sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Reflexões lentas

FALA DO FILHO ÚNICO 
AOS SEUS IRMÃOS-TODOS-OS-OUTROS

Nascer filho único todos nascemos, menos os que vierem acompanhados de gémeos. O problema, se problema é e para quem o seja, é crescer filho único. A falta de irmãos condiciona esse crescimento. Não digo mais. Apenas digo que condiciona. Ou melhor: que me condicionou. Meu pai queria que eu viesse a ser o que ele não tinha podido ser, minha mãe protegia-me, maternalmente como mãe daquele/este único filho. Condicionou. E sempre procurei amigos… fraternos.
Terei, por isso, alguma sensibilidade exacerbada relativamente a amizades e fraternidades. Que, a partir de determinada altura, procurei que me (re)condicionassem. Pela reflexão escorada na gama de valores que vieram constituindo as minhas idiossincrasias. E juntei, a esses dois valores reciclados pela experiência – amizade e fraternidade –, um outro que dá pelo nome de camaradagem.
Fortes abanões têm sofrido a desejada pureza desses valores… mas não é disso que venho à fala. Disso me reservo para outras reflexões e conversas. Venho à fala, nestas lentas reflexões, a propósito de corruptelas generalizadas, ou até consensualizadas, desses valores para que, para simplificar, se usam palavras definidoras e que arrastam outras como companheirismo, lealdade, solidariedade. E outras mais que, como diz o Rubem Fonseca, não são para entender (com ajuda do dicionário?...) mas são para sentir.
Vem este relambório reflexivo a propósito do uso e abuso dessas corruptelas. A começar (e talvez a acabar) pela de irmandade. Que logo transporta consigo uma implícita característica de círculo fechado, de comunhão de interesses grupais, de entre-ajudas reservadas aos “irmãos” ou "irmandados".
O que nada teria de negativo se se limitasse, se possível fosse, ao “grupo dos almoços das 5ªs. feiras”, à “irmandade do vinho palhete”, aos "parceiros da sueca" e semelhantes. Já não é assim, ou já assim não será, se o círculo fechado não for transparente e for sectário, se os interesses irmanados for conflitual com o interesse geral, se as entre-ajudas forem clientelares, se, numa frase, as irmandades privilegiarem uns poucos à custa de marginalização ou exclusão de todos os outros.
O papel da mediatização comunicacional é determinante nessa aceitação e consensualização de corruptelas ideológicas e de corrupções materiais e, por isso, na cristalização de relações sociais de exploração, de desigualdade social (com quantos pobres parentes ou semelhantes se faz um rico "irmão"?).

E o filho único, se se sente irmão-de-todos-os-outros, reage contra as irmandades. Vale alguma coisa essa reacção, a fala de anúncio/denúncia? Diria que é a forma mínima (e microscópica, embora insubstituível) de luta contra uma organização da sociedade que se caracteriza pela desumanidade a coberto de falsa utilização de valores humanos e a adopção das suas corruptelas. Por isso, a reflexão e a fala. Contínuas.    

2 comentários:

Isabel Lourenço disse...

Sabe tão bem ,sentirmo-nos irmão ou irmã de outros!
Nunca estamos sózinhos,embora por vezes o possamos sentir,esses outros,estão sempre lá.

Justine disse...

Parafraseando Eugénio, já gastaram as nossas palavras, meu amor!
Gostei muito da reflexão!