Para hoje - e porque amanhã é domingo - vou "cucar" dois para acabar esta 2ª série. E que dois!Um, lá do Sul, do nosso Alentejo, e o outro ainda mais do Sul, de Angola. E vou buscá-los (e às palavras que lhes juntei) às memórias que minhas são.
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À maneira de
António Jacinto (para começar…)
e de Manuel da Fonseca (para acabar…)
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Os grandes desafios
Naquele tempo,
a malta vinha do liceu,
punha os livros no chão,
a fazerem de balizas,
os que usavam calças compridas arregaçavam-nas,
os que usavam ainda calções não precisavam…
e no pátio das traseiras da mercearia do pai do Alfeu
(ó Alfeu abre o cu que lá vou eu!
como a malta toda ria… )
a malta fazía grandes desafios!
Naquele tempo,
os que vinhamos a férias (e grandes eram as férias…)
juntávamo-nos no largo da igreja
com os que cá viviam
e pequenas ou nenhumas férias tinham
(ah!, os óculos escuros do Orlando...),
e íamos jogar bilhar p’ró Central
ou escapávamo-nos para a largueza em frente dos Correios
(ih!, tão larga nos parecia ir ser a avenida e tão estreita é...),
ou para a Feira do Mês,
em frente da cadeia e do César-pele-e-osso dos pássaros,
e que grandes desafios fazíamos
(alguns de nós de pé descalço)
Naquele tempo,
já mais crescidotes mas ainda miúdos,
atreviamo-nos a entrar na divisão das equipas,
escolhidas pé-pisa-pé e os últimos iam para as balizas,
ali à Praça da Sardinha,
e a bola corria de uns para outros,
entre os mais graúdos,
e os pequenotes nem a cheiravam.
Um dia, pois… um dia,
estava eu estrategicamente à defesa - para me defender... -
e vem de lá o Prostes pum, catapum,
trazia tudo a eito,
e eu, atento, à espera dele, a modos de ferrolho,
quase mesmo na baliza,
que eram dois pedregulhos no chão,
e o Prostes por ali acima que p’ra baixo mija a burra,
e viu o puto, em frente dele, cheio de coragem e de medo,
e amandou cá um chuto…
eu levantei a perna com o pé ao fundo,
e foi logo ali, no pé ao fundo da perna,
que a bola acertou em cheio,
rodopiei, uma… talvez duas vezes, antes de me espalhar,
ao comprido - teria aí metro e meio! -... mas não foi golo!,
e o puto que eu era foi muito cumprimentado.
Até pelo Prostes…
Naquele tempo,
naquele tempo havia um campo em S. Sebastião,
num terreno do Silva, pai do Manel Alho,
para o filho jogar à bola com os amigos,
e eram o Xico Marques, o Zéquita, o Jacinto,
o Roque, o Zé Fonseca,
e o Manel, claro, que jogava à baliza...
e porque era o dono do campo.
Ah, que jogatanas que eu vi e queria imitar,
com os meus pezinhos citadinos a fintar toda a malta
no terreiro em frente do Xico Santo Amaro (pai)
com bola de meia ou bexiga de porco.
Depois, depois o Alho foi p’ró Brasil, outros para Angola,
e o sr. Silva mandou lavrar o campo
qu’inda dava uns alqueires.
Mas o que estavam na calha não se calaram:
carta p’ró Brasil (p’ra Londrina), carta do Brasil p’ra cá
- p’ró sr. Silva e a modos que ralhando… -
e voltámos a ter campo em S. Sebastião.
Como eu me lembro de ter ido buscar as balizas
à serração do Vieira em Pinhel!,
e de andar a tirar as pedras maiores
que tinham resistido ao tractor da Senhora Câmara.
antes da re-inauguração contra o Seiça.
Que grande desafio,
ó Amílcar, ó Manel Dias, ó Barreira, ó Félix!
Que grande desafio! (ganhámos, sim senhor…)
Depois, depois foram anos e anos,
naquele tempo
de passar os domingos aos chutos,
em sessões contínuas.
Saltava uma bola, trazida de Lisboa,
e era ver a malta que descia a encosta da Atouguia,
(e se era bonito de ver!,
com os olhos com que hoje vejo o ontem)
Foi também o tempo do Xico Santo Amaro filho,
e de jogar com filhos (e netos!)
dos primeiros com quem joguei.
Grandes desafios!
Naquele tempo,
ainda naquele tempo,
trouxe gente e equipas a cá jogar,
a S. Sebastião e ao Lagarinho, lá em baixo,
antes da Caridade que inaugurámos
com jogadores de grande nomeada,
o senhor Vasques, o senhor Rogério
e mais outros que tais. Internacionais!
E agora?
Agora é a estrada da Alvega onde era o campo de S. Sebastião,
na Caridade jogam os outros e nós só raro os vemos,
agora, temos idade, saudades e algumas (muitas) mazelas.
Meus companheiros de bola de trapo e pé descalço
como o tempo passou!
Cabeças brancas ou sem cabelos, barrigas redondas;
escrevendo no Deve e Haver da vida,
somando somando,
somando anos e anos
Na vila quieta,
sem vida
sem nada
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha de Almadanim?! -
Ó meus amigos desgraçados,
se a vida é curta e a morte infinita,
despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Prostes pum-catapum, e os Águias e as balizas às costas,
e o basquete dos Bombeiros e o hóquei do Atlético,
e a Banda que foi a Vigo, e a excursão que veio de Lisboa.
Ah!, meus companheiros de bola de trapo e pé descalço
como o tempo passou...
Cabelos brancos, ou onde é que eles vão,
redondas barrigas, andar arrastado.
no livro dos assentos da vida,
somando somando,
somando anos e anos,
lembrando casos de ontem,
esquecendo coisas de hoje
Na vila quieta,
sem vida
sem nada
- onde estão os dias amarelos verdes azuis encarnados?,
onde está aquela alegria antiga, os berros de golo?,
os gritos de toma lá que já almoçaste/merda que me aleijaste?
Ó meus amigos desgraçados,
se a vida é curta e a morte infinita,
despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era jogar com bola de trapo e pé descalço.
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!