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sábado, março 19, 2022

Não há paciência!

 António Guerreiro, no Público de ontem:




sábado, junho 19, 2021

Modismos nada inocentes

Ler, reler e reproduzir

A santa resiliência

18 de Junho de 2021 Público

Antes que o jargão da tripla aliança política, económica e mediática nos submerja com a sua capacidade injuriosa e de cancelamento da crítica, devemos cuidar das palavras, observar a sua vida e perceber o sentido das suas inflexões. Num tempo que nos parece hoje já distante, mas do qual, se nascemos nos últimos quarenta anos, somos ainda contemporâneos, a palavra “progressista” teve uma considerável fortuna e sinalizava o “imaginário” político (“imaginário” é, aliás, outra palavra defunta).

Ser “progressista” era acreditar no progresso. Não no progresso tecnológico ou científico (muito embora esse também fizesse parte do processo), mas num progresso que tinha uma escala muito mais ampla: a do curso inelutável da história em direcção à “justiça” social e à “emancipação” política. “Progressista” era o termo condescendente usado pelos comunistas para nomear quem não se comprometia com lutas revolucionárias, mas também não estava do lado das soluções conservadoras ou até reaccionárias.

Nesse jargão outrora dominante, ser progressista significava olhar em frente, em direcção a um futuro radioso, em oposição aos reaccionários, que olhavam para trás, para um passado geralmente mitificado. Quando o progresso e o mundo por vir em vez de inspirar confiança e mobilizar a acção começaram a gerar o medo, ser progressista perdeu a condição de título a reivindicar.

A herança dos antigos progressistas reside hoje num pensamento que, pelos critérios de antigamente, seria considerado reaccionário (como classificar muitas das lutas identitárias e ecológicas?). Esta inversão de valores constitui um enorme desafio às representações baseadas na topologia que divide o espaço político entre esquerda e direita.

Hoje, que a palavra “revolução” passou por uma zona demoníaca e tornou-se depois uma ruína inerte, um outro “re-” substituto entrou em cena e triunfou. Comecemos por uma aproximação negativa: não é “resistência”. Resistir era a atitude do “antes quebrar que torcer”, era um heroísmo com uma dupla face: ou era épico ou trágico. A atestá-lo, aí estão, por todo o lado, os monumentos e os “lugares de memória” que celebram os “heróis da resistência”, ao serviço do uso que em cada momento se faz da história.

Um discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, pronunciado no dia 9 de Novembro de 2020, pelo cinquentenário da morte do general de Gaulle, indica-nos qual é o novo “re-” que revogou a “resistência”. Nessa ocasião, Macron, com a eloquência francesa que serviu durante séculos como medida da “civilização”, saudou o “espírito de resiliência” do general. E assim passou de Gaulle a herói da “resiliência” francesa. Foi uma operação “revisionista” sem grandes custos: bastou a substituição de uma palavra por outra, muito mais actual. A República ganhou assim o seu terceiro “re-”, caducado que foi o tempo da revolução e fora de moda em que caiu a resistência.

Os novos tempos são pois os da resiliência. Do Atlântico aos Urais e para além, da costa leste à costa oeste e vice-versa. Temos a nova palavra-maná pronunciada a toda a hora pelos políticos democratas (sim, porque nos regimes ditatoriais os opositores não julgaram ainda adequado substituir a resistência pela resiliência, e os ditadores movem-se noutro campo semântico). Basta ouvir os nossos políticos para perceber que a resiliência se tornou uma ideologia: a ideologia do sofrimento e da infelicidade que salvam e purificam. O resistente estava disposto a quebrar; o resiliente é maleável, adapta-se a tudo, não tenta alterar nenhuma ordem, mas, pura e simplesmente, fazer o jogo da ordem presente para daí retirar ganhos.

A táctica da resiliência é o consentimento. Por cada crise, infortúnio ou catástrofe, os arautos da resiliência prometem que “vamos sair daqui ainda mais fortes”. Toda a felicidade é conseguida à custa da infelicidade, e é sempre a destruição que é uma fonte da reconstrução. Aliás, o pressuposto da resiliência, essa terapia inventada nos gabinetes clínicos da aliança económico-política, é que a infelicidade é um mérito e a destruição uma bênção. Uma coisa que tem o nome de “Plano de Recuperação e Resiliência” poderia ser uma prescrição médica seguida numa associação de alcoólicos anónimos. Tudo neste jargão político tresanda de vício e de uma execrável ideologia.

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há que resistir revolucionariamente!

sexta-feira, abril 23, 2021

O poder das narrativas ou narrativas de um poder

 Uma reflexão de que se recomenda, vivamente, a leitura... e a reflexão:


No Ipsilon do Público de hoje


sexta-feira, abril 16, 2021

Teoria da vergonha

 segundo António Guerreiro, (no Público-Ipsilon de hoje):





Vale a pena ler!

terça-feira, dezembro 26, 2017

Actividades "veneráveis" e "reverenciadas", respeitáveis

do Público:
António Guerreiro
Jornalistas e professores

A profissão de professor encontra-se hoje tão deslegitimada e degradada como a profissão de jornalista.
Não há nenhuma classe profissional tão hostilizada nos jornais como os professores. De um modo geral, todas as reivindicações dos professores são consideradas ilegítimas e a classe profissional é vista como detentora de uma força sindical da qual faz um uso abusivo. Diga-se, em boa verdade, que antes de enfrentar a hostilidade do jornalismo, os professores tiveram de enfrentar as hostilidades do modelo de gestão da escola e do ensino, numa guerra da qual saíram vencidos. Foi-se reduzindo progressivamente o tempo de trabalho autónomo, que era uma parte importante do tempo de trabalho de um professor (porque se entendia que o saber – manual ou intelectual, técnico ou teórico, académico ou não — é um direito à autonomia) e aumentando o tempo de trabalho controlado, que é hoje a quase totalidade do trabalho docente. O professor ficou assim submetido ao trabalho das classes proletárias, mas continua a recair sobre ele a imagem de que é um animal de luxo. E aí começa a caça ao professor. Há já algum tempo que começou a prosperar, por todo o lado, uma bibliografia que consiste em testemunhos desencantados de professores e ex-professores.
No princípio do século XX, a miséria espiritual da vida dos estudantes foi um tema filosófico que ganhou algum relevo: no princípio do século XXI é a miséria da vida espiritual dos professores que se tornou relevante.  Dir-se-ia que os professores integraram completamente um hábito muito próprio da escola, essa instituição que passa muito tempo a falar sobre si própria. Se recuarmos, talvez encontremos uma justificação para esta má relação entre jornalistas e  professores, que é mesmo uma inimizade se falarmos da relação entre o jornalismo e a universidade. Neste caso, trata-se de uma velha inimizade com uma história respeitável. Um eminente universitário italiano explicou-a em termos muito parciais, até um pouco arrogantes e demasiado marcados por uma pretensão de auto-legitimação: o discurso do jornalista situa-se na lógica da opinião; o poder dos professores, pelo contrário, legitima-se em termos de saber, isto é, o contrário da opinião. Pode ser que esta explicação tenha sido de algum préstimo, num passado já distante; hoje, dificilmente podemos dizer que o saber legitima qualquer poder dos professores. Há, no entanto, um princípio de competição entre jornalistas e professores que remonta ao Iluminismo, quando nasceu, em paralelo, tanto a universidade moderna como o jornalismo moderno. Ambos, o jornalismo e a universidade, tiveram a seu cargo uma missão crítica e de socialização do pensamento. Eles criavam uma cultura para a sociedade e uma sociedade para a cultura. Segundo a concepção iluminista dos jornais, eles deviam ser órgãos de formação colectiva de uma opinião pública racional. E deviam ser não tanto o instrumento de expressão de uma esfera pública pré-existente (como são hoje entendidos), mas mais o lugar de constituição dessa esfera pública. Ora, se os jornais tivessem hoje de assumir uma tal tarefa, já teriam desaparecido (e será que estão em risco de desaparecer precisamente porque não sabem que tarefa têm para cumprir?). De certo modo, a evolução da universidade e da escola (nalguns aspectos essenciais podemos amalgamar as duas instituições) foi paralela à do jornalismo e hoje todos têm de enfrentar um mundo que ameaça destituir a antiga função que detinham, sem que essa extinta função tenha sido substituída por outra. E a profissão de professor encontra-se hoje tão deslegitimada e degradada como a profissão de jornalista. Uns e outros perderam o privilégio da autonomia e reina sobre eles uma ordem gestionária.



A propósito:

"(...) A burguesia despiu da sua aparência sagrada
 todas as actividades até aqui veneráveis 
e consideradas com pia reverência.
 Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência
 em trabalhadores assalariados pagos por ela.(...)"

(Manifesto do Partido Comunista,
Marx e Engels. 1848)