domingo, abril 09, 2006

Exemplos de censura... há 35 anos!

Comecei a mexer em papéis velhos (estou sempre a mexer em papéis velhos…), e saltaram-me algumas “provas de censura” muito oportunas para o que aqui queria trazer. E fiquei preso na leitura, particularmente nas crónicas do Mário Castrim, para o "Canal da Crítica" do Diário de Lisboa. Sinto um misto de saudade, admiração e… renovada irritação. É preciso que os jovens saibam como era!
Transcrevo a crónica de 10.04.1971, de que foram cortados, pelos Serviços de Censura, os trechos em itálico.

TELEVISOR FECHADO
PALAVRAS (MAIS OU MENOS) ABERTAS

Não me peçam tolerância: tolerância é concordância. Não me peçam bem soar: bem soar é abençoar. Não me peçam compreensão: bem basta os que são. Não me peçam que perdoe: já basta o que me dói.

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Eu sei que ninguém tem culpa. Então o que é que cada um tem?

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Mãos nuas, peito a descoberto. Ainda por cima, estou sentado. Não nada mais indefeso que um homem sentado.

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Acredito no futuro da televisão porque acredito na televisão do futuro.

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O povo não me passou procuração para falar em seu nome. Mas na destruição das minhas noites e dos meus dias, existe um compromisso que desejo transparente. E pelo qual me destruindo, me construo.

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Ando na palavra como o funâmbulo no seu arame. Uma vantagem para o funâmbulo: o seu arame não é farpado.

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Então, contou a seguinte parábola:
Estava um homem a procurar, a procurar, no cesto das laranjas-palavras. Angustiado, porque nem todas as laranjas são possíveis. Quando rompeu a madrugada, tinha na palma da mão a laranja-silêncio.
- Senhor, que faz o homem que só encontrou a laranja-silêncio?
E o senhor respondeu:
- O homem que só encontrou a laranja-silêncio, meu filho, faz uma laranjada.

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Os meus momentos de maior reflexão acontecem quando, no fim da emissão, desperta a imagem da bandeira portuguesa. Quando vier a bandeira a cores, será maravilhoso espectáculo.

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Os perigos de uma televisão que, não se desejando comercial na essência, o seja por como modo de vida, consistem em não se apurar com a suficiente clareza se vive dos anúncios ou para os anúncios.

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Televisão ao serviço dos grandes “trusts” não faz serviço nacional.

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Na minha posição de crítico, só há uma coisa em que verdadeiramente acredito: nas limitações. Metem-se-me pelos olhos dentro. E levam-me os olhos.

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Alego a legítima defesa.

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Diz-se que o mal do Teatro na Televisão Portuguesa consiste na procura de reportório para maiores de 12 anos.
Espanto-me! Pois ainda há em Portugal indivíduos maiores de 12 anos?

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Todos são políticos. Mas: só alguns o são por política.

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Ser independente não é ser homem. Ser homem é escolher que dependência.

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A Televisão é uma força de respeito; por esse motivo, há que permanentemente, perder respeito a essa força.

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Lamentemos a sorte dos críticos sem Televisão. Lamentemos, poré, e emais ainda, uma Televisão sem críticos.

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Um indivíduo critica para viver; oxalá a contrapartida seja a existência de um número cada vez maior de indivíduos que vivam para criticar.

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O apelo à futilidade é a vocação de uma televisão sem vocação popular. Quer dizer: de uma televisão sem televisão.

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Está dito: o infantilismo é uma arma de dois gumes, capaz de se voltar contra quem a usa. Julgando criar adesão de grande público, o que na verdade origina é a indiferença. A amizade, a solidariedade, fortalecem-se apenas no compromisso responsável.

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O crítico tecnocrata é o pior dos críticos. É também o pior dos tecnocratas.

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Não existe, no presente, uma única rubrica de produção nacional que disponha de grande audiência. A língua portuguesa, como instrumento vivo e quotidiano, é a grande exilada da televisão portuguesa.

1 comentário:

Anónimo disse...

Boas recordações!

A “Parábola das Laranjas” é lindíssima.
Mário Castrim militante comunista, foi um destacado intelectual. Professor, jornalista, critico literário e de televisão, poeta e escritor. Destaco os belíssimos contos para crianças, da girafa “Gira Gira”, um conto muito doce “Gira Gira, O Pedro e o Cão”, “A Caminho de Fátima”(esta divertidíssima)histórias para todas as idades.
Tive o privilégio de o ter conhecido pessoalmente, através do Partido. Fez um colóquio sobre a crítica televisiva, e um outro sobre literatura infantil. Correu muito bem (bem demais), a sala comportava quinhentas pessoas estiveram perto de mil! Era uma pessoa muito simpática, calma, discreta.Excelente orador!
Leandro Martins, escreveu no Avante “Até Sempre!” (aquando do seu falecimento) um artigo muito bonito!
Era um homem de esperança, acreditava no futuro!
Citação utilizada pelo Pedro (Namora) num artigo para o Avante em 2002.
«Esperança: é a maneira como o futuro fala ao nosso ouvido. Depois há que saber organizá-lo. Então os comunistas entram em acção» (Mário Castrim).


Que bom teres remexido nos teus papéis!
É bom lembrar porque Abril, foi imprescindível!
É bom lembrar porque este teu blog é necessário!

GR