sexta-feira, janeiro 04, 2019

avante!, pela PAZ


páginas de um quase-diário:

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Entre as tarefas militantes, de militante assumido, com cartão e quotas em dia, há uma que considero indispensável, embora muito… dispensada.

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Há que comprar o avante!, há que o vender avulso ou em vendas-campanhas… mas há que o ler, sozinho ou/e em colectivo!


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Desta vez (como de muitas outras que vão ficando nos tinteiros… e não os da impressora), por culpa do Manelito de Brigada.

 
- Edição Nº2353  -  3-1-2019

Concerto de Ano Novo

No dia 1 de Janeiro de 2019, onde quer que haja uma orquestra disponível, haverá Concerto de Ano Novo. No mundo lá fora e no mais chegado Portugal. Aqueles que não disponham de orquestra ao pé de casa terão sempre a hipótese de, à distância, ter uma ideia da celebração que todos os anos acontece na casa da Filarmónica de Viena, através da transmissão televisiva para todo o mundo.
O primeiro Concerto de Ano Novo da História subiu ao palco da Musikvereinssaal em 1939. Um ano antes – lê-se na página electrónica da Filarmónica de Viena – «os Nacional-Socialistas demitiram todos os artistas judeus da Ópera Estatal de Viena e dissolveram a Associação da Filarmónica de Viena. Só a intervenção de Wilhelm Furtwängler e de outros responsáveis viria a conseguir a anulação da ordem de dissolução e, com duas excepções, salvar da expulsão os “meio-judeus” e “intimamente relacionados”. Cinco membros da orquestra morreram em campos de concentração nazis, outros dois morreram em Viena em resultado directo da tentativa de deportação e perseguição. Nove músicos foram expulsos, partindo para o exílio, onze membros da orquestra, casados com mulheres judias ou estigmatizados como “meio judeus”, permaneceram, sob a constante ameaça de revogação da “autorização especial”. Em 1942, sessenta dos 123 músicos da Orquestra eram membros do partido nazi.»
É, portanto, numa Áustria em desagregação, numa Europa à beira da guerra, que o primeiro Concerto de Ano Novo acontece. Mesmo assim, a Música que ali foi soando, de 1939 a 1945, nunca deixou de ser um assomo de Civilização na escuridão da barbárie, um elemento de Humanidade de que o nazismo se quis apropriar, mas não conseguiu. A música dos Strauss que soou naqueles anos macabros sobreviveria à apropriação nazi, por ser produto da Humanidade, não a sua negação.
Por isso permanece nos nossos dias em cada Concerto de Ano Novo que, na sala vienense e nas do mundo inteiro, é testemunho de inteligência, de partilha e de celebração da vida que desponta simbolicamente neste hemisfério a caminho da Primavera.
À batuta inicial de Clemens Krauss viriam a suceder-se muitas mais: Herbert von Karajan, Claudio Abbado, Carlos Kleiber, Zubin Mehta, Ricardo Muti, Nikolaus Harnoncourt, Seiji Ozawa, Mariss Jansons, Georges Prêtre, Daniel Barenboim, Franz Welser-Möst, Gustavo Dudamel e, neste 2019, Christian Thielemann – gente de muitas origens e credos, como que recusando a memória segregacionista inicial.
Mas as feridas grandes tardam a sarar. Queixam-se os responsáveis da orquestra vienense de que, ainda hoje, as denúncias públicas do passado nazi da Filarmónica insistem em preceder o Concerto de Ano Novo. Injusto lamento. Recordar as vítimas que a Wiener Philharmoniker ajudou a gerar é, certamente, a melhor forma de garantir que o Concerto de Ano Novo nunca deixe de ser um instrumento de Paz.
Manuel Pires da Rocha

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Não digo, de maneira nenhuma, que cada um de nós deva ler todo o avante!, as 32 páginas, mas sim que o folheie cada semana, e se detenha naquelas que mais lhe digam e onde encontre o que quer ouvir e saber, e de que é contaminado – dia-a-dia, hora-a-hora – pelos olhos e ouvidos.

1º de Janeiro de 2019, Viena - O  Danúbio Azul, Strauss