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sexta-feira, maio 01, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 7 - neste dia, num molhinho

Não trazia a intenção de vir observar descarrila-mentes e dis-la-tes, mas eles começaram a entrar-me pelos olhos dentro. Não posso deixar de reagir:

1. "Hoje não é dia de trabalho, mas é o Dia do Trabalho"
FALSO!
Hoje é o DIA DO TRABALHADOR!
Dia de trabalho são, ou podem ser, todos os dias (estou a trabalhar!)

2. "A contestação à Guerra Colonial e ao regime fez Marcello Caetano deixar regressar a repressão, a censura..." 
MAS O QUE É ISTO?!... 
"... deixar regressar..."?! ... mas onde é que a repressão e a censura tinham ido?

3. "No ano em que se assinalam os 50 anos da apresentação na Assembleia Nacional do projeto da Lei de Imprensa, por Sá Carneiro e Pinto Balsemão, um conjunto de 130 registos de conversas é prova disso." 
COM TANTOS CENTENÁRIOS E MEIOS-CENTENÁRIOS PARA ASSINALAR 
E EVIDENTEMENTE EXCESSIVO (E MANIPULADOR) ESTE RELEVO 
E A SALIÊNCIA DESTES DOIS NOMES
A propósito, lembra-se debate na AN em 1959 e o debate em 1968, promovido e editado pela Prelo Editora em Novembro de 1968, com Francisco Pereira de Moura, Mário Neves, Rogério Ferreira e Salgado Zenha, publicado com o título O Estatuuto da Imprensa, em Cadernos de Hoje


Pronto!
Desabafei...
sem sair dos carris
da informação
e da História

segunda-feira, abril 27, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 6 - liberdade


Descarrila-mentes e dis-la-tes - 6 – liberdade

Estamos a viver os dias de 25 de Abril. Que não é só um dia. Porque houve os dias antes, o dia de 1974, os dias depois, e há, agora, estes, os de agora. Como houve os de entre o ano em que foi, o de 1974, e o deste de 2020, os dias desta data que foram sendo os vinte cincos-de-abril dos anos que foram sendo. Todos diferentes, todos especiais.
Mas este, o de 2020, foi… mais especial. Aconteceu, no mundo todo, no planeta Terra, qualquer coisa que o veio tornar não só diferente, não só especial, mas mais diferente, mais… especial.
Sempre foi sendo identificado como o dia dos cravos, da liberdade, da democracia. Dos cravos, não haverá muito que se lhe diga. Apareceram, por uma casualidade – conta-se… – e vieram mesmo a calhar para o dia que era, para se meterem nos canos das espingardas, nas blusas entreabertas pela primavera, nas lapelas dos casacos ou dos corta-ventos. É a flor símbolo, emblema, pelo colorido e aresistência (não é como as rosas, que também podem ser vermelhas mas que são aparentemente delicadas, frágeis, se desfolham, ou as papoilas…).
Já sobre a liberdade que se associa ao dia, muito há a dizer. Que liberdade nos trouxe o 25 de Abril, aquele dia, e os que se lhe seguiram? Foi, isso sem dúvida, a liberdade dos presos políticos – disso posso e devo dar testemunho – mas mesmo essa, logo no próprio dia, foi questionada e exigiu a resposta clara, diria mínima: TODOS OU NENHUM. Porque, se algum ficasse, nem essa liberdade, dos presos políticos, dos que tinham lutado para que houvesse um/o 25 de Abril, tinha sido conquistada.
Mas liberdade é uma palavra com muito(s) poder(es) – dizia Éluard que, pelo poder dessa palavra recomeçaria a sua vida, para a nomear, para a dizer, para a cantar acrescentamos nós.
E, neste 25 de Abril de 2020, pelas circunstâncias de que somos feitos, muito se referiu a liberdade como se estivesse faltando, como se uma situação chamada confinamento nos estivesse a tirar A liberdade, ou, o que é ainda pior, estivesse a ser tirada a todos por alguns que abusivamente se permitiam desfrutá-la. Que confusão, E que ausência de ingenuidade. Que perversidade confundir liberdade (assim, sem complemento directo, como valor e conceito) com confinamento, entre outras coisas com não possibilidade ou direito de circular livremente.
E houve quem abusasse (esses sim) da liberdade mínima e para todos para atacar a liberdade que nunca quiseram e não querem para todos.
Daí, descarrila-mentes e dis-la-tes.
Aceito que haja mais que um conceito de liberdade, porque não o tomo como valor absoluto, abstracto, por isso, ao afirmar o que adoptei para mim, segundo o qual, um preso pode sentir-se livre, como dizia Ho-Chi-Min (e outros), para o enunciar, cito dois autores. Para reflexão própria e sugestão a outros.
Dizia Spinoza que a liberdade só pode nascer do conhecimento da natureza pela razão e tem uma célebre formulação “a liberdade é a necessidade de que se tomou consciência”; e Lenine (de que se assinalam os 150 anos do nascimento neste mês de Abril): “a liberdade, diga-se, é para toda a revolução, socialista ou democrática, uma palavra de ordem absolutamente essencial (,,,) se contrária à emancipação do trabalho da opressão capitalista, a liberdade é um engano.”  

sexta-feira, abril 24, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 5 - austeridade


Ontem, nas instâncias ditas europeias, ter-se-á confirmado, mais uma vez, por que carris e descarrila-mentes (via comunicação "social") anda a informação ao povinho.
Depois da insistência num Plano Marshall pintado com as cores róseas de um passado fictício de solidariedade que nunca existiu, aí está a descarrilada informação para convencer mentes massacradas com informação descarrilada, cintilando com milagres e luzes ao fundo de túneis que não têm saída, a adiar para nunca mais o que se publicita que será qualquer dia.
Vivemos num jogo de enganos, fazendo de todos nós ou ignorantes ou parvos. Mas, no entanto, respeitáveis cidadãos porque de nós se espera o voto... ou a abstenção que querem dizer “continuem a dar o poder (político e servil) aqueles que servem o poder financeiro instalado”. Depois, logo se verá (e a médio prazo todos estaremos mortos, se não for antes…).

O que está a servir de palavra-passe neste jogo é austeridade. Porque teve grande peso, por aquilo que, em passado recente, a identificou, e a que se diz, afirma, jura, não querer voltar, enquanto se seguem os passos que levaram a esse passado e… à austeridade!
Tudo parte do pressuposto indiscutível, inabalável, de que se chegou ao fim da História (enquanto há História ou quem a conte!), no que respeita às relações sociais.
Tempo de espantalhos que se acenam como fantasmas que se pretende remover da fresca memória e que, sorrateiramente, se vão alindando, assim se evitando que haja oportunas críticas e recusa. Assim a modos  de "estejam descansados, nem pensar em repetir o que foi tão mau", e se anula ou retarda  o protesto, reacção, revolta, revolução, por se estarem a repetir os passos que  replantarão os fantasmagóricos espantalhos que dão pelo nome de austeridade.
Um exemplo, para acabar. Num dia, lê-se em editorial de jornal de referência uma sensata e informativa posição sobre a  encenação das celebrações do 25 de Abril na actividade normal e ininterrompida da Assembleia da República, nas condições de anormalidade em que estamos. Congratulámo-nos.
No dia seguinte, o mesmo director-fundista escreve sobre O regresso da palavra maldita (não diz a palavra no título e mais maldita a torna pelo que escreve) e, a meio do que escreve, arruma como devaneios do que/de quem questiona a infinitude do dinheiro, que ele aceita como inevitabilidade intangível, e  como devaneios arquiva o que/quem fala da indizível perversidade do capital, para ele definitiva.
E nós? os tolinhos que devaneamos sobre a infinitude do dinheiro que se tornou imaterial por humana decisão desumana e serve de armadilha à matéria que somos, e temos a estultícia de dizer o indizível, a perversidade do capital que é, tão só, um modo de relação entre humanos.
Porque, porra!, terá a Humanidade de se conformar com a perversidade da relação social que assenta na exploração de uma classe social sobre os que trabalham e querem viver, porque terá de aceitar que toda a construção secular, milenar, resultado da relação do ser humano com a natureza seja perversamente aproveitada por alguns em desumana desigualdade?
Quer-se um exemplo?:  desemprego, lay-off, precariedade para indivíduos e colectivos que trabalham, manutenção de lucros, dividendos, prebendas  para os que exigem protecção para aquela egoísta iniciativa privada que usa a falácia da ser para bem de todos (a bem da nação!, como ouvi em pequenino e recusei quando comecei a crescer), como já o era para os escravos e para os servos.

quinta-feira, abril 23, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 4 - Plano Marshall-II


Tinha a intenção de, neste apeadeiro, já ter “despachado” o Plano Marshall com apenas um descarrila-mentes, mas o tema é muito importante para o momento e daria para desastre bem maior. Vou tentar não abusar.

Foi-me observado, como dúvida séria que é levantada, se o tal Plano Marshall não merecera desconfiança de Salazar, que a ele no início não aderira. Essa poderá ter sido – e decerto foi – uma “informação veiculada”, dentro dos carris habituais e valorizando a cautela e o patriotismo do dit(ad)o(r).
Ora há outra informação a carrilar:
O Plano Marshall era destinado aos países da Europa (do BENELUX, França e Itália à cabeça) com dificuldades de recuperação (o tal ERP-European Recovery Program1948), não para lhes resolver as dificuldades, mas para controlar essa recuperação e, sobretudo, para evitar que caíssem na crescente atracção por caminhos em que a União Soviética pudesse ser referência e apoio (até foi dito que era para evitar que “o Exército Vermelho viesse fazer pic-nics nos Champs-Elysées”…), como a força das organizações de classe políticas e sindicais, isto é, a correlação de forças poderia fazer temer.
Portugal e a Espanha não estavam dentro dessas prioritárias preocupações da Administração dos Estados Unidos e do seu capital dominante investido em armas (ao lado do tal Plano, a NATO, para a qual Salazar não hesitou nada). Além disso, havia a posição no começo da guerra ser pró-nazi.
A Espanha ficou mesmo de fora do Plano Marsall, e Portugal entrou como “beneficiário” retardado, não por esperteza ou argúcia de Salazar mas por manholice para se integrar nos “países de democracia ocidental”, de onde a postura inicial na guerra o retirara… Por outro lado (se é que o é), a manobra diplomática de recuperar Timor da ocupação japonesa como “província ultramarina”, e lhe evitar sorte idêntica à de Guam, foi à custa (bem custosa) de facilidades na criação da base dos E.U.A. nas Lajes dos Açores (acordo de 1945), de importância estratégica.

Mas hoje, 23 de Abril de 2020, importa referir que as lembranças do Plano Marshall resultam da situação na União Europeia em crise profunda para que se procura solução ou remendo. Um Plano Marshall europeu para a Europa (seja isto o que for)? Que enorme descarrila-mentes.
Como não lembrar que, quando do Acto Único, que derivou do alargamento dos 9-10 (já com a Grécia) a 12 (Portugal + Espanha), sendo presidente da Comissão um sindicalista, Jacques Delors, se delineou uma coisa chamada coesão económica e social, a partir da necessidade de projectar, ao lado do mercado interno, com as previstas e inevitáveis assimetrias, transferências (não empréstimos!) dos países mais favorecidos para os menos favorecidos (que eram 4 - Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, os “da coesão”), o que levaria à criação de um Fundo de Coesão.

Que é dele?... descarrilou num Fundo Recuperação via para um orçamento “europeu” (em)prestamista.

quarta-feira, abril 22, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 3 - Plano Marshall


(…) todos estes veículos de informação à gente confinada, que somos todos, locomovem-se, isto é, movem-se – ou deveriam mover-se – sobre carris.
O carril dos factos, das realidades, e o carril da relação informante-informado, o informante crendo-se todo-poderoso porque influente privilegiado, o informado aparentemente submisso porque aparentemente passivo, confinado em suma.(…)
(Descarril-mentes e dis-la-tes - 0)

               Com o passar dos anos nem tudo se perde. Ganha-se particular sensibilidades às agressões descarrilantes.
Para a talvez esmagadora maioria dos contemporâneos, a citação de um Plano Marshall do pós-guerra é referência longínqua, histórica, inocente.
Teria até sido um caso quiçá belo de solidariedade dos Estados Unidos, poupados às consequências nefastas de uma guerra, em ajuda a uma Europa devastada por essa guerra – de que importaria lembrar os fautores (o nazi-fascismo), os alvos (“a ideologia asiática”[1]), as grandes vítimas (o povo soviético).
Um acto solidário, filantrópico, dos Estados Unidos!?...
Não vou gastar muita cera, vou apenas fazer três citações de livro que me publicaram há 50 anos, nas Edições 70[2]:
1.    «… não encontrando no mercado interno uma procura suficiente para o potencial produtivo que crescera com a guerra, o capitalismo americano podia assim financiar a exportação de mercadorias. Através dos empréstimos acordados no âmbito da “ajuda”, o capitalismo E.U. utiliza o Estado para favorecer também a exportação de capital comercial e financeiro. Segundo um economista americano, Seymon Harris[3], o Plano Marshall foi uma “tentativa para salvar os Estados Unidos da depressão”…»
2.    «…Assim procurava o capitalismo E.U. atingir dois objectivos. Por um lado, ajudar o capitalismo europeu a manter o seu lugar, mas por forma que não deixasse de ser área de expansão aproveitável para o capitalismo americano, “devendo os 16 países europeus ‘atingidos’ pelo Plano Marshall abster-se de um alargamento e de uma modernização rápida da indústria ou de uma larga mecanização da agricultura”(!), assim se limitando a capacidade concorrencial da economia europeia e a sua possibilidade de resistir à penetração americana. Por outro lado essa “coordenação” tinha o objectivo de fortalecer a capacidade do mundo capitalista face ao mundo socialista em ascensão (…)».
3.    «…a citação de Hitler não terá sido inadequada, como não será a de Roman Rolland quando afirmava que “nada é mais ‘internacional’ que o capitalismo opressor” e prevenia que “não é um perigo menor de hoje uma Santa Aliança dos grandes capitães da indústria e das grandes burguesias fascistas do Ocidente”[4].

Tanto para dizer. Isto são, apenas, meias palavras à procura de bons entendedores…



[1] - “… tremo pela Europa à ideia do que acontecerá ao nosso velho continente  sobrepovoado se a erupção dessa ideologia asiática de destruição e ruína de todos os valores adquiridos fizer assegurar o triunfo da revolução bolchevista.”, discurso de Hitler, 7 de Março de 1936.
[2] - O que é o Mercado Comum (a integração e Portugal), Edições 70, 1971
[3] - The European Recovery Program, 1948
[4] - apelo de 28 de Janeiro de 1930

terça-feira, abril 21, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 2

Quando me lancei, para esta semana de confinado (há o dia de finados e há as semanas, os meses, os ... de confinados!), num folhetim dos descarrila-mentes e dis-la-tes, não pensei duas vezes. E faz sempre falta pensar uma segunda vez. 
Ontem, ilustrei um dis-la-te, com o aproveitamento do assinalar do 25 de Abril na Assembleia da República, nas condições possíveis, para se tentar um descarrila-mente, porque era para mim evidente que tinha sido uma jogada com dois objectivos, ou alvos: 
i) através de informação falaciosa chegar a uma parte substancial da população, já bem manipulada para estar contra os políticos, a política, os partidos, os deputados, o Estado, enfim, a democracia, muito mexendo o caldo de cultura em que a "nossa democracia", tal como tem sido praticada, tem dado argumentos para esse sentimento de aversão muito espalhado (e para o qual, quem meteu agora a colher a mexer o tacho com  o tal caldo tem dado fortes contributos);
ii) para o primeiro objectivo contava-se com essoutro objectivo, não secundário mas inter-activo, de algum esperado apoio da Igreja Católica, em particular do clero rural, que poderia ver na iniciativa na AR motivo para protesto e queixa pelas dificuldades do culto nas actuais condições, e com o 13 de Maio a aproximar-se.
Na minha "leitura", o encontro do 1º ministro com o Cardeal Patriarca desarmou a armadilha e o dis-la-te foi mesmo dislate. Aleluia.
Bom... tem o apoio expresso de Cavaco Silva!, que para dislate está muito bem.

E dizia eu que me faltou pensar uma segunda vez na minha iniciativa. Pois dizia-o por, ao procurar temas para hoje, me sentir inundado. 
Ele é a austeridade, ele é o Plano Marshall, ele são os 12 zeros, sei lá que mais. Não me chega nem o tempo nem o espaço. Farei o que puder, deixando já estes temas em carteira.

segunda-feira, abril 20, 2020

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 1 - 25 de Abril de 2020 na AR

Começa a semana deste mês que terá como seu sábado o dia 25 de Abril.
Quase todos nós – não todos, e compreende-se porquê –, nas 45 vezes que este dia chegou nos anos que se seguiram a 1974, festejaram a data como a do fim de quase meio século de fascismo e década e meia de guerra colonial;
Muitos de nós sempre comemoraram a data como o final de uma fase da luta pela liberdade e pela democracia, como valores a praticar e a melhorar em convivência cidadã (destes, não poucos com o dir-se-ia bónus de, nesse dia, terem recuperado a sua liberdade pessoal até essa data encarcerada e condicionada);
Alguns de nós também assinalam a data como a de trampolim para a sua luta nunca escamoteada, e já não obrigando à clandestinidade, pelo objectivo de, fazendo avançar a democracia, transformar a sociedade.

Este ano de 2020, circunstâncias inesperadas impossibilitam - pela prioridade a dar à defesa da saúde pública - que se festeje como nos anos anteriores,  mas nada impede que, como Povo, e na chamada Casa da Democracia porque é lá que estão a trabalhar (sim, a trabalhar!) os representantes eleitos por esse Povo, se assinale a data, se relembre a sua importância na nossa História, cumprindo o que a todos respeita como condicionante derivada dessa prioridade, assumida por todos porque formalizada nessa mesma Assembleia da República.

Há quem, em perfeito dis-la-te, não tenha querido perder a oportunidade de atacar o que nunca defendeu, a data sempre festejada por quase todos nós, e tenha procurado provocar um descarrila-mente através de informação falaciosa que invoca razões que não tem, que argumenta com analogias que não existem, que faz campanha e petição procurando perturbar quem não está devida e suficientemente informado.
Seja dito sem titubear: este dis-la-te é promovido por quem nunca festejou o 25 de Abril, nem em 1974 nem em todos os anos de liberdade e democracia que se lhe seguiram. Como sempre, informa-se fora dos carris, e por vezes consegue-se arrastar pouco e mal informados para descarrila-mente.

Descarrila-mentes e dis-la-tes - 0

Ontem, escrevi isto no quase-diário:


Descarrila-mentes e dis-la-tes

Naturalmente o confinamento colocou-nos mais nas mãos da informação.
Não só nas mãos da informação que é o produto de uma actividade social muito relevante, a comunicação social, também nas da pululante, e tanta vez poluente, rede a que se deu o nome de redes sociais, como ainda também nas mãos das ligações privadas – o quase obsoleto telefone e toda a parafernália de meios facultados pela info-invasão – que se tornaram nas vias únicas de contacto directo com familiares e amigos, e que, não o podendo substituir, quanto mais não seja serve para se saber se está tudo bem e para os virtuais beijos e abraços.
Somos muito informados, e a procura (essencial) de nos informarmos está a ser muito mais larga e, paradoxalmente, muito mais difícil e trabalhosa.
Há consensualidades que é urgente criar e há outras que, à boleias dessas que são necessárias (e urgentes), se infiltram insidiosamente.
Ora todos estes veículos de informação à gente confinada, que somos todos, locomovem-se, isto é, movem-se – ou deveriam mover-se – sobre carris. O carril dos factos, das realidades, e o carril da relação informante/informado, o informante crendo-se todo poderoso porque influente privilegiado, o informado aparentemente submisso porque aparentemente passivo, confinado em suma.
Está tudo bem? pergunta o confinado, que mais confinado está porque “é de risco” (!), ao filho, à neta, ao amigo, e estes informam. Às vezes, descarrilando, apenas substituindo o ponto de interrogação por um convincente (ainda que nem sempre convencido) ponto exclamação: Está tudo bem!
Este descarrila-mentes é bem intencionado e, na maioria dos casos, não é grave e tem efeitos tranquilizadores para a mãe, para o avô, para a amiga.  
Já o mesmo se não pode dizer se a pergunta se conjuga no futuro, ou se, já que descarrilado, o informante acrescenta à resposta… vai ficar tudo bem!,  porque não vai ficar tudo bem, sobretudo porque não vai ficar tudo na mesma, porque não vai haver regresso ao que era, porque é preciso lutar muito para que não fique tudo muito pior do que estava… ou pior ainda.

Noutros níveis, os descarrila-mentes são bem diferentes e, se têm intenções, em muitos casos atingem a perversidade. Aqui se querem trazer alguns que, a nosso juízo, o são. E também alguns de outro tipo a que se chamaria dis-la-tes.

Começar-se-ia por enunciar um, e grave, descarrila-mente que irá ocupar esta semana: a assinalação do 46º aniversário do 25 de Abril na Assembleia da República, o nosso 47º 25 de Abril (sim, porque o 1º, o de 1974 também conta e até foi o mais nosso). Talvez ainda hoje.
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