Ser ex- já é bom, porque se foi e porque se deixou de ser, isto é, foi-se duas vezes e está-se em condições de passar a ser uma terceira vez (ou mais). É de ser!, e só não se diz é de homem! porque também há mulheres que são ex-.
(Aliás, lembrei-me agorinha de um companheiro de viagem do paquete Moçambique - viagem de fim de curso a Angola, em 1958 - que me deu um cartão de visita com o nome dele e, por baixo, ex- seguido de várias “qualidades”, até à última de ex-passageiro do paquete Moçambique.)
Fechado o parênteses, melhor que ser ex-, assim sem mais nada, é ser ex-comunista. Isso é que é. Desde logo, é atestado de maturidade… e de “ter escola”, de ter aprendido onde se aprendem coisas que, depois, nunca se desaprendem todas, embora se ponham ao serviço do contrário da finalidade para que foram aprendidas.
Nem todos os ex-comunistas são iguais. Claro que não. Nunca alguém é igual a outrem. Mas é uma enorme qualidade comum de vários.
Há os que são ex-comunistas porque nunca foram comunistas mas viram no fazerem de conta que o eram uma oportunidade. E como não deu, deixaram de ser o que nunca foram.
Há os que são ex-comunistas porque se desiludiram, isto é, não eram comunistas por o serem mas porque tinham ilusões, que é coisa que os comunistas não podem ter.
Há os que são ex-comunistas porque ficaram “órfãos” da União Soviética, ou seja, tinham uma ideia de que ser comunista era estar ao lado, a par de uma certa realidade que seria inevitável vencedora de um confronto e que, naquele tempo histórico, o perdeu. E como tinham uma curta medida para o tempo histórico, ou seja lhes faltava substrato histórico/ideológico… recusaram a orfandade.
Ah!, há tantas maneiras de se chegar a ex-comunista. Não posso referir todas. Nem as muitas que conheço (de ginjeira…). Mas não quero deixar de deixar referência aos que, antes de serem ex- definitivos passaram por ser ainda mais comunistas do que o eram, achando errada a maneira como o eram aqueles que o eram e continuam a ser. Quase todos desistiram depressa e passaram a ex-comunistas; alguns, passaram depressa a ex-comunistas e em acumulação com serem outras coisas, até "subirem" a deputados, secretários de Estado e ministros. E de tão ex-comunistas são mais anti-comunistas que os anti-comunistas. São vidas!
Ah! e há ainda os ex-comunistas que se recusam sê-lo porque seriam, isso sim, os únicos comunistas, os mais que todos, puros, únicos e intransmissíveis, sozinhos ou em grupinho, e que o são sempre ao ataque aos que os são em colectivo, com estatutos, organização e luta contínua.