Quando digo que somos todos demasiado
complacentes com o PCP estou a incluir-me nesse “todos” – e por isso
publicamente me penitencio. Também eu tenho dificuldade em resistir à pele
tisnada de Jerónimo de Sousa, aos sulcos campesinos da sua face, aos impecáveis
passos de dança de um profissional dos bailes, ao notável reportório de
pregões, máximas e analogias populares. Álvaro Cunhal metia medo. Carlos
Carvalhas metia dó. Jerónimo de Sousa parece o avô escanhoado da Heidi –
austero por fora, amável por dentro. É assim que eu o imagino. É assim que
quero que ele seja. É assim que nós, ex-jovens que não vivemos o Verão Quente
de 1975, que temos de ir ao Google ver como se escreve Soljenítsin, para quem a
URSS era apenas o país dos louros que o Rambo metralhava, gostamos de olhar
para o PCP. Não como um partido, mas como um pedaço de memorabilia. Uma
agremiação de amigos da classe operária para a qual olhamos com um misto de
indulgência e nostalgia.
É impressionante a força desta armadilha
sedutora. Não sou só eu que me predisponho a ser enganado – é o próprio PCP que
promove essa ambiguidade. Nas entrevistas aos seus líderes, há sempre um véu
entre aquilo que dizem e aquilo que realmente pensam. Quando algum comunista
mete o pé na argola – Bernardino Soares a declarar que a Coreia do Norte talvez
seja uma democracia, por exemplo – há sempre um sururu, mas logo surgem os
paninhos quentes: o PCP já virou oficialmente costas ao estalinismo; a ditadura
do proletariado tem nuances; e por aí fora. As posições internacionais, onde o
PCP-troglodita mais facilmente se manifesta, são deixadas para artigos obscuros
no Avante!. Perante as câmaras de televisão, só ouvimos defender os direitos
dos fracos e dos trabalhadores. E quem está contra os direitos dos fracos e dos
trabalhadores?
E, no entanto, esta complacência tem um
custo, como se viu esta semana. Uma agremiação chamada Conselho Português para
a Paz e Cooperação – mais uma daquelas instituições, como Os Verdes, que finge
ter autonomia do PCP mas que se limita a ser uma mera extensão para efeitos
propagandísticos – resolveu promover uma “acção de solidariedade” para com “o
povo da Venezuela”. Tradução: uma manifestação em defesa de Nicolás Maduro,
contra aqueles que pretendem – e cito – “atacar o processo bolivariano e as
suas realizações” (basicamente, todos os esfomeados do país). A esta bonita
iniciativa juntou-se, imaginem, a Banda do Exército, porque alguém inventou um
“acto protocolar” de comemoração do Dia da Independência da Venezuela junto à
estátua de Simon Bolívar. Repare-se na perversão do empreendimento: à boa
maneira soviética, os meios do Estado são colocados ao serviço da propaganda
comunista e da defesa de um regime abjecto.
Ora, convém que sejamos claros, até
porque das fotos do evento consta o próprio líder parlamentar do PCP, João
Oliveira: isto ultrapassa em muito os textos trogloditas do Avante!. É uma
vergonha para o país. E devia ser uma vergonha para o PS. Não há qualquer
diferença no nível de abjecção entre ver João Oliveira no meio da rua a defender
Maduro ou o líder do PNR a defender o fascismo. Para a próxima vez, talvez José
Pinto-Coelho possa recrutar a Banda do Exército para tocar o hino da Mocidade
Portuguesa. São níveis absolutamente equivalentes de repugnância – e, numa
altura em que a Venezuela “bolivariana” se afunda e o PCP sustenta o Governo em
funções, sublinhar isto é uma obrigação moral.
Este senhor tem esta opinião.
Está no seu direita, perdão... direito.
Embora “aquilo” não seja uma opinião.
“Aquilo” é um chorrilho de ideias
(mal)feitonas e de agressões sem fundamento,
de informações falsificadas e de
ironias insultuosas pretensamente graciosas.
Um jornal (de referência, dizem
eles…) publica as suas opiniões. Está no seu direito.
Eu, militante do PCP há 60 anos,
li-o.
E tenho uma opinião sobre “aquilo”.
Estou no meu direito.
Merecerá tão ruim defunto o
consumo de uma vela?
Se fosse da direcção do Partido,
discutia-o.
Como não sou, quero publicar,
AQUI, a minha opinião. Estou no meu direito.
Este opinioso cavalheiro é execrando,
a sua peça abjecta.
Mas merece publicação!
Porque ilustra
como se pode descer tanto na luta de classes.
