domingo, abril 26, 2015

A HISTÓRIA, ESSA VOLÚVEL!

No debate de ontem, na TVI24, alguns dos “deputados constituintes” relataram, com algum colorido dramatizador, o “cerco” a que foram sujeitos, dando-se uma dimensão heroica ou mártir, ao mesmo tempo que acusavam (ou insinuavam) o PCP culpado de todas as sofridas malfeitorias. Jerónimo de Sousa, com serenidade e contenção, lá esclareceu o que (e como) foi possível, mas ficou no ar a ideia de cerco houve e vítimas dele também... com os comunistas a serem os fautores.
Sendo, nesse dia 12 de Novembro de 1975, director-geral do Emprego, estava a trabalhar na Praça de Londres, assisti ao começo de tudo e acompanhei o episódio de que cada um terá a sua versão, embora não deva deturpar os factos que a possam fundamentar. Por mim, direi – só, e por agora! – que vi (e estive) com os trabalhadores da construção civil que se tinham dirigido ao Ministério do Trabalho – do 6º governo provisório, sendo então ministro o capitão Tomás Rosa – para se manifestarem relativamente ao seu contrato colectivo e, não tendo sido recebida uma delegação pelo ministro, resolveram deslocar-se à sede do governo, em S. Bento, onde também se encontrava reunida a Assembleia Constituinte. A manifestação foi engrossando pelo caminho, mudando de objectivos… e deu no que deu.
Raquel Varela tem um texto em 5dias.net retirado de livro seu que corrobora o que vivi. Transcrevo-o, não sem antes reagir ao introito a essa sua auto-citação por me parecer desnecessário e provocador o parenteses na frase “… surpreendi-me, concluindo que o PCP não é um partido monólito (a sua direcção era) …”. Ou talvez seja só incompreensão (ou ignorância) do que são as regras estatutárias que todos os militantes candidatos a militantes do PCP têm conhecer, como o “centralismo democrático” e a “direcção única” (que nada têm a ver com “monólito”… que nem sei bem que seja quando assim aplicado)    
“A 12 de Novembro de 1975, uma grande manifestação de operários da construção civil, algumas dezenas de milhares, cerca o Palácio de São Bento, em Lisboa, onde se reunia a Assembleia Constituinte. O cerco dura dois dias. A manifestação, que começa por centrar-se nas reivindicações laborais do sector da construção civil e que se radicaliza pela recusa do Ministério do Trabalho em receber os trabalhadores, converte-se rapidamente numa mobilização contra o VI Governo. Uma demonstração de força dos trabalhadores que questionam a própria Assembleia Constituinte, ao sitiar o seu local de reunião e sequestrar os deputados aí reunidos. O PCP participa na manifestação com prudência: acusa o Ministério do Trabalho de ser inoperante e de ter uma política de «avestruz» ao negar-se a receber os trabalhadores; considera inaceitável o Ministério ter resolvido encerrar as suas delegações para não receber estes trabalhadores[1]; exige que as reivindicações dos trabalhadores da construção civil sejam satisfeitas. Mas opõe-se firmemente ao cerco, num comunicado distribuído ainda no próprio dia 13: «O PCP considera que os acontecimentos desenrolados à volta do Palácio de S. Bento no decorrer da grandiosa manifestação e concentração ali efectuadas são da inteira responsabilidade do Ministério do Trabalho e do Governo. Durante bastante tempo os trabalhadores foram entretidos com falsas promessas (…) Apoiando a manifestação e a concentração de S. Bento, o PCP discorda, porém, do sequestro dos deputados da Assembleia Constituinte e do primeiro-ministro. (…) o sequestro não é forma de luta que favoreça os trabalhadores»[2]. Mais tarde, em 1976, no balanço que faz da actuação da esquerda militar na revolução (no capítulo «Avanço impetuoso da revolução» da obra A Revolução Portuguesa. O Passado e o Futuro), Cunhal afirma que o cerco, tal como outras acções, fora provocado pela esquerda militar e pelos «esquerdistas» a ela associados: «Tanto as lutas de massas como as lutas militares foram negativamente influenciadas por manobras esquerdistas para se assenhorearem do processo e para empurrarem sistematicamente as acções para choques com as forças armadas. Tal sucedeu com o cerco ao VI Governo Provisório em S. Bento pelos deficientes das Forças Armadas e pelos trabalhadores da construção civil, com o caso Rádio Renascença conduzido ao paroxismo pela aventura, com certo verbalismo na 5.ª Divisão, com a «bagunça» esquerdista pseudo-revolucionária em algumas unidades como o RALIS e a PM»[3].” (In Varela, Raquel, História do PCP na Revolução dos Cravos, Lisboa, Bertrand, 2011).


3 comentários:

cid simoes disse...

Cuidado com a dona Raquel que dá sempre uma no cravo e três no PCP.

Sérgio Ribeiro disse...

Inteiramente de acordo.
Até porque, como se pode ver pela amostra junta, ao dar uma no cravo teve necessidade de começar por dar uma martelada na ferradura!

Isabel Lourenço disse...

Há muito, que não assistia a um debate,
com gente tão acusatória ao PCP!
Seria ,por estarem lá alguns jovens a quem esta gente quer passar a imagem,de que todo o mal do Mundo foi causado pelos comunistas...???