terça-feira, dezembro 06, 2016
quarta-feira, novembro 30, 2011
Dias irados
Mas não fiz dele um "poema cuco", hoje virei o poema do avesso. Que me seja perdoado...
domingo, agosto 07, 2011
Maiakovski
segunda-feira, maio 23, 2011
Poemas cucos (ou nem tanto)
Saltou-me, agora, aos olhos, numa curva do microsoftword. Não resisti... e dei-lhe mais umas voltas.
para não ter de suportar um ferro Rodrigues.
à custa de alegres Soares e de sisudos Louçã(s),
quinta-feira, março 24, 2011
Poemas cucos - sobre a manifestação de 19.03
É feita sobre um texto de um tal Pata Negra, que se auto-nomeou Rei dos Leittões, e até se atreveu a candidatar-se a candidato a Presidente da República (e teria feito muito melhor figura que outros que levaram a candidatura até ao fim), escreve umas coisas que merecem ser lidas... e "cucadas".
Gosto de estar à beira mar,
sentado a observar,
uma a uma,
as pessoas a passar,
de lhes medir os corpos,
de lhes julgar o andar,
de lhes estudar a expressão
e de especular acerca de quem são
e de onde são.
Nada que não se possa fazer,
num descanso de fim de manifestação,
nos Restauradores.
E estava eu ali sozinho,
nesse entretém,
quando uma senhora de 80 anos
(e upa lá…),
de mala de senhora pela curva do braço,
de vestuário bem encaixado na idade,
muito mais baixa que eu
(que não sou alto),
encostou a sua isolação à minha,
e estendeu-me unicamente estas palavras,
assim,
sem mais nem menos,
sem boa tarde,
sem adeus,
ou "quem és tu?":
- Eu nunca vi tanta gente em toda a minha vida!
Ui Jesus, o povo que para aí vai!
Venho lá de cima do Marquês e vem gente de todas as ruas,
a Avenida é uma enchente,
aqui é o que se vê!
Credo Santo nome de Deus!
Em toda a minha vida nunca vi tanta gente!
E,
dito isto,
seguiu,
de passos pequenos mas frequentes,
para o Rossio.
Não faço ideia de onde vinha,
para onde ia,
ou porque estava ali.
Nem sequer interessa se era manifestante,
transeunte,
se ia para sua casa,
que seria logo ali…,
se dava a sua volta habitual,
ou se ia na camioneta p’ró Zambujal!
O que fiquei,
o que eu fiquei mesmo,
foi muito contente
por ter visto aquela senhora entre tanta gente
e,
de entre tanta gente,
ela me ter visto a mim,
e de ambos termos visto tanta gente
como uma senhora nunca viu em 80 anos!
sábado, outubro 23, 2010
Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 28
Fernando Pessoa
.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
são lágrimas de Portugal!
Por não te cruzarmos, quantas mães choram,
quantos pescadores já não pescam!
Quantos recursos estão por empregar
por teres deixado de ser nosso, ó mar!
Valeu a pena? Para uns, valeu muito a pena,
porque esse stêm a alma tão pequena.
Nem sequer querem saber se é dor
o que sentem os que sofrem da economia o horror.
Lembra-se do mar o Cavaco, aquele que entristeceu
com o que o império (e ele próprio) entreteceu.
quinta-feira, outubro 14, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 27 (Shakespeare)
Claro que parei a leitura económica, avaliei a tradução, não me agradou muito, achei que, a partir da ideia e de algumas formulações daquele poema, se poderia fazer muito melhor (sou mesmo pretenciosos...) e vai daí "cuquei" (ainda espreitei o Vasco Graça Moura, mas já estava embalado na minha "cuquice"), a começar por transformar em soneto o que tinha apenas 11 versos...
se farto estou de ver a inocência mendigar,
de ver o que é vulgar em luxo se esparramar,
de como é atraiçoada a mais pura lealdade.
Se farto de ver como é violentamente violada a virgindade,
de ver como são partidas e repartidas as honrarias,
de como os valores são mutilados pelas brutas tiranias
de como a bondade da verdade é pela mentira difamada,
Se farto de ver a inspiração e arte ser amordaçada,
de ver arvorada em profeta e sábia a estupidez,
de como o bem-querer é cativo e do mal-fazer servidor.
Se fatigado de ver tudo isto estou, desistiria talvez
mas… apesar de cansado, magoado, ferido, suporto bem a dor
porque cansado de lutar não estou, e continuar a lutar vou!
segunda-feira, setembro 27, 2010
Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 26

a vender livros, via para cultura, tarefa bela;
mas não servi ao comércio, servi a ela,
que ela só por prémio pretendi.
Os dias, na esperança de um só dia,
passaram, contentando-me em promovê-la;
mas o negócio e o preconceito, à cautela,
em lugar de dar apoios só me dava arrelia.
Vi-me pobre comerciante cheio de enganos,
e que me era negada a boa intenção,
como se a não tivera merecida.
Começaria a servir outros sete anos,
dizendo: — e mais serviria, se não fora
para tão longo esforço tão maior a dívida!
domingo, setembro 19, 2010
Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 25
Constantino Kavafis.
ÍTACA
Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos para que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Que nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon te assustem!
No teu caminho jamais os encontrarás
se altivo for teu pensamento,
se subtil emoção tocar o teu corpo e o teu espírito.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon, hás de ver
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais com que prazer, com que alegria,
tu hás-de entrar pela primeira vez num porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas coisas mercandejar.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades peregrinas do Egipto irás
para aprender, para aprenderes dos que sabem.
Tem Ítaca todo o tempo na tua mente,
estás predestinado a lá chegar.
Mas não apresses nunca a viagem!
Melhor será se muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha já enfim velho.
Rico de quanto ganhaste no caminho
sem esperar pelas riquezas que Ítaca te venha a dar.
Uma bela viagem te levará a Ítaca,
se não for assim, não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre a ela dar-te.
Ítaca não te iludirá
se a achares pobre,
foste tu que te tornaste sábio,
um homem de experiência.
E, então, sabes!
quinta-feira, setembro 16, 2010
poemas cucos - 24
Sophia de Mello Breyner Andersen
CANTATA DA PAZ e da luta
Vimos, ouvimos e lemos,
não pudemos ignorar.
Vimos, ouvimos e lemos,
não fugimos a lutar
Vimos, ouvimos e lemos
relatos de muitas fomes,
caminhos de tanta injustiça,
a linguagem do terrorismo.
A bomba de Hiroshima
foi crime hediondo que não esquecemos,
e tudo reduziu a cinzas,
homens, mulheres, crianças
De África e do Vietname
chegou-nos revolta e esperança,
e o grito de povos destroçados
deu força e confiança à nossa luta.
Nada conseguiu apagar ou apagará
o concerto e a fúria do nosso brado,
a nossa idade foi a da solidariedade,
o nosso tempo continua e continuará.
terça-feira, setembro 14, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 23 (Sophia)
CANTATA DA PAZ e da luta
Vimos, ouvimos e lemos,
não pudemos ignorar.
Vimos, ouvimos e lemos,
não fugimos a lutar
Vimos, ouvimos e lemos
relatos de muitas fomes,
caminhos de tanta injustiça,
a linguagem do terrorismo.
A bomba de Hiroshima
foi vergonha de nós todos,
e tudo reduziu a cinzas,
homens, mulheres, crianças
De África e do Vietname
chegou-nos revolta e esperança,
e o grito de povos destroçados
deu força e confiança à nossa luta.
Nada conseguiu apagar ou apagará
o concerto e a fúria do nosso brado,
a nossa idade foi a da solidariedade,
o nosso tempo continua e continuará.
segunda-feira, setembro 13, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 22 (palavras de cuco)
De todo o modo, troca-se* uma letra, e tudo muda.
Pois se muda a moda com o modo!,
As palavras são volúveis, as palavras são solúveis.
(troquei - ou truquei? - os vês pelos esses,
e há quem troque os bês pelos vês,
Em vez de um o põe-se um a, e passa o outro a ser a outra.
Soma-se uma letra (pode ser a - ah, pode? há pode! -) e,
.
apenas com palavras tudo fica por fazer
.

“What do you read, my lord?”
“ Words, words, words.”
.
Moral para o mural da estória, que não tem História:
Shakespereana foto aposta, fica posto o fa(c)to*** feito.
* - Não se muda, cambia-se se for de câmbio a letra.
** - Ah!, vem bista esta, não esta´?
*** - Quando acordo eu para o acordo ortográphico?
domingo, setembro 12, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 21 (Eugénio de Andrade)
Mas agora – agorinha mesmo – decidiu-se. Há um poeta que fez um poema sobre as palavras que é incucável. Porque é… perfeito!, e no que é perfeito não se toca, nem com uma palavra a mais, ou a menos, ou outra.
Ele, esse poema de Eugénio de Andrade, aí vai.
AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Mas depois, e porque é incorrigível, o cuco-que-sou-eu resolveu também publicar uma coiseca que escreveu, numa hora em que lhe deu para isso, sobre as palavras. No entanto, não teve o atrevimento de colocar entre essas palavras que aí ficam. Talvez amanhã…
sábado, setembro 11, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 20 (António Jacinto e Manuel da Fonseca)
e de Manuel da Fonseca (para acabar…)
Os grandes desafios
Naquele tempo,
a malta vinha do liceu,
punha os livros no chão,
a fazerem de balizas,
os que usavam calças compridas arregaçavam-nas,
os que usavam ainda calções não precisavam…
e no pátio das traseiras da mercearia do pai do Alfeu
(ó Alfeu abre o cu que lá vou eu!
como a malta toda ria… )
a malta fazía grandes desafios!
Naquele tempo,
os que vinhamos a férias (e grandes eram as férias…)
juntávamo-nos no largo da igreja
com os que cá viviam
e pequenas ou nenhumas férias tinham
(ah!, os óculos escuros do Orlando...),
e íamos jogar bilhar p’ró Central
ou escapávamo-nos para a largueza em frente dos Correios
(ih!, tão larga nos parecia ir ser a avenida e tão estreita é...),
ou para a Feira do Mês,
em frente da cadeia e do César-pele-e-osso dos pássaros,
e que grandes desafios fazíamos
(alguns de nós de pé descalço)
Naquele tempo,
já mais crescidotes mas ainda miúdos,
atreviamo-nos a entrar na divisão das equipas,
escolhidas pé-pisa-pé e os últimos iam para as balizas,
ali à Praça da Sardinha,
e a bola corria de uns para outros,
entre os mais graúdos,
e os pequenotes nem a cheiravam.
Um dia, pois… um dia,
estava eu estrategicamente à defesa - para me defender... -
e vem de lá o Prostes pum, catapum,
trazia tudo a eito,
e eu, atento, à espera dele, a modos de ferrolho,
quase mesmo na baliza,
que eram dois pedregulhos no chão,
e o Prostes por ali acima que p’ra baixo mija a burra,
e viu o puto, em frente dele, cheio de coragem e de medo,
e amandou cá um chuto…
eu levantei a perna com o pé ao fundo,
e foi logo ali, no pé ao fundo da perna,
que a bola acertou em cheio,
rodopiei, uma… talvez duas vezes, antes de me espalhar,
ao comprido - teria aí metro e meio! -... mas não foi golo!,
e o puto que eu era foi muito cumprimentado.
Até pelo Prostes…
Naquele tempo,
naquele tempo havia um campo em S. Sebastião,
num terreno do Silva, pai do Manel Alho,
para o filho jogar à bola com os amigos,
e eram o Xico Marques, o Zéquita, o Jacinto,
o Roque, o Zé Fonseca,
e o Manel, claro, que jogava à baliza...
e porque era o dono do campo.
Ah, que jogatanas que eu vi e queria imitar,
com os meus pezinhos citadinos a fintar toda a malta
no terreiro em frente do Xico Santo Amaro (pai)
com bola de meia ou bexiga de porco.
Depois, depois o Alho foi p’ró Brasil, outros para Angola,
e o sr. Silva mandou lavrar o campo
qu’inda dava uns alqueires.
Mas o que estavam na calha não se calaram:
carta p’ró Brasil (p’ra Londrina), carta do Brasil p’ra cá
- p’ró sr. Silva e a modos que ralhando… -
e voltámos a ter campo em S. Sebastião.
Como eu me lembro de ter ido buscar as balizas
à serração do Vieira em Pinhel!,
e de andar a tirar as pedras maiores
que tinham resistido ao tractor da Senhora Câmara.
antes da re-inauguração contra o Seiça.
Que grande desafio,
ó Amílcar, ó Manel Dias, ó Barreira, ó Félix!
Que grande desafio! (ganhámos, sim senhor…)
Depois, depois foram anos e anos,
naquele tempo
de passar os domingos aos chutos,
em sessões contínuas.
Saltava uma bola, trazida de Lisboa,
e era ver a malta que descia a encosta da Atouguia,
(e se era bonito de ver!,
com os olhos com que hoje vejo o ontem)
Foi também o tempo do Xico Santo Amaro filho,
e de jogar com filhos (e netos!)
dos primeiros com quem joguei.
Grandes desafios!
Naquele tempo,
ainda naquele tempo,
trouxe gente e equipas a cá jogar,
a S. Sebastião e ao Lagarinho, lá em baixo,
antes da Caridade que inaugurámos
com jogadores de grande nomeada,
o senhor Vasques, o senhor Rogério
e mais outros que tais. Internacionais!
E agora?
Agora é a estrada da Alvega onde era o campo de S. Sebastião,
na Caridade jogam os outros e nós só raro os vemos,
agora, temos idade, saudades e algumas (muitas) mazelas.
Meus companheiros de bola de trapo e pé descalço
como o tempo passou!
Cabeças brancas ou sem cabelos, barrigas redondas;
escrevendo no Deve e Haver da vida,
somando somando,
somando anos e anos
Na vila quieta,
sem vida
sem nada
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha de Almadanim?! -
Ó meus amigos desgraçados,
se a vida é curta e a morte infinita,
despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Prostes pum-catapum, e os Águias e as balizas às costas,
e o basquete dos Bombeiros e o hóquei do Atlético,
e a Banda que foi a Vigo, e a excursão que veio de Lisboa.
Ah!, meus companheiros de bola de trapo e pé descalço
como o tempo passou...
Cabelos brancos, ou onde é que eles vão,
redondas barrigas, andar arrastado.
no livro dos assentos da vida,
somando somando,
somando anos e anos,
lembrando casos de ontem,
esquecendo coisas de hoje
Na vila quieta,
sem vida
sem nada
- onde estão os dias amarelos verdes azuis encarnados?,
onde está aquela alegria antiga, os berros de golo?,
os gritos de toma lá que já almoçaste/merda que me aleijaste?
Ó meus amigos desgraçados,
se a vida é curta e a morte infinita,
despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era jogar com bola de trapo e pé descalço.
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!
sexta-feira, setembro 10, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 19 (Brecht)

Há homens que um dia passaram por Ourém, são os turistas;
Há outros que viveram em Ourém uns tempos
- ou a vida toda tivesse sido… -
Há aqueles que nasceram em Ourém, são os nativos;
Há, destes, os que ficaram por Ourém,
Há, ainda destes,
Houve um senhor que não gostava mesmo nada
Há agora outros que trazem Ourém no discurso demagógico
Há aqueloutros que parece terem raízes nas terras de Ourém,
quarta-feira, setembro 08, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 17 (Miguel Torga)
Com Miguel Torga e, de Os Caminhos do Homem, de Dies Irae.
Porquê a dúvida gosta/gostava (atenção: só em relação ao poema "cucado")?
Porque, ao "traduzi-lo", ao "cucá-lo", o cuco tem a ideia de que virou o poema do avesso.
ou
As angústias paradas
Não apetece cantar e ninguém canta;
só apetece chorar e tanta gente chora.
O desemprego aponta
o dedo do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar e alguém grita;
apetece emigrar, e tanta gente foge.
Há uma política que imita
o futuro ao que é o dia de hoje.
Apetece morrer e alguém morre.
apetece matar e há gente que mata.
O fantasma da dívida percorre
os motins onde a raiva se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades que enferrujam.
Como nos enganam com a vida que não temos!,
e a ira calada dos que não lutam!
quinta-feira, setembro 02, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 16 (Alberto Caeiro)
À maneira de
Fernando Pessoa-Alberto Caeiro
Ao entardecer, sentado nesta pedra,
vendo o sol, ao longe, a esconder-se
por detrás das casas esparsas e dos morros,
sabendo dos Castelos nas minhas costas,
quero ler até me arderem os olhos
o livro de Cesário Verde.
Como Caeiro, tenho pena dele!
O nosso poeta era um camponês
que andava pela cidade qual preso em liberdade.
Mas o modo como olhava para os prédios,
e o sem jeito com que pisava as calçadas,
e a sua maneira de lidar com as coisas,
e, mais que tudo, a poesia que fazia,
são de quem vê os passantes como gente,
de quem ao rés olha para as casas ao rés dos olhos,
de quem procura as árvores,
de quem mira e admira os caminhos que os pés caminham
(que o caminho se faz ao caminhar, dizia Machado…),
de quem repara nas flores
e ouve os ruídos levantados nos descampados…
Por isso, tinha ele aquela grande e funda tristeza,
(que nunca disse bem que tinha...),
e andava pela cidade com a saudade de andar pelos campos,
e triste como esmagar borboletas em livros,
como amarrar flores em jarras….
quarta-feira, setembro 01, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 15 (Jacques Brel)
Desta vez, e por causa de umas insónias, aqui vai Brel!

La chanson des vieux amants
(em tempos de insónias)
É verdade que já nada se parece com nada
Que tu perdeste o gosto da provocação
e eu o prazer da conquista
Mas oh, meu amor!
Meu doce
meu maravilhoso amor
Do fim do dia até à clara manhã
eu ainda te amo como antes,
Protejemos menos os nossos mistérios,
deixamos tudo menos a acaso
Desconfiamos mais do que antes era certeza
ou só ignorávamos soberbamente
Ah… e tanto mais talento que é preciso
para sermos velhos sem sermos adultos
Mas oh, meu amor!
Meu doce
meu maravihoso amor
Do fim do dia até à clara manhã
eu ainda te amo como antes,
Setembro
eis que torna setembro e a vindima
eis que o sol brilha alto depois do verão
e eis que os jovens
novamante do chão levantam um novo mundo.
esses jovens cuja idade não importa
que nas mãos trazem o futuro.
e se pode tardar esse futuro, é certo,
tão certo é que começará em setembro.
pedras contra canhões
domingo, agosto 29, 2010
Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 14 (Aragon)
Fou d'Elsa
(nascer segunda vez no meio-dia da vida!)
para que um livro ou um objecto banal deixe de fazer sangrar a ferida aberta.
É um trabalho de paciência ao inverso do tecer da aranha,
é preciso tempo para desenovelar a teia consigo mesmo e com o mundo.
Custa aceitar a morte quando ela é inesperada,
a morte dos jovens para que nada (mas nada!) estávamos preparados.
Quando são os velhos – os da nossa idade – é tão diferente:
não morrem, partem…
E é como, na estação final da vida, num cais, o lenço que se acena num adeus.
Até breve!


