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quarta-feira, novembro 30, 2011

Dias irados

Em tempos, fazia por aqui uns "poemas cucos". Hoje, neste dia de hoje, veio-me à memória - como tantas vezes me acontece - o "Dies Irae" do Miguel Torga (é dos que me acompanham...).
Mas não fiz dele um "poema cuco", hoje virei o poema do avesso. Que me seja perdoado...

DIAS IRADOS

Estes espantalhos levantam
as mãos sujas sobre a nossa hora.
Apetece espantá-los, e alguns espantam:
são os que lutam, os que não vão embora.
//
Um espantalho assusta
todo o futuro com o dia de hoje
Apetece gritar, e há gente que grita.
Mandam emigrar, não quem não foge.
//
Um espantalho insiste
contra os motins qu'a alma alevante
Apetece morrer, mas alguém vive.
Há quem desista, mas também quem cante.
//
Oh! Bendito o tempo em que vivemos,
apesar destas grades enfeitadas
pode ver-se a vida que teremos…
se vencermos angústias paradas!

domingo, agosto 07, 2011

Maiakovski

A "culpa" é do Fernando Campos!, e do seu tão estimulante sítiodosdesenhos.
Este "retrato" do Maiakovski exige divulgação, e o texto que o acompanha faz pensar e desafia.
Queixa-se Fernando Campos de não encontrar muitas traduções de Maiakovski em português. Tem razão.
Mas algumas há. Como um trecho em O Militante de Maio/Junho de 2008, do poema "Vladimir Ilich Lenine", no caderno dedicado a Karl Marx, e que, por ser em versão livre, autoriza a que mais livre ainda tenha passado a ser:

Marx!
Perante nós, sempre a grisalha moldura.
Mas quão longe da imagem foi a sua vera vida,
quando em mármore ou gesso um velho vemos!

Se os operários dão um passo na senda da revolução,
um primeiro passo, um pequeno passo,
oh!, que incrível fogueira se ateia
no coração de Marx e no seu pensamento!

É como se ele em cada fábrica firme se alevantasse,
como se estivesse, calejado, em todas as lutas,
e, em flagrante, ao rapinante da mais-valia o filasse.

Ali, aonde os corpos, trémulos, nem ousavam levantar os olhos
sequer acima do umbigo do patrão, do capitalista,
Marx levou, implacável, a guerra de classes,
contra o bezerro de ouro que a touro não chega.
(...)


segunda-feira, maio 23, 2011

Poemas cucos (ou nem tanto)

Começou por ser, nos idos anos 2008, uma brincadeira com um poema de Brecht.
Saltou-me, agora, aos olhos, numa curva do microsoftword. Não resisti... e dei-lhe mais umas voltas.


Dizem terem-nos dado o direito de votar.
E, em troca, entregámos as nossas armas
(tudo!, até o que armas não era).
Eles fizeram-nos promessas,
e nós demos-lhe as nossas espingardas,
e a nossa confiança,
e as nossas poupanças em impostos tornadas… sem retorno.
(... e ainda lhes demos os votos que eles dizem ter-nos dado!)
E disseram-nos, solenes:
“os que quiserem poderão ajudar-nos,
a partir de hoje, nós teremos a dura tarefa de tomar as decisões,
e vocês farão tudo o resto… para nós”.

Então,
assim nos deixámos enganar,
como tantas vezes na História…
e comportamo-nos como nos foi dito,
sossegados,
respeitadores,
veneradores e obrigados:
está tudo certo!

(até a chuva subir…
se for para cima que ela quiser cair...)

E sempre, e em todos os lugares,
ouvimos dizer
que tudo está nos lugares devidos,
com as devidas dívidas e nada de indevidas dúvidas.
(Pensamento único dá muito jeito!)
Se um mal menor nós aguentamos até dele nos cansarmos,
logo nos será oferecida a prenda de um outro mal igual
ou de um outro mal tal-e-qual,
quando não de um outro mal maior
... ou menor, ou nem por isso.
Tanto faz como fez!

Só neste milénio terceiro da cristã era,
por aqui já convivemos uns mesitos com o beato Guterres,
que veio para não continuarmos a engolir o sapo Cavaco,
apanhámos, a seguir, com um durão Barroso,
para não ter de suportar um ferro Rodrigues.
Mais perto, depois de termos aguentado um santana Lopes,
no lugar que sampaiamente lhe foi concedido e depois retirado,
entregámo-nos a um pragmatófilo e engenheirófobo Sócrates,
e aí tem andado ele,
de parceria com o mesmo Cavaco
de esquecida e má memória,
saltitando os dois
de cooperação estratégica em estratégica descooperação,
cá regressando, recuperados.
à custa de alegres Soares e de sisudos Louçã(s),
e até dançando tangos com passos de Coelho.
Mas eis que a crise se instalou,
como foi previsto e prevenido foi,
e, depois de negada cá por casa,
logo a seguir passou a ter a culpa de tudo e mais alguma coisa.
Lépida e laparamente veio a alternância,
a alternância necessária para que nada se altere;
pela arreata dos banqueiros invadiu-nos, galopando, uma troika,
FMI-CEE-BCE (ió-ié), verdadeiros “reis magos” fora de prazo
para o beija-mão e o braço dado com a troika de cá,
os lusitanos 3 Mosqueteiros e o seu D’Artagnan de Boliqueime
Tudo em troikas e baldroikas
como se não houvesse senões de alternativas … nem eleições!

E aí estamos nós,
desarmados…
mas com as armas nossas que temos nas nossas mãos.

(… e, pasme-se, no entretanto a chuva nunca deixou de cair,
para baixo e não para cima, 
sempre a (es)correr no sentido de sempre,
mais e mais a tombar lá do alto,
às vezes a cântaros, em doses colossais.)

quinta-feira, março 24, 2011

Poemas cucos - sobre a manifestação de 19.03

Esta "cucagem" é especial.
É feita sobre um texto de um tal Pata Negra, que se auto-nomeou Rei dos Leittões, e até se atreveu a candidatar-se a candidato a Presidente da República (e teria feito muito melhor figura que outros que levaram a candidatura até ao fim), escreve umas coisas que merecem ser lidas... e "cucadas".
Esta o comprovará. Fiz-lhe umas pequeníssimas alterações (que, aliás, lhe comuniquei), mudei-lhe a forma porque me pareceu que a valorizava (o que ele nunca faz...), mas todo o mérito é dele.
.
Manifestação de Afecto

Gosto de estar à beira mar,
sentado a observar,
uma a uma,
as pessoas a passar,
de lhes medir os corpos,
de lhes julgar o andar,
de lhes estudar a expressão
e de especular acerca de quem são
e de onde são.

Nada que não se possa fazer,
num descanso de fim de manifestação,
nos Restauradores.

E estava eu ali sozinho,
nesse entretém,
quando uma senhora de 80 anos
(e upa lá…),
de mala de senhora pela curva do braço,
de vestuário bem encaixado na idade,
muito mais baixa que eu
(que não sou alto),
encostou a sua isolação à minha,
e estendeu-me unicamente estas palavras,
assim,
sem mais nem menos,
sem boa tarde,
sem adeus,
ou "quem és tu?":

- Eu nunca vi tanta gente em toda a minha vida!
Ui Jesus, o povo que para aí vai!
Venho lá de cima do Marquês e vem gente de todas as ruas,
a Avenida é uma enchente,
aqui é o que se vê!
Credo Santo nome de Deus!
Em toda a minha vida nunca vi tanta gente!

E,
dito isto,
seguiu,
de passos pequenos mas frequentes,
para o Rossio.
Não faço ideia de onde vinha,
para onde ia,
ou porque estava ali.
Nem sequer interessa se era manifestante,
transeunte,
se ia para sua casa,
que seria logo ali…,
se dava a sua volta habitual,
ou se ia na camioneta p’ró Zambujal!

O que fiquei,
o que eu fiquei mesmo,
foi muito contente
por ter visto aquela senhora entre tanta gente
e,
de entre tanta gente,
ela me ter visto a mim,
e de ambos termos visto tanta gente
como uma senhora nunca viu em 80 anos!

sábado, outubro 23, 2010

Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 28

Hoje é um "poema cuco" especial. "Inspira-se" no Expresso, em Cavaco Silva (vejam lá...) e em Fernando Pessoa, na pessoa propriamente dita.


"Roubado" a

Fernando Pessoa

.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
são lágrimas de Portugal!
Por não te cruzarmos, quantas mães choram,
quantos pescadores já não pescam!
Quantos recursos estão por empregar
por teres deixado de ser nosso, ó mar!

Valeu a pena? Para uns, valeu muito a pena,
porque esse stêm a alma tão pequena.
Nem sequer querem saber se é dor
o que sentem os que sofrem da economia o horror.
Lembra-se do mar o Cavaco, aquele que entristeceu
com o que o império (e ele próprio) entreteceu.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 27 (Shakespeare)

No meio de um texto de economia, aparece-me um soneto de Shakespeare (o 66 e juro que não fui eu que o coloquei lá.
Claro que parei a leitura económica, avaliei a tradução, não me agradou muito, achei que, a partir da ideia e de algumas formulações daquele poema, se poderia fazer muito melhor (sou mesmo pretenciosos...) e vai daí "cuquei" (ainda espreitei o Vasco Graça Moura, mas já estava embalado na minha "cuquice"), a começar por transformar em soneto o que tinha apenas 11 versos...



"à maneira" de

Shakespeare
(soneto 66)
.
Se fatigado de tudo, tudo me leva a implorar a morte,
se farto estou de ver a inocência mendigar,
de ver o que é vulgar em luxo se esparramar,
de como é atraiçoada a mais pura lealdade.

Se farto de ver como é violentamente violada a virgindade,
de ver como são partidas e repartidas as honrarias,
de como os valores são mutilados pelas brutas tiranias
de como a bondade da verdade é pela mentira difamada,

Se farto de ver a inspiração e arte ser amordaçada,
de ver arvorada em profeta e sábia a estupidez,
de como o bem-querer é cativo e do mal-fazer servidor.

Se fatigado de ver tudo isto estou, desistiria talvez
mas… apesar de cansado, magoado, ferido, suporto bem a dor
porque cansado de lutar não estou, e continuar a lutar vou!

segunda-feira, setembro 27, 2010

Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 26

Para "cucar" Camões é preciso atrevimento. E coragem.
Como para servir Jacob por causa de Lia, como para abrir uma livraria como espaço de cultura. Só com alguns (muitos) grãos de loucura numa terra que eu cá sei.


Aproveitando


Luiz de Camões


Sete anos de comerciante aqui eu servi
a vender livros, via para cultura, tarefa bela;
mas não servi ao comércio, servi a ela,
que ela só por prémio pretendi.

Os dias, na esperança de um só dia,
passaram, contentando-me em promovê-la;
mas o negócio e o preconceito, à cautela,
em lugar de dar apoios só me dava arrelia.

Vi-me pobre comerciante cheio de enganos,
e que me era negada a boa intenção,
como se a não tivera merecida.

Começaria a servir outros sete anos,
dizendo: — e mais serviria, se não fora
para tão longo esforço tão maior a dívida!

domingo, setembro 19, 2010

Poemas cucos (e outras coisas cucas) - 25

Desta vez, o "cuco" viajou. Foi visitar o "ninho" deste que "cucou"...



Traduzido "à maneira"
de
Constantino Kavafis.

ÍTACA

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos para que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Que nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon te assustem!
No teu caminho jamais os encontrarás
se altivo for teu pensamento,
se subtil emoção tocar o teu corpo e o teu espírito.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Poseidon, hás de ver
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.

Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais com que prazer, com que alegria,
tu hás-de entrar pela primeira vez num porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas coisas mercandejar.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
e perfumes sensuais de toda espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades peregrinas do Egipto irás
para aprender, para aprenderes dos que sabem.
Tem Ítaca todo o tempo na tua mente,
estás predestinado a lá chegar.

Mas não apresses nunca a viagem!
Melhor será se muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha já enfim velho.
Rico de quanto ganhaste no caminho
sem esperar pelas riquezas que Ítaca te venha a dar.
Uma bela viagem te levará a Ítaca,
se não for assim, não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre a ela dar-te.
Ítaca não te iludirá
se a achares pobre,
foste tu que te tornaste sábio,
um homem de experiência.
E, então, sabes!

Então, sabes o que significam Ítacas.


in (mais ou menos...) O Quarteto de Alexandria

quinta-feira, setembro 16, 2010

poemas cucos - 24

Para cuco... cuco e meio! Obrigado a quem me chamou a atenção cá para uma vergonha que não temos


À maneira de
Sophia de Mello Breyner Andersen


CANTATA DA PAZ e da luta

Vimos, ouvimos e lemos,
não pudemos ignorar.
Vimos, ouvimos e lemos,
não fugimos a lutar

Vimos, ouvimos e lemos
relatos de muitas fomes,
caminhos de tanta injustiça,
a linguagem do terrorismo.

A bomba de Hiroshima
foi crime hediondo que não esquecemos,
e tudo reduziu a cinzas,
homens, mulheres, crianças

De África e do Vietname
chegou-nos revolta e esperança,
e o grito de povos destroçados
deu força e confiança à nossa luta.

Nada conseguiu apagar ou apagará
o concerto e a fúria do nosso brado,
a nossa idade foi a da solidariedade,
o nosso tempo continua e continuará.

terça-feira, setembro 14, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 23 (Sophia)

Gosto de ler Sophia. Assim, com ph positivo! E não me inibo a mudar-lhe o tempo dos verbos (e não só), trazendo para hoje o que ela cantou ontem, como esta Cantata da Paz, de que o Francisco Fanhais fez canção. Vou "cucá-los" (aliás, de cada vez que a canta, o Xico Fanhais... "cuca")!




À maneira de
Sophia de Mello Breyner Andersen

CANTATA DA PAZ e da luta

Vimos, ouvimos e lemos,
não pudemos ignorar.
Vimos, ouvimos e lemos,
não fugimos a lutar

Vimos, ouvimos e lemos
relatos de muitas fomes,
caminhos de tanta injustiça,
a linguagem do terrorismo.

A bomba de Hiroshima
foi vergonha de nós todos,
e tudo reduziu a cinzas,
homens, mulheres, crianças

De África e do Vietname
chegou-nos revolta e esperança,
e o grito de povos destroçados
deu força e confiança à nossa luta.

Nada conseguiu apagar ou apagará
o concerto e a fúria do nosso brado,
a nossa idade foi a da solidariedade,
o nosso tempo continua e continuará.



segunda-feira, setembro 13, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 22 (palavras de cuco)

Depois do senhor José Fontinha, o poeta EuGénio de apelido de Andrade, fica-se sem palavras (ou só com cem?...). Depressa os atrevidos recuperam. Fazendo-se engraçados...



À maneira do
CUCO
(a divertir-se)



Palavra? Ou palavras, ou letras?
Palavra d’honra!
Sem palavras dizem uns, com cem palavras escrevem outros…
De todo o modo, troca-se* uma letra, e tudo muda.
Pois se muda a moda com o modo!,
ou será que muda o modo com a moda?
As palavras são volúveis, as palavras são solúveis.
(troquei - ou truquei? - os vês pelos esses,
e há quem troque os bês pelos vês,
e bice-versa ou vice-bersa**... )
Em vez de um o põe-se um a, e passa o outro a ser a outra.
Soma-se uma letra (pode ser a - ah, pode? há pode! -) e,
por mor do amor,
num nó nós nos podemos transformar.
E apalavrar (ou aparvalhar...)
.
Com palavras tudo se pode dizer,
apenas com palavras tudo fica por fazer
(e, ademais, nada de mais rimas em er!)
.
“What do you read, my lord?”
“ Words, words, words.”
.
Moral para o mural da estória, que não tem História:
Não queiras abalar levando a última palavra;
procura abanar fazendo o primeiro gesto.
Shakespereana foto aposta, fica posto o fa(c)to*** feito.
Pré-feito e perfeito! (é como quem diz, ou quem a si dá dez...)
_________________________
* - Não se muda, cambia-se se for de câmbio a letra.
** - Ah!, vem bista esta, não esta´?
*** - Quando acordo eu para o acordo ortográphico?

domingo, setembro 12, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 21 (Eugénio de Andrade)

Não há poeta que escreva sem palavras - a não ser alguns músicos… - e quase todos escreveram e escrevem sobre as palavras. O cuco-que-eu-sou de vez em quando tropeça nas palavras em poemas. A desafiá-lo para cucar. Tem hesitado.
Mas agora – agorinha mesmo – decidiu-se. Há um poeta que fez um poema sobre as palavras que é incucável. Porque é… perfeito!, e no que é perfeito não se toca, nem com uma palavra a mais, ou a menos, ou outra.
Ele, esse poema de Eugénio de Andrade, aí vai.

Eugénio de Andrade

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Mas depois, e porque é incorrigível, o cuco-que-sou-eu resolveu também publicar uma coiseca que escreveu, numa hora em que lhe deu para isso, sobre as palavras. No entanto, não teve o atrevimento de colocar entre essas palavras que aí ficam. Talvez amanhã…

sábado, setembro 11, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 20 (António Jacinto e Manuel da Fonseca)

Para hoje - e porque amanhã é domingo - vou "cucar" dois para acabar esta 2ª série. E que dois!Um, lá do Sul, do nosso Alentejo, e o outro ainda mais do Sul, de Angola. E vou buscá-los (e às palavras que lhes juntei) às memórias que minhas são.
.
À maneira de
António Jacinto (para começar…)
e de Manuel da Fonseca (para acabar…)
.

Os grandes desafios

Naquele tempo,
a malta vinha do liceu,
punha os livros no chão,
a fazerem de balizas,
os que usavam calças compridas arregaçavam-nas,
os que usavam ainda calções não precisavam…
e no pátio das traseiras da mercearia do pai do Alfeu
(ó Alfeu abre o cu que lá vou eu!
como a malta toda ria… )
a malta fazía grandes desafios!

Naquele tempo,
os que vinhamos a férias (e grandes eram as férias…)
juntávamo-nos no largo da igreja
com os que cá viviam
e pequenas ou nenhumas férias tinham
(ah!, os óculos escuros do Orlando...),
e íamos jogar bilhar p’ró Central
ou escapávamo-nos para a largueza em frente dos Correios
(ih!, tão larga nos parecia ir ser a avenida e tão estreita é...),
ou para a Feira do Mês,
em frente da cadeia e do César-pele-e-osso dos pássaros,
e que grandes desafios fazíamos
(alguns de nós de pé descalço)

Naquele tempo,
já mais crescidotes mas ainda miúdos,
atreviamo-nos a entrar na divisão das equipas,
escolhidas pé-pisa-pé e os últimos iam para as balizas,
ali à Praça da Sardinha,
e a bola corria de uns para outros,
entre os mais graúdos,
e os pequenotes nem a cheiravam.
Um dia, pois… um dia,
estava eu estrategicamente à defesa - para me defender... -
e vem de lá o Prostes pum, catapum,
trazia tudo a eito,
e eu, atento, à espera dele, a modos de ferrolho,
quase mesmo na baliza,
que eram dois pedregulhos no chão,
e o Prostes por ali acima que p’ra baixo mija a burra,
e viu o puto, em frente dele, cheio de coragem e de medo,
e amandou cá um chuto…
eu levantei a perna com o pé ao fundo,
e foi logo ali, no pé ao fundo da perna,
que a bola acertou em cheio,
rodopiei, uma… talvez duas vezes, antes de me espalhar,
ao comprido - teria aí metro e meio! -... mas não foi golo!,
e o puto que eu era foi muito cumprimentado.
Até pelo Prostes…

Naquele tempo,
naquele tempo havia um campo em S. Sebastião,
num terreno do Silva, pai do Manel Alho,
para o filho jogar à bola com os amigos,
e eram o Xico Marques, o Zéquita, o Jacinto,
o Roque, o Zé Fonseca,
e o Manel, claro, que jogava à baliza...
e porque era o dono do campo.
Ah, que jogatanas que eu vi e queria imitar,
com os meus pezinhos citadinos a fintar toda a malta
no terreiro em frente do Xico Santo Amaro (pai)
com bola de meia ou bexiga de porco.

Depois, depois o Alho foi p’ró Brasil, outros para Angola,
e o sr. Silva mandou lavrar o campo
qu’inda dava uns alqueires.
Mas o que estavam na calha não se calaram:
carta p’ró Brasil (p’ra Londrina), carta do Brasil p’ra cá
- p’ró sr. Silva e a modos que ralhando… -
e voltámos a ter campo em S. Sebastião.

Como eu me lembro de ter ido buscar as balizas
à serração do Vieira em Pinhel!,
e de andar a tirar as pedras maiores
que tinham resistido ao tractor da Senhora Câmara.
antes da re-inauguração contra o Seiça.
Que grande desafio,
ó Amílcar, ó Manel Dias, ó Barreira, ó Félix!
Que grande desafio! (ganhámos, sim senhor…)

Depois, depois foram anos e anos,
naquele tempo
de passar os domingos aos chutos,
em sessões contínuas.
Saltava uma bola, trazida de Lisboa,
e era ver a malta que descia a encosta da Atouguia,
(e se era bonito de ver!,
com os olhos com que hoje vejo o ontem)
Foi também o tempo do Xico Santo Amaro filho,
e de jogar com filhos (e netos!)
dos primeiros com quem joguei.

Grandes desafios!

Naquele tempo,
ainda naquele tempo,
trouxe gente e equipas a cá jogar,
a S. Sebastião e ao Lagarinho, lá em baixo,
antes da Caridade que inaugurámos
com jogadores de grande nomeada,
o senhor Vasques, o senhor Rogério
e mais outros que tais. Internacionais!

E agora?
Agora é a estrada da Alvega onde era o campo de S. Sebastião,
na Caridade jogam os outros e nós só raro os vemos,
agora, temos idade, saudades e algumas (muitas) mazelas.

Meus companheiros de bola de trapo e pé descalço
como o tempo passou!
Cabeças brancas ou sem cabelos, barrigas redondas;
escrevendo no Deve e Haver da vida,
somando somando,
somando anos e anos

Na vila quieta,
sem vida
sem nada
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha de Almadanim?! -
Ó meus amigos desgraçados,
se a vida é curta e a morte infinita,
despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Prostes pum-catapum, e os Águias e as balizas às costas,
e o basquete dos Bombeiros e o hóquei do Atlético,
e a Banda que foi a Vigo, e a excursão que veio de Lisboa.

Ah!, meus companheiros de bola de trapo e pé descalço
como o tempo passou...
Cabelos brancos, ou onde é que eles vão,
redondas barrigas, andar arrastado.
no livro dos assentos da vida,
somando somando,
somando anos e anos,
lembrando casos de ontem,
esquecendo coisas de hoje
Na vila quieta,
sem vida
sem nada
- onde estão os dias amarelos verdes azuis encarnados?,
onde está aquela alegria antiga, os berros de golo?,
os gritos de toma lá que já almoçaste/merda que me aleijaste?
Ó meus amigos desgraçados,
se a vida é curta e a morte infinita,
despertemos e vamos
Eia!
Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era jogar com bola de trapo e pé descalço.
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

sexta-feira, setembro 10, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 19 (Brecht)

Para hoje, apeteceu-me "cucar" Brecht. Como tantas vezes, mas para hoje, como é num regresso ao fim do dia, com este...





"À maneira de"
Bertold Brecht

Há homens que um dia passaram por Ourém, são os turistas;
Há outros que viveram em Ourém uns tempos
- ou a vida toda tivesse sido… -
como se fosse algures, são os passantes;
Há aqueles que nasceram em Ourém, são os nativos;
Há, destes, os que ficaram por Ourém,
- como teriam ficado noutra terra qualquer -,
são os de "origem controlada" (palhetes);
Há, ainda destes,
os muitos que, de Ourém, partiram para Franças e Araganças,
são os nossos emigrantes;
Houve um senhor que não gostava mesmo nada
(para não dizer mais!) de Ourém e dos oureenses,
foi Presidente da Câmara de Ourém;
Há agora outros que trazem Ourém no discurso demagógico
e – talvez… – nas intenções,
são os que tomaram de assalto (eleitoral) o poder em Ourém.
Há aqueloutros que parece terem raízes nas terras de Ourém,
e aqui escolheram viver, são os oureenses!
(são muitos e de várias espécies...)

quarta-feira, setembro 08, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 17 (Miguel Torga)

O cuco voltou.
E com um poeta de que gosta muito e um poema de que muito gosta (gostava!?).
Com Miguel Torga e, de Os Caminhos do Homem, de Dies Irae.
Porquê a dúvida gosta/gostava (atenção: só em relação ao poema "cucado")?
Porque, ao "traduzi-lo", ao "cucá-lo", o cuco tem a ideia de que virou o poema do avesso.


À maneira de
Miguel Torga
Os Dias da Ira
ou
As angústias paradas


Não apetece cantar e ninguém canta;
só apetece chorar e tanta gente chora.
O desemprego aponta
o dedo do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar e alguém grita;
apetece emigrar, e tanta gente foge.
Há uma política que imita
o futuro ao que é o dia de hoje.

Apetece morrer e alguém morre.
apetece matar e há gente que mata.
O fantasma da dívida percorre
os motins onde a raiva se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades que enferrujam.
Como nos enganam com a vida que não temos!,
e a ira calada dos que não lutam!

quinta-feira, setembro 02, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 16 (Alberto Caeiro)

Desta vez, o "cuco" abusou (e alguma vez não o fez?).
Não se limitou a um poeta, a um autor, a um nome. De uma vezada, desculpando-se com as contas que deus fez, tirou ovos que eram de três e, se virmos bem, ainda de mais um, que se esconde ou disfarça com desfaçatez.
Foi-se ao livro de Helder Macedo,que é uma leitura de Cesário Verde (e que leitura!), e retirou de lá o poema de Alberto Caeiro (que é o sr. Fernando Pessoa heteronimado) e (mal)tratou todos. Também ninguém levará a mal ao pobre "cuco" (que sou eu...). Porque é por bem, e com muito respeito por todos.


À maneira de
Fernando Pessoa-Alberto Caeiro
Ao entardecer, sentado nesta pedra,
vendo o sol, ao longe, a esconder-se
por detrás das casas esparsas e dos morros,
sabendo dos Castelos nas minhas costas,
quero ler até me arderem os olhos
o livro de Cesário Verde.

Como Caeiro, tenho pena dele!
O nosso poeta era um camponês
que andava pela cidade qual preso em liberdade.
Mas o modo como olhava para os prédios,
e o sem jeito com que pisava as calçadas,
e a sua maneira de lidar com as coisas,
e, mais que tudo, a poesia que fazia,
são de quem vê os passantes como gente,
de quem ao rés olha para as casas ao rés dos olhos,
de quem procura as árvores,
de quem mira e admira os caminhos que os pés caminham
(que o caminho se faz ao caminhar, dizia Machado…),
de quem repara nas flores
e ouve os ruídos levantados nos descampados…

Por isso, tinha ele aquela grande e funda tristeza,
(que nunca disse bem que tinha...),
e andava pela cidade com a saudade de andar pelos campos,
e triste como esmagar borboletas em livros,
como amarrar flores em jarras….

quarta-feira, setembro 01, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 15 (Jacques Brel)

Depois de uns poemas integralmente "cucados", voltemos ao atrevimento de remendar poemas de outros. Com enorme respeito e admiração pelos autores... mas "ajeitando-os". À cuco.
Desta vez, e por causa de umas insónias, aqui vai Brel!



"à maneira de"
BREL


La chanson des vieux amants
(em tempos de insónias)

É verdade que já nada se parece com nada
Que tu perdeste o gosto da provocação
e eu o prazer da conquista

Mas oh, meu amor!
Meu doce
meu suave
meu maravilhoso amor
Do fim do dia até à clara manhã
eu ainda te amo como antes,
tu sabes...,
eu amo-te!

Protejemos menos os nossos mistérios,
deixamos tudo menos a acaso
Desconfiamos mais do que antes era certeza
ou só ignorávamos soberbamente
Ah… e tanto mais talento que é preciso
para sermos velhos sem sermos adultos

Mas oh, meu amor!
Meu doce
meu suave
meu maravihoso amor
Do fim do dia até à clara manhã
eu ainda te amo como antes,
tu sabes...,
eu amo-te!

Setembro

setembro

eis que torna setembro e a vindima
eis que o sol brilha alto depois do verão
e eis que os jovens
novamante do chão levantam um novo mundo.

esses jovens cuja idade não importa
que nas mãos trazem o futuro.

e se pode tardar esse futuro, é certo,
tão certo é que começará em setembro.

pedras contra canhões

domingo, agosto 29, 2010

Poemas cucos* (e outras coisas cucas) - 14 (Aragon)

Aragon. Um dos meus poetas! A Festa do L'Humanité de 1972, em que foi lançado Ferrat chante Aragon (Le malheur d'aimer ou ... a felicidade de ter vivido o momento!).
Como não o "cucar"? De uma coisa linda chamada Il ne m'est Paris que d'Elsa, tirei um excerto e adaptei-o à minha maneira, ao meu momento.


À maneira de
Louis Aragon

Fou d'Elsa
(nascer segunda vez no meio-dia da vida!)

É preciso tempo para que as imagens que são tomem o lugar das que foram,
para que um livro ou um objecto banal deixe de fazer sangrar a ferida aberta.
É um trabalho de paciência ao inverso do tecer da aranha,
é preciso tempo para desenovelar a teia consigo mesmo e com o mundo.
Custa aceitar a morte quando ela é inesperada,
a morte dos jovens para que nada (mas nada!) estávamos preparados.
Quando são os velhos – os da nossa idade – é tão diferente:
não morrem, partem…
E é como, na estação final da vida, num cais, o lenço que se acena num adeus.
Até breve!