sexta-feira, setembro 16, 2011

Uma memória viva para ajudar a fazer o caminho do futuro

Varela Gomes, capitão na reserva, com 87 anos, continua (escreveu Manuela Cruzeiro, há 2 anos) "o seu combate solitário, quase quixotesco, através de textos livres, indignados, provocatórios, que teimam em furar o cordão sanitário do politicamente correcto, da aceitação passiva de que não há alternativa". Textos que se vêm juntar a outros e que, com a luta não solitária, não quixotesca (numa redutora leitura de D. Quixote) servem as batalhas de hoje para o caminho do futuro (*). Esta "opinião" no último Alentejo Popular é um desses textos, é um documento sobre um documento que não pode ser esquecido, e aqui lido e recordado como, hoje, é preciso que o seja.

domingo, 11 de Setembro de 2011

Surpreendidos? Então vamos a factos. Em Dezembro de 1975 esteve em Portugal, por iniciativa e com o apoio da OCDE (Europa) uma missão do Departamento de Economia do MIT (USA) constituída por três eminentes professores desse Instituto – Rudiger Dornbuch, Richard S. Eckaus, Lance Taylor. Vinham avaliar o estado da economia e das finanças do país português, por suposto caóticas, após a «terrível ditadura comunista» dos 19 meses anteriores, com nacionalizações, fuga da capitais e capitalistas de calças na mão, etc..
Essa missão produziu um relatório (que estou compulsando) – «Analysis and Projections of Macroeconomic Conditions in Portugal», datado de Lisboa 1976. Inclui um prefácio (em inglês) do economista português J. Silva Lopes. Abre com uma Introdução (na verdade, mais é uma Conclusão).
Citando: «Parece ser opinião virtualmente unânime em Portugal, ter havido um catastrófico declínio da actividade económica na última metade de 1974 e durante 1975. Avaliações incluíam frases como “à beira do caos”, “a um passo do desastre”. Perante um cenário tão negro (gloom), pode ser considerado injustificado optimismo sustentar que no começo de 1976 a economia portuguesa está surpreendentemente saudável (sound)»
Mais adiante, adiantam: «(...) Os resultados (the record) do último ano e meio em Portugal não se revelam muito diferentes dos do resto da Europa (...) o consumo pessoal aumentou, bem como a participação do (factor) trabalho no rendimento nacional». Rematando a Introdução: «Para um país que recentemente experimentou uma completa reforma social, uma alteração total no seu comércio externo e seis governos revolucionários nos últimos 19 meses, Portugal inesperadamente (unexpectdly) goza de boa saúde económica». Seguem-se cerca de 50 páginas de quadros, diagramas, análises sectoriais, etc., etc.

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Por motivações contrafactuais, cuja origem reaccionária/contra-revolucionária não oferece dúvidas, o Relatório da Troika de 1975 foi, e permanece, enterrado e esquecido. Apesar do prefaciador, antigo ministro das Finanças de governos revolucionários (V. Gonçalves) ter feito posterior e frutuosa carreira como gestor público, ser figura mediática com frequente presença, ainda activo neste corrente ano. Mas não creio que alguma vez tenha recordado a sua experiência «nacionalizadora» para repor um mínimo de verdade e decência no mar de falsidades e trafulhices onde navega a burguesia renegada e arrivista.
Acresce que a actual tutela internacional do País por uma troika neo-liberal torna particularmente oportuno recordar a experiência bem-sucedida (cf. Relatório) de um modelo económico alternativo, diametralmente oposto àquele que está arruinando o presente, hipotecando o futuro, destruindo o pouco que resta da herança de Abril.
O morto/desaparecido Relatório da Troika de 1975 merecia ser ressuscitado, servir de argumento e alento na luta contra o modelo que nos está sendo imposto pelo império capitalista. Deveria, além disso, ser objecto de estudo e reflexão em escolas e cenáculos mediáticos onde a tese fatalista da «inevitabilidade da submissão» assentou arrais. Mas isto é só um desabafo; uma aspiração etérea. Com os pés na terra, penso que a honestidade intelectual está condenada a nova clandestinidade.

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(*) - esse caminhos em que, há 50 anos, em Dezembro de 1961, nas "eleições" para a Assembleia Nacional, encontrei/ámos (e tanto me/nos ajudou com a sua frontalidade,  a sua coragem) este militar "de Abril", década e meia avançado e um seu construtor.

1 comentário:

samuel disse...

Bela pedaço de leitura... e de História!

Abraço.