domingo, janeiro 06, 2019

Para este domingo

A competição entre os canais "mal cheirosos!" da televisão, e quem eles convidam, lembrou-me Jean Ferrat:




A LA UNE


É uma emissão formidável
Sobre os problemas da sociedade
Onde heróis e cobardes
Vos vão falar livremente
Sejam eles vítimas, sejam eles culpados
Esta noite! Vejam para começar…

(...)

 Esta noite esta noite
Depois da roda da fortuna
Não posso crer não posso crer
Estão na um

É uma emissão tremenda
Sobre as entranhas da sociedade
Uma fatia de carne em sangue

(...)

Esta noite esta noite
Depois da roda da fortuna
Os assassinos os assassinos
Estão na um

É uma série fantástica
De grandes debates televisionados
De polémicas fabulosas
De faces-a-faces sem piedade
Entre um sanguinário e um submisso
Entre um chulo e uma puta
Um delator e um denunciado
Entre um paraquedista e um guerrilheiro
Entre um violador e violadas
E, em apoteose, entre SS e deportados


(...)

sexta-feira, janeiro 04, 2019

O €uro... há 20 anos e antes

DECLARAÇÃO DE ÂNGELO ALVES, MEMBRO DA COMISSÃO POLÍTICA DO COMITÉ CENTRAL, CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

20 anos depois, libertar o País da submissão ao Euro, afirmar a soberania nacional

O Euro completa 20 anos de existência. As proclamações oficiais da União Europeia repetem de forma mecânica, dogmática e não fundamentada, a ideia de 'sucesso'. Mas um balanço sério e responsável do Euro desmente essa ideia propagandeada e dá razão a todos aqueles que, como o PCP, denunciaram, desde o primeiro momento, a sua natureza e objectivos, e alertaram para as consequências da adesão ao Euro.
Tal como o PCP denunciou há mais de 20 anos, o Euro revelou-se um instrumento contrário aos interesses nacionais, desenhado à medida da realidade económica e interesses do directório de potências, particularmente da Alemanha, e concebido de acordo com as suas ambições de domínio político e económico no quadro da União Europeia e de competição com outros pólos imperialistas no plano económico, comercial, estratégico e militar.
Está à vista de todos que o Euro não significou convergência económica nem coesão social. Pelo contrário, foi uma das principais razões do crescimento de desigualdades sociais e de assimetrias de desenvolvimento na União Europeia. Tal realidade contradiz as teses que insistem na estabilidade e durabilidade da União Económica e Monetária e demonstra como são falsas as justificações para novos saltos no seu aprofundamento.
O Euro não foi nem o 'escudo' nem a mirífica 'solução' para as crises económicas do capitalismo. Pelo contrário. A expropriação de instrumentos económicos e monetários soberanos a Estados como Portugal expuseram-nos a autênticos processos de extorsão – como o que se verificou com o Pacto de Agressão imposto a Portugal pelas troikas – e desprotegeram-nos face a um possível novo pico de crise em virtude do seu endividamento, da degradação dos seus tecidos produtivos e das persistentes dinâmicas especulativas.
Medidas como as baixas taxas de juro ou a liquidez injectada pelo BCE não se traduziram, no essencial, em mais investimento e crescimento económico. As dívidas públicas mantêm-se em níveis insustentáveis, criando enormes obstáculos ao financiamento de Estados e ao investimento público, como é bem patente em Portugal. Os estímulos orçamentais são dificultados ou mesmo impossibilitados pelos férreos constrangimentos e regras do Euro e da União Económica e Monetária.
O Euro não trouxe soluções, antes causou problemas ou aprofundou os já existentes, sendo utilizado, em contexto de crise ou fora dele, para levar sempre mais longe a concentração do poder económico e político, e o aprofundamento da integração capitalista na União Europeia. Foi e é no quadro do Euro, e em nome do cumprimento dos seus critérios, que se acelerou e aprofundou a privatização e concentração de empresas e sectores estratégicos, que se atacaram direitos sociais e laborais, e que se golpeiam duramente os serviços públicos e as funções sociais do Estado.
Passados 20 anos podemos afirmar, de forma sustentada, que o PCP tinha razão quando alertou para as consequências da introdução do Euro em Portugal. A imagem da panela de ferro contra a panela de barro que utilizámos revelou-se completamente acertada.
Foi no contexto do Euro que Portugal assistiu nestas duas décadas, com variações que não alteram a tendência de fundo: a um longo período de estagnação e recessão económicas (crescimento médio anual do PIB inferior a 1%); ao disparar da sua dívida pública com valores que passaram de cerca de 60% do PIB para os actuais 122% do PIB; ao crescimento do desemprego, hoje com cerca de 14% de desempregados em sentido lato, face aos 6,9% verificados antes da adesão; ao agravamento das desigualdades na distribuição do rendimento com o peso dos ordenados e salários no Rendimento Nacional a cair de 39,3% para 35,5%; ao aumento da precariedade laboral; ao definhamento do aparelho produtivo, bem expresso no facto de hoje os sectores primário e secundário representarem menos de um quarto do PIB; e à sangria de capitais para o estrangeiro, por via da saída de lucros e dividendos (na sua maioria para países da União Europeia), que ultrapassam já em 68% as transferências de fundos comunitários para o nosso País.
Com o Euro, Portugal viu agravados todos os seus défices estruturais, do produtivo ao energético, do alimentar ao científico e tecnológico, passando pela nova realidade de uma demografia marcada pelo envelhecimento e declínio da população nacional. Mas sobretudo, Portugal perdeu instrumentos de soberania orçamental, monetária e cambial. Toda a sua política macroeconómica passou a estar subordinada não aos interesses nacionais, mas às regras do Euro, com consequências visíveis nas funções do Estado, no investimento público, no tecido produtivo, na capacidade das nossas exportações, na política salarial e laboral. O Euro funcionou e funciona como um colete de forças do qual é necessário libertar o País.
Como previmos, Portugal perdeu e perderam os trabalhadores e povo português. O PCP tinha razão quando denunciou, há 20 anos atrás, que a transferência para a esfera supranacional de importantes instrumentos de intervenção do Estado na economia significaria que os salários, o emprego, a despesa pública com a saúde, a educação, a Segurança Social e a carga fiscal se tornariam as variáveis de ajustamento.
A recente evolução no quadro da nova fase da vida política nacional não autoriza teorizações em torno da compatibilidade de uma política de desenvolvimento soberano e progresso social com as regras e imposições do Euro e da União Europeia. Pelo contrário. Por um lado a devolução de rendimentos e direitos - conquistas que devem ser valorizadas - foram alvo da crítica e até de tentativas de bloqueio por parte da União Europeia. Por outro, foram exactamente as regras e imposições do Euro e da União Europeia que foram utilizadas como justificações para não se ir mais longe nesse caminho e para dar resposta a problemas com que o País se continua debater.
Ou seja, uma política que efectivamente rompa com décadas de estagnação económica, de retrocesso social, de asfixia dos serviços públicos e de perda de instrumentos fundamentais para o desenvolvimento do País, confrontar-se-á inevitavelmente com as regras da União Europeia e do Euro.
Passados 20 anos da criação do Euro, a questão que está colocada não é manter Portugal amarrado ao Euro e ao aprofundamento da União Económica e Monetária – que só significará a acentuação dos problemas e dinâmicas de exploração e divergência – mas sim a libertação dos constrangimentos, regras, pactos e tratados que já provaram serem contrários aos interesses nacionais, dos trabalhadores e do povo português.
Portugal precisa de uma política monetária soberana adequada à realidade e às potencialidades económicas do País. Precisa de uma gestão monetária, financeira, cambial e orçamental soberana, ajustada à situação nacional e que fomente a produção, o emprego e o crescimento. Precisa de contar com um verdadeiro banco central nacional que suporte o seu projecto de desenvolvimento, libertando-o da dependência do BCE e dos mercados financeiros, assegure o financiamento do Estado livre da condicionalidade política associada à União Europeia. Precisa de abandonar o Pacto de Estabilidade e Crescimento e todos os seus derivados, o Tratado Orçamental, a Governação Económica, o Semestre Europeu.
O PCP recusa a teoria de que não existe outro caminho para Portugal que não a submissão a uma política e um projecto de domínio contrário aos interesses nacionais. Libertar o País da submissão ao Euro, opção que reclama o envolvimento do Povo português, é um percurso exigente e complexo, mas é o único que permite não perpetuar pelas próximas décadas a estagnação económica, o aprofundamento das divergências face aos restantes países, o empobrecimento da população e o agravamento da exploração de quem trabalha. Para o PCP, a irresponsabilidade não está nos que querem empreender um caminho de recuperação da nossa soberania monetária, mas nos que recusam que o País possa estudar e preparar-se para esse objectivo. Vinte anos depois da entrada na Moeda Única a experiência está feita: o Euro não serve a Portugal. o Euro não serve os povos da Europa.
É possível e viável a libertação da submissão ao Euro, condição indispensável para o desenvolvimento soberano do País, um dos eixos centrais da política patriótica e de esquerda que o PCP propõe ao povo português, elemento de luta e de proposta para um outro projecto de cooperação na Europa entre estados soberanos e iguais em direitos, assente na solidariedade, na convergência social, no relacionamento mutuamente vantajoso e na paz.
_____________________________________

...e o voto no PE, em Maio de 1998,
 e as esclarecedoras declarações de voto!
(não importa o mensageiro, 
lembre-se a mensagem) 

avante!, pela PAZ


páginas de um quase-diário:

(...)

Entre as tarefas militantes, de militante assumido, com cartão e quotas em dia, há uma que considero indispensável, embora muito… dispensada.

&-----&-----&

Há que comprar o avante!, há que o vender avulso ou em vendas-campanhas… mas há que o ler, sozinho ou/e em colectivo!


(...)


Desta vez (como de muitas outras que vão ficando nos tinteiros… e não os da impressora), por culpa do Manelito de Brigada.

 
- Edição Nº2353  -  3-1-2019

Concerto de Ano Novo

No dia 1 de Janeiro de 2019, onde quer que haja uma orquestra disponível, haverá Concerto de Ano Novo. No mundo lá fora e no mais chegado Portugal. Aqueles que não disponham de orquestra ao pé de casa terão sempre a hipótese de, à distância, ter uma ideia da celebração que todos os anos acontece na casa da Filarmónica de Viena, através da transmissão televisiva para todo o mundo.
O primeiro Concerto de Ano Novo da História subiu ao palco da Musikvereinssaal em 1939. Um ano antes – lê-se na página electrónica da Filarmónica de Viena – «os Nacional-Socialistas demitiram todos os artistas judeus da Ópera Estatal de Viena e dissolveram a Associação da Filarmónica de Viena. Só a intervenção de Wilhelm Furtwängler e de outros responsáveis viria a conseguir a anulação da ordem de dissolução e, com duas excepções, salvar da expulsão os “meio-judeus” e “intimamente relacionados”. Cinco membros da orquestra morreram em campos de concentração nazis, outros dois morreram em Viena em resultado directo da tentativa de deportação e perseguição. Nove músicos foram expulsos, partindo para o exílio, onze membros da orquestra, casados com mulheres judias ou estigmatizados como “meio judeus”, permaneceram, sob a constante ameaça de revogação da “autorização especial”. Em 1942, sessenta dos 123 músicos da Orquestra eram membros do partido nazi.»
É, portanto, numa Áustria em desagregação, numa Europa à beira da guerra, que o primeiro Concerto de Ano Novo acontece. Mesmo assim, a Música que ali foi soando, de 1939 a 1945, nunca deixou de ser um assomo de Civilização na escuridão da barbárie, um elemento de Humanidade de que o nazismo se quis apropriar, mas não conseguiu. A música dos Strauss que soou naqueles anos macabros sobreviveria à apropriação nazi, por ser produto da Humanidade, não a sua negação.
Por isso permanece nos nossos dias em cada Concerto de Ano Novo que, na sala vienense e nas do mundo inteiro, é testemunho de inteligência, de partilha e de celebração da vida que desponta simbolicamente neste hemisfério a caminho da Primavera.
À batuta inicial de Clemens Krauss viriam a suceder-se muitas mais: Herbert von Karajan, Claudio Abbado, Carlos Kleiber, Zubin Mehta, Ricardo Muti, Nikolaus Harnoncourt, Seiji Ozawa, Mariss Jansons, Georges Prêtre, Daniel Barenboim, Franz Welser-Möst, Gustavo Dudamel e, neste 2019, Christian Thielemann – gente de muitas origens e credos, como que recusando a memória segregacionista inicial.
Mas as feridas grandes tardam a sarar. Queixam-se os responsáveis da orquestra vienense de que, ainda hoje, as denúncias públicas do passado nazi da Filarmónica insistem em preceder o Concerto de Ano Novo. Injusto lamento. Recordar as vítimas que a Wiener Philharmoniker ajudou a gerar é, certamente, a melhor forma de garantir que o Concerto de Ano Novo nunca deixe de ser um instrumento de Paz.
Manuel Pires da Rocha

&-----&-----&

Não digo, de maneira nenhuma, que cada um de nós deva ler todo o avante!, as 32 páginas, mas sim que o folheie cada semana, e se detenha naquelas que mais lhe digam e onde encontre o que quer ouvir e saber, e de que é contaminado – dia-a-dia, hora-a-hora – pelos olhos e ouvidos.

1º de Janeiro de 2019, Viena - O  Danúbio Azul, Strauss

quarta-feira, janeiro 02, 2019

TEIMOSIA e mais!

Opiniões e critérios

Ontem, ao começar o ano, li o que em baixo se reproduz e quer partilhar!

TERÇA-FEIRA, 1 DE JANEIRO DE 2019


“Eleições, tão livres como na livre Inglaterra.”


No balanço do ano político, hoje, primeiro dia do ano, os Manholas da SIC abriram as goelas ao Bloco em que todo o naipe, do Robles em recuperação, ao patriarca Louçã, sem esquecer a Mortágua e terminando com a sacerdotisa Martins, apresentaram o seu espetáculo. O CDS apareceu com os mediáticos artistas, Cristas de frente e de costas, primeiros planos, em campo aberto, uma festa. O senhor Costa e o Rio, que não diz por onde vai correr, mantiveram-se taco-a-ataco, como o senhor Feliz e o senhor Contente. Aos partidos com assento na Assembleia da República foi dada visibilidade e voz, menos ao Partido Comunista Português, para o PCP, nem a mais leve referência.

Aproxima-se o acto eleitoral, e vão-nos fazer crer que “as eleições vão ser tão livres como na livre Inglaterra.”

O MANHOLAS DA SIC PROMOVE A ALA LIBERAL DE QUE ERA PARTE, É A RAIZ ATIVA DA ASSEMBLEIA FASCISTA, PROPALADA COM ESTE CARTAZ.

segunda-feira, dezembro 31, 2018

Sei lá... mas tem mesmo!



Morreu Miúcha, irmã do Chico, lembremo-la... aqui acompanhada pelo Jobim e Vinicius (?).

2018 está de resto... amanhã será outro ano. E será de muita luta, da visível, da evidente e da outra! Da de sempre. Da contínua. Da de cada um e por um mundo a ter de se transformar!

sábado, dezembro 29, 2018

U.E. e soberania... exemplos não faltam


Este comentário de João Ferreira tem a maior pertinência e oportunidade. A União Europeia foi-se construindo como que colocando cada vez mais apertadas algemas à soberania dos povos e seus estados. Mesmo quando estes dizem não ou que querem ficar opting-out, usam-se todas as artes e manhas para se transformar o não em nada ou para manter in  quem sempre quis poder escolher ficar out.
Há que esclarecer quem pode travar este caminho que não pode senão levar a situações de enorme perigosidade! Obrigado, J.F., por tal (e tanto!) trabalho.
___________________________________________________



 - Edição Nº2352  -  27-12-2018

Comentário
Mais dois exemplos: o euro e o PQI
Dois dos temas discutidos na última sessão plenária do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, são exemplares do carácter distintivo da intervenção do PCP face à das demais forças políticas nacionais ali representadas. Distintivo, pela perspectiva que adopta de defesa dos interesses nacionais e, bem assim, pela apreensão da natureza de classe do processo de integração.
1.     Na discussão sobre o orçamento da UE, os deputados do PCP no PE insistiram numa proposta já anteriormente apresentada: a da criação de um programa de apoio aos países que voluntariamente entendam sair do euro, recuperando a sua soberania monetária, por considerarem que essa permanência se tornou insustentável. Este programa visa enquadrar uma saída negociada do euro, que minimize factores de perturbação durante o processo de transição para a nova moeda, compense financeiramente os prejuízos e impactos decorrentes da permanência no euro e potencie os benefícios decorrente da nova situação monetária.
A proposta, por si só, não determina nem propõe a saída de nenhum país. Apenas permite consagrar essa possibilidade, dando-lhe o devido enquadramento, designadamente no plano orçamental. Pois bem, para além dos proponentes, a proposta não recolheu o apoio de nenhum dos partidos portugueses representados no Parlamento Europeu. Ou seja, PS, PSD, CDS (que votaram contra) e BE (que se absteve), não apenas apontam como caminho a seguir manter o País amarrado ao euro – e à estagnação, dependência e subordinação que daí resultam – como não admitem sequer que se preveja qualquer opção alternativa, nenhum outro caminho.

2.     O Parlamento Europeu aprovou uma proposta de regulamento do Programa-Quadro de Investigação (PQI), o chamado «Horizonte Europa». Este é o grande instrumento de financiamento da ciência e investigação na UE, dotado, segundo esta proposta, de 120 mil milhões de euros, para um período de sete anos. Todavia, a distribuição dos recursos do PQI é extremamente desigual entre países e áreas de investigação.
Durante vários anos, Portugal foi um contribuinte líquido deste Programa. Pagou mais do que recebeu. Ainda hoje, o grosso das verbas do PQI tem como destino as principais potências europeias. Mesmo países como Israel (cuja indústria aeronáutica utiliza verbas do PQI para o desenvolvimento de tecnologias com utilização militar, como aeronaves não tripuladas, utilizadas nos ataques a Gaza), Noruega e Suíça, não sendo membros da UE, captam mais verbas do que Portugal.
Os deputados do PCP no PE propuseram que, em alternativa à actual gestão directa do PQI pela Comissão Europeia e à distribuição de verbas numa base puramente competitiva, fosse adoptado um regime de gestão partilhada, definindo envelopes nacionais que garantissem uma alocação mínima de recursos por país, prevendo uma distribuição equilibrada de recursos entre todos, tendo em vista a diminuição das desigualdades ao nível das capacidades e actividades de I&D. Esta proposta foi rejeitada, para o que contribuíram os votos de PS, PSD e CDS.
Este não é, todavia, o único problema do PQI. Na linha dos seus antecessores, o «Horizonte Europa» está fundamentalmente orientado para o «mercado», para a «competitividade» e para as «prioridades estratégicas da UE», incluindo as «novas prioridades», como a «defesa» e a «segurança». Estas são razões que, desde há muito, justificam críticas de amplos sectores da comunidade científica ao PQI.
No final, os deputados do PCP rejeitaram a proposta de regulamento. PS, PSD, CDS e BE votaram-na favoravelmente.
 João Ferreira 

terça-feira, dezembro 25, 2018

Nesta noite de natal


“AQUELA NOITE DE NATAL”

“porque los que son guerreros
verdaderos
no descansan descansando.”

[Tragicomédia de Amadis]
Gil Vicente

Nos livros de José Casanova, ao rancor não é dado espaço porque a ternura pelos outros é de tal forma intensa que a própria animosidade, mesmo a mais subtil, não encontra lugar na sua escrita.

Os seus livros revelam-nos também que a liberdade nunca nos foi entregue de bom grado pelos seus algozes; só homens e mulheres de ideais firmes e de coerência aferida na luta e estruturada pelo sofrimento onde se arriscava a vida, perdendo-a por vezes, a conseguiram resgatar.

Como eram e como se movimentavam essas mulheres e esses homens que, num total anonimato, “não descansavam descansando”? Quem foram esses “guerreiros verdadeiros” que ajudaram a abrir as janelas da liberdade? Na verdade, a mais elementar justiça impõe-nos conhecê-los e com eles comungar a beleza da sua abnegação, por havermos colhido o saboroso fruto dessa difícil seara luminosa.

Ao ler “Aquela Noite de Natal”, sentimos que todo o nosso porvir repousa e será fruto das nossas profundas convicções e da determinação em concretizá-las; se assim o entendermos, sentiremos a tranquilidade dos que se constroem construindo e empenhar-nos-emos, até às derradeiras consequências, na edificação de uma sociedade onde a justiça e o amor sejam possíveis.

José Casanova, escritor que se afirma numa temática de esperança, desprendimento e total entrega a valores que só vividos são possíveis de revelar tão intensamente, abre-nos horizontes em que a realidade e a ficção se confundem e a emoção nos perturba.

E porque todo o enredo se passa nas poucas horas que antecedem a mística ou mítica refeição, neste seu livro, o simbolismo da consoada vai para além do clã familiar, e do ameno recolhimento que a noite protege: e o amor e a solidariedade saem para a rua, melhor dizendo, para a realidade cinzenta e fria.

A trama tem, assim, como fio condutor o amor que, por vezes, se eleva na sua sublime tecedura ficcional, ao nível dos melhores e mais fortes ideais.

Seguindo os passos e os temores das personagens de José Casanova, somos também enlevados pelos aromas tradicionais das refeições natalícias, onde, com minúcia e desvelo, os pormenores da sua feitura não são deixados ao acaso. Visitamos a Lisboa baça dos anos sessenta e convivemos com personagens características desses tempos. Somos confrontados com gente insegura que sofre pela debilidade que não consegue ultrapassar, e também com aqueles cuja firmeza nos transmite o equilíbrio necessário para cumprir uma escala de valores que nos eleve.

As figuras criadas por Casanova transmitem-nos também uma profunda confiança no ser humano – que tantas vezes nos desilude – e porque jovens são as principais personagens é-lhes dado o lugar que lhes compete, o de continuadores desta epopeia sublime: a da construção de uma sociedade onde se viva com dignidade.

Este é, pois, um livro que se lê com entusiasmo e relê com emoção; ao oferecê-lo cumprimos um gesto de amizade e tecemos um fio de cumplicidade e amor.

Cid Simões
 (crónica lida na Rádio Baía)

Isto não é uma maçã, nem aquilo um cachimbo


sábado, dezembro 22, 2018

A história não se repete mas vai-se imitando

Um caso. Uma situação que importa conhecer e divulgar, e sobre que reflectir. Com a ajuda da informação e do rigor que caracterizam Jorge Cadima. E se este diz que "o mundo é pequeno", acrescento  que o tempo é curto e elástico, e relembro as "guerras" da década de 60 entre os tubarões multinacionais (dos cartões perfurados, do alumínio) e como hoje se metamorfosearam em "guerras" entre transnacionais, sempre com os Estados/governos a serem agentes políticos (e "manu militari") da classe dominante... 
_______________________________________________________________

 - Edição Nº2351  -  20-12-2018

Gangsterismo

A prisão da directora financeira e filha do fundador da cooperativa chinesa Huawei tem grande significado. Meng Wanzhou foi presa no Canadá, a pedido dos EUA, em trânsito de Hong Kong para o México. As acusações levaram dias a ser reveladas (ou inventadas). Dizem respeito a uma alegada violação de sanções dos EUA ao Irão. Para os EUA, as suas leis valem no planeta inteiro. Soberania nacional é algo para ignorar.
Trump confirmou que as reais razões da detenção da alta dirigente da Huawei são outras, ao afirmar estar disponível para intervir pela sua libertação «se eu pensar que é bom para aquilo que será seguramente o maior acordo comercial jamais realizado» (Bloomberg, 12.12.18). É o sequestro de reféns como «estratégia negocial». Mas não se trata só disso. O New York Times escrevia há meses (7.3.18): «enquanto o mundo se prepara para uma nova geração de Internet de telemóveis […] uma empresa chinesa está determinada em ser líder, colocando-se no cerne duma disputa internacional sobre o futuro da tecnologia. Huawei, o gigante fabricante de equipamento de telecomunicações, tem investido muito dinheiro na investigação em redes sem fios, patenteando tecnologias chave de 5G, ou quinta geração. Tem contratado peritos de rivais estrangeiros, empurrando-os para dirigir entidades internacionais que determinam os padrões tecnológicos do equipamento sem fios do futuro».
Para o velho mundo capitalista, a China era para ser apenas uma fonte de mão-de-obra barata. Transformou-se num poderoso concorrente económico, mesmo em tecnologias de ponta. Ainda por cima, sem fazer guerras. É o pânico. A «liberdade económica» não é para que outros ganhem no terreno da livre concorrência. Veio logo ao de cima a verdadeira (velha) face do liberalismo. «Uma transição para uma dominação chinesa do 5G teria substanciais consequências negativas para a segurança nacional dos Estados Unidos», afirma um membro do governo dos EUA (NYT, 7.3.18). As colónias também foram mobilizadas. «Dirigentes das agências de espionagem britânica e canadiana alertaram nos últimos dias para os riscos associados à 5G. […] A Nova Zelândia impediu uma das suas empresas de telecomunicações de comprar equipamento à Huawei; o governo australiano aplicou uma proibição semelhante» (Economist, 7.12.18).
Quem esteja a pensar «lá está o PCP a defender a China» faria bem em informar-se sobre a forma como a General Electric (EUA) tomou conta duma jóia da coroa da indústria francesa, a Alstom, fabricante de turbinas para submarinos e centrais nucleares. Um documentário francês («Ghost War») recentemente retransmitido pela estação RT, conta os pormenores. Em 2013 é preso nos EUA um alto quadro da Alstom, F. Pierucci, acusado de corrupção na Indonésia. Esteve preso cerca de dois anos (RT francês, 31.10.18). Nos meses seguintes outros directores foram presos e a Alstom sujeita a multas milionárias.
Apenas o seu CEO viajava livremente. Estava a negociar em segredo a venda da Alstom à General Electric, que se consumou a partir de 2014, no tempo de Hollande e Obama. Um ministro francês opôs-se. Foi derrotado. Macron terá tido um papel no desenlace (RT francês, 31.10.18). Subiu na vida.

O mundo é pequeno, mas o gangsterismo capitalista é grande. A recordar, quando nos falarem em «aliados da NATO».

Jorge Cadima