quinta-feira, agosto 19, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 4 (Brecht)

E esta, hem?


Tradução (?)
(muito "à maneira"!)
de Brecht


Oh! Quão difícil é governar e gerir!

1. Todos os dias se diz ao povo

quão difícil é governar.

Sem estes governos, os PIBs não cresceriam para baixo,

e o desemprego não diminuiria quando aumentam os desempregados

se o primeiro-ministro não fosse tão engenheiro.

Sem ministro/a da saúde,

as mulheres não poderiam parir em trânsito ambulatório,

e os professores e professoras não poderiam ser assim enxovalhados

sem ministro/a da educação

(e como era possível fechar tanta escola ao mesmo tempo?)

Sem ministro dos negócios estrangeiros (e dos outros),

e o da defesa que invade e ocupa para salvaguardar direitos humanos,

como é que haveria guerras?,

e poderia mudar o ano sem mensagem do presidente da república?

Nada disto seria possível (ou provável...)

e, se houvesse de risco de não acontecer,

até poderia o ano novo não começar a 1 de Janeiro,

por apenas ser 31 de Dezembro quando SEXA estivesse disponível

para dizer a sua mensagem aos portugueses.

2. É também difícil

- ao que nos é dito... -

dirigir uma fábrica e fazer searas e colher.

Sem o patrão, não é verdade que as paredes da fábrica ruiriam

e as máquinas iriam para a sucata?,

e que, se algures aparecesse um tractor,

ele não poderia rodar e lavrar sem as ordens de quem manda?

Que seria da indústria sem industriais?,

e que seria da propriedade rural sem proprietários rurais?,

quem é que semearia centeio onde já se tinham plantado batatas?,

quem produziria bolas de sabão e bolhas especulativas?

3. Se governar fosse fácil,

não haveria necessidade de espíritos tão esclarecidos

como os dos chefes.

Se o operário soubesse usar a sua ferramenta,

e se o camponês fosse capaz de distinguir uma foice de um martelo,

não haveria necessidade nem de patrões nem de proprietários.

E é só por estarem as gentes tão mal informadas e estúpidas

que há necessidade de uns poucos serem tão inteligentes.

4. Ou será que governar e gerir só é assim tão difícil

porque a exploração e a mentira são coisas

que só alguns herdaram

e apenas poucos aprenderam bem e praticam melhor?

O caso do caos anunciado...

... e meticulosamente preparado!
O encerramento, agora anunciado e confirmado, de 701 escolas no País (aqui, no concelho de Ourém, a somar às já encerradas, serão mais 15-escolas-15!) faz prever uma abertura de ano esolar que será caótico.
As autarquias, como associação e de per-si, estão a reagir.
E há aqui um pormenor curioso (salvo seja...): as dificuldades e as reacções de protesto das autarquias, que irão (iriam) ter de suportar a parcela muitíssimo onerosa dos transportes, a partir de uma decisão unilateral, para que não meteram nem prego nem estopa nem opinião deram, ainda - se calhar... - vão ficar com o odioso e esconder a impossibilidade prática de estarem as instalações em condições de acolherem os estudantes cujo transporte será/seria da responsabilidade das ditas autarquias.
Isto promete... e não é coisa boa!

Tomar partido! - 10

Duas notas prévias:
1. As frasezinhas de fecho sobre a continuação desta série, são para dizer da intenção de continuar (se...); mas servem, também, para dizer que “isto” está a ser “produzido” como apontamentos de leitura, estudo e reflexão em trabalho contínuo, por vezes, como é o caso, com destino ao cumprimento de uma tarefa fora/além daqui.
2. Parece-me que, nestes tomar partido! (e vão 10), tenho referido várias vezes Marx e nunca terei feito referência a Engels, sempre apagado, humilde e com contributos inestimáveis. É uma injustiça: façam favor de ler, quase sempre…, Marx e Engels.
Entrando na matéria, perguntava-me que poderá interessar "isto" para tomar partido. Pergunta nada inocente porque traz engatilhada a resposta: o partido que tomámos e, por isso, o Partido de que somos, é de massas, é da classe operária e de todos os trabalhadores, da sua vanguarda, dos que o querem ser (sem de tal se vangloriarem…) por opção e obrigação de coerência. E tem uma base teórica!
Ora, tendo uma base teórica, e sendo um Partido de massas, não seria pertinente exigir que as massas – mesmo as suas vanguardas – tivessem um conhecimento teórico aprofundado da base teórica, de grande complexidade e não reduzível a meia dúzia de fórmulas e frases feitas. Para mais, essa base teórica, o marxismo-leninismo, o materialismo histórico e dialéctico, não é manualizável, isto é, não é susceptível de se encaix(ot)ar num volume ou volumes por mais volumosos que eles sejam. Define-se, aliás desde a sua génese (o Manifesto, de 1848), como uma base teórica viva, nunca cristalizada.
O que não quer dizer que seja uma base tipo gelatina para um corpo invertebrado. Não! O marxismo-leninismo é materialista, é dialéctico e é histórico, ou seja, tem uma opção filosófica clara, uma metodologia que lhe é própria, respeita a História e repudia as suas falsificações e perversas interpretações de factos, alguns deles pura e simplesmente inventados, reconhece o presente como História que está a ser feita.
Dito isto, a filosofia, as ciências da natureza, a economia, tudo o que respeita ao ser humano integra, interessa e inter-age com essa base teórica que é global.
Tomar partido, tendo de ser ganhar consciência de que se pertence e luta por uma classe na História que é de luta de classes, não se assemelha a fazer um exame em que há prova escrita e oral avaliadora dos conhecimentos da base teórica. Mas há que a aprender e estudar permanentemente, cada um com a sua formação, com a sua profissão, com a sua especialidade a contribuir para a reforçar por a fazer mais próxima da História que somos e da sociedade que queremos.
Na economia política marxista, elemento enformador da base teórica, se não está tudo em O Capital não concebo que se revise e invente, que destruam alguns caboucos, como o papel do desenvolvimento das forças produtivas e o tipo e estádios das relações de produção, como os conceitos dualistas de valor e de trabalho, de mais-valia e de exploração, algumas leis deles decorrentes.
E há tanto para estudar nos tempos sempre em mudança, tendo por base a nossa base teórica!

(continuará...)

quarta-feira, agosto 18, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 3 (Manuel Freire/Saramago)

Às vezes apetece cantar (como dizia Miguel Torga)... e alguém canta (ao contrário do que dizia Miguel Torga).
O cuco também canta...

À maneira de Manuel Freire
a cantar Saramago “ouvindo Beethoven”



(…)

Acredito que decretos e censuras,
polícias e prisões,
grades e bastões,
não chegarão para impedir que a Justiça e a Verdade vençam.
Acredito que hão-de chegar “tempos de surpresas”,
depois de tanto tempo de não-surpresas
e de tanto tempo de surpresas-não


a partir de hoje, sempre às 23.59

Tomar partido! (Ler Marx: "trabalhador colectivo")

Ler Marx, ou ler sobre Marx, é tarefa inesgotável. Não se trata de ler as páginas todas de todos os livros publicados e manuscritos por publicar e ficar a saber o que elas ensinam, não se trata de ter tudo apre(e)ndido, porque elas só (!) ensinam a observar e a aprender com o que foi vivido e com o que está a ser vivido. E não para ficar a conhecer e a interpretar, mas para intervir com um sentido, para transformar. Para tomar partido.
Numa língua como a portuguesa, isso é muito mais evidente (para mim é…) que para quem tenha como sua língua, ou domine, o alemão, o inglês, o russo, o francês, até o italiano (foi nesta língua, que desconhecia e desconheço, que li Il Capitale há mais de 40 anos…). Porque cada página tem de ser reflectida... por vezes confrontando traduções que não coincidem a partir de um mesmo página (ou frase) original.
Toda a obra de Marx é dessacralizadora. Porque inacabada, encadeando-se, em permanente auto-avaliação e auto-correcção. E sempre incompleta apesar de haver quem se atreva a dizer que a leu toda, ou porque julgue que o fez por ter lido um resumo resumidíssimo de um resumo, ou porque seja incapaz de dizer que não leu mais do que algumas citações…
A releitura de Trabalho colectivo e trabalho produtivo…, de Jacques Nagels, suscita-me estas observações. Sobre questões definidoras na obra de Marx, Nagels procura ser exaustivo e estará perto de o ser. Cita e confronta Grundrisse (os Manuscritos de 1857-58), os três livros de O Capital, as Theorien (Théories sur la Plus-Value ou Histoire des doctines économiques), que são manuscritos de 1861-63 e que deveriam vir a ser a base, segundo indicações de Marx, do livro quarto, e ainda outros manuscritos.
O estudo da questão do trabalhador produtivo e do trabalhador colectivo, que nas edições avante!, 1992 – nos trechos que confrontei – se traduz por “operário total” (“operaio complessivo”, na edição Newton Compton Italiana, 1970), terá a maior importância, até porque o fulcro da análise na economia marxista é a produção, e esta, nos ciclos da actividade económica, em sistema de relações sociais que definem o capitalismo, localiza-se na esfera produtiva (…P…) e não nas fases de circulação (D-M e M’-D’), tendo a maior relevância a delimitação do trabalho produtivo, e não por mera questão semântica ou despicienda mas porque se liga à criação de valor e à unidade dialéctica valor de troca-valor de uso.
Nagels é peremptório: “todas as afirmações de Marx que se estendem sobre um período de vinte anos (1858-1878) concordam: nem um único átomo de valor é criado nas fases de circulação de capital” (p. 183). E é-o a partir de citações e sua reiteração reflectida, não como "argumento de autoridade" a que se submeta, e anota, nesse momento do aprofundado tratamento da questão, quatro aspectos que arriscadamente resumo i) a confusão entre as noções vizinhas mas distintas de função economicamente necessária e função produtiva; ii) a autonomia de uma função (comercial ou financeira) não lhe atribui carácter criador de valor; iii) a crescente importância e aumento de dimensão de uma função não torna produtivo o que, em análise marxista, se define como improdutivo; iv) não são as relações de produção que determinam a natureza produtiva ou improdutiva do trabalho (Marx em O Capital: “… (nada) autoriza a que se confunda os agentes da circulação com os da produção como não se confundem as funções de capital-mercadoria com as de capital produtivo”.
.

Tanto pano para tantas mangas e... o que interessa isto para a tomada de partido?



(continua… talvez também aqui)

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 2 (Neruda)

Este até gosto de ler em voz alta!:

À maneira de (plágio
ao) “capitão” Pablo Neruda


Na minha pátria de montes e de rios

há um povo

Na minha pátria há montes.
Na minha pátria há rios.

Vem comigo!

A noite e o frio sobem aos montes.
A fome e a névoa descem aos rios.

Vem comigo!

Quem são os que sofrem?
Não sei quem são, mas sei que são meus irmãos.

Vem comigo!

Não sei quem são, mas chamam-me.
São meus irmãos e gritam “sofremos!”.

Vem comigo!

E dizem-me
“o teu povo, o teu povo infeliz,
entre os montes e os rios,
entre a raia e o mar,
com frio, fome e dores,
não quer lutar sozinho,
o teu povo que contas e cantas,
espera por ti, amigo, camarada, irmão!”

E tu, ó tu que eu amo!,
frágil,
pequeno grão,
pequeno grão vermelho de trigo.

Vem comigo!

Será dura a luta
- a vida é dura, amor -
mas sei que virás comigo!


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(*) - Os cucos são aves conhecidas por chocarem os ovos em ninhos feitos por outros/as; também se aplica o epíteto a algumas “aves” humanas que se aproveitam do trabalho dos outros/as

terça-feira, agosto 17, 2010

Ninguém diria melhor...

Nos incêndios... foi melhor que em 2003 e 2005!
No desemprego... os indicadores estabilizaram!
Na evolução do PIB... a retoma económica desacelerou!
... e etc.



Pangloss não diria melhor...,
ele que disse "tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis"!

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 1 (Guillén)

Aqui há uns anos, comecei com esta "graça". Estava naquela de me reformar de economista... Que me passou depressa (e mal).
E publiquei alguns "poemas cucos" num outro blog que por aí alimento (e mal...).

Tropecei, há pouco, num ficheiro com alguns desses "ensaios" sobre poemas de poetas que tanto me dizem e que me atrevi a... "cucar". Pediram-me, eles, para lhes mostrar - a alguns de novo - a luz do dia da blogosfera. Tive pena deles. Não tenham, agora, pena de mim.


À maneira de plágio de Nicolas Guillén
PROBLEMAS DO SUBDESENVOLVIMENTO

Monsieur Dupont chama-te inculto,
porque ignoras qual era o neto
preferido de Víctor Hugo.

Herr Müller pôe-se aos berros,
porque não sabes o día exacto
em que morreu Bismark.

O teu amigo Mister Smith,
inglês ou irlandês, não sei,
fica perturbado por não saberes
que o God save the King
é, agora, God save the Queen

Aquele gajo que se chamava President Bush
(e vão dois…)
que nada sabia de nada
ficava ainda mais burro
por desconheceres que ele morava numa Casa Branca

O teu vizinho Señor Dom Juan
fica espantado ou furibundo
por traduzires bocadillos por bocadinhos

Está bem? E depois?
Quando for a tua vez,
manda-lhes dizer otorrinlaringologista
pergunta-lhes onde nasce o Mondego,
quem era Luís de Camões,
e em que lugar deste planeta
morreu Bento Gonçalves.

Ah!... e pede-lhes um favor:
que te falem sempre em português!

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(*) - Os cucos são aves conhecidas por chocarem os ovos em ninhos feitos por outros/as; também se aplica o epíteto a algumas “aves” humanas que se aproveitam do trabalho dos outros/as

Tomar partido! (a óptica de análise na economia política marxista)

Na introdução a Trabalho colectivo e trabalho produtivo na evolução do pensamento marxista, ao arrolar as cinco características da economia política marxista, Jacques Nagels refere a quarta característica - “ análise económica (da economia política marxista) é conduzida do ponto de vista da produção” -, de forma sucinta e pedagógica que convida à transcrição. Não a farei como tradução literal mas como breve reflexão procurando fixar (nunca decorar… que foi coisa a que sempre fui alérgico) o essencial da página e meia de leitura.
Aliás, diria que ler Marx, ou ler sobre Marx, em português é experiência interessantíssima de que relatarei vivências que, julgo, ilustram toda a impressionante riqueza e actualidade do pensamento marxista. Mas, agora, não é disso que estou a tratar…
Do que estou a tratar é da análise económica, que pode ser “conduzida” a partir i) da óptica da produção (ou da oferta), ii) da óptica das esferas da circulação do capital – tanto a comercial como a que inclui a moeda, o crédito, o financiamento – e iii) da óptica da procura (do consumo).
Sublinhando-se que optar por uma não significa ignorar as outras, o marxismo considera que a produção desempenha o papel motor, o que de forma alguma exclui ou desvaloriza a importância das outras parcelas na actividade económica.
Esta escolha é coerente com o marxismo como um todo pois, como escrevemos na anterior mensagem, “é na produção que o homem se confronta e mede com a natureza, inclusive a sua, apoiando-se nas técnicas, em tudo o que antes se dotou como instrumentos, é na produção que se trabalha e cria, é na produção que a ciência se introduz no processo económico”. E é coerente com o papel central que Marx atribuiu ao progresso técnico, que se manifesta quando e onde o "saber social" se materializa em meios de produção (outro tema que fica “em carteira”…).
E aqui reside uma questão da maior importância teórica – lembre-se que estamos a reflectir sobre a base teórica do Partido que se tomou ao tomar partido… de classe – que é o do valor das mercadorias. Na produção, cria-se um valor de troca (que vai ao mercado…) porque, nessa produção, se cria ou transforma um valor de uso, em unidade dialéctica, e quem diz criação/aumento de valor diz, no quadro do modo de produção capitalista, criação de mais-valia.
Como se lê em Nagels, e largamente fundamentado, “para os marxistas, todo o átomo de mais-valia é criado na produção e nenhum átomo de mais-valia é criado fora da produção”, o que levanta uma questão (ou duas?): é assim para todos os marxistas?, ou não é marxista quem assim não analisa?
É imprescindível referir a noção de relações de produção, que se define como as relações sociais que os seres humanos estabelecem entre si em função do lugar que ocupam na produção. A noção de classe social, que escora a tomada de partido, está, nesta abordagem, intrinsecamente ligado à noção de relações de produção, pelo que a óptica da produção representa uma opção da análise própria da economia política marxista.
Com que a prática tem de ser coerente.

(continuarei, eventualmente… aqui)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Quem é que nos engana?

Vou ao sapo saber notícias, e o destaque é, de há uns dias para cá, sempre o mesmo: incêndios! Ainda agorinha lá fui: 48!

E alguns diria assustadores, como daqui a pouco os canais de televisão me irão mostrar, com reportagens impressionantes e casos humanos dramáticos.

...

Mas o PR e o PM interromperam as férias, fez-se a devida repercussão mediática desse(s) facto(s), e um diz-se "bastante menos preocupado" e o outro diz-se "bastante mais descansado".
.
Não sei como hei-de ficar, cidadão dividido entre a dramatização e a obsessão da confiança que tudo cura.
Até nos incêndios, nas causas e nos dramas que provocam.

Acompanhando a evolução do PIB

É verdade que aqui há uns tempos decretei a minha reforma de economista. Para me dedicar a outras "artes". Mas não me deixam, melhor (ou pior!): não me deixo, desautorizo-me é o que é...

E lá vou acompanhando estas coisas, até com as estatísticas que saem do INE.

Por isso, actualizei-me nas informações e nos comentários, como nesta declaração do PCP sobre a evolução do PIB.

Mas não me fico por aí. Gosto de elaborar uns gráficos... e tal e coisa. E como não sou cioso, e não guardo nada (ou muito pouco) para mim, aí vão eles para acompanharem a eventual (e útil) leitura.

INE - PIB (estimativa rápida - 45 dias)

2006 = 100

Esta memória!

É assim a memória. Parece estar tudo arquivado, ou em gavetas, e de repente – vá lá saber-se porquê… mas por alguma razão foi, e para as descobrir há os psicanalistas – desarquiva-se um episódio, abre-se uma gaveta onde um acontecimento vivido dormia a sono solto.
Hoje, foi este. Que exige ser contado.
O programa Zip-Zip na televisão, no único canal e a preto e branco, veio mostrar que havia um País que mexia, que era culto, que cantava e desmentia o Miguel Torga ("apetece cantar e ninguém canta"), e que prenunciava as mudanças, para que clandestinamente se lutava, inevitáveis porque a história não pára nos fascismos e nas guerras coloniais assim como não há incêndio que não se apague, como me dizia um velho amigo comandante de bombeiros, fazendo filosofia como Monsieur Jourdain fazia prosa sem o saber.
Com Ramiro Valadão a querer animar a televisão, logo um outro programa apareceu, o Curto-Circuito, aparentemente na mesma linha mas – aparentemente – com a garantia de que… não iria abusar da “abertura marcelista” como o Zip-Zip fizera. O nome de Artur Agostinho seria garantia para os próceres do regime. Era muito popular, e o seu passado nada mostrava de veleidades intelectuais esquerdizantes.
Mas o Zip-Zip deixara “pesada herança”, isto é, exigia coisas com… outro nível, e o Curto-Circuito lá procurava corresponder. Para um dos programas, convidou a Isabel da Nóbrega para ser entrevistada sobre a condição da mulher. E foi-lhe dito que poderia levar convidados seus, um ou dois, para comporem o painel. Lembrou-se de mim, até porque participáramos em iniciativas sobre o tema, e claro que eu estava disponível.
Tudo se arranjava com a produção, dizendo esta que não havia qualquer limitação (como a de eu ter estado preso uns anos antes)… salvo se tivesse tido intervenção activa no MDP-CDE nas recentes eleições de 1969. Ora eu, que não fora candidato por Lisboa, não parecia oferecer problema. Assim se comprovava que “fora de Lisboa, o resto era paisagem”, pois passara desapercebido a esses responsáveis da produção que eu fora candidato por Leiria. Mas não passou a outros mais atentos, até por ser essa a sua pidesca “profissão”, e fui desconvidado.
Então, em conluio, resolveu-se o seguinte:
Foi-me oferecido um bilhete de ingresso no Teatro Monumental, que era onde se fazia o programa com transmissão em directo; a Isabel da Nóbrega, no roteiro do programa, entrava sozinha para ser entrevistada sobre a condição e a situação da mulher – o que fez, brilhantemente, falando, por exemplo, da Adelaide Cabete em termos comoventes – e a entrevistadora (não me lembro quem) perguntava-lhe qualquer coisa sobre a discriminação no trabalho e a Isabel saia-se com esta (mais ou menos…): “de economia não sei nada, mas vi há pouco, ali na plateia, um jovem economista que sabe disso, podíamos pedir-lhe ajuda…”, os holofotes procuravam-me no meu lugar de coxia central e lá saltava eu para o palco.
Assim foi, e foi um “quarto de hora de glória” a perorar sobre o conceito marxista de trabalho, sobre exploração e discriminação, sobre Engels e a origem da família, do Estado e da propriedade privada… essas coisas.
E digo que foi um “quarto de hora de glória” porque estive na televisão a dizer essas coisas, porque elas foram muito bem recebidas – a revista Maria (ou foi a Crónica Feminina?) fez uma larga e laudatória referência à minha prestação (com foto e tudo), porque houve quem não tivesse gostado mesmo nada do enredo… e até parece que Marcelo Caetano, ao assistir ao programa telefonou ao Ramiro Valadão a perguntar o que era aquilo.
Há 40 anos! O que memória nos traz… e como nos dá força!

Tomar partido! (a economia política marxista)

Na preparação da tarefa de participar na “apresentação” de um livro (Compreender a economia-introdução à análise económica marxista do capitalismo contemporâneo) na Festa do avante! levou-me a, de novo, recorrer aos “clássicos” e a um que, não o sendo, o considero como tal, ou que o é para mim – Trabalho colectivo e trabalho produtivo na evolução do pensamento marxista – e, desta vez, com particular cuidado porque me parece necessário pôr algumas coisas a claro.
Desde logo, a base teórica que nos escora na tomada de partido tem uma componente económica que é da maior importância e há que sublinhar a existência de características gerais da economia política marxista que têm de ser consideradas. E estudadas, estudadas sempre!
Não para as tomar como dogmas, mas para que, no confronto com a realidade, para a compreender (a realidade total e a económica) e para nela intervir, desde o mais humilde gesto (com a relevância de ser insubstituível), com instrumentos ideológicos coerentes e consistentes. Para que essa intervenção, por dotada de base teórica – coerente e consistente, insisto – possa ter força de esclarecimento e possa contribuir para a tomada de consciência contra toda a tremenda campanha de demagogia e desinformação, esta dotada de meios desmesurados e de falta de pudor não menor.
Ora, i) a economia política marxista faz parte de um conjunto, não é um compartimento estanque, ii) o pensamento que a enforma é historico, pode dizer-se que o "contemporâneo" não existe: ainda não é o que já não foi, iii) a economia política marxista tem uma concepção macroeconómica, não dissociada das outras áreas humanas (no que coincide com a primeira característica), o seu objecto próprio é a economia no seu conjunto, os seus agentes vivos e criadores são evidentemente os homens, mas não como indivíduos, ilhas, mas pertencendo a grupos económicos macro-sociais, a classes, iv) a análise económica, na economia política marxista, deve ser conduzida do ponto de vista da produção porque é na produção que o homem se confronta e mede com a natureza, inclusive a sua, apoiando-se nas técnicas, em tudo o que antes se dotou como instrumentos, é na produção que se trabalha e cria, é na produção que a ciência se introduz no processo económico, isto sem de forma alguma menosprezar ou desconsiderar o papel das outras fases do processo económico total a montante e a jusante da produção, para que ela decisivamente contribuiu antes, e por último mas que se deixará para outras considerações, pela sua carga teórica-ideológica v) a concepção da economia política marxista é dualista, o que se põe em evidência, em O Capital, que tudo começa pela mercadoria e pela dualidade da unidade dialéctica dos valor de uso e valor de troca, e todo o “edifício” se constrói sobtre pólos contraditórios.
Deter-me-ia na quarta característica (iv), a do privilégio da produção, do aproveitamento dos recursos visando, pelo trabalho, a satisfação das necessidades, o que parece particularmente relevante quando, no tempo, se confunde economia com dinheiro que nada produz, e, no espaço, se esquece sistematicamente que, neste País, por exemplo, há recursos escandalosamente inaproveitados, há um mar que faz do Portugal o maior país europeu da União Europeia, e tudo se quer transformar em negócio financeiro-especulativo para acumulação de capital-dinheiro.

(continuarei, talvez…)

domingo, agosto 15, 2010

O que eles dizem…

No Expresso de ontem (sobre fragilizadas... e apetitosas):

«As empresas e as potenciais OPA
Há oito grandes empresas cotadas na Bolsa cujo controlo se mantém em aberto. As peças estão colocadas no xadrez e o baixo valor das acções convida a operações de concentração…»

… e eles sabem do que escrevem!

É a especulação em todo o seu esplendor.

Do lado das “fragilizadas” e “apetitosas” (ditas portuguesas) estão:
BCP- Millénio
BPI
Brisa
Cimpor
EDP
GALP
PT
ZON

Do lado das que jogam, cheias de apetites, estão:
Abertis (“espanhola”)
Camargo Corrêa (“brasileira”)
ENI (“italiana”)
Iberola (“espanhola”)
La Caixa (“espanhola”)
José de Mello (“portuguesa”)
Petrobrás (“brasileira”)
Sonaecom (“portuguesa”)
Sonangol ("angolana")
Telefónica (“espanhola”)
Votorantin (“brasileira”)

Avançam peões (e são comidos), saltam cavalos, bispos fazem diagonais, há torres a cortar a direito, reis e rainhas movem-se em todas as direcções (com maior ou menor largueza de passada). O endividamento condiciona ou facilita (podem ver-se mensagens aqui deixadas recentemente), a instabilidade cambial (não tinha acabado esta “coisa”?) baralha algumas jogadas.
E a economia?, e a produção?, e a satisfação das necessidades sociais?

Ainda Nazim Hikmet

E, porque hoje é... domingo:
.
"Hoje é domingo"
(poema de 1938, escrito na prisão, em Ancara,
adaptado de uma "tradução automática"... )
.
Deixaram-me ver hoje o sol pela primeira vez.
E, pela minha primeira vez na minha vida,
tão longe de mim o sol!
E o céu tão azul
que é tão grande como a surpresa
Fiquei imóvel.
Então, sentei-me no chão.
Encostei-me contra a parede branca.
De repente, uma estranha memória:
o mar.
Perto do que há de mais vil, minha querida.
Acho que estou a acostumar-me à solidão.
Já não tenho tempo bastante
para tanto tempo que estou afastado dos meus lugares.
Leio uma caixa de fósforos e um pacote de cigarros,
depois mastigo meu bigode como uma iguaria,
e... mergulho nas ondas.


Versão inglesa (curta) de Gun Gencer:

Today's Sunday

They took me out into the sun
for the first time today
and for the first time in my life
amazed that the sky was so distant
so blue
so wide
I was still
Then I sat on the ground with respect
leaned my back against the wall.
No rolling with the waves at this moment
at this moment, neither freedom, nor my wife
the earth, the sun, and I
am content

Tomar partido (também em poesia!)

... ou poesia (também tomando partido!). E porque hoje é... domingo!

Nazim Hikmet (1901-1963, turco... embora por decreto de 1951 lhe tenha sido retirada a nacionalidade turca - além de ter estado preso 15 anos -, decreto depois abolido em 2009):

Tentaram separar-me
do meu Partido

Não conseguiram!

Não fiquei esmagado
sob os ídolos caídos.



(Autobiografia)

sábado, agosto 14, 2010

Tomar partido! (exemplifique-se - 2)

Na última reunião do Comité Central do PCP, num comunicado, cuja leitura na íntegra (e sem manipulações) é possível no avante! e no site do Partido, denunciava-se (nesta minha selecção de itens (logo “minha manipulação”, mas no estrito respeito pelo sentido do documento):

  • um novo pacote de medidas que, a pretexto da redução do défice em 5 pontos percentuais até 2011, Governo e PSD se preparavam em nome dos interesses dos grupos económicos e financeiros que representam,
  • no contexto de uma situação (de “crise”) criada pelas políticas de direita que têm sido (pros)seguidas, que têm responsáveis e servem interesses de classe,
  • de destruição do tecido produtivo, em particular de milhares de micro, pequenas e médias empresas,
  • de desertificação e ampliação das assimetrias regionais,
  • num assumido processo de concentração e centralização capitalistas ao serviço dos grupos económicos e do capital financeiro.

Ora, daqui – e tomando partido – quero partir para dois tipo de considerações muito sucintas, suscitadas por uma provocação (ou provocadas por uma suscitação): i) sobre a posição relativamente às micro, pequenas e médias empresas, ii) sobre a economia política marxista.
Sobre as micro, pequenas e médias empresas, elemento essencial do tecido produtivo, alvos e vítimas do processo de concentração e centralização do capital financeiro, com as consequências de curto e médio prazo de desertificação e ampliação das assimetrias regionais, poderia socorrer-me de citações clássicas (do Manifesto, por exemplo) para fundamentar a defesa de medidas de apoio e protecção a esse sector cuja defesa, a par do reforço de um investimento e sector público, é indispensável nesta fase do processo histórico e local, mas basta usar o bom senso e apontar o ridículo da argumentação que se baseia numa delirante interpretação segundo a qual uma taxação extraordinária de lucros exorbitantes levantaria o gravíssimo problema do crescimento dos “pequenos e médios capitalistas”, que iriam beneficiar de não serem atingido por esse imposto extraordinário, e assim se veriam ajudados a tornarem-se grandes capitalistas! Isto é de tal modo irrisório que revela bem o que se passa nalgumas cabeças.
“Está-se mesmo a ver” que ir buscar recursos financeiros aos lucros exorbitantes, por exemplo de grandes superfícies de distribuição – que são mais peças de grupos financeiros que áreas de comércio –, iria criar condições para que a mercearia da esquina citadina ou a venda da aldeia se tornassem grandes capitalistas.
Lutar consequentemente pelo socialismo não é "fazer de conta" que se vive em socialismo, é... lutar pelo socialismo nas condições em que se faz a luta. E, aliás, avançar para o socialismo pode querer dizer um forte sector público e nacionalizar o que, ao serviço do grande capital, é contrário ao interesse geral, mas não quererá dizer nacionalizar pequenas barbearias e actividades semelhantes, embora a financeirização/banqueirização da economia já tenha revelado situações e mostrado indícios de que, por vezes, o aliciamento e uso e abuso do crédito faça com que o que se julgava ser de um honrado prestador de serviços de cortar cabelos é de propriedade de um banco a que ele se endividou…

Mas disto se falará depois.

(continuarei)

sexta-feira, agosto 13, 2010

Tomar partido! (exemplifique-se - 1)

«(…) deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparação de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados).»
Isto escrevia Lenine em 1920, em O esquerdismo – doença infantil do comunismo.
Dirigia-se Lenine aos “esquerdistas”? Não! Não se dirigia aos “que não sabem conduzir-se como o partido da classe, como o partido das massas", aos que se arrogam representantes da classe operária, e seus “educadores”, por obra e graça saberão eles de quem.
Dirigia-se aos que têm o dever de “não descer ao nível das massas, ao nível dos sectores atrasados da classe, (aos que têm) a obrigação de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes (às massas e aos seus “educadores”) que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares não passam disso, de preconceitos”.
E, como colectivo, como vanguarda, deve-se “observar com serenidade o estado real de consciência e de preparação de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados).”
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Por outro lado, exemplifique-se:
Em momento de explosão da crise larvar do capitalismo, prevista e prevenida pelo PCP, quando o Estado, com o Governo como “comissão que administra os negócios de toda a classe burguesa (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, de 1848), na correlação de forças existente em Portugal, avança com PECs, o PCP responde em todas as frentes de luta, privilegiando a luta de massas, os locais de trabalho e a rua, a tomada de consciência, não subestimando minimamente a frente institucional, parlamenter, enquanto frente da mesma luta.
Que resposta, no concreto? Não façam pagar as consequências da política que trouxe a esta situação pelos que são as suas vítimas, pelos trabalhadores e as populações; vão buscar os recursos a quem dessa política beneficiou (e a promoveu realmente); não aumentem o IRS e o IVA de forma que agrava as crescentes dificuldades dos trabalhadores e das populações, vão buscar esses recursos necessários à vossa administração aos bancos que pagam menos que os outros agentes económicos (porquê?), aos especuladores que nada pagam para as receitas do Estado (porquê?), aos lucros maiores, com taxação acima da taxação para todos os lucros.
Quer isto dizer que se aceita e avaliza o que se considera caduco, e contra o que se luta em todos os momentos e situações e não apenas quando se “está em crise”? De modo algum, porque, para nós, como dizia Lenine, “trata-se exactamente de não julgar que o (que é) caduco para nós tenha caducado para a classe, para as massas”.
E é às massas nos dirigimos, na batalha prioritária da tomada de consciência.
Porque, fique muito claro, estas considerações sobre o partido que tomei e o Partido que sou, não são respostas a quem não respondo, até porque a baixeza da interpelação ilustra-se na insinuação de que procuro sacudir "água do capote" (!!!) quando refiro regras do funcionamento do Partido, e uma delas é a da total solidariedade com as decisões do colectivo.

(continuarei)

Tomar partido! (e a base teórica do Partido)

A base teórica do partido que tomámos, como comunistas portugueses, e que está explícita nos estatutos do Partido que somos pelo partido que tomámos, é a do marxismo-leninismo, logo se acrescentando “concepção materialista e dialéctica do mundo, instrumento científico de análise da realidade e guia para a acção que constantemente se enriquece e se renova dando resposta aos novos fenómenos, situações, processos e tendências de desenvolvimento. Em ligação com a prática e com o incessante progresso dos conhecimentos, esta concepção do mundo é necessariamente criadora e, por isso, contrária à dogmatização assim como à revisão oportunista dos seus princípios e conceitos fundamentais” (art. 2º).
É com essa base teórica que o PCP se define (no art. 1º) como um partido de classe, o partido da classe operária e de todos os trabalhadores portugueses, sendo a sua vanguarda. No entanto, a o seu conhecimento e a sua consciência está muito longe de estar alargado às massas que compõem a classe em si.
Num texto de 1920, Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo, Lenine adverte com uma pertinência que nada perdeu no (historicamente curto) espaço de 90 anos:
“(…) trata-se exactamente de não julgar que o caduco para nós tenha caducado para a classe, para a massa. Mais uma vez, constatamos que os "esquerdistas" não sabem raciocinar, não sabem conduzir-se como o partido da classe, como o partido das massas.
O vosso dever consiste em não descer ao nível das massas, ao nível dos sectores atrasados da classe. Isso não se discute. Tendes a obrigação de dizer-lhes a amarga verdade: dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares não passam disso, de preconceitos. Ao mesmo tempo, porém, deveis observar com serenidade o estado real de consciência e de preparação de toda a classe (e não apenas de sua vanguarda comunista), de toda a massa trabalhadora (e não apenas de seus elementos avançados).»


(continuarei)

quinta-feira, agosto 12, 2010

Adaptando leituras a reflexões do momento...

... às vezes suscitadas por provocações:

«(...) um dos maiores méritos de Smith (Adam Smith) é ter podido isolar, nos mercantilistas e na escola fisiocrática, um filão de verdade na ganga dos erros que o envolve (...) Na realidade, para Marx, em toda a grande obra económica (e em toda a pequena provocação...), existem elementos positivos que é necessário poder libertar a fim de fazer progredir a ciência. Assim se alarga constantemente o rasto da verdade.»

(Trabalho colectivo e trabalho produtivo na evolução do pensamento marxista, Jacques Nagels, Prelo Editora, Lisboa, Dezembro de 1974, p. 53)