segunda-feira, abril 30, 2018

Há 44 anos! Hoje...


do (quase-)diário:

30.04.2018

Qual aprendiz de feiticeiro incapaz de travar a avalanche de vassouras que desencadeou, soterro-me em papéis – livros, recortes, rascunhos, “coisas da arca do velho” – procurados por uma memória que vem do fundo das décadas.

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Procuro o que um recanto dessa memória me pede e logo encontro, não o que procurava mas o que desperta o que estaria sossegado no seu canto, a espera que esta procura outra não viesse perturbar a memória em aparente repouso…

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… ou trégua.

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E ele é, por exemplo, a lombada de um livro – Viver para contá-la, de Gabriel Garcia Marquez –, grossa, imponente, provocadora;

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 ele é, por exemplo, este recorte de 30 de Abril de 1974, de há 44 anos:

e todo o trabalho projectado para o dia cai por terra, adiado.

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Que gráfico escolheu aquela imagem?, que escrevi eu, ainda a cheirar a Caxias (apesar da barrela), entre a fuga ao Zambujal, as idas ao aeroporto receber os exilados (tão diferentes!) Cunhal e Chantal (o almoço oferecido pelo embaixador da Bélgica pelo meio) e tanto mais?

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Tenho de contá-lo... porque foi tão vivido:

COM UM NÓ NA GARGANTA…
E a voz estrangulada. E as lágrimas nos olhos.
Mas lágrimas nos olhos que se riem de espanto. Não as velhas lágrimas mordidas de raiva, de contenção, crescidas no esforço para continuar a luta contra a mordaça, as algemas, a venda nos olhos, o nó na garganta.
Mas este nó na garganta de hoje. Outro. De comoção, de fazer sair a voz estrangulada mas a dizer o que quer. Rouca de saudar e gritar Povo unido jamais será vencido,
E este suplemento. Este suplemento onde a camaradagem encheu páginas com material para aqui encaminhado para que ele continuasse, mas onde ficou um buraco para poder vir dizer … voz estrangulada, lágrimas nos olhos … que nele continuo, que cá estou a procurar escrever ECONOMIA. E agora com as oito letras do seu nome.
Para hoje, pouco mais do que isto. Pouco mais do que vir marcar a presença, deixar a saudação. Palavras escritas num intervalo de dias de vinte e quatro horas que todas são poucas para no estreitarmos as mãos e arrancarmos com a construção do nosso futuro, enquanto temos de ajudar à definitiva impossibilidade de renascer um passado. A não esquecer como experiência vivida. Sofrida.
Mas o marcar a presença e deixar a saudação é também um compromisso. A escrever com todas as letras, vingando-nos de mais de uma centena de vezes que o tentámos escrever com as letras que a repressão nos deixava – era forçada! – chegar a mensagem. Uma ECONOMIA com o produtor, o trabalhador, o homem no começo e fim de todas as prioridades. A satisfação das suas necessidades. A sua promoção. A sua escolha consciente.
Tudo quanto hoje se escreve tem o peso de uma enorme responsabilidade. A de termos a certeza de que o que estamos a escrever será o que vai ser lido, e de sabermos que somos analfabetos de uma comunicação que deixou de ser codificada, são esse peso, essa responsabilidade. E assumamo-la substituindo a humilhante mordaça da censura pela sadia reflexão da autocrítica e de aprendizagem de comunicação descodificada.
Mas, também, aceitemos o risco de uma relativa irresponsabilidade que consuma esta euforia e compense este cansaço que os nervos fazem esquecer. Deixemos que se atirem para o almofariz de onde devemos tirar o futuro por todos amassado e enformado, ideias que não transportam maior peso que o de uma enorme vontade de as exprimir. Já destinadas a se apagarem, como voz débil mas firme, no coral das ideias colectivamente trabalhadas.
Neste “primeiro” suplemento, cozinhado à pressa para que saia, não podemos deixar de avançar uma palavra sobre a inflação. Dos preços temos falado e bem temos procurado demonstrar o que todos sabemos: que os salários dos trabalhadores não são, de nenhum modo, responsáveis pela subida dos preços, que os trabalhadores são as grandes vítimas do que alguns têm aproveitado. Pois afirmemos claramente, neste suplemento, que a primeira palavra que queremos deixar é sobre a urgente necessidade de se encontrar a definição – por todos nós – de um mínimo de salário para um viver digno. Sentimo-lo – hoje, às seis menos um quarto da madrugada de 29 de Abril – como o mote prioritário sobre todas as prioridades a deixar num suplemento de economia.
Com a economia escrita, pela primeira vez, com todas as suas oito letras! Mas, também, com a exclusiva responsabilidade de uma assinatura, de um grande cansaço, de uma enorme alegria que (dá) a luta para a construção da esperança. 

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Há 44 anos! Com o Povo Português a acordar, e já com forças a procurar anestesiá-lo, “barbarituricamente”.

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Hoje, escreveria o mesmo. Decerto não exactamente assim… mas o mesmo!

2 comentários:

Olinda disse...

Foi uma época ,que ainda hoje a 44 anos de distância,não conseguimos revivẽ-la sem a mesma carga emotiva.Uns mais intervenientes no histórico acontecimento,outros menos,mas a nossa geração foi privilegiada por fazer parte da História de Portugal.Penso que não houve,ao longo da história do nosso país,uma revolução que trouxesse tantos benefícios ao povo,e por isso mesmo :Revolução.Depois...Bjo

Rogerio G. V. Pereira disse...

Somos a memória que temos!

https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=sPxrABUFOOE