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domingo, março 07, 2021

VERGONHA

 De vez em quando, dos sombrios recantos da direita, surgem uns personagens com ares sobranceiros de quem sempre teve certezas (mesmo que as de hoje sejam diferentes das de ontem), de quem nunca teve dúvidas (razão pela qual nunca aprenderam nada) e vociferam. 

Agora, aí veio aquela criatura de que suspiramos de alívio por o termos visto sair de cena, aquela escavacada figura. Procurando uma pose que não tem, uma postura grave que só lhe aumenta o ridículo, lendo mal e disfarçadamente umas cábulas que só ele (ou algum seu familiar ou apaniguado) podia ter escrito,  tartamudeou umas invectivas e insistiu, no seu curto vocabulário, na palavra que um outro usa com veemência mas igual despropósito: vergonha.

Vergonha, sr. Cavaco Silva, tenho eu de ter assinado, como presidente da direcção CDUL, o cartão de atleta de um jovem pernilongo da minha escola (ISCEF), e tê-lo afirmado todo contente porque esperava vê-lo voar sobre as barreiras nos 110 metros e afinal... nada. Vergonha pequenina, mas que nunca esqueci porque bem maiores se lhe vieram somar.

De outras, pequenas ou pontuais vergonhas, não falo, mas escrevo, persisto e assino, que vergonha, essa sim e grande, foi de o ter tido como Presidente da República.

Mas, se esse era um custo a pagar por se ser cidadão em liberdade e democracia, após luta contra o fascismo e a guerra colonial, aguentava-se. Não resignado. Em luta, em condições de liberdade e democracia (mesmo que bem mitigada) para que a vergonha não demorasse muito.

Agora o que é insuportável, o que envergonha a imagem da liberdade e democracia em que vivemos, é que venha Cavaco Silva a apresentar-se como doutrinador e julgador. A ditar como deve ser a democracia, a decretar como vergonhosos números que nos deveriam solidariamente preocupar e que outros bem piores seriam se tivéssemos tido o desastre de ter Cavaco Silva como PdaR e se tivesse conseguido impor algumas das suas intenções, suas opções e agentes seus. 

Tenha vergonha!


                               


 todo impante

quinta-feira, novembro 05, 2015

O Óscar para o actor mais secundário... ou da vergonha nacional

 - Edição Nº2188  -  5-11-2015

E o Óscar vai para…
Desde 2010 que a associação de editores de jornais e revistas da Alemanha entrega o Prémio «Europeu do Ano». Na sua primeira edição o prémio foi atribuído a Durão Barroso e nos anos subsequentes a figuras com Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu e ex-governante polaco ou a Enda Kenny, primeiro-ministro iIrlandês e ex-vice-presidente do Partido Popular Europeu. Este ano foi dedicado «aos 11 milhões de pessoas que vivem em Portugal». Quem o entregou, e proferiu esta elucidativa frase, foi o comissário Günther Öttinger, actual Comissário para a Economia, ex-vice-presidente da segunda Comissão Barroso, conhecido pela aberta ingerência nos assuntos internos de vários estados e célebre pela atoarda de que os países mais endividados deveriam ter as suas bandeiras a meia haste nos edifícios da União Europeia. Segundo Öttinger o prémio é entregue porque Portugal aplicou bem o programa da troika e conseguiu «encontrar o caminho para mais emprego e competitividade». Mas disse mais: o prémio era também um pedido para que os tais 11 milhões «possam manter uma estabilidade» (…) «sem oscilações». Se parássemos por aqui a coisa dava para rir.
Mas não, o caso é mesmo grave e não dá para rir. Do lado do receptor do prémio estava Rui Machete, o ainda ministro dos Negócios Estrangeiros que afirmou que «cumprimos o que nos foi pedido e ajudámos a Alemanha a justificar o seu papel de liderança», que destacou «o auxílio da Alemanha» e que notou que a língua portuguesa é muito falada no Mundo e que isso tem permitido aos «investidores alemães acesso a importantes mercados lusófonos». Falando em alemão realçou que o Prémio era «uma grande responsabilidade para Portugal» e que portanto o próximo governo «tem o dever de manter o rumo».
A inqualificável e vergonhosa atitude de Machete, profundamente lesiva da soberania, independência e dignidade nacionais só tem uma explicação: a seita que tenta manter-se no poder em Portugal é a versão nacional de uma seita maior da qual Öttinger é uma das sinistras figuras de proa. Mas Machete conseguiu o impensável: não só insultou os portugueses e participou activamente na chantagem e ingerência externa – com toda a gravidade que este facto comporta quando falamos do MNE – como conseguiu ser mais cínico e hipócrita que Öttinger. Da nossa parte, acaba de ganhar o Óscar da vergonha nacional.

Ângelo Alves

Machete, pois claro...
depois de muitos anos
a "ensaiar" na Fundação Luso.Americana