segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Insultos inter e para-sindicais?

Enquanto tomava o pequeno-almoço, lia o Expresso (em atraso) e apanhei com esta:


&-----&-----&

Importa medir o peso das palavras, sobretudo de algumas: insulto, por exemplo.

&-----&-----&

O texto, de Rosa Pedroso Lima (RPL), ajuda a separar as águas, dispensando o recurso ao dicionário.

&-----&-----&

Tenho dúvidas se se poderá classificar de insultuoso dizer que o que um outro diz é “paleio” e o uso de expressões (de um lado e do outro) que, sendo duras a roçar a violência verbal, mantém a disputa num nível civilizado (embora por vezes rasteiro), mas já não tenho dúvidas que é insultuoso etiquetar alguém ou uma organização de “autofágica… coisa parecida com canibalismo” como o seria mandar o outro “vá-se curar!” (o que não foi dito).

&-----&-----&

No entanto, já é exemplarmente insultuoso berrar que a direcção de um partido é “uma cúpula de paranóicos”, ou que os dirigentes de uma central sindical é “uma cúpula de irresponsáveis”, como o lembrou RPL (o que seria dispensável, tão lembrado está…) de um lamentavelmente célebre discurso de Mário Soares em 1975.

&-----&-----&

A luta política, como qualquer contenda humana, tem (ou deveria ter…) regras de civilidade e, ao tempo desse discurso, foi criada a “outra central sindical” com a intenção explicitada responsavelmente (!) de vir para “quebrar a espinha à Intersindical” (o que é a promoção do insulto à violência para além da verbal), coisa que não foi conseguida… e a UGT tem essa espinha atravessada na sua garganta, como o revela a utilização obsessiva da espinhosa imagem.

&-----&-----&


Adiante… que a luta não espera e as manobras de diversão só atrasam.

domingo, fevereiro 05, 2017

Os mediocráticos e o tempo (não) perdido... ou a máquina de fazer parvos

Extractos de «páginas diárias»:

"... e conversámos sobre a crónica da Ana Leonardo de ontem (na revista do Expresso), e fiquei a saber que era dedicada a um filho da mãe que dá pelo nome de Walter (é assim, com W?), o huguinho de sua Mãe.

&-----&-----&

E registo – aqui – duas novidades novas (!)
  • ·        Uma invenção para os medíocres em desesperada demanda do mediático: os mediocráticos;
  • ·        Os quais, pelas amostras - e sem remorsos -, excluo do meu tempo perdido ou a perder!
&-----&-----&

Tenho mais que fazer… como aproveitar – para aqui e ali – textos como este:



ISTO ANDA TUDO LIGADO
ANA CRISTINA LEONARDO

A MÁQUINA DE FAZER PARVOS



A recente controvérsia a propósito da “linguagem inapropriada” de um livro incluído no Plano Nacional de Leitura, recomendado por professores de Português aos alunos do 8º ano, veio recordar a falta que faz a inteligência. Ao escrever inteligência, refiro-me ao médico, pedopsiquiatra, psicanalista e educador João dos Santos, homem cuja sensibilidade, sustentada na firme aliança entre teoria e prática, jamais lhe permitiu abandonar a árvore a troco da floresta. As suas conversas com João Sousa Monteiro, reunidas no livro “Se Não Sabe Porque É que Pergunta?”, continuam a ser um manancial de sabedoria e encantamento e é nele que vem relatado este pitoresco episódio que versa precisamente sobre vida sexual. Convidado para uma conferência, João dos Santos conta que “a certa altura, levanta-se uma senhora lá do meio daquele anfiteatro muito grande, lá de cima, e diz-me: ‘Eu já expliquei ao meu filho tudo quanto havia sobre o nascimento das crianças, e ele agora quer ver mesmo como é que os pais fazem, quer estar lá no quarto para ver como é. O que é que o sr. fazia?’ e eu disse-lhe, de cá de baixo da minha cátedra: ‘Olhe, minha sra., se fosse comigo, eu dava-lhe dois estalos, porque não gosto que se metam na minha vida.’” A criança a quem a abnegada mãe se referia seria decerto mais nova do que os alunos do 8º ano que terão, no geral, entre 12 e 14 anos, mas ainda assim atirar-lhes com esta definição de puta: “uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu” parece temerário, por muito que os indignados com o que chamam puritanismo parental argumentem que no 8º ano são mais os infantes que conhecem os “factos da vida” do que os “atos ilocutórios”, não sendo isso que está em causa, afinal, trata-se de Português, e se é de Português para Miller falta tudo ao autor da frase, Miller que obviamente não escrevia para criancinhas nem defendia que “o sexo do homem é muito mais honesto, visível e mais facilmente lavável, enquanto o das mulheres é mais sinistro”, o que nos traz ao ponto – sexo lavável?! –, daí que corrigido o “lapso”, nas palavras do responsável do PNL, o livro em causa passe a ser recomendado a alunos apenas do 10º ano e seguintes, o que me faz regressar a João dos Santos que cito livremente:
se fosse comigo, eu dava-lhe dois estalos, porque não gosto que se metam com a literatura.

... para pensar a actualidade...

O livro - Para a Crítica da Crise-diálogos com intelectuais e parlamentares da esquerda em Portugal - foi recentemente lançado. Já a ele me referi ("post" de 1 deste mês) e a ele decerto voltarei,
Hoje, apenas deixarei a contracapa, com a curiosidade do autor desse texto - Milton Temer -, ter o mesmo apelido de um personagem que também o usa e que protagonizou o "golpe de Abril de 2016", e de tal modo que está investido, por portas travessas, artes e manhas, no cargo de presidente da República do Brasil. E nunca poderia subscrever uma apresentação destas





































ao livro
 voltarei

Notícias ou notas que põem a nu...



... as privatizações
postas a nu!

Para este domingo



com Caxias 
sempre 
na memória

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

NOVO BANCO?... esperar para v(end)er ou (ven)dar!

Abril Abril:

PS, PSD e CDS-PP chumbam manutenção do Novo Banco na esfera pública
PS mantém-se no fio da navalha, mas vota contra controlo público
3 DE FEVEREIRO DE 2017
Os projectos de resolução do PCP e do BE foram chumbados, com o PS a sustentar que o futuro do Novo Banco passa por processo negocial.

O terceiro maior banco nacional é propriedade do Fundo de Resolução, uma entidade pública sob controlo do Banco de Portugal

A defesa do projecto do PCP, que esteve na origem do agendamento da discussão para esta manhã, foi feita pelo deputado Miguel Tiago, que resumiu o que está em causa: «Os portugueses já pagaram o Novo Banco e o pior que pode acontecer é agora ficarem sem ele».
O deputado comunista lembrou que na origem do Novo Banco está a medida de resolução decidida pelo anterior governo, com a injecção de 3,9 mil milhões de euros saídos do Orçamento do Estado, a que já se juntaram novas verbas para reforçar a capitalização do banco.
Numa intervenção crítica para o PSD e o CDS-PP, como também fizeram os deputados do PS, do BE e do PEV que intervieram no debate, Miguel Tiago criticou a decisão de deixar de fora os activos não-financeiros do Grupo Espírito Santo. Os comunistas querem um sector bancário público forte e ao serviço das necessidades do País e da economia nacional, até porque a venda do Novo Banco «significa a entrega de 60% do sistema bancário a estrangeiros e a prostração da economia portuguesa a grandes grupos económicos».
Mariana Mortágua, na defesa do outro projecto de resolução em discussão, lembrou várias das empresas privatizadas, muitas delas «monopólios públicos» que hoje «dão milhões aos seus accionistas». O BE considera que o Estado não deve continuar a «limpar» os bancos «com dinheiro público», para de seguida serem privatizados.
José Luís Ferreira, deputado do PEV, questionou se «o Estado vai continuar a ser a muleta dos banqueiros». Para os ecologistas, «já chega» de «excelentes negócios para engordar fortunas» à custa do erário público, das empresas e das famílias portuguesas.
PS: Um «nim» que virou «não» na hora de votar. 
Palavra de ordem é «esperar para ver»
«O PS quer deixar todas as opções em aberto. Não há nenhuma posição de princípio contra a nacionalização nem contra a venda», resumiu o deputado João Galamba. O PS quer «deixar o processo negocial decorrer até ao final» e foi com esse argumento que chumbou ambas as iniciativas.
A intervenção do deputado foi muito crítica para o governo do PSD e do CDS-PP, que conduziu o processo de falência do Banco Espírito Santo (BES) e a criação do Novo Banco. «Foi-nos dito que o Novo Banco estava limpo e seria um negócio rentável e lucrativo para o Estado», lembrou Galamba. Pelo que se conhece das propostas em cima da mesa, caso a venda se concretizasse nesses termos, o Estado pode incorrer em perdas superiores a 5 mil milhões de euros – o equivalente à totalidade de fundos europeus que o Governo pretende mobilizar durante este ano.
Memória curta à direita motiva críticas a propostas 
e ao Governo
Os partidos que formavam governo quando o Novo Banco foi criado afastaram-se de qualquer solução de controlo público sobre a instituição financeira. O PSD, pela voz de Duarte Pacheco, lembrou que é contra «por princípio». Desta vez, os princípios falaram mais alto, com o PSD a manter a coerência quando, duas horas depois, foi chamado a votar.
Já o CDS-PP não concorda com o controlo público do Novo Banco por ser necessário recapitalizar a instituição e por considerar que a gestão pública é pior que a privada. Isto num debate em que estava em causa o futuro de uma instituição que protagonizou um dos mais escandalosos casos de gestão criminosa por privados, que levou à injecção de dinheiros públicos no banco.
________________________________________

Curioso!...
No meio desta "geringonçada",
não se usou a palavra mais usada...

Falando, muito seriamente, de coisas muito sérias!

INTERVENÇÃO DE ANTÓNIO FILIPE NA ASSEMBLEIA DE REPÚBLICA

Sobre a petição que solicita a despenalização da morte assistida
1 Fevereiro 2017
Ver vídeo

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Em nome do Grupo Parlamentar do PCP cumprimento os subscritores desta petição.
É a primeira vez que o tema da eutanásia é objecto de debate nesta Assembleia. Certamente que não será a última. Iniciamos hoje um debate sobre um tema de grande importância e complexidade, debate que se pretende aprofundado e sério, sem preconceitos nem demagogia, e sobretudo realizado na base da tolerância para com as diferentes convicções que certamente se irão manifestar.
Não é neste debate de três minutos a cada grupo parlamentar que o tema da eutanásia terá o debate que se exige. É certo que a fase preparatória deste debate contou com a participação valiosa de diversas personalidades que nos ajudaram a reflectir sobre a matéria e que tornou muito evidente a sua complexidade e a diversidade de opiniões e de perspectivas que a rodeiam.
Para o PCP, o debate sobre a eutanásia não pode ser uma guerra de trincheiras entre os que querem ver a eutanásia reconhecida e regulada na lei custe o que custar e os que querem impedir esse reconhecimento e regulação a qualquer preço. Estamos a falar de algo de tão importante como a vida humana. O mais fundamental de todos os direitos fundamentais. O debate sobre a eutanásia não é um debate de religiosos contra ateus. Não é um debate de juristas contra médicos. Não é um debate em que alguma das posições tenha o monopólio da clarividência.
Este debate deve decorrer no respeito pelas diferenças de opinião e o seu resultado futuro deverá ser um denominador comum que reúna um consenso razoável na sociedade portuguesa.
Porém, para que o debate de hoje tenha um sentido útil, há alguns aspectos que queremos deixar expressos desde já.
Partimos do pressuposto de que todos os intervenientes neste debate têm como objectivo primordial aliviar o sofrimento insuportável de seres humanos. É um objectivo generoso que todos certamente compartilhamos. Mas não encaramos a eutanásia como um sucedâneo dos cuidados paliativos. Independentemente de soluções legislativas que venham no futuro a ser adoptadas na sequência desta petição, nada pode substituir a necessidade de uma resposta eficaz – que ainda não existe – em matéria de cuidados paliativos.
Um segundo ponto que queremos deixar claro é que nunca aceitaremos soluções que possam conduzir a uma deriva economicista da eutanásia como forma de aliviar os encargos com a saúde ou a segurança social. Nenhum dos subscritores desta petição foi por esse caminho, mas não falta por este mundo quem o sugira ou mesmo quem o defenda.
Um terceiro ponto que importa sublinhar é que não tomamos as soluções legislativas adoptadas em outros países, de entre os poucos que até agora regularam a eutanásia, como modelos inquestionáveis. O balanço dessas experiências está por ainda por fazer, mas não negamos que as notícias que nos chegam designadamente da Holanda são um tanto perturbadoras quanto à possibilidade real de uma deriva conducente à banalização da eutanásia.
Temos pois de prosseguir a reflexão. Temos de falar uns com os outros e trocar experiências. A experiência e a opinião dos profissionais de saúde é decisiva, pois é sobre os seus ombros que recai uma responsabilidade inalienável nesta matéria.
A eutanásia tem um passado histórico que ninguém aqui pretende repetir, mas que não pode ser ignorado. A eutanásia foi usada como instrumento de eugenia e de supressão de pessoas a quem não se reconhecia dignidade para viver. Se aqui e agora o lembramos é para que fique muito claro que não é disso que estamos a falar, mas também para lembrar que se há condições indignas de vida, não há vidas indignas, porque todas as pessoas são iguais em dignidade e direitos.
Disse.

Proteccionismo vesus liberalismo?

A vaga trumpiana (até o nome dá para mote e respectivas glosas, a juntar à caricatura que o personagem transporta e aos acólitos de que se rodeia) tem os seus lados positivos. É preciso é vasculhar muito para os encontrar.
Um deles será o ter estimulado o debate sobre alguns temas, Por exemplo, e é dos mais significativos, a acesa polémica entre proteccionismo e livre comércio, abandonado o “estado de graça” (e de desgraça…) que o liberalismo tem – teoricamente – desfrutado há 4 décadas no pensamento da “economia política do capitalismo”, com infiltrações em pensadores (ou pensativos) que se colocam à esquerda ou – mais ainda – se buscam e/ou arrogam marxistas. (O que é de louvar… e a mim me louvo).
Um muito lido e citado (ele há modas…) Jacques Sapir descobriu, ou tinha em ficheiro, um texto de Keynes, de 1932 e vá de publicar, e ver divulgado, Trump, Keynes e o proteccionismo – Le proteccionisme, notre avenir. Actualité du texte de J-M.Keynes «National Self –Suffiency» (1933). No contexto de "trumpofobia", o texto tem andado entre-mails e servido de quase antídoto para a insuportabilidade da pandemia. Daí que, para este blog, se tenha decidido reagir em contra-texto:

Breve comentário a

Trump, Keynes et le protectionnisme

Le protectionnisme, notre avenir.

Actualité du texte de J-M.Keynes « National Self-Sufficiency » (1933).

O artigo de Sapir divide-se em
·         A importância do contexto
·         O argumentário de Keynes
·         Como considerar hoje o argumentário de Keynes
·         A actualidade de Keynes hoje
O texto, apesar da importância que aparenta dar ao contexto, refere com maior atenção o contexto de 1932/33 e para “justificar” o que chama a “rotura definitiva (de Keynes) com o modo do pensamento económico então dominante” em cuja linha estaria este artigo de Keynes sobre a “autosuficiência nacional” e menos o contexto actual.
E todo o debate (ou argumentário) se encerra na alternativa liberalismo-proteccionismo, numa leitura e análise fechadas em metodologia e ideologia maniqueísta, de onde a dialéctica e a crítica da economia política estão totalmente ausente, como se não existissem. Assim será feita a abordagem do texto de Keynes, toda ela parecendo orientada para encontrar e comprovar a proximidade de posições de Keynes em 1932/3 com as que seriam as que se referem de passagem como sendo de Villepin, Le Pen, Mélenchon, Trump numa amálgama de “ideologias” dentro da ideologia única, exclusiva.
Seria redutoramente, a partir desta ideologia única, que a realidade impunha o proteccionismo como forma de ultrapassar o liberalismo e os seus malefícios. Keynes viria ajudar a esta interpretação da realidade de hoje com a sua condenação dos “capitalistas passivos”, que hoje têm uma posição relativa muito mais determinante, enquanto especuladores num contexto (de sistema e correlação de forças), dada a financeirização, a desmaterialização da moeda, o capital fictício e creditício. Será este vocabulário um “vocabulário marxista”, a que Sapir reduz as referências ao marxismo esmagado pelos “avanços recentes da psicologia experimental”.
A expressão deste liberalismo dos nossos dias passou pela guerra de 1939-45, pelo período de ascensão (e queda, por fim) do “socialismo real”, pela reacção que tomou o nome de “guerra fria”, pela fase transitória de “coexistência pacífica” que acobertou a invasão ideológica (via liberalismo a partir dos anos 1979/80) de um lado, e a abertura mimética, demissão ideológica e a queda do outro.
Por tal ser referido, anote-se a expressão super-estrutural da internacionalização da actividade económica com os factos significativos da exclusão da institucionalização do comércio ao nível das “nações unidas”, limitada a acordos gerais e pontuais (GATT e “rondas”) até à queda dos países socialistas e a criação da OMC, de onde o liberalismo estreme sofre o constrangimento expresso na dúvida se foi a OMC que entrou na China ou a China que entrou na OMC. Uma China que marca os nossos dias de história, os nossos dias em que somos história… 

Pode ler-se, no(s) artigo(s), que há - em 2017 como em 1933 -  insuportabilidade social, acumulação de riqueza… mas tal verificação é escrita no quadro de uma “contradição principal” que seria a da “dimensão apátrida dos capitalistas”, e em que de novo se refere o termo insuportabilidade para caracterizar a “alienação própria do salariato”, porque e quando “assalariados e capitalistas se movem em espaços políticos diferentes”. Situação sugerida como anormal – e causada pelo liberalismo! – quando ela decorre da real contradição principal enquanto relação social prevalecente for a de exploração do ser humano por seres humanos, dada a relação social ser a mercadorização da força de trabalho (em trabalho produtivo e trabalho colectivo), a que Marx chama capital.
Keynes veria, no que se apelida eufemisticamente “conflito insolúvel de preferências”, um risco de guerra, e teria razão porque “a circulação liberalizada do capital priva as nações da liberdade das suas escolhas sociais” mas acrescenta-se que o “conflito” viria do “liberalismo condenar a prazo a existência da propriedade privada”. Ora é esta, enquanto base da divisão por classes (a que é proprietária dos meios de produção e a que é proprietária da força de trabalho), que define a relação social capital…

Adiante… A exegese destes textos (de Keynes e de Sapir) é aliciante mas não é o que importa, para além da afirmação de que são textos ausentes de qualquer fundamento ideológico que não o da relação social que é o capital. E podem tornar-se perigosos – ideologicamente –, por enganadores, ao atacarem o liberalismo por este “tudo reduzir ao estatuto de mercadoria” e por ele poder conduzir “a não se aceitar como valor senão os da finança”, o que sendo certo não deriva do liberalismo mas sim do capitalismo e da sujeição da força de trabalho, a única criadora de valor, à condição de mercadoria. O que o proteccionismo por si só não virá alterar mas poderá provocar, na sua defesa e pelos seus defensores, ilusões de soberania nacional por que se luta como “lugar” e espaço da luta de classes.
Num estádio de desenvolvimento das forças produtivas que torna a autarcia económica inviável, a pretensão de a impor – ou darem-se passos para a impor – são perigosíssimos, também em termos de dicotomia guerra ou paz, pois esta última está longe dos desígnios de uma economia armamentista num mundo mundializado, regionalizado ou de proteccionismos nacionalistas.
Se a realidade é interpretada no contexto (ideológico) imposto pela correlação de forças numa situação de luta de classes, há que ter, a partir de outra ideologia (que é a nossa) e da tomada de consciência pelas massas, a clareza de ver que as opções alternativas liberalismo/proteccionismo não são encaradas como fautoras de alterações na correlação de forças (embora necessárias pela insuportabilidade das situações sociais, isto é, níveis de vida), e se possa perder a perspectiva da luta de classes, sem a qual tais alterações serão ilusórias e não contribuirão para a humana e indispensável transformação das relações sociais.
Termina Sapir que “as formas da política do futuro estão por encontrar” e deixa sugerido que o seu sentido geral não está falho de dúvidas. Mas não se pode desconhecer que há quem esteja convicto que o futuro não é o proteccionismo num mesmo contexto de relações sociais inalteradas. 
É o socialismo em espaços nacionais de povos soberanos.    

    


Qual será a resposta?

Abril Abril:
Amanhã, os deputados são chamados a responder à questão
Ficar com o que está pago ou entregar a abutres
2 DE FEVEREIRO DE 2017
São discutidos e votados, amanhã, dois projectos de resolução exigindo o controlo público sobre o Novo Banco. «Fundos abutre» mantêm o seu voo sobre a instituição bancária.

Apesar de cada vez mais vozes se juntarem aos que defendem a nacionalização do Novo Banco, as autoridades nacionais e europeias continuam a perseguir uma venda da instituição
As iniciativas, de PCP e BE, pretendem que o Estado assuma o controlo do banco surgido da falência do Banco Espírito Santo, actualmente propriedade do Fundo de Resolução, uma entidade pública para a qual foram transferidos 3,9 mil milhões de euros aquando da medida de resolução que criou o Novo Banco.
No documento do PCP, é sublinhada a «necessidade urgente de assegurar a direção pública», nomedamente através da «nomeação dos órgãos sociais e a elaboração de um plano estratégico para a banca pública que estabeleça os objetivos materiais e temporais». Os bloquistas pedem «o apuramento consequente de todas as responsabilidades» no processo, assim como um «debate alargado e democrático sobre o desígnio estratégico» do banco.
Apesar de vários dirigentes e deputados do PS já se terem mostrado favoráveis à nacionalização da instituição bancária, não é conhecido o sentido de voto da bancada na Assembleia da República.
Também nomes improváveis, como os ex-ministros das Finanças, de governos do PSD e do CDS-PP, Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, assim como o último presidente do BES e primeiro presidente do Novo Banco, Vítor Bento, manifestaram abertura à hipótese de nacionalização, face às propostas em cima da mesa.
O que se conhece dos valores e condições apresentados pela Lone Star, fundo recomendado pela equipa do ex-secretário de Estado Sérgio Monteiro que o Banco de Portugal encarregou da venda do Novo Banco, parecem motivar muitas destas vozes. O fundo norte-americano oferece 750 milhões de euros pela compra, com a promessa de uma recapitalização de valor idêntico. No entanto, pede em troca uma garantia do Estado no valor de 2,5 mil milhões de euros, mais de metade dos dinheiros públicos injectados na instituição em 2014.
Na véspera da discussão e votação sobre o futuro do banco, relembramos o perfil da Lone Star que publicámos horas antes da recomendação do Banco de Portugal ter sido tornada pública.

Os escritórios da Lone Star por todo o mundo são marcados pela discrição. Em Madrid, por exemplo, ocupam parte de um piso de um imponente edifício sem qualquer referência exterior ao fundo, paredes meias com o Deutsche Bank
Quem são os abutres que rondam o Novo Banco?
A Lone Star Funds foi criada entre 1995 e 1996, mas o seu fundador e presidente, John Grayken, já vinha acumulando fortuna através da compra de «activos tóxicos» à banca – no essencial, crédito à habitação de cobrança difícil –, vendendo posteriormente com lucros na ordem das centenas de milhões de euros.
Quando o sector imobiliário voltou a estar em alta nos EUA, a Lone Star virou-se para o Japão, em 1998, e depois para a Europa. O termo flipping é regularmente usado para descrever a estratégia destes fundos: comprar barato para, ao fim de poucos anos, vender com lucro. Mas como é possível comprar activos desvalorizados e transformá-los numa «galinha dos ovos de ouro» num espaço de dois ou três anos?
Quando se trata de crédito à habitação, a prática da Lone Star é simples: se o devedor não paga, executa a hipoteca e vende o imóvel o mais rápido possível. Os lucros são conseguidos à custa de despejos massivos, seja na baixa de Nova Iorque, no Japão, na Coreia do Sul ou no Leste da Alemanha.
Lone Star Funds: comprar barato, vender caro e depressa
Se a sua especialidade começou por ser o imobiliário, a crise asiática do final do século XX proporcionou novos negócios, entrando no sector financeiro. Em 2003 adquire uma participação maioritária num banco coreano, que tenta vender passados três anos com um lucro superior a 4,5 mil milhões de dólares, 250% do valor pago.
Suspeitas de manipulação bolsista abortaram o negócio, levaram à prisão do representante da Lone Star na Coreia do Sul e de um funcionário que desviou 11 milhões de dólares para o fundo norte-americano. Mas a venda acabou por se concretizar em 2012, com um lucro de 3,5 mil milhões de dólares.
Porém, a receita aplicada no banco Korea Exchange Bank (KEB) logo após a compra não deixou boas memórias aos seus trabalhadores, com uma reestruturação agressiva, fusão de unidades e despedimentos. Mas o ritmo não agradava ao «fundo abutre», levando mesmo à substituição do presidente do banco em 2005.
O presidente da Lone Star Funds à saída de um interrogatório judicial em Seul, confrontado com manifestantes pela manipulação do valor pago pelo KEB. 11 de Janeiro de 2008 


No Japão, o fundo aproveitou a falência de um banco para criar o Tokyo Star Bank, em 2001, depois de pagar 340 milhões de dólares ao governo nipónico. Depois de seis anos de mais uma «reestruturação agressiva», o banco é vendido. Quando, em 2011, no auge da crise financeira, os novos donos não conseguem sustentar os 2,2 mil milhões de dólares de dívida assumida para comprar o Tokyo Star Bank, a Lone Star recupera o controlo do banco.
Em 2014, o banco japonês é vendido pelo fundo norte-americano – pela segunda vez em menos de uma década – por 510 milhões de dólares a um banco sedeado na Ilha de Taiwan.

Se o cartão de visita da Lone Star na gestão bancária é negro, as práticas fiscais não são melhores. O fundador renunciou mesmo à cidadania norte-americana, passando a ser cidadão irlandês e beneficiando do regime fiscal que permite não pagar impostos, já que detém a participação no fundo norte-americano na Bermuda, um paraíso fiscal.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

MUDAM AS CONJUNTURAS, MUDAM OS NOMES (Reagan-Trump, Thatcher-May)

 - Edição Nº2253  -  2-2-2017


Imperialismo, disputas e contradições
Ninguém deve subestimar as notícias que chegam dos EUA. O homem de quem mais se fala, cujo comportamento obsceno está a fazer as manchetes da comunicação social de todo o mundo, é realmente um perigoso produto do establishement norte-americano e é verdadeiramente inquietante que no contexto da eleição do presidente da mais poderosa potência capitalista estejam a levantar cabeça as forças mais obscurantistas e reaccionárias da sociedade norte-americana, e que um tal personagem se abalance a decisões tão graves como a «acção executiva» que veda a entrada nos EUA de cidadãos de vários países de maioria muçulmana associando provocatoriamente o Islão ao terrorismo.

Esta realidade, uma expressão aventureira da natureza do imperialismo, não deve entretanto branquear ou fazer esquecer a escalada de agressão e guerra do imperialismo norte-americano herdada por Trump, como se Obama e a senhora Clinton tivessem sido inofensivas pombas da paz, quando o que produziram foi uma sucessão ininterrupta de guerras de agressão em todos os continentes, particularmente no Médio Oriente. A figura de Trump e o perfil político da gente que está a nomear para a sua administração são realmente inquietantes, mas não é menos inquietante que tal esteja a ser pretexto para dramáticos apelos a que os EUA não afrouxem o seu papel «indispensável» como «guardiões da ordem mundial» e para reforçar a NATO e dar um novo salto na corrida aos armamentos. Ou no caso concreto de uma União Europeia em manifesta crise existencial, para justificar o reforço do federalismo, do ataque a direitos e liberdades fundamentas e do militarismo. É isso que influentes dirigentes da UE estão a reclamar, como Federica Mogherini que em recente artigo (Público de 25.01.17) defende «medidas ambiciosas no domínio da defesa», o «reforço da cooperação com os nossos principais parceiros no domínio da segurança, a começar pela NATO», o aumento das despesas militares «para atingir a meta de 2% fixada para os aliados da NATO». A Europa «forte e unida» que a «Cimeira dos países do Sul da UE» acaba de reclamar em Lisboa vai no mesmo sentido. Particularmente significativas são as declarações da primeira-ministra da Grã-Bretanha na sua visita aos EUA ao garantir que afinal Trump está «100% com a NATO» e pugnando pelo aumento das despesas militares dos países membros desta aliança agressiva. Isto ao mesmo tempo que (procurando ganhar força negocial no processo do Brexit) exaltava a «relação especial» Grã-Bretanha/EUA lembrando «as liberdades que o presidente Reagan e a primeira-ministra Thatcher levaram à Europa de Leste».

o nervosismo no campo imperialista é evidente. A visita de Theresa May aos EUA é um exemplo das jogadas político-diplomáticas em que os dirigentes do mundo capitalista estão envolvidos procurando ganhar a maior fatia possível do bolo da exploração dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo, algo como uma nova divisão do mundo em esferas de influência. Os novos factores de perturbação nas relações internacionais que estão a envolver as potências da tríade – EUA, União Europeia/Alemanha, Japão – são uma expressão do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo. No quadro mais geral do vasto processo de rearrumação de forças, também nas relações entre os principais países capitalistas se verificam ajustamentos e realinhamentos com impacto na situação internacional. Esta uma razão mais a exigir de Portugal uma corajosa política de soberania e independência nacional pois só ela pode impedir que o nosso País se torne joguete das disputas e contradições inter-imperialistas.

Albano Nunes
------------------------------------------------

... a luta continua!
Contínua

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Para a crítica da crise

A semana passada lançou-se, em Lisboa, um livro que merece referência (e leitura!):



A apresentação é de José Paulo Netto... e abre o apetite.
(cliquem, p.f., no tamanho original)







































Voltarei...
a Marcelo Braz
e a José Paulo Netto.
Breve!