sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Borgen...

Fui "agarrado". Só me lembro de igual situação aquando de Gabriela, Cravo e Canela. Embora, nessa altura - há muitas décadas - fosse mais difícil porque era precisa muita "ginástica" nos horários para não se perderem os episódios. Agora, a "ginástica" é outra, embora também de  horários, mas serão horários de sono, de sono roubado para não se perderem os episódios gravados.
Borgen é a minha "telenovela" deste tempo de hoje (e de alguma outra gente que conheço...). Uma série dinamarquesa sobre política. Hoje.
Muito bem feita. Verdadeiramente aliciante, "agarradora", jogando com os ingredientes todos - casos do presente ficcionado, afectos e relações, vida pessoal e familiar em atrito com carreira profissional, as mulheres na política, questão do género, doenças malditas porque carregadas de  fantasmas, tudo num ambiente em que predomina a... política -, como acontece na vida porque política é tudo e está em tudo da vida... E decerto sobretudo na vida dos que o desconhecem, ou não o querem aceitar ou até o rejeitam autisticamente.
Dir-me-ão que poucos são os que vêem a série, que só uns raros - dos que não estão presos às outras telenovelas, aos concursos (de dança, de canto, de "talentos"), à inominável "casa dos segredos" - é que, como eu, qualquer a hora já da madrugada a que cheguem a casa ou se libertem de outras coisas, adiam a ida para a cama dormir para depois de verem a gravação do episódio do dia. Dir-me-ão... e assim será, mas parece-me que vale a pena falar disto.
Aderi à série? Conquistou-me por empatia? Anulou ou diminuiu o meu sentido crítico relativamente à sociedade, à política? 
Não! Bem pelo contrário. Animou esse espírito critico, a partir de uma realidade muito bem ficcionada, aqui e ali simplificada ou redutoramente (a)mostrada, mas sempre preenchida por gente como nós, por humanidade. Tal como a sociedade está politicamente organizada e condicionada. Ali. Na Dinamarca e por outras paragens.
Na série, a política apresenta-se como um jogo. Um jogo jogado num enorme tabuleiro onde se movem as peças. Que são seres humanos que têm a profissão de o jogarem, de serem políticos. Seres humanos num jogo em que, na aparência, só aqueles é que jogam. Mas em que os outros estão lá, passivos, receptores das políticas que, entre si, essas peças activas congeminam e entre-comprometem. Como se a outras peças, invisíveis, só servissem para, de vez em quando, serem chamadas a escolher as peças activas, em que lugar e com que força podem jogar.
À semelhança do parecido jogo de xadrez, ele há reis, ele há raínhas (primeiros-ministros... ou primeiras-ministras), ele há bispos, cavalos e torres (ministros, directores-gerais e outros que tais). São estes que "fazem política". São os profissionais. Como se a política se resumisse "àquilo". Com os peões imóveis e invisíveis (e distraídos, e tendenciosamente informados). 
Se fosse esse o jogo (e é...), a série seria perfeita. Até porque não esconde outras influências no "jogo político", como a do poder económico-financeiro, que determina as jogadas que lhe convéem, como a enorme importância da comunicação social (jornais, rádio, televisão), que entra no jogo de forma a condicionar, por vezes decisivamente, as imagens, os comportamentos, os compromissos.
E este "peão" tele-ouvinte, saboreando o jogo e as jogadas, admirando a qualidade artistica-comunicacional (que admiráveis actores!), sente a necessidade de estar atento às limitações da série, ao menos(ou até des)prezo pelas peças que menos parecem valer que os peões no xadrez, e que são as que têm o poder real da política: as massas, o povo!
Escreveria mais, muito mais..., a partir de Borgen. O que revelará (para minha exclusiva avaliação) o quanto vale a série. 
Para exemplo do que fica por dizer, e talvez o venha a ser..., fica sem comentário (por agora) a importância insinuada, neste jogo - tal como apresentado -, do desaparecimento dos países socialistas europeus, as orfandades que esse desastre (histórico) provocou, a ausência de verdadeiras alternativas de sociedade que deriva do vazio ideológico resultantes de se ter atirado fora o bébé com a água suja do banho. No entanto, sem talvez disso se aperceber, na série pressente-se que o bébé sobrevive. Talvez não pelos reinos da Dinamarca (menos de 6 milhões de europeus, na União Europeia... embora sem €uro), mas há mais de 7 mil milhões de seres humanos (e vivos, hoje). 
E há o tempo  Que, como lembra bem a Birgitte do Borgen, é dimensão fundamental em política. E não pára!         

3 comentários:

Olinda disse...

E ê pelo que aqui foi dito,que a sêrie passa no segundo canal.

Bjo

Isabel Lourenço disse...

Gostei muito desta série,só tenho pena,de não ter visto todos os capítulos.
Convivo mal,com toda esta nova tecnologia,como o deixar a gravar...
lá terei de aprender!

Jorge Manuel Gomes disse...

Viva Camarada e Amigo,

Quero crer que não somos poucos, talvez raros!
Também fiquei viciado na intriga política de "Borgen" que significa "O Castelo" ou "A Cidadela". Não perdi um único episódio.
E um dos que me marcou foi o de um ex-comunista, Søren Ravn, professor de economia que entra para os Novos Democratas de Birgitte Nyborg.
Uma série fantástica que recebeu vários prémios internacionais. Ainda bem que temos um serviço público de televisão!

Um grande abraço de Amizade, desde Vila do Conde,

Jorge