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quinta-feira, janeiro 12, 2012

Pingos amargos - 2


(do Fernando Campos
no seu excelente sitiodosdesenhos.
Obrigado!)





Ainda sobre o sr. Soares dos Santos. É que ele queixou-se, como lidimo representante da iniciativa privada, de esta ter sido sempre muito mal olhada em Portugal. Não disse por quem, mas deveria estar a referir-se ao povo português… No entanto, este é que tem todas as razões para se queixar da iniciativa privada. Foi ele que deu o corpo ao manifesto para plantar pinhais e fazer barcos, e para os levar por esses mares abaixo, foi ele que andou a transportar especiarias, ouro e escravos, que a iniciativa privada chamava seus e gastava "à labúrdia", deixando que fossem outros a reproduzir e a acumular riqueza. Do que beneficiaram os seus povos. E pode falar-se, de novo, da Holanda, das suas Companhias das Índias, dos seus tráficos. Pelo decorrer dos séculos... 
A iniciativa privada portuguesa foi sempre exploradora de curto prazo e parasitária, à procura de protecção. E, neste salto de séculos, passemos pelo Conde da Ericeira e pelo Marquês de Pombal (que ficam para outros escritos e para historiadores), lembre-se como, no fascismo, essa iniciativa privada se acolheu aos proteccionismos do condicionamento industrial, aduaneiro, repressão social e política, para criar os grupos económicos que formaram até 1974, e que sabotaram, quanto puderam, o período de conquistas sociais pós-25 de Abril, e promoveram tudo (até terrorismo) para a recuperação que faz com que, hoje, alguns dos seus nomes se mantenham como verdadeiros símbolos e lembranças do fascismo.
Entretanto, a iniciativa privada holandesa (por exemplo) criou o porto de Roterdão e condições para que o seu povo tenha um nível de vida muito mais elevado que o do povo português, para quem Sines só foi cenário estratégico plausível nos escassos meses em que a relação de forças sociais retirou o predomínio quase hegemónico à iniciativa privada portuguesa, cuja também tanto malbaratou, em seu proveito egoísta e de curto prazo, os fundos comunitários que vieram depois, com más intenções e piores utilizações.
Em resumo, e para aqui, o povo português, os trabalhadores é que têm bem que se queixar da iniciativa privada portuguesa, da sua classe empresarial.

Apátrido, pútrido, é o capital.
Patriota, é o povo, são os trabalhadores.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Serviço Nacional de Saúde, Economia Política e Moral

Saúde










Não é possível ter um SNS bom e gratuito para toda a gente, diz Ferreira Leite (SAPO)
Manuela Ferreira Leite defendeu ontem, no programa Contra Corrente, na SIC Notícias, que o Sistema Nacional de Saúde não pode ser gratuíto para toda a gente.
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Santos Silva
Ferreira Leite propôs "o abandono dos velhos à sua sorte"
Rita Paz (DE)
11/01/12 16:55
Santos Silva não poupa críticas a Ferreira Leite por ter proposto que os doentes com mais de 70 anos passem a pagar a hemodiálise.
(...)

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O barulho que esta minha ex-colega (ontem demiti-me - aqui e solenemente - de ser colega de quem andou, como MFL e eu, na escola e universidade que frequentámos) veio levantar!
No entanto, gabo-lhe a coragem (ou foi distracção?), a ausência de impostura tão em uso, e que as suas palavras vieram despoletar em alguns, co-responsáveis pelo ataque desbragado ao Serviço Nacional de Saúde, que até começou por provar que era viável, e de que tinhamos razão para nos orgulhar dele como "conquista de Abril". Não é dele que vêm os nossos problemas de dívida soberana (e de soberania). 

E não se resiste a transcrever mais um trecho de um manuscrito de Marx, de 1844, sobre Economia Política e Moral:

(...) Michel Chevalier censura David Ricardo por não levar em conta a Moral. Mas Ricardo deixa a Economia Política falar sua linguagem própria; não se deve condená-lo se essa língua não é a da Moral. (…) A Economia Política exprime à sua própria maneira, as leis morais.
A ausência de exigências morais (fora da “moral” que lhe é própria), como princípio da Economia Política, é atestada da forma mais chocante na sua teoria da população. Há seres humanos a mais. (...)

Pingos amargos - 1

(do Fernando Campos,
no excelente sitiodosdesenhos
Obrigado!)

Soares dos Santos - o "Jerónimo Martins" - tem andado nas bocas do mundo. E há vozes exaltadas clamando por moral e ética. Ora o que fez o meu vizinho (tem uma quintarola aqui perto do meu quintalito) não é condenável pela sua moral, e esta é a dominante, também para os que lhe atiram pedras ao telhado. Não que eu receie que alguma dessas pedras caia em cima do meu telhado porque este é feito de outra telha*.
A questão não é nova. Já em 1844, em alguns dos seus manuscritos, Marx (com 26 anos) pegou no tema da moral da/na Economia Política.
Se a pergunta é se, ao proceder como ele (o seu grupo) fez, e tantos outros têm feito, se está a agir contra as leis da Economia Política, a resposta é que não, senhor!, embora haja quem acrescente (como Marx dizia, cheio de ironia) que melhor será consultar a “prima” Moral e a “prima” Religião, embora de antemão se saiba que elas dirão que nada têm a ver com a Economia, e se mostrem disponíveis para praticar a caridadezinha. Talvez a “tia-madrinha” Política se devesse meter nisso, mas ela está, como se sabe, muito fragilizada, dependente da poderosa “mana” Finança, espécie de gémea prepoente da Economia, e tem de ser a "raia miúda" a espertar e a pôr tento e senso nisto tudo.
No entanto, há que esclarecer que a dita Economia (aquela) tem uma moral. A sua! Que é a do ganho e acumulação, do trabalho e poupança, da sobriedade e austeridade. Como "valores" ou palavras-força
E Marx escrevia que a “economia política da moral é a riqueza em boa consciência, em virtude, etc., etc., … mas como posso eu ser virtuoso se não existo, como posso ter uma boa consciência se nada sei? (… se se concede ao) trabalhador apenas o que ele precisa para que possa viver e ele só pode desejar viver para ter isso com que possa viver”.
(é um texto excelente e actual!... digo eu).
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* - na minha cabeça, canta o "infernal" Léo Ferré
Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'une autre quartier, d'une autre solitude.

(...)
 
E de mais moral se escreverá em próximo “post”.
Amanhã, por esta hora.