sexta-feira, agosto 05, 2022

Entre incêndios e cheias...

  - Nº 2540 (2022/08/4)


Das cheias, que todos dizem violentas

Internacional

Não se culpe a chuva, mesmo que, em apenas 12 horas, o Kentucky, nos EUA, tenha registado 25 por cento da precipitação anual. Não se culpe tampouco a rapidez das cheias, que em minutos arrastaram milhares de casas, estradas e pontes. Não se culpe sequer a violência dos rios. Façamos antes como Brecht e olhemos antes para as margens que os comprimem.

As cheias do Kentucky foram repentinas, não foram uma surpresa. São o resultado de décadas de construção desordenada, destruição de várzeas, mineração nos cumes das montanhas, desinvestimento público e, sobretudo, níveis de pobreza incompatíveis com a expressão “país mais rico do mundo”.

Nos condados mais afectados pelas cheias as taxas de pobreza variam entre os 27 e os 40 por cento. Estas populações são tão pobres que simplesmente não têm dinheiro para fugirem às cheias, muito menos para se mudarem permanentemente para zonas mais elevadas e menos perigosas. É um ciclo armadilhado: as cheias empobrecem e ao empobrecerem tornam ainda mais difícil escapar às próximas cheias. As identidades dos 40 mortos que já se conhecem vieram confirmar a velha sina: só os pobres morrem nestas catástrofes que de naturais não têm nada.

Depois da tragédia, o Estado demorou dias a fazer chegar qualquer auxílio a milhares de pessoas, relegando a diferença entre a vida e a morte para associações privadas de caridade. À data da publicação deste artigo, milhares de pessoas continuam sem esgotos, sem água, sem electricidade ou mesmo sem casa. Apesar dos pedidos de ajuda federal do governador, no total, só dois abrigos públicos ainda foram disponibilizados.

Que os rios e as cheias podem ser violentos, já todos sabemos. Mas o que dizer das margens que os comprimem e dos marginais que os violentam? O que dizer da grande burguesia da mineração que desfloresta e arranca impune os cumes dos Apalaches, destruindo qualquer capacidade de infiltração das montanhas e comprometendo todo o ciclo hidrológico? O que dizer desses capitalistas que durante mais de um século combateram o movimento sindical de pistola na mão até atirarem gerações de mineiros e as suas famílias para a pobreza mais abjecta? Violentos — eles sim, com as suas aldeias de rulotes, as suas epidemias de opióides, os seus salários-esmola, as suas prisões lotadas e os seus lucros que as cheias não levam.

António Santos

2 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Excelente!

Abç

Olinda disse...

Os EUA são um país de terceiro mundo.Não têm um serviço de protecção civil que sirva as populações mais pobres,estes não contam para o sistema desumano do império decadente.Bj.