado a estudar livros que ignorava, a ouvir discos que
subestimava, a saber duvidar de certezas absolutas, a procurar questionar as
minhas convicções para encontrar boas respostas sobre novos problemas, a
recusar dogmas e lugares-comuns mas, ao mesmo tempo, a respeitar os milhares de
anos de saber acumulado pela humanidade. Ruben de Carvalho ensinou-me a pensar.
Por causa dos telefonemas do
Ruben conheci de perto dezenas de pessoas extraordinárias: a incrível
companheira dele, a jurista Madalena Santos (que, aliás, nos apresentou); a
Ivone Dias Lourenço; o grafista e desenhador José Araújo; o músico, musicólogo
e realizador de TV e rádio, Manuel Jorge Veloso; os jornalistas João
Chasqueira, Anabela Fino, Carlos Nabais, Domingos Mealha, Henrique Custódio e
Leandro Martins; a Noémia; o apresentador Cândido Mota, o locutor Mário Dias...
Ruben de Carvalho foi ponto
central e completou a circunferência do meu círculo de relações pessoais. Ruben
de Carvalho foi meu amigo.
Contactei com importantes
dirigentes comunistas que me impressionaram: António Dias Lourenço, Carlos
Brito, Domingos Abrantes, Carlos Carvalhas e, claro, Álvaro Cunhal. Ruben de
Carvalho foi meu camarada.
A biografia do Ruben é
impressionante.
Foi militante comunista, logo
durante a ditadura fascista, antes do 25 de abril; conspirou e lutou contra o
regime.
Esteve nos movimentos unitários,
da candidatura presidencial de Humberto Delgado às candidaturas eleitorais da
CDE; esteve no apoio ao aparelho clandestino do PCP.
Foi preso político seis vezes.
Foi um jovem jornalista que
chegou precocemente a subchefe de redação de um grande jornal diário, o
"Século".
Fez a guerra colonial em Angola
como enfermeiro, decidindo não dar "o salto" para o estrangeiro, mas
encontrando uma forma de estar no exército português que não violentasse a sua
solidariedade com os movimentos de libertação.
Fez a revista "Vida
Mundial", que abriu uma janela de luz na informação opaca da época.
Foi chefe de gabinete de um
ministro no primeiro governo da democracia.
Fez a primeira redação legal do
"Avante!". Até construiu mobiliário, pois adorava o trabalho manual -
não era acaso o brinquedo preferido em criança ter sido o das construções em
Meccano.
Esteve no centro da criação da
"Carvalhesa", o hino sem letra que tantos trauteiam nas campanhas
eleitorais da CDU.
Fez, desde 1976 até hoje, a
organização dos espetáculos da Festa do "Avante!".
Fez uma rádio local chamada
Telefonia de Lisboa que o cavaquismo, assustado, fechou ilegalmente, como o
tribunal administrativo veio a confirmar numa sentença tardia sobre um concurso
para novas frequências de rádios.
Fez parte do comissariado do
Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura - e isso fez dele, contava com ironia,
um dos comendadores da nação, com direito a medalha e tudo.
Fez trabalho parlamentar como
deputado eleito por Setúbal.
Foi um vereador empenhado na
câmara de Lisboa.
Escreveu, publicou e ajudou a
editar várias obras de referência sobre o fado. Lutou muito contra a ideia de
que o fado era uma música "salazarenta", como alguma esquerda, mais
tonta, logo a seguir à Revolução dos Cravos, crismara o género popular.
Esteve sempre no centro do
debate político; publicou milhares de artigos de jornal na "A
Capital", "Diário de Notícias", "Público",
"Expresso", "Sábado", "24horas", entre outros.
Foi comentador regular na SIC e
na RTP.
Fez dois programas na Antena 1
que se tornaram referência na rádio portuguesa e demonstram publicamente a sua
personalidade culta, pluralista e tolerante: com Iolanda Ferreira o
"Crónicas da Idade Mídia"; com Rui Pego e Jaime Nogueira Pinto, o
"Radicais Livres".
Fazer, construir, deixar obra
feita num contexto de trabalho coletivo - este era o seu projeto pessoal.
É nesse sentido que deveríamos
entender o seu maior legado: o da Festa do "Avante!".
A própria ideia inicial da
organização da Festa, inspirada em festas similares de partidos comunistas,
como o italiano e o francês, tinha como pressuposto o envolvimento coletivo de
milhares de militantes comunistas na organização de um projeto político e
cultural que demonstrasse, numa pequena cidade improvisada, o modelo de
sociedade igualitária que o PCP defende. A Festa não é, portanto, obra de um
indivíduo, é obra de um coletivo.
Com o engenheiro Fernando
Vicente e o artista plástico Rogério Ribeiro, o Ruben moldou a forma técnica e
estética inicial que milhares de camaradas seus desenvolveram, fizeram evoluir
e construíram em vários terrenos e espaços, desde os pavilhões da antiga FIL,
na rua da Junqueira, à atual Quinta da Atalaia, no Seixal.
A organização dos espetáculos, a
sua tarefa central na Festa do "Avante!", suscitou-me há alguns anos
estas palavras:
"Com ele aprendi ser sempre
mais difícil decidir quem atua a meio da tarde do que escolher quem encerra a
noite. Vi como era preciso ter coragem para dizer não a músicos ligados ao PCP,
que caíam na tentação de querer transformar a festa de todos numa coutada
exclusiva.
"Aprendi como se fabricam
as grandes ideias e as dezenas de horas de discussão redonda, esgotantes, que é
preciso ter para lá chegar. Vi como surgiram os filões das músicas brasileiras,
folk ou africana, sempre um pouco à frente das modas em que elas depois se
transformaram, e registei como aconteceu a que agora é marca definitiva do
evento: o grande concerto de música clássica.
"Na Festa do Avante!
ensinaram-me, como a muitos outros, o essencial do que me transformou num
profissional bem-sucedido: é preciso entender o quadro geral de um problema e
dar importância aos detalhes que fazem a diferença".
A Festa do "Avante!" é
também relevante porque criou uma indústria: foi lá que se formou a primeira
geração de técnicos e de produtores que tornaram os concertos e festivais de
verão uma banalidade, que antes não existia em Portugal.
O Ruben foi sempre um
intelectual ao serviço da classe operária. Era um génio que não acreditava nos
golpes de génio, que acreditava cegamente no trabalho de equipa.
Há uma dezena de anos estivemos
cerca de 20 minutos chateados.
Num fim de semana que passámos
juntos, discutíamos as mudanças no mundo da comunicação que a internet trouxe.
Às tantas fiz uma catilinária sobre a "burrice" da esquerda que
deixava para a direita e para o PS o domínio ideológico dos "blogues"
e das redes sociais. Ele, zangado (ui!, como era bravo...), espantava-se
comigo: como é que eu, militante comunista, defendia a utilização de uma forma
de comunicação que, pela sua natureza atomizada, promove o individualismo, o
egocentrismo, a vaidade pessoal, o desprezo pelo outro? "Vamos mas é fazer
bons sites coletivos, deixa lá isso dos blogues e dos Facebooks que isso é para
quem tem a mania de ser vedeta..."
Ruben de Carvalho era um
intelectual ao serviço da classe operária. Um revolucionário. Foi essa a missão
que cumpriu na vida.
Olho para o telefone, depois de
receber a notícia da morte do Ruben de Carvalho, o homem mais impressionante
que conheci.
Não evito a comoção e
pergunto-me: sem Ruben, como é a minha vida hoje?...
Passou uma semana, anteontem foi domingo, ontem foi feriado. E eu calado. Aqui. Porque noutros lugares e ocasiões fui dizendo... coisas que acho que vale a pena serem ditas.
Por isso, hoje e aqui, quero retomar a conversa. Com quem? Com quem for... que comigo já conversei ao ler e a ouvir o que a leitura me trouxe.
Um texto (longo? não importa... que curto parece) de antologia:
- Edição Nº2375 - 6-6-2019
Do trabalho e do cantar
CULTURA Na ordem de sucessão dos acontecimentos naturais – diz quem sabe – tudo se transforma há muitos milhões de anos sem que de outra mão, que não a da Natureza, tenha havido precisão. Bichos e vegetais foram-se sujeitando aos humores do clima e às farturas e escassezes que lhes fossem calhando, adaptando-se uns, sumindo-se outros, porque «vontade» é qualidade de que não foram dotados. Já aos humanos, não sendo velozes como os felinos nem agarrados ao chão como as árvores, permitiu-se-lhes serem capazes de inventar securas em dia de temporal e regos de levar a água à terra quando ela racha de tanta sede.
A transformação da realidade deixou, portanto, de ser incumbência dos deuses, roubada que lhes foi a exclusividade na produção da luz e das trevas, descoberto que foi o milagre de tirar o pão da espiga e a espiga da semente. A cada qual os seus pelouros, o que nos deuses se diz ser milagre, nos humanos é produto do Trabalho. Nuns e noutros é de transformação que se trata, diferentes apenas os nomes do mecanismo.
Podiam os humanos ter-se ficado pela produção do fogo na sua serventia de luz e de repasto; e podiam ter-se bastado à fixação do animal na perspetiva do caçador. Mas não. Acharam naquelas funções mais utilidade do que a evidente, e puseram-se a representá-las desta e daquela maneira, trabalhando também, mas para acudir a novas e entusiasmantes necessidades. Combinaram pigmentos, juntaram sons, transformaram volumes e, porque hão-de ter gostado do resultado, nunca mais prescindiram daquelas artes de representar a vida.
Talvez por essa razão, a Arte seja, dos traços duradouros, um dos mais constantes na vida da Humanidade. Constante também nas lutas todas da História, sobretudo a Música que é, das Artes, a que se transporta com superior facilidade e inegável emoção, aliada segura das palavras quando elas ali fazem falta.
O canto de trabalho, o cantar o Trabalho
A música mais antiga, a primordial, não há-de ter sido a composta, mas antes a percebida: o silvo do vento, a pulsação do gotejar, o canto das aves consoante a natural intenção (o de acasalar diverso do de alertar). Talvez depois tenha havido imitação e até mistura dos muitos elementos da banda sonora natural, quando se percebeu que as mãos e a voz eram, afinal, os precursores dos sintetizadores de circuito integrado.
Os primitivos instrumentos musicais, esses sim, eram já produto do Trabalho – no corte da madeira, na curtição da pele, no dimensionamento do tubo oco, tudo extensões da voz humana, tudo mediadores da sua urgência em comunicar entre si e com os ouvidos (e os favores) da Natureza e seus divinos intermediários. Não tardaria a chegar – coisa de uns milhares de anos, apenas – o canto de trabalho, como aquele que acerta a queda da enxada, que Michel Giacometti registou em Tavarede, ou o que desloca o penedo na Cantilena na Pedra, que também o etnomusicólogo gravou na Póvoa do Lanhoso.
No momento em que o canto musical é também instrumento de trabalho, parceiro na labuta pelo melhor-viver, é sozinho sendo pouca a encomenda, é coletivo quando um só par de braços não basta para os devidos encargos. Há-de ter sido nos lugares de trabalhar que as palavras se hão-de ter juntado aos trauteares, revelando vontades (como no Llaço do Ofícios: «Quero d’aprender un ofício / que me mantenga senhor / barbeiro ferreirico / alfaiate ferrador») e desilusões («Fui um ano à vindima / pagaram-me a trinta réis / dei um vintém ao barqueiro / ai, fui pra casa com dez réis»).
Não se sabe em que altura é que o canto prazeiroso passou a ser «de intervenção», mas o processo há-de ter levado o seu tempo, sendo sabido que os breves momentos da História – sabe-o bem quem luta – duram sempre o tempo de vida de uma mão cheia de gerações.
Quando o salazarismo implantou o modelo cultural fascista, procurou depurar a música popular (ou tradicional, ou regional) de todos os vestígios da luta de classes. O Trabalho era, na leitura do fascismo português, uma praça de alegrias entre o celeiro de Portugal e as latadas nortenhas, rústico mas pitoresco, árduo mas saudável. Cabia à Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, a FNAT, a criação de linhas de rumo da «cultura popular», procurando afastar as vozes do povo daquilo que hoje se considera serem «temas fracturantes».
Coexistia, por isso, em linha desencontrada com o folclore oficial, um canto popular que dizia «ó minha mãe dos trabalhos / para quem trabalho eu / trabalho, mato o meu corpo / não tenho nada de meu». Ou «Comem-nos vivos em vida / Mortos a terra nos come / Como dá tanta comida / Quem cá passou tanta fome». Não sendo ainda bandeira de conspiração, este é já um canto consciente e porta-voz dos explorados.
O povo canta o Trabalho porque o trabalho é a sua vida, ao mesmo tempo riqueza maior e chão da sua pobreza. E canta-o permanentemente, porventura para «que na grande construção do mundo se sinta o fio das vozes e a razão dos sons, com suas primas e bordões, ajudando a enterrar sementes que serão Futuro e que hão-de fecundar o chão que é nosso».
Tamanha sementeira vem sendo necessária nos tempos todos, já que «a história das sociedades é a história das lutas de classes» – no campo, que foi o lugar central da produção ao longo de milénios, e na fábrica, onde mais modernamente se constitui a classe operária, mas é tomada de novas urgências no momento em que a fábrica passa a ser o lugar central da apropriação do produto do trabalho, em ambiente de privação das mais básicas condições de bem-estar.
Por isso, quando o compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) se lança à criação de La Fabbrica Illuminata (de 1962, para soprano e fita magnética de quatro pistas sobre textos de Scabia e Pavese), o seu objectivo é denunciar as condições de trabalho dos operários siderúrgicos italianos. A Italsider situada em Cornigliano (perto de Génova) era, na altura, a maior produtora italiana de aço, conhecida como «a fábrica dos mortos», tão frequentes que eram, ali, os acidentes de trabalho. Nono inclui na primeira das três secções de La Fabbrica Illuminata o ambiente sonoro que registou da Italsider, adicionando-lhe as vozes de operários e a leitura de excertos de documentos sindicais com que acentua a intenção política da obra.
Muitos anos mais tarde, também a islandesa Bjork integra o ambiente sonoro de uma fábrica na escrita da canção Cvalda para a longa-metragem Dancer in the Dark (2000). De novo a teia rítmica da maquinaria, uma vez mais o Trabalho no centro da acção sonora, uma vez mais a denúncia da desumanização das relações de produção.
Marx, inspirador de canções
Para lá da imensa obra que legou à luta pelo socialismo e pelo comunismo, Marx constituiu-se escritor de canções por interpostas mãos. Working Class Hero (Herói da Classe Operária), de John Lennon, foi classificada no seu país como «canção política». Lennon concorda e aumenta os receios da classe dominante: «Eu acho que é uma canção revolucionária – é realmente revolucionária.» A canção, composta muito antes da invenção do «empreendedorismo» individualista, traça um retrato do filho da classe operária a quem a sociedade de consumo rouba a consciência de classe a golpes de «religião, sexo e TV», a escrita de Lennon a desenhar dois mundos paralelos e conflituantes: o do operário e o de «eles» («they»).
Em Factory (Fábrica), Bruce Springsteen canta os passos do «seu» operário ao longo da dura jornada de trabalho: «De manhã cedo soa a sirene da fábrica / o homem levanta-se e veste-se / leva o almoço, vai sob a luz da madrugada / é o trabalho, o trabalho, uma vida de trabalho; Final do dia, soa a sirene / os homens atravessam os portões com a morte nos olhos / é o trabalho, o trabalho, uma vida de trabalho.»
Dizem as canções que aqui referimos que a condição de vida de um operário dos EUA de Springsteen, ou da Liverpool de John Lennon, não é diferente da do operário chileno da canção Te Recuerdo Amanda de Victor Jara. Manuel, «que partió a la sierra / que nunca hizo daño / que partió a la sierra / y en cinco minutos quedó destrozado / suena la sirena / de vuelta al trabajo / muchos no volvieron / tampoco Manuel». Ou do personagem de Foi a Trabalhar, de Sérgio Godinho, afirmando que «Quem me usa não me merece / só merece o meu desprezo quem abusa / da minha força e da minha competência / e até mesmo da impaciência / de dar de comer aos meus filhos», consciente de que «É a trabalhar / que a gente paga o jantar / mas foi a trabalhar / que a gente fez a faca para o cortar».
Num tempo de patética imposição da «concertação social», numa sociedade capitalista desconcertada por natureza, cantar o Trabalho é sonorizar o futuro. Mesmo que, como refere Manuel Gusmão, «de há uns tempos para cá vozes muito dissemelhantes [pareçam] insinuar, se não explicitamente afirmar, que não há futuro para ninguém». E, contudo, se não houver futuro, se não tivermos futuro, seremos como dizia o outro, «cadáveres adiados que procriam». Com efeito, «não há experiência histórica, não há história sem a categoria do futuro, mesmo que essa categoria seja a de uma falta ou ausência, que se desloca e move no passado a reconstruir, e no presente que reencena o passado. Não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do futuro, mas isso não nos impede de o desejar. O carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas e de os humanos se configurarem e reconfigurarem, segundo uma auto-poesis histórica, são fundamentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro, “uma terra sem amos“. Porque nós habitamos o mundo, e o mundo é a nossa tarefa».
O Trabalho no canto essencial
Intervieram sempre as canções nas tarefas de transformar o mundo, estandartes de sons em vez (ou junto) de bandeiras de pano – empunhadas por vozes em vez de mãos – símbolos por igual nas lutas de há muito tempo nos idiomas todos da Terra.
Não se sabe qual foi a primeira canção da primeira luta, mas sabe-se que A Internacional herdou os cantos que a terão precedido e prevalece, desde a sua criação, como canto universal dos trabalhadores: «De pé, ó vítimas da fome! / De pé, famélicos da terra!». A letra original de A Internacional foi escrita em 1871 pelo communard Eugène Pottier (1816-1887). Pottier tencionava que o poema se juntasse à melodia da Marselhesa, mas Pierre De Geyter (1848–1932) alterou o projecto inicial, compondo em 1888 a música que viria a acolher as dezenas de poemas por que A Internacional responde nos quatro cantos do globo. Companheira do Partido Comunista Português na clandestinidade, a Revolução de Abril devolveu-lhe o eco das ruas e a presença em todos os actos partidários.
A Revolução permitiu (exigiu) que mais cantos fossem compostos ou redescobertos para as suas muitas tarefas, uns condenados a perecer às mãos da rima fácil, outros calhados para durar. Entre estes está o Hino da Intersindical. A partitura foi retirada da canção do século XIX (1852) Guerrilheiro, descoberta por Luís Cília (compositor de Avante, Camarada!, de 1968) na Biblioteca Gulbenkian de Paris. Guerrilheiro terá sido composta por autores alentejanos anónimos no tempo das lutas civis da Patuleia e Maria da Fonte, e convertida em hino sindical num processo semelhante ao da passagem dos sinais identitários de geração em geração.
Trabalhar sem receber
Produto também da História, as canções trazem sempre agregadas ao seu corpo a marca da classe a quem servem. Ao mesmo tempo que as classes dominantes geram e disseminam produtos de entretenimento na linha do denunciado por John Lennon em Working Class Hero, cantar o Trabalho visa agora a denúncia da exploração de uma geração tão especializada quanto vulnerável.
Parva Que Eu Sou é denúncia e é lamento na voz de Ana Bacalhau – de um lado a ignomínia, do outro a resignação que alimenta um desencontro de classes precisado de luta: «Sou da geração sem remuneração / e não me incomoda esta condição. / Que parva que eu sou! / Porque isto está mal e vai continuar, / já é uma sorte eu poder estagiar. / Que parva que eu sou! / E fico a pensar, / que mundo tão parvo / onde para ser escravo é preciso estudar.»
Mudam-se os tempos, mas há vontades que não mudam. Que seria do Capital sem a apropriação do produto do Trabalho? Que seria do crescimento do lucro privado sem o «contributo» dos baixos salários ou do trabalho (os tais estágios) não remunerado? Um coro de milhares de jovens cantava na edição da Festa do Avante! a plenos pulmões um tema de Boss AC em que o salário é a preocupação central: «Tantos anos a estudar para acabar desempregado / Ou num emprego da treta, mal pago / E receber uma gorjeta que chamam salário / Eu não tirei o Curso Superior de Otário / Não é por falta de empenho / Querem que aperte o cinto mas nem calças tenho / Ainda o mês vai a meio já eu 'tou aflito / Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito / É sexta-feira / Suei a semana inteira / No bolso não trago um tostão / Alguém me arranje emprego / Bom bom bom bom / Já, já, já, já.»
Conta-se que era uma vez uma cigarra que, cantando e cantando de fome viria a morrer; e que era uma vez uma formiga que, trabalhando e trabalhando chegaria ao inverno abastada de migalhas. A fábula está errada: porque de Trabalho é feito o Cantar da Humanidade, e porque a cantar sempre se trabalhou (e trabalha) neste mundo. Vozes ao alto, portanto, que o caminho é comprido e a tarefa – como diz a Heróica de José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça – é a de «chegar ao fim da estrada ao sol desta canção»!
Manuel Pires da Rocha
Working Class Hero
(podia ser outro. mas este veio mesmo a calhar... e soube tão bem ouvir!)
- Tradução livre...
Desde que nasces fazem-te sentir pequeno
e não te dão tempo algum para ti.
até tuas dores são tão grandes que nem as sentes Um herói da classe operária está sempre em construção Um herói da classe operária está sempre em construção
cresces em casa pobre e batem-te na escola
odeiam-te se és inteligente e desprezam-te se és parvo
ou dizem-te doido se lhes não segues as suas regras Um herói da classe operária está sempre em construção Um herói da classe operária está sempre em construção
assustam-te e torturam-te durante vinte anos estranhos
em que querem que escolhas uma profissão
e se não o conseguem fazem-te ter medo
Um herói da classe operária está sempre em construção Um herói da classe operária está sempre em construção
drogam-te com religião, sexo e televisão
pensas que és esperto, bêbado e livre
mas, pelo que se vê, não passas de um campónio fodido
Um herói da classe operária está sempre em construção Um herói da classe operária está sempre em construção
dizem-te que tens um lugar no topo da vida
mas primeiro tens de aprender a sorrir enquanto matas
como os que estão lá no alto
Um herói da classe operária está sempre em construção Um herói da classe operária está sempre em construção
se queres ser um herói, bem!....só tens que me ouvir
se queres ser um herói, bem!... só tens que me seguir