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sábado, fevereiro 13, 2010

O tempo... de vida!

Final da intervenção introdutória, em Braga, na iniciativa de apresentação do tomo V do Livro segundo de O Capital das edições avante!:
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«(…) mais relevante para a questão da exploração, identitária do modo de produção capitalista, é a do desemprego, desta aparente fatalidade que chega galopante quando os lucros (financeiros) baixam e continuam galopando quando se anunciam retomas económicas e se concentram capitais.
Trata-se de variável estratégica do capitalismo, de stock da mercadoria força de trabalho, de exército laboral de reserva.
Como se lê, na página 534 do tomo V de O Capital, sobre reprodução alargada: “(…) a parte do capital-dinheiro recém-formado transformável em capital variável {ou seja, o que é metamorfoseado em mercadoria força de trabalho}
encontra sempre [previamente] a força de trabalho em que se há-de transformar.”
Esta disponibilidade sobreleva uma questão essencial.
A questão do tempo, do tempo de uso dessa mercadoria – do tempo que é pago, do tempo que não é pago –, e do tempo livre (e onde!) que define a liberdade dos trabalhadores.
Do tempo de vida (e de como o viver!).»
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Numa sala cheia (e com muitos jovens!), seguiu-se um animado debate.

segunda-feira, novembro 30, 2009

O Livro segundo

Engels previa, no seu prefácio – e o José Barata-Moura sublinha em apresentações da tradução que fez –, que “o volume segundo (de O Capital) vai suscitar grande desilusão, por ser tão puramente científico e não conter muito de agitatório”.
Em parte, corroboro porquanto os Tomos IV e V do Livro segundo são menos apelativos à agitação quanto o seriam os três tomos do Livro primeiro. São de grande densidade na análise dos processos de circulação do capital, das suas metamorfoses e reprodução, com exemplificações e ilustrações – sem o recurso ao Excel... – por vezes exaustivas... e que deixam o leitor/estudioso exausto.
Mas só em parte. Porque, por vezes, dá para parar e sorrir, com a fina ironia que Marx usa, pela qualidade da sua escrita.
Por exemplo, num trecho que reproduzo e em que inclui notas que julgo pertinentes (de passagem):
«De passagem. O senhor capitalista, tal como a sua imprensa, está frequentemente descontente com a maneira como a força de trabalho* despende o seu dinheiro, e com as mercadorias II** em que ela realiza o mesmo***. Nesta oportunidade, ele filosofa, tagarela de cultura e filantropiza (...).
«Longas horas de trabalho parecem ser o segredo do comportamento racional e saudável que há-de elevar a situação do operário pelo melhoramento da sua capacidade espiritual e moral e fazer dele um consumidor racional.»
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* - não a força de trabalho mas o seu “proprietário”, o trabalhador que vendeu a força de trabalho.
** - sector de produção dos meios de consumo.
***- que ele, o trabalhador, compra com o dinheiro da venda da sua mercadoria, a força de trabalho.

Tomo V do Livro segundo de O Capital

O lançamento do Tomo V do Livro segundo de O Capital, nas edições avante!, foi um acontecimento. Ou, por outra, parece que foi porque até é justa a dúvida se se terá realizado, dado o escassíssimo impacto mediático.
É claro que quem escreve é suspeito (oh!, se é…). Até porque teve parte activa no evento, mas – que querem? – parece-lhe que não só o lançamento em si desta obra, a primeira em português que vai tão longe na edição completa da obra capital de Karl Marx, como a intervenção do ex-reitor da Universidade Clássica de Lisboa e a presença e a intervenção do secretário-geral do Partido Comunista Português, num Salão Nobre da Reitoria a “deitar por obra”, justificavam outro tratamento. Que, naturalmente, não teve. Confirmando em que sociedade e com que informação vivemos.
Já agora, conto uma anedota. Estando a realizar-se, noutra sala da Reitoria, uma reunião da Ordem dos Técnicos de Contas, uma jornalista para ali destacada, ao saber que havia uma sessão de lançamento de um livro no primeiro andar, teve a curiosidade, que só lhe fica bem!, de ir saber do que se tratava, apesar de ser ... dos comunistas, e dirigiu-se ao Salão Nobre. Talvez estimulada pelo ambiente que sentiu, pelo acontecimento que “aquilo” era evidentemente, perguntou … se podia falar com o autor do livro.

domingo, novembro 08, 2009

O Capital - pausa para respirar... ou respigar

"O capitalista - e ainda mais o seu tradutor teórico, o economista político -, porém, só dificilmente pode desistir da imaginação de que o dinheiro pago ao operário continua a ser dinheiro do capitalista."
(pág. 477, Tomo V, edições avante!, tradução de José Barata Moura)
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E até parece fácil quando se entra no âmago do funcionamento do capitalismo, tal como Marx o dissecou (falar em autópsia foi, é e ainda é muito prematuro).
O capitalista troca capital-dinheiro por capital-mercadoria (força de trabalho), o trabalhador recebe dinheiro, que deixa de ser capital variável ao ser trocado por horas de utilização da força de trabalho, e é essa mercadoria-dinheiro, e não o capital variável que o capitalista já trocou pela mercadoria (força de trabalho), que o trabalhador vai trocar pelas mercadorias que lhe vão satisfazer necessidades.
Assim, o trabalhador passa de vendedor (de força de trabalho) a comprador (de mercadorias que produziu e/ou distribuiu). Comprador, com o seu dinheiro, produto da sua venda. Dinheiro que, desta (e nesta) forma, devolve ao capitalista, proprietário das mercadorias por o ser dos meios de produção e de distribuição. Dinheiro que, depois, o capitalista pode metamorfosear, enquanto capital sob essa forma (D), em capital sob a forma de mercadoria (M), constante se para trocar por meios de produção (M), variável se para trocar por força de trabalho (FT), também mercadoria.

terça-feira, novembro 03, 2009

Corrupção - no dicionário e em leituras paralelas e convergentes a O CAPITAL

Andam os tempos, e os escritos, e os ditos, grávidos de corrupção. Por isso, convém ter da palavra-conceito o significado e a etimologia. Não só a etimologia no seu sentido estrito de origem e formação das palavras, também no seu sentido político de natureza e finalidade do “governo das nações”.
Segundo o dicionário da Texto Editora, Corrupção (do Lat. Corruptione) (é) s.f., acto ou efeito de corromper; podridão; decomposição; putrefacção; (fig.) devassidão; adulteração; suborno; prevaricação.
Nas leituras em que ando, muito por culpa/causa da próxima apresentação do Tomo V do Livro Segundo de O Capital, encontrei, num texto de Conceição Tavares-Beluzzo*, a seguinte passagem «A função “corruptora” do capital a juros**, vislumbrada por Marx em sua imagem do Moloch e concretizada no processo de fazer dinheiro a partir do dinheiro, prescindindo de qualquer mediação do capital produtivo***, é também ressalvada por Hobson**** ».
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Assim, talvez se perceba melhor. A "tormenta" e de quem a responsabilidade...
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* - em Os antecedentes da tormenta. Origens da crise global, Editora UNESP, Brasil, 2009. Este texto, da autoria de Luiz Beluzzo-Maria da Conceição Tavares, foi originalmente publicado em 1980, na Revista "Temas de Ciências Humanas" e agora incluído no livro que me foi referido por Aloísio Barroso, o que muito agradeço.
** - Na edição portuguesa de O Capital, no ainda não publicado Livro Terceiro – o processo total da produção capitalista, a quinta secção, do Tomo VII, terá, em princípio, o título Cisão do lucro em juro e ganho do empresário. O capital que rende juro, pelo que este “capital a juros” corresponde ao capital que rende juro.
*** - D – D’.
**** - Hobson, J.A., The Evolution of Modern Capitalism, Allen and Unwin, Londres, 1965.

sábado, outubro 31, 2009

Necessidades e luxos (em O Capital)

Agora é que é.

Em tempos há muito idos, preocupei-me com esta distinção entre o que são consumos de bens ou produtos necessários e consumos de bens ou produtos "de luxo". A propósito dos medicamentos, e como tarefa profissional de "economista de empresa".

Então, os medicamentos eram "luxo" para determinados estratos populacionais porque havia... elastecidade relativamente aos rendimentos. Ou seja, se os salários perdiam poder de compra, cortava-se nos bens ou produtos "de luxo", porque os que satisfaziam necessidade não se podiam comprimir. E as necessidades eram, e são, o pão, algum peixe (sardinha, pelo menos) alguma carne (pouca), roupa (nada a ver com moda), transportes (para e do trabalho), um tecto (e recheio de casa)! Para isto, os salários têm de chegar.

Agora, a estudar o Tomo V de O Capital, encontro essa divisão explícita, embora noutro tempo, noutro contexto e para outras finalidades. Marx divide os sectores da produção de mercadorias em sector I, de meios de produção, e sector II, de meios de consumo, e, no sector II, entre meios de consumo necessários e meios de consumo de luxo.

Nessa floresta densa de conhecimentos e ensinamentos, que procuro ir sistematizando para não me perder, de vez em quando lá aparecem uns raios de sol, como que a orientarem-me. Este, por exemplo:


"Para a nossa finalidade, podemos reunir todo este subsector na rúbrica: meios de consumo necessários, em que é totalmente indiferente se um produto real. p. ex., como o tabaco é, do ponto de vista fisiológico, um meio de consumo necessário ou não; basta que, em conformidade com o hábito, [ele é] um tal [meio de consumo necessário]." (pág. 421)


As mangas para que dá este pano!

segunda-feira, outubro 26, 2009

O Capital - pérolas

A tarefa de ler O Capital ("abensonhada", como diria o Mia Couto) não é fácil.
É como... como hei-de dizer?, caminhar por uma densa floresta, em que cada árvore está viva e lateja, e nalgumas se tropeça, ficando-se parados a ver como as contornar para seguir caminho.
Mas, além de todas as compensações para melhor entender o mundo - e ganhar forças para nele intervir... bem -, de vez em quanto há como que uma clareira por onde nos chega um raio de sol.

É isto que eu sinto.
E páro. E transcrevo. Página 405, do Tomo V, Livro segundo (edições avante!):

"A mercadoria do operário assalariado - a sua própria força de trabalho - apenas funciona como mercadoria na medida em que é incorporada ao capital do capitalista, [na medida em que] funciona como capital; por outro lado, o capital do capitalista despendido como capital-dinheiro na aquisição de força de trabalho funciona como revenue na mão do vendedor da força de trabalho, do operário assalariado.
Enlaçam-se aqui processos de produção e processos de circulação diversos, que A. Smith não mantém separados."


terça-feira, setembro 01, 2009

Vamos à Festa! (registo - 4)

Entretanto, e a propósito de manutenção:



«O operário paga com a própria pessoa, e isto forma um dos mistérios da automanutenção do capital que, segundo os factos, formam uma reivindicação jurídica do operário sobre a maquinaria e que fazem dele próprio, do ponto de vista burguês do direito, co-proprietário dela.»


- pág. 188 do Livro II, O Processo de Circulação do Capital, de O Capital, Crítica da Economia Política, Karl Marx (editado por Friedrich Engels), edição portuguesa da Editorial "Avante!", Lisboa 2009, tradução de José Barata-Moura, com base na 2ª edição alemã de 1893, a lançar na Festa do Avante, sábado às 18 horas, no Pavilhão Central.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Registo - 3

«Com o desenvolvimento da produção capitalista, a escala da produção é determinada em grau sempre mais estreito pela procura imediata do produto, e em [grau] sempre maior pelo volume do capital de que o capitalista individual dispõe, pelo impulso de valorização do seu capital e [pela] necessidade de continuidade e extensão do seu processo de extensão.»

- pág. 157 do Livro II, O Processo de Circulação do Capital, de O Capital, Crítica da Economia Política, Karl Marx (editado por Friedrich Engels), edição portuguesa da Editorial "Avante!", Lisboa 2009, tradução de José Barata-Moura, com base na 2ª edição alemã de 1893, a lançar na Festa do Avante.

domingo, agosto 23, 2009

Registo - 2

Não resisto ao registo:
«(...) Essa relação repousa, porém, quanto à base, sobre o carácter social da produção, não [sobre] o modo de intercâmbio; este brota, inversamente, de aquele. Corresponde, de resto, ao horizonte burguês, onde o fazer negociozinho ocupa a cabeça toda, não ver no carácter do modo de produção a base do modo de intercâmbio que lhe corresponde, mas inversamente.»
- pág. 128 do Livro II, O Processo de Circulação do Capital, de O Capital, Crítica da Economia Política, Karl Marx (editado por Friedrich Engels), edição portuguesa da Editorial "Avante!", Lisboa 2009, tradução de José Barata-Moura, com base na 2ª edição alemã de 1893, a lançar na Festa do Avante.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Registo - 1

«(...) O processo de produção aparece apenas como inevitável elo intermediário, como mal necessário para fazer dinheiro, (...)»
- pág. 67 do Livro II, O Processo de Circulação do Capital, de O Capital, Crítica da Economia Política, Karl Marx (editado por Friedrich Engels), edição portuguesa da Editorial "Avante!", Lisboa 2009, tradução de José Barata-Moura, com base na 2ª edição alemã de 1893, a lançar na Festa do Avante.