terça-feira, janeiro 27, 2015

Vamos aos números...para haver um mínimo de rigor

Para mim (e por mim falo), as eleições, onde quer que sejam, são um sinal do "estado  das coisas". Na sua "pureza" conquistas da democracia, as eleições sofrem tratos de polé, sendo instrumentalizadas desde a imposição da consideração de que haver eleições é igual a haver democracia até toda a manipulação a que são sujeitos os resultados, os numerozinhos, correspondendo cada um deles à escolha expressa e explícita (ou não) de cada um de nós. Na aparência, todos iguais no exercício  da cidadania, com os condicionalismos que esta sofre e suporta.
Poderia continuar interminavelmente estas reflexões mas agora são números que aqui me trazem. E que entendo imprescindíveis para se poder falar com algum rigor do(s) significado(s) das eleições gregas, enquanto expressão do estado da nação grega (membro de uma "União" de que Portugal  faz parte).
Depois de muito ter ouvido - e algumas coisas das ouvidas sendo verdadeiras barbaridades face aos números que, laboriosamente e de mais que uma fonte, procurei conhecer -, e depois de pouco ou nada ter ouvido sobre outras, aqui ficam os números a que cheguei.

Por ordem de crescimento em relação a 2012:


  Eleições 2015   Eleições 2012    Diferença
Coluna1     %    votos      %    votos        votos        %
Potami 6,05%         373.618 - - 373.618 -
SYRIZA 36,34% 2.244.687   26.89% 1.655.086 589.601 35,6
KKE-PCG 5.47%    337.947    4.50% 277.204 60.743 21,9
ND-Nova  Democracia 27,81% 1.717.831   29.66% 1.825.637 -107.806 -5,9
Amanhecer Dourado 6,28%    388.197     6.92% 425.990 -37.793 -8,9
Gregos Independentes 4,75%    293.211     7.51% 462.466 -169.255 -36,6
PASOK-PSG 4,68%    289.302    12.28% 755.868 -466.566 -61,7
5.644.793 5.402.251 242.542 4,5

Ficam para informação e reflexão.
Comentar-se-ão, eventualmente, 
em próximo "post"..




segunda-feira, janeiro 26, 2015

Reflexões lentas (e irreflexões rápidas) no dia seguinte às eleições na Grécia

Os resultados  das eleições na Grécia são um facto político relevante. Como aqui se transcrevia (de crónica internacional, de 5ª feira, de Ângelo Alves): «(...)desejo popular de mudança e de recusa das políticas do PASOK, da Nova Democracia, da troika e da União Europeia é mais do que evidente. Isso é já uma vitória para a Grécia, indissociável da luta popular. E é uma derrota para a União Europeia do capital e do medo. O povo grego está a demonstrar coragem, quer mudar e acredita numa mudança real substantiva. (...)».
Foi com satisfação e alegria e esperança que se acompanharam as notícias sobre esses resultados. Mas não com euforia, sobretudo não irref lectidamente. Como bem alertava Ângelo Alves, no final  da sua crónica «É de construção de um futuro novo que exige rupturas, coragem, verticalidade e frontalidade. E que não tolerará enganos ou desilusões,»

E é tempo (como sempre) de reflectir. 
Não se tem de estar em acordo total com quem está em desacordo com o que em desacordo estamos. Como não se pode estar de acordo com quem está de acordo com o que em desacordo estamos.
Podemos - e devemos - procurar acordos de acção com quem está em desacordo com o que em desacordo estamos e lutamos. 

Mas se esses resultados abrem perspectivas e reflexões prenhes de esperança, outras reacções (e frases e palavras) suscitam, que se diriam pouco reflectidas ou, até impróprias. 
Exemplos: 

1.


Passos: Será «muito difícil» conciliar programa do Syriza com regras europeias

Passos: Será «muito difícil» conciliar programa do Syriza com regras europeias - fonte: Económico


Numa das reações europeias mais adversas à vitória da extrema-esquerda na Grécia, o primeiro-ministro português diz que algumas das ideias do Syriza são um "conto de crianças".


2.

Economia

Dias gregos

Tempo para pensar. Como todos os tempos.
Hora de agir. Já. Como em todas as horas.
Nas condições sempre a mudar. Sempre!

quinta-feira, janeiro 22, 2015

A situação internacional e a luta pela PAZ




Crónica internacional

 - Edição Nº2147  -  22-1-2015




A Europa e a Grécia
Como o PCP alertou, os acontecimentos de Paris estão a ser aproveitados pelos sectores mais reaccionários, pelas principais potências imperialistas e pela União Europeia para fazer avançar aquilo que há muito tentavam. Sustentados numa paranóia securitária de natureza islamofóbica, direita e social democracia unem-se para adoptar um conjunto de medidas que levam mais longe os atentados às liberdades individuais e colectivas, à democracia e à participação popular e abrem campo à extrema-direita. Ao mesmo tempo que se instiga a paranóia, avança-se, no plano ideológico, na teoria maquiavélica do choque de civilizações. Pelo meio, com pezinhos de lã, lá se vai também falando dos «extremismos de esquerda». Entretanto em Londres uma enfermeira é suspensa por rezar por uma sua colega muçulmana e multiplicam-se na Europa as manifestações de extrema direita contra as minorias religiosas e os imigrantes.
O Big Brother europeu está em marcha e a Europa fortaleza reforça-se. «O inimigo está entre nós», todos somos potenciais «jihadistas». Por isso, os nossos movimentos, viagens, compras, acções, opiniões vão ser «monitorizadas» pelos «guardiões» da nossa «segurança» que acumularão o poder de decidir quando e como os exércitos sairão à rua para «garantir» a nossa «tranquilidade». A União Europeia está mergulhada no medo, empurrada para o racismo e a intolerância e corroída por uma profunda crise social e económica. A realidade, essa, fica submersa no mar de desinformação e condicionamento ideológico, ocultando-se que estamos a ser vítimas das políticas «europeias» e «atlânticas» que instigam ao ódio, à guerra, ao conflito, à divisão – seja na Síria, na Líbia, no Iraque... ou na Ucrânia, onde o exército de Kiev bombardeia sem dó nem piedade o seu próprio povo em Donetsk. Tudo isto em nome dos «valores da democracia ocidental» e da proclamada «liberdade de expressão e de imprensa».
É esta «Europa», decadente, em crise e em que o medo e a chantagem são armas de domínio, que vai também estar em julgamento nas eleições do próximo domingo na Grécia. Um país destruído economicamente, asfixiado por uma dívida imposta, vendido a retalho e ao preço da chuva ao grande capital estrangeiro, completamente submetido aos ditames dos seus «credores» e senhores e com um povo a sangrar feridas sociais, de dignidade e de soberania – é este País que vai a votos no domingo. Um povo massacrado e ferido, mas também um povo que há quase uma década protagoniza lutas sociais e de massas de grande envergadura para as quais o movimento sindical de classe e os comunistas gregos deram e dão contributos decisivos.

O desejo popular de mudança e de recusa das políticas do PASOK, da Nova Democracia, da troika e da União Europeia é mais do que evidente. Isso é já uma vitória para a Grécia, indissociável da luta popular. E é uma derrota para a União Europeia do capital e do medo. O povo grego está a demonstrar coragem, quer mudar e acredita numa mudança real substantiva. Essa é a razão por que, nervosos, os «donos disto tudo» se lançaram numa imunda campanha de chantagens e pressões contra a liberdade de expressão e de decisão do povo grego. Porque a liberdade do povo põe, como sempre, em causa a «liberdade» de mandar, de explorar e oprimir. Compete às forças políticas gregas interpretar e respeitar este fundo sentimento nascido da luta, que é propriedade exclusiva do povo. Porque, tal como em Portugal, será com o povo e a sua luta que se podem operar as rupturas necessárias para a Grécia respirar liberdade, justiça, dignidade, desenvolvimento, progresso e soberania. O tempo na Grécia e na Europa não é de meias verdades e muito menos de novos cozinhados para as mesmas receitas. É de construção de um futuro novo que exige rupturas, coragem, verticalidade e frontalidade. E que não tolerará enganos ou desilusões.

Ângela Alves

sábado, janeiro 17, 2015

a talhe de foice - VIVA!



 - Edição Nº2146  -  15-1-2015

Vivamos

A exemplo do que sucede com algumas canções, que sem razão aparente ou por um errático processo de associações de ideias nos martelam na cabeça durante horas e mesmo dias a fio, esta semana invadiu-me persistentemente a lembrança do poema de Reinaldo Ferreira – Receita para fazer um herói: Tome-se um homem, / Feito de nada, como nós, / E em tamanho natural. / Embeba-se-lhe a carne, / Lentamente, / Duma certeza aguda, irracional, / Intensa como o ódio ou como a fome. / Depois, perto do fim, / Agite-se um pendão / E toque-se um clarim. / Serve-se morto.
Mais intenso do que tudo o resto fica este «Serve-se morto», seja lá onde for, que de mortos esteve a semana cheia e de mortos se falou em todas as línguas. Mediatizados uns – a «nossa» dor dói sempre mais do que a dor dos «outros» –, ignorados a maioria deles, os mortos aí estão todos os dias a marcar o quotidiano, sem heroísmo que lhes valha mas sempre a clamar por justiça.
Mortos por uma bala perdida, mortos com um tiro à queima-roupa, mortos sem se saber porquê por um drone comandado a milhares de quilómetros de distância, mortos de fome e de frio, mortos sem assistência numa maca de hospital, mortos numa ambulância à procura da ajuda que fica demasiado longe e chega demasiado tarde.
Mortos também de desespero pelo trabalho roubado, pela casa pilhada, pela dignidade sonegada.
Mortos, enfim, no anonimato dos danos colaterais de todos os crimes que ficam por contar... e por punir.
É feita de mortos esta história do mundo globalizado pelo imperialismo, onde um punhado de hipócritas chora lágrimas de crocodilo pelos que tombam enquanto com as mãos sujas de sangue lavram novas sentenças de morte.
A encenação da pseudo manifestação de «dirigentes mundiais» nas ruas de Paris – chefes de Estado e de governo, incluindo Passos Coelho, naturalmente – que desfilaram durante alguns minutos e pousaram para a fotografia separados por um imponente dispositivo policial dos milhões de pessoas que saíram à rua em genuína manifestação de repúdio e indignação pelo bárbaro ataque ao Charlie Hebdo, tresanda a morte. Morte matada fruto das políticas que cada um por si e todos em conluio praticam no mundo globalizado do capital – fomentando guerras contra estados soberanos, instigando conflitos religiosos e étnicos, promovendo forças de extrema-direita, fascistas e xenófobas, prosseguindo políticas que incrementam a exclusão social e a exploração –, e morte anunciada de elementares direitos democráticos em nome da «segurança».
Num sistema que globaliza perdas e danos e privatiza lucros e benesses, até os mortos – acidentes de percurso – servem, quando servem, para legitimar o ilegítimo. Vítimas e carrascos, depois de mortos, tornam-se pratos pronto a servir para alimentar o monstro, insaciável nos estertores da morte a que historicamente está condenado.
Cabe-nos a nós – os que querem transformar o mundo – mudar o rumo desta história. Viver.

Anabela Fino

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Selecção...

Selecção (cá da casa...) de cartoons inspirados (e transpirados) por indesejáveis motivos, e que "agarraram" (segundo "cá a casa") a "questão pelos (alguns dos seus muitos) cornos".
1.(já aqui publicado) de GR7
2.(tirado do facebok) de IETI-JMR
3. (publicado no avante! de 15.01.2015) de Monginho







quarta-feira, janeiro 14, 2015

MEDO

É o MEDO que (n)os tolhe
            É o medo
                   da morte
                   da vida
                   do futuro
                   de amanhã             
da saúde
do desemprego
da segurança
do patrão
do outro
do medo
            que (n)os tolhe
                   encolhe
amacia
                   amansa
amassa
armadilha
embosca
entorpece
embrutece
paralisa
desumaniza

É pelo sonho que venceremos
                        se lutarmos
                        se juntarmos a nossa luta 
                                      á luta de antes de nós
                        se abrirmos portas e janelas 
                                      para a luta de depois de nós


terça-feira, janeiro 13, 2015

Cá por casa...

... também se é charlie!, mas não só, e tão-só enquanto indignação por todos os terrorismos - não esquecendo os escondidos e escamoteados -, e com dúvidas, e procurando enquadrar tudo num quadro de reflexões históricas - e lentas -, e repudiando os aproveitamentos oportunistas e mistificadores. Obrigado, Gonçalo, pelo teu contributo para a "nossa" maneira:

desenho de gr7

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Últimas - O crime foi adiado...

Últimas notícias:
PT: Assembleia geral suspensa com nova reunião agendada para 22 de Janeiro
fonte:
Esta notícia era esperada como uma das que poderiam vir a ser dadas. Mas a luta dos trabalhadores, a posição de alguns accionistas, de alguns comenta dores (como Nicolau Santos, que abaixo se transcreve) levaram a este adiamento num País desgovernado, ou de que o Governo se tem vindo a ausentar à boleia de um PdaR ausente de si próprio e das suas funções constitucionais.








Reflexões lentas - ainda (e sempre) palavras: terrorismo

Faltam sempre palavras. A que, nestas reflexões, me tem estado a faltar é a que mais presente parece neste momento: terrorismo
Já tivemos, na História por nós vivida ao vivo, nos anos 60, quem os próceres da ditadura que nos oprimia diziam ser terroristas, por serem dirigentes de movimentos de libertação dos seus povos, ao mesmo tempo que o Papa os recebia (a Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos) em audiência, pode dizer-se solidária. Muitos exemplos se poderiam juntar de perversa manipulação do léxico. Ao longo da História.
  • terrorismo. Por pontos:
  1. O atentado perpretado em Paris a 7 deste mês, na sede e redacção do Charlie Hebdo, foi, inquestionavelmente, um acto de terror e horror, como o foi o que se lhe seguiu;
  2. Estes actos têm de ser condenados com veemência e, mais que condenados, prevenidos quanto possível... e jamais justificar actos e acções que a eles se assemelhem;
  3. Temos vivido em coexistência com situação e momentos de terrorismo de Estado evidente, embora tudo maquilhado por uma comunicação ao serviço desses Estados, ou melhor: do que/de quem os domina;
  4. Somos todos protagonistas do tempo que vivemos, do que se passa em nossa casa ou vizinhança e do que acontece nos longes ou nos antípodas, e temos de estar atentos a e intervenientes em tudo, sobretudo quando nos querem passivos e manipuláveis ("massas amassadas", escreveu alguém);
  5. Tenho orgulho de pertencer a um colectivo político-partidário e de ter vivido, solidário, a decisão de se promoverem acções revolucionárias armadas, sempre com o cuidado de não provocarem vítimas e de que nunca pudessem justificar a confusão com terrorismo (o que, como risco assumido, não quis dizer ausência do mentiroso e em nada justificado anátema);
  6. Pelas condições antes criadas, pelas consequências que deles se querem tirar, os actos terroristas de agora - e por serem em Paris, no nosso euro-egocentro... - exigem que se reforce uma informação verdadeira e a clareza de tomadas de posição;
  7. Se soubesse desenhar, fazia um desenho... como não sei aproveito um desenho de um francês, que não é cartoonista mas sim um grande escritor, Daniel Pennac (em Ecrire):
  

domingo, janeiro 11, 2015

Reflexões lentas - nos dias de agora

Nos dias de agora, no dia de hoje

Continuam as palavras a dominar as reflexões lentas (e a procurar dar-lhes sentido) 

  • Fanatismo - No que se vai ouvindo, há uma confusão que é feita por alguns entre fanatismo e convicções, nem sempre inocente e por vezes deliberadamente. E (e)laboram na confusão com intenções encobertas (ou não) de atacar convicções que não são as suas, ao mesmo tempo que apregoam, hipocritamente, a necessidade de tolerância (deveria, talvez, escrever-se compreensão), em que revelam não abundar. Cá por mim, e por mim falo, sou um convicto marxista-leninista. Escoro-me numa leitura da História que é a do materialismo histórico envolvida na opção ideológica do materialismo dialéctico, de nada me arrogando nem especialista nem guardião. Talvez devesse concluir, aqui, com um... ponto final. Mas, nestas reflexões lentas, ainda quero dizer(-me) que, em coerência com essa opção e com essa leitura, estou convicta e naturalmente contra todos os fanatismos e todos os sectarismos. Sei que só sei que pouco sei e que, dado o muito tempo vivido, pouco tempo me sobra  para mais saber, tempo que devo empregar em mais conhecer para melhor pôr na prática individual, cidadã, o pouco que sei e posso ao serviço do colectivo humano em que efemeramente me incluo. Com estas convictas - mas não fechadas - opção e interpretação. Se soubesse desenhar, desenhos faria (muitos, mas não todos, como os da Charlie, e outros que a Charlie talvez não publicasse ou que poderiam levar à minha demissão da revista). Escrever sei (e sei que há quem não goste do que escrevo, e/ou do estilo... que é o homem), e por isso alinho e alinhavo palavras. Para afirmar a repugnância pelos conceitos e subversão de valores humanos que algumas delas encerram, como hipocrisia e cinismo. Vem agora o ponto final.

Pobres e pobreza, ricos e riqueza

"Preocupar-se com os pobres 

não é comunismo", 

diz o Papa





Entrevista concedida por Francisco a dois jornalistas do diário “La Stampa” vai ser publicada em livro.
11-01-2015 16:02 por Aura Miguel








"Preocupar-se com os pobres não é comunismo"
e "o Evangelho não condena os ricos, 
mas sim a idolatria da riqueza".
Os esclarecimentos são do Papa Francisco
em mais uma entrevista, desta vez em forma de livro,
que será publicado em Itália na próxima semana.
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Ora aí está! Mais uma vez de acordo com 
o Papa Francisco (com as suas palavras).

Comunismo é lutar contra a pobreza, 
contra o que faz com que haja pobres e ricos, 
não é condenar os ricos 
mas a riqueza que é a outra face da pobreza; 
comunismo é condenar todas as idolatrias, 
também a que traz resignação aos pobres.

separem-se as águas!
e não para se caminhar entre elas
... sem que nos molhemos.

sábado, janeiro 10, 2015

Reflexões lentas - NUM "CARREFOUR" DA HISTÓRIA

NUM “CARREFOUR” DA HISTÓRIA

A História vai-se fazendo. Inexoravelmente. E passa por sucessivos cruzamentos e entroncamentos de caminhos. 
Face aos que nos calha viver, paramos à procura de adivinhar qual deles será o caminho que vai ser seguido. Por vezes, perplexos. Nunca indiferentes e passivos ou obedientes.

Parece que a França recuperou protagonismo. Ou somos nós – ou os franceses e nós… – que não sabemos ser senão protagonistas. Desenhando “cartoons”, sendo assassinados por os termos desenhado, num bárbaro atentado. E fazendo disso o fulcro da História que está a ser vivida. E escrita. Com uma reacção contra ódio de violência bárbara com alvo, uma reacção de “olho por olho, dente por dente”, de ódio e violência dirigida a todos os alvos e com necessidade de mostrar que acertou em alguns.

Neste sábado de manhã, a minha ressaca da “bebedeira” informativa questiona-me se, na manifestação de domingo, de amanhã, de todos os franceses (e nossa, que nos convocam, imperativamente, a sermos todos Charlie), a madame Le Pen tem ou não lugar, e se o vai ter como “força democrática”, se o vai ter por se impor como representante de “la grandeur de La France" (da "grandeza" xenófoba, racista, fascista… porque outras tem).

Um arrepio me percorre a espinha, que quero vertical. E sofro uma ausência, a de um Partido Comunista Francês, que tanto foi para a minha formação, e que desapareceu do mapa, de todos os mapas. E que tanta falta faz!  À França, à Europa, ao Mundo. A nós. Ou (sei lá…) só a mim.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Fome de pão?... comam brioches! - Carrito conFISCadO? ... comprem BMW!



- Edição Nº2145  -  8-1-2015


O melhor de sempre
2014 foi o ano em que Portugal perdeu mais de 400 camas hospitalares; em que 269 clínicos pediram à Ordem dos Médicos os certificados para exercer a profissão no estrangeiro; em que 2082 enfermeiros emigraram, o que dá uma média de 5,7 por dia; em que as urgências dos hospitais rebentaram pelas costuras por falta de profissionais e camas para internamento, com tempos de espera a atingir as 18 horas e mais; em que corporações de bombeiros denunciaram que há ambulâncias a ficarem retidas nos hospitais por falta de macas e demais material; em que houve pelos menos 66 mil processos de penhoras de casas ou execução de hipotecas (dados de Setembro); em que só entre Outubro e Novembro mais 1700 crianças perderam o abono de família; em que voltou a cair o número dos que recebem o complemento solidário para idosos, o subsídio de desemprego e o rendimento social de inserção, entre outros apoios sociais; em que morreu gente no serviço de urgências sem ter sido atendida; em que...
O rol podia continuar por aí, falando nos dramas que cada número tem contido no bojo, acrescentando outros, tantos, que não caberiam nestas linhas, mas tal seria não só deprimente como politicamente incorrecto, nestes tempos em que Pedro e Paulo já não vislumbram nuvens negras no horizonte, Pires transborda de confiança no crescimento da economia, e o senhor Silva continua a cacarejar de contente sempre que o Governo põe um ovo.
As desgraças do povo, consabidamente madraço, não cabem no discurso oficial, cujo, insiste-se e repete-se até à exaustão, diz que o País está bem e recomenda-se. Se não é o nosso caso paciência, azar, alguma coisa fizemos ou deixámos de fazer para não estarmos a cavalgar a maré dos sucessos que proliferam como cogumelos em terras de Portugal. A prova de que assim é chegou-nos esta semana através do comunicado distribuído pelo grupo BMW em Portugal, dando conta de que 2014 foi o «melhor ano de sempre», com a venda de «12 961 unidades, entre automóveis BMW e Mini e motociclos BMW, o que corresponde a um crescimento de 35% face ao ano anterior».
Maria Antonieta terá dito «se o povo tem fome, por que não come brioches?» Maria Luís não recomendou a compra de BMW, mas lá que alguém anda a comprá-los com o nosso dinheiro, isso anda.


Anabela Fino

Boa!

Reflexões lentas - procura de palavras com acerto-2

 Desde ontem não é possível a procura de informação, seja escrita, falada ou "ouvista", estar-se com alguém, sem que a "conversa" não seja atropelada pelos acontecimentos de ontem. Dispensar-me-ia de escrever Charlie Hebdo. E é grave o momento, ou esses acontecimentos vieram trazer gravidade ao grave momento histórico que se atravessa.
  • Barbárie. O que aconteceu ontem em Paris foi uma manifestação de barbarismo, e não enquanto erro de linguagem. O atentado contra a revista de humor politizado, aquele assassinato colectivo, é inaceitávelsuportável num processo histórico que já passou as etapas que passou... desde a barbárie. Nada - mas nada! - o explica ou torna compreensível. Dito isto, igualmente inaceitáveissuportáveis são algumas (muitas) coisas que se dizem, escrevem, ouvem, comentando o que aconteceu e o que está a acontecer. São hipócritas - ou ignorantes - as afirmações que colocam a questão em termos absolutos de liberdade de expressão. E são-no por se viver num mundo - num tempo histórico - em que a liberdade de expressão está evidentemente (para quem quiser ver as evidências) condicionada pelo "poder económico-financeiro", que se serve daquela expressão para tudo, até para atentar quotidianamente contra... a livre e civilizada liberdade de expressão, contra uma verdadeira informação, contra um direito a cada um informar-SE. Vivemos a pré-história da Humanidade e atentados como o de ontem, e o que ele está a desencadear, são recuos (de dias, anos, décadas ou séculos) na humanização da Humanidade. "Tento na língua", isto é, liberdade de expressão no seu sentido mais profundo. Por isso me calo, e recolho, triste e preocupado. Em reflexão. Lenta.      

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Reflexões lentas - procura de palavras com acerto-1

Reflecte-se com palavras, porque as reflexões assentam sobre palavras e o significado que se lhe queira dar. Reflectia assim, alinhando palavras, a partir da observação/comprovação de que as últimas reflexões lentas têm sido sobre palavras. Palavras com tanto pêso que, sós, isoladas, exigem reflexão. Ou, vendo ao contrário... ou, pegando pelo outro lado, são precisas palavras para se sintetizar reflexões, sejam estas rápidas ou, preferencialmente, lentas. Para que as reflexões se entendam.

  • CAOS. Vejo a televisão ou folheio jornais e a palavra caos aparece-me repetida. Depois de um processso passo a passo, medida a medida, decreto a decreto, orçamento a orçamento, vetos do TC a vetos do TC (porque vetos são), a evolução dos rendimentos dos portugueses, das políticas de saúde, das políticas de educação, justificam o vocábulo. Sobretudo na área da saúde se tem de entender que quer dizer caos para reflectir a situação. Hoje, no restaurante, no jornal televisivo que me serviram com o cozido à portuguesa: "homem de 77 anos morre nas urgências de Setúbal, depois de esperar 4 horas"; "mulher de 79 anos morre nas urgências de Peniche após esperar 10 horas". E fala-se em caos por estas duas mortes que são anunciadas ao almoço (a mim, que tenho 79 anos e estou constipado...) se juntarem a outras anteriores em outros sítios mas aqui, de outras idades mas sobretudo destas, com outros números para as horas de espera mas sempre muitas, e às macas ocupadas, e às viaturas de apoio médico imobilizadas, e à decisão de apressar baixas, e à responsabilização de empresas de aluguer de pessoal médico, e, e. Caos na situação, pânico não confessado (ou envergonhado) nas... pessoas!, em quem não tem posses para se marimbar no Serviço Nacional de Saúde. Porque é aqui que bate o ponto da reflexão. A responsabilidade, a culpa que sempre se procura identificar, não é deste governo e do seu orçamento, não é do ministro que é mau, não é dos médicos que não há, não é dos enfermeiros que emigram, não é dos administrados que gerem mal. É de uma política que vai em décadas, e que tem vindo paulatinamente a tornar um direito num não-direito, um serviço nacional e público num sistema que o vá substituindo, articuladamente, num sistema em que tenha cada vez maior (até à exclusividade) peso o negócio  da doença. E assim tem sido até se chegar a (este) caos. A culpa é da política que privilegia o privado e abate o homem de 77 anos e a mulher de 79 ao número dos que são "culpados" por (ainda) estarem vivos e serem um encargo para o orçamento! 


  • Segue BARBÁRIE      

   


quarta-feira, janeiro 07, 2015

Reflexões lentas - segredos e gestões

Para intervalar com a crónica "7 dias em Maio", que está em curso de escrita - o "cronista" vai no dia 19 de Dezembro, e acabamos de chegar à Vila de Maio (de antigo nome Porto Inglês), capital da ilha de Maio -, aqui se vêm deixar algumas reflexões que a situação que vivemos, aqui e agora, suscita, ou melhor: provoca!

  • Os vários segredos. Ele há o segredo de justiça, que parece existir para ser violado, em nome-alibi de uma "informação" aparentemente completa mas sempre desvirtuada e manipulada, ou servindo de pretexto para só se dizer o que convém que seja dito. Ele há, agora, o segredo fiscal, ele há o segredo de ordem pessoal, confessional, profissional. Impunha-se uma ementa dos segredos a respeitar para que não se utilizassem "à la carte".
  • As gestões. Houve uma "moda" (ou vaga) do vocábulo gestão. O uso e a utilização da palavra serviu - e serve - para imensa coisa. E, numa economia em deriva de financeirização, até pareceu mesmo que gestão complementava e/ou substituia a racionalidade económica. No entanto, tudo mais se transformou - no léxico - quando se começou a dividir a gestão em boa (que seria a privada) e em má (que seria a pública). O que se procurou transformar em "verdade" consensual, e que está a ser esquecido quando a realidade a veio tornar em perfeita falácia. É que a gestão dita privada invadiu os "negócios do Estado", ou seja, a dita gestão pública foi privatizada, adoptando os critérios privados, tão prevalecentemente individuais que egoístas, quando não criminosos ética ou humanitariamente. O caso tornou-se particularmente gritante no sistema bancário. Está bem â vista (e ao ouvido) a "bondade" da gestão privada. Bem a mostram os BPN, BPP, BCP, BES/GES, PT, e mais, e mais. Dir-se-á que a tal "bondade" da gestão privada tem provocado gravíssimas malfeitorias e que há necessidade (e urgência) de impor uma gestão pública onde só ela pode garantir (mau grado erros que possam ser cometidos) a prevalência do interesse geral.    


segunda-feira, janeiro 05, 2015

2015 - reflexões lentas

E aos 3 dias do ano de 2015, no seu primeiro dia útil (como se houvesse os que não o são), com um desejo (e necessidade histórico-social) de que muitos sejam mesmo úteis, este canto de alguma (outra) informação e muita (modesta e talvez dispensável) reflexão saúda os seus ainda teimosos visitantes e cada vez mais raros comentadores. Bom ano nOVO!
Nesta mensagem, três notas, a que outras se poderiam juntar mas em que, qualquer o rol, estas estariam sempre presentes:

  • a "mensagem de ano novo" de Sua Excelência o Presidente da República (como o tratam uns, os "seus") ou do Cavaco (como o designam outros, talvez desvalorizando a sua real e perene intervenção política). Trata-se de uma "peça" que se gostaria de catalogar como de fim de mandato, epitáfia. "Aquilo" é (a meu "ouver", claro) inqualificável. Que país é aquele em nome do qual Cavaco Silva se atreve a falar, a dizer o que disse e a não dizer uma palavra sobre o que não disse como se não existisse ou não tivesse importância (o caso BES, por exemplo!)?, como é possível que alguém, daquele lugar e ali colocado pelo voto, seja tão desavergonhadamente (e desastradamente) tão colado a uma política executiva de que tinha a obrigação de ser distante e distanciado?, quem suportará - além dos que ele suporta ou sustenta - sequer ouvir aquelas "recomendações" que toda a gente sabe (dos que querem saber...) não serem mais do que cunhas para aguentar edifício a ruir? Depois, ainda uma palavra sobre o lado formal, diria estético: um verdadeiro emplastro de si próprio.. Se tudo "aquilo" tivesse a intenção de descredibilizar a democracia, de afastar as gentes de quem as gentes escolheram para as representar, dar-lhe-ia 20 valores. E não se fique satisfeito pelo facto de, nas massas, ninguém lhe ligar nenhuma... Esse é, talvez, o mais nefasto efeito. O da indiferença, o "encolher de ombros", perante o que nos agride e, assim, continuará a agredir.
  • o "caso Sócrates" (assim dito para simplificar, porque há um ancião já passado mas sempre presente que esbraceja e espingardeia desalmadamente, e o transformou em "caso SS - Sócrates-Soares) encheu a passagem de 2014 para 2015. Como se diria em "futebolês" - apesar do futebol continuar a inundar a informação, o "caso Sócrates" sobre-inunda-a num fenómeno interessante, sintomático...e perigoso -, para Sócrates a melhor defesa é o ataque. Mas o ataque a quê, a quem? Ao que se devia exigir que funcionasse ausente de pressões que não fossem as da necessária celeridade e rigor. A política, no seu sentido nobre e societariamente globalizante, está a sofrer os maiores maus tratos pela procurada (embora mal-escondida) promiscuidade entre os poderes - o judicial, o político (no sentido restrito, de executivo institucional) e, por detrás e por todas as costuras do tecido social, o económico. Não se fugirá a que 2015 seja o ano Sócrates português, como ele o desejará. Mas talvez as contas e os cálculos lhe saiam furados...
  • Uma última nota sobre a evolução do preço do petróleo. A nossa contemporaneidade - e alguns, de há tanto tempo contemporâneos, já começam a ser também passado vivido... - estrutura-se sobre uma fonte de energia que tudo mexe e que mexe com tudo. Lembro - eu, que sou desses tais contemporâneos em excesso de anos... - o começo dos anos70 do século passado e como foi decisiva para muita coisa a então dita "crise do petróleo" associada à crise monetária (decisão de Nixon sobre a inconvertibilidade do dólar). Deixo a nota como nota de preocupação. Esta movimentação à volta do preço do petróleo vai perturbar muito o estado das nações e do mundo. Numa primeira linha, cito países como a Venezuela e Angola, os do Médio Oriente todo (quais forem, e como forem), depois (?) os BRICS, depois (!), numa última linha, toda a correlação de forças inter-nacional. No que parecia ser uma evolução de correlação de forças a ter um determinado rumo, algo pode estar a provocar perturbações e perigos muito sérios.
Vai ser um ano em cheio. Vivamo-lo... porque vivos, lúcidos porque informados, intervenientes porque em luta.

                    

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Duas mensagens ainda no desgraçado (por mim falo) 2014 - 2

A outra mensagem, ainda de 2014, que não queria deixar de aqui trazer, neste 1º de Janeiro de 2015, é a da libertação dos 5 de Miami.



A mensagem foi transformada em "gesto de Obama", personalizado, corajoso e magnânimo. Sem pretender retirar-lhe significado (e coragem), não foi isso, e muito menos teria sido só isso. Se se empolou até ao desrazoável a "decisão de Obama" e as negociações que a acompanharam, apagar toda a luta solidária, e a influência que - de certo! - essa solidariedade universal teve, apenas reforça o sinal de fraqueza que tal decisão também teve. 
A vitória é de Cuba... e um pouco, mesmo que nada pareça ou visível seja, de cada um de nós. Preocupa o custo que possa vir a ter tal vitória mas, por e para isso, continua a ser necessária, indispensável, a mesma atenção e solidariedade militante. 
Porque, como sempre, a luta continua. Contínua!

Exemplos só para lembrar:






Duas mensagens ainda no desgraçado (por mim falo) 2014 - 1

Ainda do desgraçado ano de 2014 (por mim falo... ano em que, entre muitas outas malfeitorias, me levou dois amigos muito queridos - o Herberto e o Zé Casanova), guardei duas mensagens que me parecem do maior significado e com que quero abrir 2015. Uma, é esta crónica de Correia da Fonseca, em que nos fala de uma "uma voz em Roma", de que aguardei a publicacação no avante! (paa onde foi escrita) para aqui trazer.    

UMA VOZ EM ROMA
O Natal é, como se sabe, um tempo cheio de luzes multicolores, de intensificações publicitárias, de espectativas comerciais quase sempre condenadas à decepção e de oralidades recheadas de sacratíssimos lugares-comuns. Por estes dias, os telespectadores portugueses puderam aceder a dois momentos exemplares deste tipo de discurso: um deles foi do senhor Presidente da República, desta vez acolitado pela senhora sua Esposa, outro não se dirá de quem foi porque a prudência é sempre boa conselheira, mas é possível revelar que nessa alocução se falou de “a família” como tema destacado. Não será preciso sublinhar como a escolha desse tema foi importante neste momento da vida nacional em que cerca de um terço das famílias portuguesas já está afundada na pobreza que o governo na devida altura assumidamente desejou para o país inteiro, salvo as excepções do costume; quando em milhares de casas o desemprego já atingiu marido e esposa, isto é, pai e mãe, presumivelmente para regozijo da senhora Merkel e de quantos ela representa e serve. Convém registar também uma outra voz, essa ouvida no próprio dia 25, que nos veio contar uma estória que, sendo de inteira ficção, de tão construída toda ela de inverdades óbvias era agressão, desrespeito ao Natal, verdadeiro pecado. Porém, não foram apenas vozes portuguesas as que directa ou indirectamente foram acolhidas pelos nossos televisores neste Natal que, como habitualmente e em desafio dos nossos votos, foi bem menos santo do que tanto foi desejado: chegaram vozes dos Estados Unidos, ecos muito resumidos de uma voz em Moscovo, vozes de Gaza e também de Telavive, até chegou uma voz de Cuba. Mas a voz que terá suscitado mais comentários, a que se mostrou mais atrevida, elevou-se aqui da Europa, de Roma.

O pior dos pecados
Foi, como já decerto se entendeu, a voz de Francisco Bergoglio, cardeal argentino, filho de um ferroviário de nacionalidade italiana, que, na sequência de uma espécie de leviandade que hoje decerto muitos lamentam, foi há vai para dois anos eleito por um punhadão de cardeais para chefiar a Igreja Católica. Talvez a generalidade desses eleitores até desconhecesse qual a profissão do pai de Francisco e essa ignorância tenha ajudado à escolha feita, pois consta um pouco que que isso de ferroviários não é gente de muito fiar. O certo é que a eleição aconteceu e que, de então para cá, a inquietação e o claro desagrado têm vindo a atingir muita gente excelente, e sobretudo devota, que estava posta em sossego, dos seus anos colhendo o doce fruito, como Luís Vaz disse de Inês. Entende-se: aquilo no Vaticano estivera a andar muito bem, João Paulo II havia sido um talvez decisivo cruzado no combate aos infiéis do Leste; o seu valido Marcinkus, arcebispo de Chicago, tinha sido um eficaz presidente do Banco do Vaticano; em devido tempo o céu se encarregara de no breve período de um mês afastar do caminho João Paulo I, que na altura não viria muito a propósito. Ia, pois, tudo bem, quando de súbito, zás!, surge Francisco e desata a multiplicar inconveniências. Não apenas a falar de pobres e desamparados, o que já não é de muito bom gosto, mas também a responsabilizar as estruturas financeiras dominantes pelos desconcertos do mundo, a formular apelos em favor da dignificação e respeito pelo factor Trabalho, a condenar as várias opressões sociais. Logo se desencadearam vozes a acusá-lo de ser comunista, pecado enorme e irremível, pois é sabido que os comunistas é que se preocupam com tais coisas afinal naturais, sempre houve ricos e pobres. E agora, em plena quadra de Natal, chega a sua denúncia pública, clara e veemente, de torpezas e vícios cardinalíssimos, um pouco a lembrar Jesus no Templo. Bem vimos na TV como prováveis visados aplaudiram o Papa com as pontas dos dedos, e apenas por dever de ofício. Bem sabemos que a esperança é que ao perfazer 80 anos, em 2016, Francisco passe à reforma, e que o tempo passe depressa. E bem sabemos também que a prudência recomenda ao Papa alguns cuidados. Pois a História ensina que nem sempre a cidade do Vaticano é um lugar saudável. E o céu não dorme.

Correia da Fonseca

Outra, virá a seguir...