sexta-feira, dezembro 18, 2009

Notas cariocas - 8

  • Fala do homem que foi escravo em Parati, a representar o papel de guia turístico como trabalhador independente por conta de outréns:

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Trouxeram-me de longe, de outros rios, do outro lado, pelo rio grande.
Aqui cheguei, a Parati, naquela casa fiquei. E morri.

(…)
Hoje, sou livre. Diriam…

Mas seria livre alguém enquanto no mundo

– não importa onde, e aqui –

houver quem seja escravo,

ou tenha de vender horas de vida como sua mercadoria?

Poderia?


  • De Copenhaga procuro notícias.

Reúnem-se os maiorais, a ver se ainda algo conseguem salvar… ou a fazer de conta que algo salvaram. Em O Globo, encontro notícias. Em que, naturalmente, Lula é o centro.

E sê-lo-á mesmo, multiplicando contactos. Com Sarkosi antes de chegar Obama. Com o primeiro chinês. Do encontro entre estes (dois dos BRIC) aproveito a síntese: “as responsabilidades são conjuntas, mas diferenciadas!”

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Notas cariocas - 7

  • Em O Globo de hoje:
"Senado estabelece teto para aumentos do funcionalismo"
A proposta prevê um chamado reajuste real de 2,5% por ano, acima da inflação, isto é, mais 2,5 pontos percentuais acima do que for a inflação.
Não faço comentários. Não faltaria quem os fizesse, se fosse para o funcionalismo português...
  • Em Parati, hoje:
Em Parati fui escravo
como o fui em Goré,
em Ouïda,
e em tantos lugares mais

Agora, sou vendedor de força de trabalho
por aqui e por ali,
onde vivi.

Serei um homem livre
da escravidão,
da servidão,
da exploração.

Em Parati, aqui,
hoje,
sou um homem livre
porque em luta!
  • Disse ela, em Parati:
Já quase nunca nos surpreendemos,
mas continuamos a maravilhar-nos!

Notas cariocas - 6

O Brasil. Um continente. O País emergente (o que é isso?). A economia. O futuro a passar por aqui e por perto dos aquis.
Uma flora e uma fauna exuberantes. Cores e sons. Tons. Ritmos.
Uma gente alegre. Uns falares de diferentes portugueses, todos doces, uns mais cantados que outros. Tudo gente de sorriso aberto e riso fácil. Mesmo quando a vida não o é. E, em tantos e tantos, tão difícil é.
A música. As novelas. O teatro. Sempre solto. À solta, este Brasil
E o futebol. O Vasco que regressou, que subiu depois do desgosto, para tantos, de ter descido de divisão, o Flamengo que ganhou o hexa. Em todo o lado. Até na prainha mais escondida. Mas onde haverá gente brasileira a viver por perto.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Notas cariocas - 5

Porque um comentador se atreveu a duvidar se a prosa, assim a sêco de fotos, não estaria a ser debitada do Zambujal, e a ida ao Brasil fosse apenas "conversa mole", aqui ficam duas notas... fotográficas:
Esta, de um simpático mico que, com a sua família numerosa, nos recebeu quando chegámos à varanda do quarto onde ficámos:
E estoutra, na feira de S. Cristóvão, feira nordestina no Rio de Janeiro, no dia (13 de Dezembro) em que se comemorava, bem popularmente, o aniversário do nascimento do Gonzagão, do também "nosso" Luiz Gonzaga, o "rei bo baião":

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 10

Vou encerrar esta série com uma carta a Sorge (alemão - 1828-1906 - participou na revolução de 1848-1849 na Alemanha e, depois da derrota, emigrou para a América, onde continuou a participar activamente no movimento operário).
Termino-a com uma chamada de atenção para a última frase, na continuidade do que me pareceu de sublinhar na anterior carta.
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15 de Dezembro de 1881

... Os ingleses começam a ocupar-se com O Capital. Assim, no último número de Contemporany, um artigo de John Rae, German Socialism (muito insuficiente, cheio de erros, mas fair como me dizia ontem um dos meus amigos ingleses). E porquê fair?, porque Joh Rae "não supõe" que, durante quarenta anos ocupados a propagar as minhas perniciosas teorias, eu tivesse sido inspirado por "más intenções". Tenho de referir a sua generosidade e a honestidade que consiste em, pelo menos, ter um certo conhecimento de um livro crítico que parecia desconhecido pelos primitivos do filistinismo britânico.
Antes do aparecimento deste artigo, um certo Hundman publicou um pequeno livro, England for all, pretensamente uma exposição do programa da Democratic Federation (recentemente constituída por um grupo de radicais ingleses e escoceses, meio burgueses, meio proletários). Os capítulos sobre o trabalho e o capital são extractos ou paráfrases de O Capital, mas Hundman não cita nem o livro nem o seu autor... Ele escreveu-me cartas com pedidos de desculpas, dizendo que os ingleses não gostam de ser instruídos por estrangeiros, que o meu nome era muito detestado, etc. Este pequeno livro - até na medida em que plagia O Capital - faz uma boa propaganda.
Ultimamente a revista mensal Modern Thought publicou um artigo intitulado "Leaders of modern thought, nº XXIII: Karl Marx", por Ernest Beldfort Bax. Ora bem, foi a primeira vez que um artigo deste género exprimiu um tal entusiasmo por ideias novas e uma tão dura condenação do filistinismo britânico. O que não impede que as informações biográficas dadas pelo autor a meu respeito sejam, na sua maior parte, falsas... O aparecimento do artigo foi anunciado em grandes letras em cartazes nas paredes de Londres e fez grande sensação.
O mais importante para mim foi ter recebido o Modern Thought antes de 30 de Novembro, pelo que foi possível que a minha querida mulher ainda tivesse tido uma alegria nos últimos dias da sua vida.
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morreu a 14 de Março de 1883

terça-feira, dezembro 15, 2009

Notas cariocas - 4

  • Em cada ano, por esta altura.
Em cada ano, por esta altura, andamos por terras, conhecemos gentes. Somos humanos ao encontro de humanos. Tão diferentes de nós. Tão outros-iguais-a-nós.
O ano passado foi no Vietnam - a viagem! -, há dois anos em Moçambique, há quatro anos em S. Tomé e Príncipe. Há três anos foi no Zambujal ... regressado de Coimbra.
Este ano está a ser aqui, à volta do Rio, neste Brasil imenso. Imenso hoje, maior amanhã.
Há pouco, num "onibus", no meio de gente, uma jovem aí dos seus doze anos ofereceu-me o lugar enquanto a mãe, que ia sentada ao lado, a fazia saltar para os seus joelhos. Agradeci e cedi a oferta à Z.
Logo, no autocarro cheio, uma outra jovem, esta já bem mais espigadota, me fez sinal a ceder-me o lugar onde ia sentada. E insistiu, apesar da minha estranheza e recusa.
Ao sair do autocarro, agradeci com o melhor dos meus sorrisos, escondendo o incómodo (e, talvez, a irritação...) de tão velho me terem feito sentir.
Isto de barbas brancas em época natalícia!
  • Ao longo das estradas, uma invasão se repete.
Ao longo das estradas, uma invasão se repete. A mesma. Em S. Tomé, em Moçambique, no Vietnam, aqui, entre o Rio e Parati. Em cada povoação, em cada pequeno aglomerado populacional, a(s) igreja(s).
É - para mim, claro - assustador. Igreja(s) com os mais variados nomes. Alguns repetindo-se. Estando na Ásia, em África, nesta América do Sul. Com uma força por vezes opressiva, insultuosa. No meio de habitação degradada, de barracas e barracos, onde evidentemente falta o indispensável para um viver digno do corpo, abundam os curandeiros das almas, os anunciadores da vida eterna. Uma vida outra, de certeza melhor que esta. Que deve ser vivida com resignação, para que a outra seja o reino dos simples. Não o da liberdade.
Enquanto, ao lado, os condomínios, os "resorts" para turistas gozando de reformas chorudas, as ilhas de alguns que presos deveriam estar. Este reino da necessidade... para os outros.
  • Leio: "Como é que podemos ser felizes sem a curiosidade, sem perguntas, dúvidas e argumentos? Sem o prazer de pensar?". É nesta página que vou. E "traduzo": como é que podemos ser humanos sem humanos sermos, e sem lutar por um mundo diferente, humano?
Espreito o final do discurso de que tirei aquela frase que agora estava a ler, e antecipo a sua leitura: "Que ninguém me obrigue a escolher."
Será esse o problema do autor-personagem ou do personagem-autor. Não é o meu! Escolhi. Tomei partido. Sem a arrogância de afirmar certezas, entre elas a de que escolhi bem, muito menos a de que era a escolha única.

Notas cariocas - 3

Só transcrevo um pequeno extracto:

«(...) Sobram discussões, mas recursos não são nem miragem na Conferência do Clima (COP-15) que entrou ontem na fase decisiva com a chegada dos ministros. Sessenta dos 100 ministros que chegaram se reuniram para discutir o financiamento de um acordo, mas não houve avanço. A ministra da Casa Civil, Dilma Roussel, chefe da delegação brasileira, disse que o Brasil já fez a sua oferta e criticou com veemência os países ricos por tentarem impor aos emergentes obrigações que, segundo ela, não lhes cabem. Ela destacou que se isso for aceito, será um escândalo. A posição do Brasil é compartilhada pelo G-77, que reúne os países em desenvolvimento.
- Aceitar que países em desenvolvimento são iguais aos desenvolvidos é um escândalo. Seria um absurdo abrirmos mão das obrigações dos desenvolvidos - afirmou.
Ela deixou claro que o país não está disposto a ceder.
- O Brasil tem uma posição firme. Temos de garantir que os países em desenvolvimento tenham o direito que lhes cabe - declarou.
(...)»
(O Globo, 14 de Dezembro de 2009)

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 9

A Kugelmann

12 de Dezembro de 1868

… As mulheres não têm razão para se queixarem da Internacional, que elegeu uma delas, Madame Lan, para o Conselho Geral…
Ironia à parte, o último congresso da American Labour Union deu um grande passo em frente: os trabalhadores dos dois sexos foram aí tratados em completo pé de igualdade. Pelo contrário, a este respeito os ingleses, e ainda mais os galantes franceses, mostraram uma grande estreiteza de espírito. O progresso social mede-se pela posição social do belo sexo (neste se incluindo as que são feias…)
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Já mais de uma vez, e em diferentes circunstâncias e, decerto, com diferentes traduções, transcrevi este excerto. Não me cansarei de o fazer!

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 8

A Kugelmann (um tal Luís, médico – ginecologista –, e amigo do remetente Carlos)

23 de Agosto de 1866

Meu caro amigo,
Deves estar, e com razão, zangado com o meu prolongado silêncio, apesar das tuas numerosas e amigas comunicações. Contudo, terás de me desculpar, tendo em conta as circunstâncias extraordinárias nas quais me encontro.
Em conseqüência da minha longa enfermidade, a minha situação económica atingiu um ponto crítico. Acumulei dívidas, que são uma carga mental esmagadora e me tornam incapaz de qualquer actividade outra além do trabalho no qual estou imerso. Caso não consiga um empréstimo de no mínimo 1.000 thalers, digamos a 5%, realmente não vejo saída. E apesar das numerosas cartas de recomendação que recebi da Alemanha, não sei para onde me voltar. Somente posso aceitar ajuda de amigos próximos, nada público. Perceberás que em tais condições escrever cartas se torna difícil.
Ainda não consegui restabelecer meus antigos contactos proveitosos com a América. Eles estão tão comprometidos com o seu próprio movimento, que consideram qualquer gasto com correspondência para a Europa como faux frais de production[1]. Eu poderia ajudá-los emigrando para lá. Mas considero que o meu dever é continuar na Europa, e completar o trabalho com o qual me responsabilizei há tantos anos[2].
No que respeita a este trabalho, penso que não serei capaz de entregar o manuscrito do primeiro volume (agora cresceu para três volumes) em Hamburgo antes de Outubro. Só consigo trabalhar de maneira produtiva algumas poucas horas por dia sem imediatamente sentir os efeitos fisicamente e, para o bem de minha família, suponho que devo, embora a contragosto, observar as precauções de saúde até que esteja completamente recuperado. Além disso, o meu trabalho é constantemente interrompido por circunstâncias externas adversas.
Embora esteja dedicando muito tempo à preparação para o congresso em Genebra, não posso ir lá, nem mesmo desejo ir, porque meu trabalho não pode ficar sujeito a prolongada interrupção. Considero o que estou a fazer por meio desde trabalho muito mais importante para a classe operário que qualquer coisa que eu possa fazer pessoalmente em qualquer congrès quelconque[3].
Considero a situação internacional na Europa só temporária. Quanto à Alemanha em particular, temos que tomar as coisas como as encontramos, ou seja, promover os interesses da revolução de modo apropriado às novas condições. Relativamente à Prússia, é mais importante do que nunca observar e denunciar suas relações com a Rússia.
Teu muito sincero amigo,
K. Marx

[1] e [3] - em francês no texto oeiginal
[2] - Trata-se de O Capital



11 de Julho de 1868


(…) As leis naturais nunca podem ser abolidas. Apenas a forma tomada por essas leis é susceptível de modificações em determinadas situações históricas…
O verdadeiro método científico consiste em mostrar como se manifesta a lei do valor. Se, assim, se começa por “explicar” todos os fenómenos na aparência contrários à lei, seria necessário dispor da ciência antes da ciência. É precisamente esse o erro de Ricardo: no seu primeiro capítulo sobre o valor, ele pressupõe já dadas todas as categorias que se trata precisamente de explicar antes de mostrar que elas são regidas pela lei do valor…
O processo do pensamento é um processo natural que em si mesmo depende das condições. Por consequência, o pensamento que descobre o real não se pode diferenciar, a não ser gradualmente, seguindo o desenvolvimento do real e o do cérebro.
A economia vulgar não suspeita, por nada deste mundo, que as condições quotidianas da troca não são o reflexo directo do valor. Na sociedade burguesa, não há nenhuma regulamentação consciente, social, prévia à produção. A racionalidade - e a sua necessidade apenas se impõe cegamente - toma a forma de uma média estatística. E é aí, precisamente, que está a ironia desta sociedade. O economista vulgar julga ter feito uma grande descoberta quando entrevê as conexões reais e que a aparência difere da realidade. O seu espanto não tem limites. De facto, toma as aparências como a última realidade, e não consegue sair daí. Nestas condições, para que serve a ciência?...
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Dito de outra maneira (ou como já vi traduzido): se a realidade fosse igual à sua aparência para que serviria a ciência?

Notas cariocas - 2

  • Vejo em O Globo que morreu Paul Samuelson.

É curioso. Aos 94 anos morre um homem que eu julgava que me era indiferente e, ao saber da sua morte, é como se tivesse morrido alguém familiar. Em 1953, ao entrar no ISCEF, apanhei com "os 3 mosqueteiros", Jacinto Nunes, Pereira de Moura e Teixeira Pinto - por esta ordem, alfabética e não só... mas demoraria a explicar, guardando de Pereira de Moura uma saudade amiga -, três jovens docentes que nos apresentaram a economia... por via de Samuelson, do seu Economics: an introductory analysis. O que era, digo-o hoje, arrojado, quase revolucionário porque anti-fascista. Com essas ajudas, havia um certo Keynes que estava na sombra, e um certo Marx na clandestinidade (de que Adérito Sedas Nunes nos abriu frestas um pouco mais tarde). Por Samuelson nos chegaram ferramentas, e foi ainda em Samuelson, que nada tinha de revolucionário, que encontrámos a resistência, dentro do sistema capitalisma, à deriva monetarista, de Friedman, caldo de cultura do neo e ultra-liberalismo, da ideologia do pensamento único da "economia de mercado". Por isso, o silêncio sobre Samuelson nestas últimas décadas e o seu ressurgimento, quando morre fisicamente, e "a crise" exige a recuperação de quem possa servir Itálicoo sistema negando o o neo-liberalismo. Mas não será suficiente. Como não o será Keynes. Porque navegar (em Marx) é preciso.

  • Ao lado da notícia (extensa) sobre a morte de Samuelson, um colunista "de referência", George Vidor, com Precipitados.

Apetece dizer "nem de propósito". A propósito de Samuelson. A escrever sobre a economia brasileira, o comentador salienta que o seu ritmo de crescimento anual está nos 5%, e que a necessidade de investimento (da FBCF), para sustentar esse crescimento, é equivalente a 20% do PIB, para poder dispensar os financiamentos externos que, diz o colunista, "podem tornar o país mais vulnerável a crises vindas de fora". Pois os dados estatísticos oficiais do 3º trimestre fazem prever que o ano possa fechar com uma taxa de investimento à volta de 19%. É interessante que também sublinhe que, num país como o Brasil, o grande desafio seja o de viver, economicamente, com baixas taxas de juro, contra aquilo a que tem estado habituado.

  • Outra nota que virei a desenvolver (um pouco...) será sobre a cimeira de Copenhague.

Vista daqui, a Cimeira parece outra. Tem-se uma perspectiva bem diferente da que se tem a partir de uns Estados Unidos ou de uma... "União Europeia". E é preciso, actualmente, não menosprezar a importância desta perspectiva. A possibilidade de "chantagear" a partir de "centro" parece estar diminuindo.

domingo, dezembro 13, 2009

Duas notas cariocas

  • Será que este gajo não me deixa em paz?...
Um almoço num ambiente excepcional. Na Lapa. No Cosmopolita, que de restaurante cosmopolita nada tem, mas sim de tradicional, de amigos, de familiar. Em família.
Levanto-me para ir arranjar espaço para mais uns "chopes". Passo pelos recortes nas paredes. a dizer que... é o melhor restaurante do Rio, ou será o melhor do mundo? E, logo abaixo, três ou quatro nomes de referência. Entre eles o de Mário Soares. Tinha de ser. Onde quer que vá, seja em que recanto do mundo... já ele lá esteve e tem o nome (ou até a fotografia) nas paredes.
  • Passo os olhos pelas primeiras páginas dos jornais nas bancas.
Na casa dos amigos fixo-me no Globo, e no caderno de Economia, que de Economia se chama. Os resultados da evolução no 3º trimestre de 2009. Apenas um crescimento de 1,3% do PIB. Com a nota, quase escandalizada de que é 0 pior resutado da última década.
Este país cresce, cresce. Respira-se crescimento. Mesmo quando é pequeno...

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (e a alguns mais que isso...) - 7

O nosso Carlos também escreveu outras cartas. Como de amor, cheias de poemas para Jenny. Mas das mais conhecidas são duas cartas ao pai.


Uma delas, tinha ele 17 anos e estudava longe de casa, continha as reflexões de um jovem sobre a escolha de profissão.


Acabava assim:

«Se tivermos escolhido aquela posição na vida em que podemos acima de tudo trabalhar para a humanidade, nada nos poderá vergar porque os sacrifícios serão para benefício de todos; não sentiremos, por isso, qualquer alegria mesquinha, linmitada e egoísta, mas a nossa felicidade será a de milhões, as nossas acções ficarão silenciosas mas continuamentea trabalhar e sobre as nossas cinzas se espalharão as lágrimas quentes das pessoas nobres».
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Dois anos mais tarde, Carlos, estudante de direito em Berlim, escreveu uma longa carta ao pai, em que faz o relato dos seus estudos e trabalhos (mas em que também fala dos "poemas dos três primeros volumes que enviei à Jenny"), diz que esteve doente e que
"durante a minha doença, fiquei a conhecer Hegel de trás para a frente e da frente para trás, assim como a maior parte dos seus discípulos."
e termina, em apressado post-scriptum
«Desculpa, querido pai, esta caligrafia ilegível e o estilo descuidado. São quase quatro da manhã. A vela já se gastou toda e doem-me os olhos.»

sábado, dezembro 12, 2009

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 6

17 de Dezembro de 1867



Meu Caro Frederico



Volto à carta de Guilherme (Liebknetch). Responde-lhe com prudência. A situação é delicada. Para agir, convirá sempre ter mais maleabilidade dialéctica que o nosso Guilherme. Além disso, ele retira de uma paixão, a prussofobia, a sua torrente verbal e a unidade da sua atitude.

Ele aflora que a burguesia constitui na verdade o núcleo dos nacionais-liberais; boa ocasião para dar à sua paixão política a consagração da economia...

O correspondente em Londres do Irishman está disposto a fazer passar nesta folha de Dublin, como correspondência sua, com a condição de que escrevas em inglês, uma coluna de crítica sobre o teu livro (na qual a Irlanda deveria ter o lugar principal)...

Tenho um pequeno furúnculo na coxa esquerda. Se não tem traseiro, como é que um homem se pode sentar?

Fiz ontem, ma nossa associação operária alemã (três outras associações operárias alemãs estavam representadas num total de cem auditores), uma conferência de uma hora e meia sobre a Irlanda... sempre de pé porque esta posição é a mais fácil para mim neste momento.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Subversão?

Parece estar tudo baralhado!
Um arguido, caucionado em dezenas de milhar de euros, proibido de falar com outros arguidos ou testemunhas, vai à televisão, canal público, comvidado para dar uma entrevista no programa e no horário ditos mais nobres!
Um ex-ministro que, enquanto o foi, não respondeu a deputados, no local mais representativo da democracia, na Assembleia da República, a explicar a dois políticos seleccionados, num programa político, o que não explicou antes, e onde devia, e a quem devia.
A televisão pública a borrifar-se na Justiça, e televisão privada a substituir-se à Assembleia da República?
É a subversão total.
Digo eu...

Façam favor de explicar (actualização)

Eu sabia que a "mensagem" publicada na segunda-feira iria sair um grande "lençol" mas pareceu da maior utilidade... paraquem se quisesse informar sobre essas coisas do "Magalhães# e das Fundações.
Entretanto, nos comentários, um amigo deu informações complementares que me parecem muito interessantes.
Aqui vão elas:

«Já agora, e é pena só hoje ter vindo «passear» por aqui, o GP do PCP voltou a questionar o Governo na semana passada àcerca deste assunto. É que surgiram dados novos... O Relatório e Contas da Fundação para as Comunicações Móveis (FPCM), que pode ser consultado no site da dita cuja (www.fpcm.pt), não apresenta um «cêntimo» de despesas e de receitas (custos dos serviços prestados e vendas ou prestações de serviços - desculpem a falta de rigor de acordo com o SNC) da actividade principal da respectiva instituição. De acordo com o mesmo, e com o aval do ROC (que até poderá ser legal(?)), os montantes recebidos do Estado e das Famílias e entregue às operadoras (Grupos Económicos) não provocam alterações patrimoniais na Fundação, pelo que não devem ser registados como proveitos nem custos. Pasme-se o zé povinho com tal conclusão!
Os dinheiros são públicos, entregues directa ou indirectamente a empresas operadoras de comunicações móveis, mas o veículo financeiro de tal transferência escusa-se a prestar contas públicas... »

Obrigado, Ricardo.

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 6

(fui ali, a Pasárgada, mesmo mesmo a correr... mas ficaram mensagens agendadas para os visitantes assíduos. e pode ser que encontro forma de mandar novidades.)
27 de Abril de 1867

… O que há de melhor no meu livro (e aí repousa toda a compreensão) é que
1º - como o sublinho desde o começo, o trabalho tem um carácter duplo segundo ele se exprime em valor de uso ou em valor de troca;
2º - a mais-valia é tratada independentemente das suas formas particulares, tais como o lucro, juro, renda, etc. É sobretudo no segundo volume que se verá a sua importância. O estudo dessas formas particulares, se é confundido com estudo da forma geral a exemplo dos economistas clássicos, dá uma misturada informe.
Peço-te que anotes nas provas tipográficas as tuas observações, as tuas explicações, as tuas questões, etc. É muito importante para mim porque penso fazer, cedo ou tarde, uma segunda edição…
Suei as estopinhas para chegar às próprias coisas, quer dizer, à sua conexão

30 de Novembro de 1867

… Os ingleses não sabem ainda que desde 1846 a situação económica e, por consequência, a tendência política da dominação inglesa sobre a Irlanda entraram numa fase nova. Por isso, o “fenianismo” toma uma orientação socialista (pela negativa, isto é, como movimento de classes inferiores contra a expropriação dos camponeses). Nada de mais ridículo que identificar as crueldades de Isabel e de Cronwell, que querem substituir os irlandeses por colonos (na acepção de Roma), e a política actual que quer substituir os irlandeses por ovelhas, porcos e vacas! Dizimar os proprietários de terras na Irlanda, tal é, actualmente a tendência única da dominação inglesa na Irlanda…
Que se deve aconselhar aos operários ingleses? A meu juízo, eles deveriam fazer da supressão da União um artigo da sua declaração. É a única forma legal e, consequentemente, a única possível da emancipação irlandesa que pode entrar no programa de um partido inglês.
Do que os irlandeses têm necessidade é de: 1º - da independência; 2º - de uma revolução agrária; 3º - de tarifas proteccionistas. Depois da independência, os irlandeses serão proteccionistas, como o Canadá, a Austrália, etc.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

É só um saltinho...

«E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito…
Vou para Pasárgada!»

(Dizia o Manuel Bandeira…)

Mas é que vou mesmo.
Nem por um instante deixo a luta,
(… esta luta filha da puta)
nem vou para Pasárgada,
Vou só ali, vou ali a Pasárgada.

Por cá também a tenho,
também tenho a minha Pasárgada:
esta companheira, esta casa, estes amigos,
traduzir cartas do senhor Carlos Marques
a recomendar ferro e banhos de mar
em vez de óleo de fígado de bacalhau,
e mais, muito mais.

Tudo bem…
Mas como estou cada vez mais triste,
com o que vejo,
com o que leio,
com o que ouço,
mas triste de não ter jeito!,
vou, alegremente, ali à outra Pasárgada
(à do senhor Manuel Bandeira)
… e volto já!

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 4

Na preparação/construção desse obra O Capital, escrevia Carlos a Frederico, a expor, a pedir opiniões, correcções, o que fosse…



2 de Agosto de 1862
… No capital distingo duas partes: o capital constante (C) (as matérias primas, as máquinas, os utensílios, etc.) cujo valor é simplesmente recuperado no valor do produto, e o capital variável (V), ou seja, o capital utilizado para pagamento de salários. Este último contém em si menos trabalho materializado que o que fornece em troca. Por exemplo, se o salário diário é igual a dez horas, o operário trabalha durante doze horas, ele restitui o capital variável e mais um quinto desse capital variável (duas horas). Chamo a esse excedente a mais-valia (m-v). Suponhamos que a margem de m-v é dada e que é igual, por exemplo a 50%; neste caso, o operário, num dia de trabalho de oito horas trabalha quatro horas para si e quatro horas para o seu patrão.
… Em tais condições, admitindo que o grau de exploração do operário é o mesmo em diferentes ramos da produção, os capitais de uma mesma grandeza nos diversos ramos da produção darão somas muito diferentes de m-v e, por causa disso, taxas de lucro diferentes, não sendo a taxa de lucro nada mais que a relação entre a m-v e o capital social aplicado.
Isto dependerá da composição orgânica do capital, isto é, da sua divisão em capital constante e capital variável. Suponhamos que o sobre-trabalho é igual a 50%, se, por exemplo, uma libra esterlina = uma jornada de trabalho (ou a soma das jornadas de trabalho de trabalho de uma semana), a jornada de trabalho = 12 horas, o trabalho necessário (reproduzindo o salário) = 8 horas, então o salário de 30 operários (ou das jornadas de trabalho) = 20 libras e o valor do seu trabalho = 30 libras esterlinas. O capital variável correspondente a um operário (por um dia ou por uma semana) = dois terços de uma libra, e o valor criado pelo operário = 1 libra.
A soma de m-v que produzirá um capital de 110 libras nas diferentes empresas será muito diferente de acordo com a proporção em que um capital de 100 libras se subdividirá em C e V.
Se, na indústria têxtil, por exemplo, a composição do capital é tal que C= 80 e V = 20, o valor do produto = 110 (com uma m-v, ou sobre-trabalho, de 50%); a massa de m-v = 10 e a taxa de lucro = 10%, sendo esta última a relação entre 10 (m-v) e 100 (o valor de todo o capital aplicado).
Suponhamos que numa grande fábrica de vestuário a composição do capital é C = 50 e V = 50. O produto será = 125, a m-v (com a taxa de 50% como no exemplo anterior) = 25 e a taxa de lucro = 25.
Vejamos uma outra indústria, onde a relação seja C = 70 e V = 30. O produto será = 115, a taxa de lucro = 15%.
Por último, uma indústria onde a composição seja C = 90, V = 10. O produto será, assim, = 105 e a taxa de lucro = 5%.
Com o mesmo grau de exploração do trabalho, com os capitais da mesma grandeza, teremos em diferentes ramos da indústria somas de m-v muito diferentes e, em consequência, taxas de lucro muito diferentes.
Tomemos os quatro capitais acima mencionados:
1. C80V20 valor do produto = 110 taxa de lucro = 10%
2. C50V50 """""""""""""""""""= 125 """""""""""""""= 25%
3. C70V30 """""""""""""""""""= 115 """"""""""""""""= 15%
4. C90V10 """""""""""""""""""= 105 """"""""""""""""= 5%
______________________________________
O capital = 400.................. O lucro = 55 (errado na edição de onde traduzi - SR)
A taxa de m-v é, em todos os exemplos de 50%. A taxa de lucro é, em média, de 13,75%.
Se se calcular sobre o capital total da classe (400) a taxa de lucro será de 13,75%. Ora os capitalistas são irmãos. Graças à concorrência dos capitais (afluxo e refluxo de capitais de um ramo da indústria para outro), chega-se ao resultado dos capitais de uma mesma grandeza em diferentes empresas, apesar das composições orgânicas diferentes, darem a mesma taxa de lucro médio. Noutros termos, um capital de 100 libras esterlinas que, numa empresa determinada, obtém o lucro médio, obtém-no não enquanto capital com essa aplicação específica, e não de acordo com a relação segundo a qual ele próprio produz a m-v, mas enquanto uma fracção determinada do capital tendo essa aplicação específica, e não de acordo com a relação segundo a qual ele próprio produz a m-v, mas enquanto fracção determinada do capital total da classe dos capitalistas.
A parte do capitalista e os dividendos que obtém são pagos proporcionalmente à grandeza dessa parte sendo retirados da soma geral da m-v (ou trabalho não-pago), que obtém o capital variável total de toda a classe (isto é, o capital despendido com os salários). Para receberem o mesmo lucro médio, cada subdivisão 1, 2, 3, 4 no exemplo citado, deverá vender as suas mercadorias por 113,75 libras; 1 e 4 vendendo acima do seu valor, 2 e 3 abaixo do seu valor.
O preço assim determinado = despesas do capital + o lucro médio de 10% é o que Adam Smith chama “preço natural”, preço de produção, etc. É a esse preço médio que se reportam os preços das diferentes produções (pelo fluxo e refluxo do capital). Assim, a concorrência entre os capitais leva as mercadorias, não ao seu valor, mas ao seu preço de produção que, segundo a composição orgânica dos capitais, é ou maior ou mais pequeno ou igual ao seu valor.

Dia internacional da luta contra a corrupção?

É hoje?
E os outros?
Serão os dias internacionais da corrupção?

terça-feira, dezembro 08, 2009

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 3

11 de Janeiro de 1860
… Segundo penso, o que se passa agora em grande parte do mundo é, por um lado, a agitação anti-esclavagista na América, aberta com a morte de Brown, e, por outro lado, a agitação anti-esclavagista na Rússia… A agitação social está, assim, desencadeada a oeste e a leste. Se juntarmos o afundamento iminente da Europa central, vemos coisas magnificas…
Os Factory Inspectors’ Reports… revelam que desde 1850 a indústria inglesa teve um crescimento extraordinário. A situação sanitária dos operários adultos melhorou depois do aparecimento do teu Situation de la classe ouvrière (reli-o na biblioteca), mas a mortalidade infantil aumentou…


1860
… É inegável que a sociedade burguesa passa por um novo século XVI, mas esperamos que esse novo século XVI toque o sino desta sociedade como que a anunciar um nascimento. A verdadeira missão da sociedade burguesa é a criação do mercado mundial, pelo menos nos seus grandes traços, assim como de uma produção que depende do mercado mundial… Esta missão parece terminada desde a colonização da Califórnia e da Austrália e a abertura do Japão e da China. Para nós, a questão difícil é: no continente a revolução está iminente e tomará, ao mesmo tempo, um carácter socialista, mas não será inevitavelmente estrangulada neste pequeno canto uma vez que, num terreno bem mais vasto, a sociedade burguesa continua a sua ascensão? ...

Sobre a Conferência de Copenhaga - a posição do PCP

Na conferência de imprensa sobre a Conferência de Copenhaga, em que participaram Vladimiro Vale, da Comissão Política, Miguel Tiago e João Ferreira, deputados do PCP, declararam que para o PCP esta conferência, « tendo em conta o pendor político e ideológico que tem dominado as posições assumidas pelos diferentes intervenientes até agora, poderá não constituir mais do que uma nova etapa da propaganda mundial sobre alterações climáticas».
Se quiser, pode ler mais.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, a um tal Frederico, "inglês", e a outros amigos (alguns nem por isso...) - 2

14 de Janeiro de 1858
… e encontro uns belos desenvolvimentos. Por exemplo, abanei a teoria do lucro. O que muito me ajudou na exposição foi ter, por mero acaso, relido a Lógica de Hegel. Se alguma vez tiver tempo livre para me dedicar a trabalhos desse género, gostaria de escrever umas sessenta a cem páginas para explicar aos não-iniciados o núcleo racional do método descoberto, mas mistificado, por Hegel…

Fevereiro de 1858
… Dir-se-ia que Lassalle estudou Heráclito para compreender a lógica hegeliana e que nunca pára de recomeçar a operação. No que respeita a erudição, há um fosso enorme. Sabe-se como é fácil reunir uma tal compilação quando se tem tempo e dinheiro e se pode, como Lassalle, levar para casa toda a biblioteca de Bona. No meio desta quinquilharia filosófica, atira-se ao assunto com a elegância de um homenzinho que, pela primeira vez na vida, está bem vestido. Como a maior parte dos filósofos são incapazes de atingir os píncaros da especulação heraclidiana, todo o hegeliano tem a vantagem incontestável de compreender o que esses filósofos não compreendem… Embora proclamando a quem o queira ouvir que Heráclito foi até hoje um livro fechado a sete chaves, Lassalle não acrescentou nada de essencialmente novo ao que já se encontra na História da Filosofia de Hegel. Não faz mais que diluir o que se podia conter em poucas páginas… Os velhos hegelianos e os filósofos ficaram decerto muito contentes por descobrir uma natureza tão antiga num jovem que passa por ser um grande revolucionário …

Façam o favor de explicar

* qual deve ser o papel de uma oposição em geral, e das oposições em particular, em certas concepções de "democracia".

* porque é que o governo não responde a perguntas, como as do deputado Bruno Dias, de 7 de Julho (!), sobre e-escolinhas e essas coisas de fundações, e se vitimiza com as consequências do que faz, e de não esclarecer o que fez a quem tem a obrigação de esclarecer.

Aqui estão as 10-perguntas-10 devidamente fundamentadas, de 7 de Julho, isto é, de há 5 meses:

Pergunta 3.031 - 4ª.

«Assunto: Financiamento oculto no "e-escolas" e "e-escolinhas": Fundação para as Comunicações Móveis e Fundo Sociedade da Informação.
Destinatário: Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações
Exmo. Sr. Presidente da Assembleia da República

«Desde há anos que o PCP vem insistindo junto do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações na exigência de informação concreta e transparente sobre o financiamento do projecto "e-iniciativas".
Esta operação, com que o Governo se tem desdobrado por todo o país em acções de propaganda e de "entrega de computadores portáteis", permanece até hoje sem qualquer prestação de contas relativamente à sua gestão financeira e execução orçamental.
Já em 2007, questionado pelo PCP na Comissão Parlamentar sobre esta matéria, e sobre os montantes envolvidos nesta operação, o Ministro Mário Lino afirmou taxativamente que não estariam em causa dinheiros públicos e que todo o financiamento assentaria em verbas de empresas privadas, em resultado de contrapartidas do concurso de atribuição de licenças UMTS (comunicações móveis de 3ª. geração).
Perante a insistência do PCP, o Ministro adiantou que a verba envolvida corresponderia a cerca de 400 milhões de euros. Esta informação voltou aliás a ser retomada no "Esclarecimento" conjunto, emitido a 01-07-2009 pelo MOPTC e pelas três empresas de telecomunicações envolvidas nesta operação (TMN, Vodafone e Optimus), onde se pode ler que «os operadores acordaram em comprometer, na execução deste Programa [e-escola], contrapartidas num montante equivalente a cerca de 390 milhões de euros»,
Todavia, a verdade é que nesse mesmo ano, com o Despacho n.2 18188/2007 de 16 de Agosto, emitido pelos Ministros das Finanças, da Economia e das Obras Públicas, o Governo refere a criação do "Fundo para a Sociedade da Informação", na sequência de um protocolo assinado entre o MOPTC, a TMN, a Vodafone e a Optimus, com um capital de 24.939.894,85 euros, «resultado das contribuições financeiras, em partes iguais de cada um dos referidos operadores móveis».
Nesse mesmo Despacho, o Governo declara: «consideram-se cumpridas e, consequentemente, extintas as obrigações da TMN, da Vodafone e da Optimus relativas à contribuição em termos proporcionais para os projectos necessários ao desenvolvimento da sociedade da informação». Note-se: tinham sido pagos menos de 25 milhões de euros.
Entretanto, já o Governo havia constituído, através do Despacho n.Q15475/2007 de 18 de Julho, a entidade gestora do Fundo para a Sociedade da Informação, na directa dependência do Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, nomeando para seu coordenador, com estatuto remuneratório equiparado a director-geral, Mário Franco, antigo Presidente da "Fundação para a Divulgação das Tecnologias de Informação" (na dependência do Instituto Português da Juventude e do Instituto do Emprego e Formação Profissional). Posteriormente seriam nomeados para adjuntos dois quadros superiores do ICP-ANACOM.
Este "Fundo para a Sociedade da Informação" surgia indicado no portal do MOPTC com endereço na Av. Defensores de Chaves, n.Q41, 4.Q Dto., apresentando-se como «um fundo aberto com a natureza de património autónomo, sem personalidade jurídica, constituído pelas contribuições daqueles operadores». Isto, já em 2007.
No entanto, o mesmo Despacho (n.Q15475/2007) atribuía à entidade gestora a «missão» de «praticar todos os actos e operações necessários ou convenientes à boa administração do Fundo para a Sociedade de Informação (FSI),de acordo com as prioridades definidas pelo Governo, bem como preparar o necessário enquadramento jurídico e financeiro à transformação do FSI num fundo susceptível de serfinanciado também por capitais públicos».
O que isto significa é que desde o início, e antes mesmo de existir a Fundação para as Comunicações Móveis, o Governo definiu orientações para uma base de financiamento da operação "e-iniciativas" (projectos "e-escolas", "e-escolinhas" e "e-oportunidades"), com recurso a dinheiros privados mas também públicos. E nunca forneceu a mínima informação ao Parlamento sobre a gestão desses recursos.
Já em 2008, surge a Fundação para as Comunicações Móveis, instituída pela Sonaecom, Vodafone Portuga'l e TMNem 11-09-2008, de acordo com a informação agora divulgada pelo Governo, que afirma aliás que «o Estado Português é responsável pela gestão da Fundação, designando, através do Conselho Geral, a totalidade dos membros do Conselho de Administração, disponibilizando instalações para o seu funcionamento e atribuindo verbas para cumprimento das obrigações de acção social assumidas pelo Estado no Programa e-escola».
Mesmo depois de esta Fundação ter sido constituída, nenhum diploma foi publicado em relação ao Fundo para a Sociedade da Informação, cuja situação, missão e administração permanecem inalteradas, apesar da aparente sobreposição de funções. Até hoje, não se encontra registo no Diário da República de qualquer exoneração relativamente aos cargos nomeados. Entretanto, em entrevista ao Diário de Notícias de 02-07-2009, o coordenador da entidade gestora do Fundo para a Sociedade da Informação Mário Franco apresenta-se desta vez como Presidente da Fundação para as Comunicações Móveis, afirmando ser o «o único executivo remunerado» nessa Fundação.
Nos últimos meses, o Governo já atribuiu a título oficial um montante de 36.529.466,00 euros à Fundação para as Comunicações Móveis, verba que resulta (e que corresponde à maior fatia) dos resultados líquidos do ICP-ANACOMnos últimos dois anos. Essas transferências constam, respectivamente, da Portaria n.2 1415/2008 de 5 de Dezembro e da Portaria n.2 423/2009 de 22 de Abril.Só estes montantes já ultrapassam o montante pago pelas empresas de telecomunicações (25M€) que levou o Governo a declarar «cumpridas e, consequentemente, extintas as obrigações da TMN,da Vodafone e da Optimus» relativamente às licenças UMTS.
Apesar do reconhecimento expresso no citado "esclarecimento" do MOPTC e das três empresas privadas sobre estes programas, de que «compete ao Estado a monitorização e fiscalização da sua aplicação», continuamos até hoje sem nenhuma informação concreta e rigorosa da parte do Governo quanto aos dinheiros públicos - e às contra partidas dos dinheiros privados - envolvidos nesta que é a maior operação de propaganda de que há memória de um Governo neste sector, mas também um negócio cujas proporções apenas são comparáveis à falta de transparência com que se processa.
Está em causa, segundo o Governo a «entrega de um milhão de computadores portáteis». Isto representa muitas centenas de milhões de euros em bens e serviços transaccionados, centenas de milhares (ou mesmo um milhão) de contratos de fidelização de clientes para empresas de telecomunicações, em fornecimento de "Internet de banda larga móvel". E a única verba conhecida em todo este processo, por ter sido publicada em Diário da República, corresponde aos 24.939.894,85 euros, «resultado das contribuições financeiras, em partes iguais de cada um dos referidos operadores móveis»; e aos 36.529.466,00 euros dos resultados líquidos do ICP-ANACOM.
Mais grave ainda, o Governo e as operadoras anunciaram no seu "esclarecimento" conjunto que a Fundação para as Comunicações Móveis procedeu «até ao momento, ao pagamento à SONAECOM de € 11.650.638,62, à TMN de € 25.325.319,31 e à VODAFONE de € 10.825.319,31, de acordo com a informação validada por cada Operador, tendo estes valores sido utilizados na íntegra para cobrir, ainda que muito parcialmente, os custos incorridos pelos Operadores com a execução do programa». Ou seja: uma Fundação instituída por empresas privadas, em que o Estado assume (explicitamente) a responsabilidade pelo financiamento, transfere verbas para as empresas que a criaram, para compensar o custo de iniciativas que estas se comprometeram a garantir!
Perante estes factos, estamos claramente perante uma situação de promiscuidade envolvendo dinheiros públicos, interesses privados e propaganda governamental, que assume proporções verdadeiramente inaceitáveis e que exige que de uma vez por todas sejam dadas explicações ao País e desde logo à Assembleia da República.
Assim, ao abrigo do disposto na alínea d) do Artigo 156.2 da Constituição da República Portuguesa e em aplicação da alínea d), do n.2 1 do artigo 4.2 do Regimento da Assembleia da República, pergunto ao Governo, através do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicacões o seguinte:

1. Como explica o Governo que uma operação com a dimensão e as implicações económicas e comerciais do "e-iniciativas" se concretize com esta falta de transparência, sem que quaisquer informações tenham sido prestadas ao Parlamento?
2. Como explica o Governo que tenham sido declaradas como «cumpridas e, consequentemente, extintas as obrigações da TMN, da Vodafone e da Optimus relativas à contribuição em termos proporcionais para os projectos necessários ao desenvolvimento da sociedade da informação», após o pagamento de menos de 25 milhões de euros por estas empresas?
3. Como explica o Governo que, as citadas empresas tenham recebido (no mínimo) uma verba superior a 47,8 milhões de euros da Fundação para a Sociedade da Informação, a título de compensação pelas mesmas acções que às empresas compete desenvolver, como contrapartida do processo das licenças UMTS?
4. Como explica o Governo que, desde Setembro passado, toda esta operação governamental funcione a partir de uma Fundação privada, instituída por três empresas e relativamente à qual o Governo disponibiliza instalações e verbas - sem que nenhuma informação concreta seja sobre isso disponibilizada?
5. Como explica o Governo que se mantenham em paralelo, com as mesmas missões (e aparentemente, com a mesma morada e as mesmas instalações) a Fundação para as Comunicações Móveis e o Fundo para a Sociedade da Informação?
6. Confirma-se ou não que permanece em funções a administração da "entidade gestora do Fundo para a Sociedade da Informação", tendo o seu coordenador um estatuto remuneratório equiparado a director-geral?
7. Em caso afirmativo, esse estatuto é acumulado com o de Presidente da Fundação para a Comunicações Móveis?
8. Como explica o Governo que esta situação se verifique, quando o Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações afirmou por mais que uma vez na Comissão Parlamentar que não estariam envolvidos dinheiros públicos nesta operação?
9. Para além dos mais de 36,S milhões de euros acima referidos, que outras verbas foram atribuídas à Fundação para as Comunicações Móveis por parte do Governo? .
10. Quando vai o Governo finalmente apresentar à Assembleia da República os documentos de demonstração de resultados desta operação, que esclareçam de forma concreta e rigorosa quais as suas fontes de financiamento e em que termos se tem efectuado a sua gestão e execução orçamental?»

_________________________________________________________

São perguntas datadas de 6 de Julho, com entrada carimbada a 7 de Julho, no cumprimento do dever de um dputado, cujo é o de fiscalizar a actuação do governo.

Para mim, a meu critério, isto é um escândalo. Ou melhor, são dois: é um escândalo o que está relatado a anteceder as perguntas do deputado, e é um escândalo que o Governo se permita não responder.

O que está acima não se trata nem de quebrar "segredos de justiça", nem de "escutas" invias, nem de quejandas malfeitorias com intenções conspiratórias. Está acessível a quem quiser informar-se (como foi, hoje, o meu caso), antes de abrir a boca... até porque pode haver moscas pelas vizinhanças.

Já agora, Sophia...

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
o gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
que quem ousa lutar é destruído
por troças e insídias e venenos
e por outras maneiras que sabemos
tão sábias tão subtis e tão peritas
que nem podem sequer ser bem descritas

domingo, dezembro 06, 2009

Excertos de cartas de um certo Carlos, alemão, que viveu entre 1818 e 1883, a um tal Frederico, inglês, e a outros amigos (alguns nem por isso) - 1

O senhor Carlos, de apelido Marques (aqui traduz-se quase tudo...), além de obras capitais, também escreveu muitas cartas. Sobretudo ao seu amigo Frederico. Vamos editar alguns excertos, para descontrair…, e para dar a conhecer melhor o homem e a obra.

15 de Agosto de 1857
Meu Caro Frederico,
Estou muito contente por o mar te estar a fazer bem à saúde. Assim se esperava. Quando o teu estado de saúde te permitir tomar banhos, o efeito será ainda mais rápido. Precisas, por outro lado, de alguns medicamentos internos. Apoiando-me em toda a literatura moderna, francesa, inglesa e alemã, que estou a estudar a propósito da tua doença, conclui… as afirmações seguintes que tu deves submeter a qualquer médico ou químico:
1º - Onde o óleo de fígado de bacalhau actua em três meses, o ferro actua em três semanas; 2º - O óleo de fígado de bacalhau e o ferro não se excluem mas completam-se na cura; 3º - o teu sangue está momentaneamente carente de ferro, esta é a característica fundamental da tua doença. Terás de continuar a tomar ferro… assim como banhos de mar; 4º - para ti, o elemento curativo no óleo de fígado de bacalhau é o iodo, enquanto a propriedade adiposa, o óleo, não tem qualquer importância para ti. O iodo no ferro combina, assim, dois elementos de que tu precisas; ora, o óleo de fígado de bacalhau só te fornece um desses elementos… Eis as minhas teses. Espero que as examines seriamente.
O que eu vejo no assunto de Deli é que os ingleses vão ser obrigados a bater em retirada logo que a estação das chuvas começar a sério… Posso estar a meter o pé na poça, mas com um pouco de dialéctica, safamo-nos sempre. Naturalmente, dei às minhas considerações uma forma que, estando erradas, terei razão apesar disso…
Com todos os meus votos de melhor saúde,
Um abraço,
K.M.

Era uma vez...

Era uma vez um governo com base numa maioria relativa no parlamento que queria governar como se tivesse maioria absoluta.
Era uma vez um partido que, sem maioria absoluta, tendo perdido 24 deputados e meio milhão de votos, se queixa de não o deixarem governar como se tivesse ganho absolutamente as eleições.
Era uma vez um governo que, por ter apoio apenas de uma maioria relativa, precisava de se apoiar - ou à sua direita ou à sua esquerda - para fazer passar as decisões que necessitam de maioria parlamentar, e que acha que não tem de o fazer, com a postura de um ganhador absoluto das eleições que perdeu ou que não ganhou.
Era uma vez uma tese da ingovernabilidade que vem da campanha eleitoral e assentou arraiais nestes primeiros meses de desgovernação.
Era uma vez um campanha (ou mais que uma) de vitimização de "nós" e de (co-)responsabilização dos "outros".
Era uma vez um FMI como sempre foi (desde as "cartas de intenções" do final dos anos 70 que colocaram Portugal neste caminho), e uma UE como vai sendo.
Era uma vez uns tempos difíceis - de abandono do nosso mar e da nossa terra, de rastro de grandes fábricas vazias e de muitos postos de trabalho perdidos, de pequenas empresas desaparecendo, de uma situação social em degradação, de desemprego galopante - ... mas só para muitos, que para alguns não.
Era uma vez um tempo de décadas no tempo de séculos.
Era uma vez um País que já não é, e que ainda não é e parece cada vez mas longe, mas que há-de ser.

sábado, dezembro 05, 2009

Já agora, Ramos Rosa

O SOL DA CASA

Sou o que veio por um momento
de sol.

Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.

Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.

Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.

Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.

Realidades e delírios

Enquanto a realidade nos mostra o desemprego sem travões, desgovernado pelas políticas, e temos o partido do governo a travar o alargamento ao subsídio de desemprego (que apenas cobre 50,3% do desemprego efectivo - ver trabalho de Eugénio Rosa no avante! de 5ª feira),apanhamos com delírios sectários (ou sectarismos delirantes), como este aqui das vizinhanças! Quem tiver pachorra que leia...

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Um escândalo!

Notícia em Sapo Portugal:


UE
Chefes de diplomacia dos 27 reúnem-se pela primeira vez sob presidência de Ashton.
Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia vão reunir-se
na próxima semana em Bruxelas,
no primeiro encontro presidido pela nova chefe de diplomacia europeia,
Catherine Ashton, que entrou em funções a 1 de Dezembro

.

Este novo cargo de Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, criado pelo Tratado de Lisboa, foi preenchido por esta senhora (baronesa inglesa) por escolha num jantar mais ou menos íntimo, depois de negociações, que não teriam sido muito difíceis, entre os próceres da dita União Europeia.

A dit(os)a senhora entrou em funções antes mesmo de entrar em funções o tratado que lhe criou o cargo, e passou a ser vice-presidente da Comissão. Mas isto nem terá grande importância, tirando o anacronismo.

A partir deste tão "democrático" procedimento, a baronesa inglesa assim escolhida, sem a mínima participação dos cidadãos, por mais indirecta que se procure, vai presidir - diz a notícia que ninguém desmentirá - ao próximo Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros, o Conselho de Ministros institucionalmente mais importante de todo o "processo de integração europeia", logo depois do que foram as cimeiras e, agora, o Conselho Europeu.

Isto é, um membro da Comissão - e assim escolhido, insisto - vai presidir a um Conselho de Ministros.

É a subversão institucional. Do que se dizia ser o equilíbrio institucional comunitário entre Conselho, Parlamento e Comissão!

Isto digo que... eu que de questões institucionaias sei muito pouco, mas o suficiente para poder afirmar que é escandaloso. Democraticamente indecente, é um descarado desprezo pelas instituições (e soberanias) dos Estados-membros.

Leitura (que devia ser) obrigatória - A caça às bruxas - 2

Fernando Samuel continuou por mais 4 episódios a sua série-saga sobre "a caça âs bruxas", em ocravodeabril.
Recomendamos, vivamente, a sua leitura. Que obrigatória devia ser...
Ver:

Excelente trabalho!

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Misturando tudo... para sobreviver

Ora aí está.
Diz o PS, directa ou indirectamente, por inteiras ou meias palavras dos seus dirigentes, em verdadeiro desbragamento de linguagem por alguns dos seus mais acesos e sectários filiados e simpatizantes:
.

«A culpa é “deles”! Sobretudo se “eles”, todos “eles”, sendo entre si tão diferentes, se “uniram” para estar contra nós.
«Estão contra nós, que governámos sempre bem, que prometemos tudo para chegar à maioria absoluta, que durante quatro anos
(não) cumprimos o que prometemos, que (não) previmos o que era mais que previsível e prevenido foi,
estão contra nós que, acontecido o que aconteceu,
(não) conseguimos encontrar remédios para os males, que (não) adoptámos as políticas certas na saúde, na educação, na justiça, que (não) tivemos o apoio (ou sequer a passiva aceitação) dos profissionais e utentes das respectivas áreas,
nós que, nas eleições,
(não) as ganhámos, em 4 anos vimos desaparecer-nos mais de meio milhão de votos, deixámos de ter 24 deputados (menos 20%), baixámos 8,5 pontos percentuais (menos 19%).
Há uma conspiração contra nós!»
.
Ou será que a (teoria da) "conspiração” está a ser montada por quem, engalanado com pompas e circunstâncias, indiferente aos reais problemas que a sua política provocou nas gentes – a evolução económica, a situação social, o desemprego –, quer provocar eleições, das quais, como "vítimas da infame conspiração” que não os deixa fazer mais e melhor, saia em condições de continuar o que tem feito e que tais resultados tem dado?
Depois de ter tido o azar de ouver ontem (felizmente só em zapping de passagem) um senhorito arrogante, malcriado, passador de certificados de democraticidade, chamado Emídio Rangel e de ler, hoje, umas coisas por aí, só me apetece… Cesário Verde.
Da quadra de começo de O sentimento de um ocidental, e dois grupos de dois versos:
.

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
(...)

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
(...)

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!

Que grande poeta eras, Cesário Verde!

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Balanços...

Entrou-se no último mês de 2009. Altura de balanços num ano propenso a balanços de vário tipo.
E se se confronta o balanço assustador das estatísticas do desemprego, recue-se um pouco para o ainda não acabado das eleições. Que foram três ao longo do ano.
Cá por mim, quase ludicamente – como se fosse possível… –, enchi várias folhas de cálculo, arrumando e trabalhando os números em ocupação mais útil que a de fazer sudokus. Que valem o que valerem, mas que não quero guardar (todas!) para mim. Há coisas em que não sou nada cioso…
Das muitas contas que fiz, arrumadas em quadros, sobre “europeias”, “legislativas” e “autárquicas”, aos níveis, nacionais, distritais (Santarém) e concelhio (Ourém), acompanhadas de notas, relativamente à CDU, retiro um quadro da abordagem nacional, daqueles em que junto as três eleições a partir de critérios evidentemente discutíveis, e quatro ou cinco notas, não de cariz eleitoralista (!) mas de avaliação de como se teria conseguido levar a luta (que tanta foi… e boa) ao voto.
1. Numa situação muito difícil, contra um enorme trabalho (e meios!) de “informação” para canalizar descontentamento, e até desespero, para fora da área de voto na CDU, conseguiu-se, apesar de uma quebra de 0,03 pontos percentuais representando descida de 0,26% na percentagem de eleitorado, um acréscimo de 3,2% do que chamo “massa eleitoral”.
2. Este acréscimo foi particularmente significativo em 9 distritos (e R.A.), com acréscimos acima de 10% (com o máximo de 29%), foi ainda positivo em 6 distritos (entre 3,5% e 10%), e houve decréscimo em 5 distritos, inferior a 2% em 4 deles e apenas num acima de 3% (em Lisboa, muito marcado pelas eleições autárquicas, que se mediram em resultados de Assembleias Municipais).
3. Releva-se a importância de um facto que, não sendo novo, teve expressão muito mais significativa. Cujo foi o das listas "independentes", com papel importante no referido esforço e uso de (todos) os meios para canalizar descontentamento com as políticas e desespero com as situações sociais.
4. Concluiria, por minha(s) conta(s) e risco, que foi um ano de estabilização e forte consolidação de “massa eleitoral” da CDU com evidente tendência para subida, face a uma grande flutuação dos votos nos outros partidos e grupos políticos.
. Como breves notas, fico por aqui, e sublinho que não falei em vitórias ou derrotas, redutora e única avaliação de que alguns são capazes.
Como dizia o Ary, isto vai!

De vez em quando, frases para de vez em quando

Histórias do Senhor Keuner, Brecht claro:

Perguntas Convincentes
«Já reparei», disse o senhor K., «que afastamos muitas pessoas da nossa doutrina por termos uma resposta para tudo. No interesses da propaganda, não poderíamos fazer uma lista de perguntas que ainda nos pareçam sem resposta?»

terça-feira, dezembro 01, 2009

Que cheiro a cozinha!

O "post" abaixo estava â espera das 22 horas.
Saiu enquanto ou/viamos o noticiário da RTP2.
Ao ou/vermos a descrição do modo como foram escolhidos o tal belga e tal inglesa baronesa para os novos cargos, antes mesmo da entrada em vigor do tratado que os cria, tomámos uma decisão: temos de comprar um exaustor! Do nosso televisor sai um cheiro a cozinhados que não se suporta.

E agora que "habemus" tratado?

Excerto de um artigo que me foi pedido pela revista Seara Nova, e hoje enviei:
.
«(...)
E agora?
Sim, agora que habemus tratado, há que encarar a nova situação criada. Porque algo mudou com a existência do Tratado de Lisboa. Não se trata da «constituição europeia» e de que, decerto, haverá quem não desista, mas também não é apenas mais um tratado na senda do de Roma. Foi o passo possível, conseguido árdua e ardilosamente por uns, consentido por outros, ou por não terem força para mais impedir ou por serem sujeitos passivos, ou tornados passivos, através de manhas e artimanhas.
Para já, apesar das pompas e circunstâncias, adrede proporcionadas por uma Cimeira Ibero-Americana (escrevo a 30 de Novembro de 2009), parece-me notória a precaução no aproveitamento de tal passo para alargar a passada. Haverá discursos coloridos e cerimónias com algum espavento. Que se esticarão para convencimento mediático. Mas sem sumo, sem consistência. Na expectativa.
O que realmente seria a consolidação do alcançado e, talvez, o correr o risco de mais avançar, não me parece ter sido feito. Porque… se está em crise e sem saber bem como sair dela, embora tal se apregoe aos quatro ventos? Talvez.
O mundo unipolar tem destas coisas que só a dialéctica ajudará a perceber, ou a aproximar do entendimento. Quando se poderia esperar que a escolha do Presidente do Conselho Europeu e do Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, novos cargos criados pelo Tratado e símbolos ou marcos federalistas, viesse a ser mais importante que os folclores e as festividades, ou para estes contribuíssem, essa escolha ocorreu como é dado parirem as cadelas apressadas e, ao querer-se pouco relevante, esconde as enormes dificuldades e clivagens no seio da aparente unipolaridade.
Falou-se de nomes sonantes, antevia-se uma disputa acesa e, de repente, tudo apareceu resolvido, á mesa de um jantar quase-íntimo, em que se escolheram as figuras de uns apagados político belga e baronesa inglesa (do leque centrista, ela mais à esquerdinha, ele mais à direitinha). Tudo equilibrado, sem fazer ondas. E que tiveram os cidadãos a ver com isto? Nada!
(...)»

1º de Dezembro de 1640 (em 2009)

A propósito da data de hoje, desta efeméride antes tão saudada - e lembrando que D. Quixote foi escrito e editado no período em que os Filipes eram reis de Portugal... -, fui (re)buscar dois trechos do livro de Aquilino Ribeiro de minha especial predilecção - No cavalo de pau com Sancho Pança - de que, enquato o relia, fiz 66 "posts" há uns 2 anos (no som-da-tinta.blogspot.com).

«1. Nós, que somos hispanos, no bom significado do termo latino e medieval, mas não espanhóis, como pretende Madariaga, quebrámos os vínculos políticos com Espanha em 1640, e não há que rever, nem por sombras, o gesto decidido dos nossoa avós.
Para o castelhano das três dimensões, homem de touros e zarzuela, nunca se desvaneceu o sonho da união ibérica. Livrem-nos os fados de tal conjuntura! Alianças ou conúbios destes seriam como os da panela de ferro e da panela de barro, lavadas na corrente de um rio. Nós, dum momento para o outro, poderíamos ficar escaqueirados. Olho no monstro: ainda quando nos aparece como filósofo salvador é sempre Caliban. Sem dúvida que aparentou sempre discursador da beatitude terrena em Deus do Céu.
Com Espanha – dizia Mazarin – são de desejar todas as boas relações de vizinhança. Mas fique-se na cortesia. Se ides mais longe, às duas por três, sem vos consultar, nem dar cavaco, o vosso aliado manda queimar as naus. Não que o faça sempre por trancafio, mas por orgulho, indómito orgulho, e que mais não seja para exercício da vontade, ou pôr à prova o estado da senhoria que lhe é visceral.» ( pág. 327)
(…)

«2. Cá e lá repetem-se horas por horas, cuidados por cuidados, ânsias por ânsias, como a água que corre nos dois territórios. Quando o Engenhoso Fidalgo se joga contra os rebanhos de carneiros que na sua fantasia alucinada toma pela hoste do soberbo Alifanfarrão, Sancho arranca do fundo do peito: Mal haya yo! O Zé Povinho usa de igual expressão nos desesperos e arrelias: - Malo haja!
Em que divergem? Pois, e profundamente, no psíquico. Parecendo-se de modo flagrante, todavia não são os mesmos. Isso que é imponderável, imensurado, inapreensível ao espéculo, germinou, cresceu, dispartiu-se de todo e formou tipos diferentes. Como? Vá lá saber-se como elaboram os cadinhos subterrâneos em matéria de antropologia! A pequena molécula bioquímica cá e lá, bafejada por ventos morais, desenvolveu-se noutra direcção. O português em suma não é o espanhol.
Portugal estaria para Cervantes no conceito de província que andara escapa à soberania do seu rei e voltava ao redil.» (pág. 331)

Três tristes títulos

Pelo menos ficam três tristes títulos (e mais luta), entre muita outra actualização no fim-de-semana:
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PS afasta PCP do Tribunal Constitucional - Pela primeira vz, o PS quebra tradição. Ignora comunistas na designação da nova juíza do TC. - Expresso, P9, de 28.11.2009
Fuga de capitais atinge recorde este ano - Dinheiro português em paraísos fiscais cresceu €2,8 mil milhões - Expresso, E1, de 28.11.2009
Espanha quer Península Ibérica a uma só voz na UE - Expressso, P1, de 28.09.2009

Da noite para o dia

Naquela hora, ou naqueles minutos que terminam um dia, fechado o computador, desligados uns interruptores (de fora e cá de dentro de mim), antes de me ir deitar, espreitei para a televisão para "ouver" um programa que vira anunciado. Apercebi-me que falavam... de fezes. Não em sentido figurado mas escatológico, como se fossem crianças. E pareciam, e riam muito...
Fui mais depressa para a cama. Antes da leitura do livro que estou a saborear - e que oferecido me foi, num gesto muito amigo - abri um Brecht que anda sempre por perto, Histórias do senhor Keuner. Assim como quem toma um laxante, um clister...

Saltou-me esta história do sr. K.:

Uma boa resposta


No tribunal, perguntaram a um operário se queria prestar juramento sob a forma laica ou religiosa. E ele respondeu: «Estou desempregado».

«Não se trata apenas de uma distracção.», disse o senhor K. «Com esta resposta dava a entender que se encontrava numa situação em que semelhantes perguntas, e talvez todo o procedimento judicial propriamente dito, tinham deixado de ter sentido.»