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sexta-feira, outubro 14, 2022

Os desconcertos sociais

  - Nº 2550 (2022/10/13)


A concertação anti-social

Internacional

A maioria dos sócios do BMWED, sindicato que representa os trabalhadores da manutenção da linha férrea dos EUA, rejeitou o acordo de concertação social proposto pelo patronato e mediado pessoalmente por Biden, pelo seu chefe de gabinete, pelo principal conselheiro económico do país e por três dos seus secretários de Estado. É um sinal claro de que os trabalhadores dos EUA já não aceitam migalhas, mesmo que elas sejam servidas de um prato dourado pelo próprio presidente.

«Os trabalhadores ferroviários sentem-se desencorajados e revoltados com as condições de trabalho e com a compensação que recebem e vêem os patrões com maus olhos»,  comunicado, o presidente da BMWED, Tony Cardwell, após ser conhecida a rejeição do acordo pelos trabalhadores. Estes «condenam a administração por ter as suas vidas em tão baixa conta, como ilustra a sua teimosa relutância em proporcionar-nos dias de descanso pagos, especialmente em caso de doença».
O acordo de concertação social que os trabalhadores chumbaram propunha aumentos salariais de 24 por cento e um bónus de 5 mil dólares, mas previa que cada trabalhador só pudesse faltar por motivos de doença, apoio à família e nojo um dia por ano. Ou seja, para não perderem o salário ou mesmo o posto de trabalho, estes trabalhadores têm de ir trabalhar mesmo quando estão doentes, quando lhes morre um familiar ou quando têm de levar os filhos ao hospital. «Não temos de nos contentar com um acordo anti-social. Eles acham que não precisam do nosso consentimento para nada; então experimentem fazer os comboios andar sem ele», sugeriu.

No horizonte próximo está uma greve que pode paralisar toda a economia dos EUA e a que se podem juntar outros sete sindicatos ferroviários que, nas próximas semanas, votarão também o mesmo acordo. Entretanto, trabalho e capital concordaram em adiar qualquer decisão até à próxima sessão do Congresso que, em meados de Novembro, será chamado a pronunciar-se sobre a melhor forma de evitar a greve. As principais organizações patronais do sector, quiçá fartas de tanta concertação, já vieram pedir ao congresso e ao presidente que proíba uma greve que «destruiria toda a economia».

Não consta, em contrapartida, que o congresso, o presidente ou os seus melhores mediadores laborais tenham sugerido aos patrões a fórmula secreta que poderia desbloquear o contencioso: respeitar quem trabalha.


António Santos

sexta-feira, novembro 19, 2021

Informe-SE - 8.4

As páginas 24 e 25 são dedicadas  Internacional, com notícias de que se destacam os títulos:

ELEITORES VÃO ÀS URNAS NA VENEZUELA E NO CHILE

ANC CONTINUA A SER A PRINCIPAL FORÇA POLÍTICA DA ÁFRICA DO SUL

CUBA NORMALIZA ANO E REACTIVA ACTIVIDADE ECONÓMICA

«PREPOTÊNCIA IMPERIAL» DOS EUA CONTRA A NICARÁGUA

com um artigo de António Santos:   

 - Nº 2503 (2021/11/18)

O óbvio é relativo à classe


O julgamento de Kyle Rittenhouse capturou a atenção da América. Do seu veredicto depende, mais do que a liberdade do jovem fascista de 18 anos, a liberdade de protestar. Nos dois pratos da balança pendem o valor da vida humana e o da propriedade.

Há um ano, Rittenhouse, armado com uma metralhadora AR-15, deslocou-se do seu Estado natal do Illinois até Kenosha, no Wisconsin, com o intuito declarado de proteger as lojas locais dos manifestantes anti-racistas. Acabou por matar duas pessoas e ferir uma terceira.

Outro julgamento acabava de começar: Rusten Sheskey, um polícia da cidade, era acusado de alvejar um homem negro, desarmado, com sete tiros, deixando-o tetraplégico e a lutar pela vida. No mês passado, Sheskey foi absolvido de todas as acusações e está de volta ao serviço. Teme-se agora que o mesmo sistema de justiça absolva também o assassino.

Ao ouvido do fascismo

Na terça-feira, o júri inaugurou as deliberações num contexto favorável à absolvição do fascista. O juiz, Bruce Schroeder, que já deixou cair a acusação de posse de arma ilegal, foi capaz de transformar o julgamento num violento espectáculo televisivo em que a acusação é a principal acusada.

Mas o mais surpreendente é a complexidade jurídica e processual que o capitalismo escolhe dar àquilo que parece por demais evidente. Ninguém, nem o próprio assassino fascista, nega a autoria dos dois homicídios. Ninguém põe em causa que o arguido já tinha ameaçado matar manifestantes anti-racistas. É também consensual que a razão dos homicídios foi a alegada vontade dos vigilantes voluntários de proteger as lojas. O que já não sabe com tanta certeza o mesmo sistema judicial que declarou Sheskey inocente é se Rittenhouse cometeu algum crime.

Se o sistema judicial dos EUA deixar Rittenhouse sair do tribunal em liberdade, estará a segredar uma mensagem sinistra ao ouvido de todos os fascistas dos EUA: podem agarrar em armas e matar manifestantes porque a propriedade privada vale mais do que a vida humana.