Mostrar mensagens com a etiqueta Dias Coelho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dias Coelho. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 19, 2021

Dia 19 de Dezembro

 Desde 2007, tempo em que neste blog as visitas se multiplicavam por 10 em relação às de hoje (nunca pensei concorrer com o facebook, e só anoto como um sinal muito para além deste blog e da perda de interesse que terá vindo a ter com o correr dos anos), pois - dizia eu... - desde 2007, neste blog há uma palavra, uma canção, um desenho, a foto de uma estatueta ou de um quadro, uma transcrição de texto de outros ou minha, marcando a efeméride Dias Coelho - José Dias Coelho, Pinhel 1923-Rua (hoje José Dias Coelho) 19.12.1961 -, procurando gravar o que não pode ser efémero, a luta em que alguns caíram quando a levavam para lá dos limites ou o inimigo lhes roubava a vida, a luta que continua.

60 é um número redondo. Tinha José Dias Coelho 38 anos (e eu, que o esperava na esquina de uma rua onde não deixaram que ele chegasse, 25). Quanto de vida lhe roubaram os assassinos!, e como nos envergonha (foi das primeiras provas evidentes de que não pode haver tréguas nesta luta) não ter, simplesmente, sido feita justiça no julgamento dos assassinos em 1976 e no recurso de 1977.

Este ano, trago o belíssimo texto de Mário Castrim, no seu Canal da Crítica de 25.11.1976, no Diário de Lisboa:





sábado, dezembro 18, 2021

sábado, dezembro 19, 2020

Foi num dia assim...

 Foi num dia assim, há 59 anos, na Rua da Creche, ao Calvário, hoje Rua Dias Coelho.

... como se fosse hoje...



quinta-feira, dezembro 19, 2019

JOSÉ DIAS COELHO - 19.12.1961 (assassinado aos 38 anos)




No julgamento do assassino de José Dias Coelho (e seus cúmplices), em Novembro de 1976, o Tribunal Militar condenou-o em três anos e seis meses de prisão maior no total, sendo levada em conta a prisão preventiva na totalidade 
(um pormenor: antes do 25 de Abril de 1974, os antifascistas que eram condenados pelo Tribunal Plenário a pena maior tinham a prisão preventiva apenas reduzida em metade).
A decisão suscitou (e suscita) a profunda indignação. É absolutamente inaceitável a interpretação de que o réu, ao disparar consciente e voluntariamente uma arma de fogo encostada ao esterno da vítima, perfurando-lhe o coração, não quisesse nem sequer previsse como possível que desse disparo resultasse a morte. 
A condução, num táxi, do corpo agonizante da vítima para o Hospital da CUF, onde foi abandonado sem documentos de identificação, também foi considerada aceitável e normal pelo Tribunal por, inacreditavelmente, os réus ignorarem a identidade da pessoa de cuja captura haviam sido encarregados e assim cumpriam (como cumpriram!) a sua missão!

quarta-feira, dezembro 19, 2018

19 de Dezembro... como desde 1961 - Dias Coelho

Dia José Dias Coelho
como desde há 57 anos!
a ouvir “a morte saiu à rua”
do José Afonso, cantado por Samuel
foto de António Sérgio Galamba, 
em Peniche, "num dia assim"...


domingo, junho 03, 2018

Para este domingo, transformado em único... como alguns dias o são







































do livro de Margarida Tengarrinha,
um livro a ler,
por mim a ser lido e,
nalgumas páginas,
a ser vivido intensamente...

terça-feira, dezembro 19, 2017

Há 56 anos, a morte saiu à rua!



19.12.2017

Poderia não se chamar José Dias Coelho,
não ter 39 anos,
não ser o artista plástico de grande valia,
reconhecida pelos seus pares;
poderia não se ter marcado a reunião
 para aquele dia 19 de Dezembro de 1961.
Poderia não ter tido eu a tarefa do encontro e do transporte,
eu, a dois dias de fazer 26 anos!

Mas… foi assim.
Naquele dia, naquela hora.
E fomos nós!

Fui eu o jovem comunista que esperava o camarada clandestino
- de quem nada sabia
 … nem o nome!…
apenas o tudo de ser o camarada!
O camarada que a PIDE assassinou na rua da Creche,
na rua que hoje tem o seu nome,
foi  José Dias Coelho.

Naquele dia assim “a morte saiu à rua”,
tão perto da rua onde eu o esperava!

Poderia eu esquecer?!


dezembro de 2017

domingo, dezembro 25, 2016

Para este domingo - 3 notas para uma memória com 55 anos

1 - 

A Morte Saiu À Rua

José Afonso

  

A morte saiu à rua num dia assim 
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai 
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte
 o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação






2 -
Todos os anos, desde 1961, este tempo dito de Natal traz consigo uma das  memórias mais vivas, mais fundas, da minha já longa vida, A morte saiu à rua em 19 de Dezembro, naquele lugar com o nome de Rua da Creche (hoje Rua José Dias Coelho), e assassinos  mataram o camarada que eu esperava uma centena de metros antes da esquina em que estava à hora combinada. Depois de dias de ansiedade, no desconhecimento do que acontecera, de busca quase desesperada, soube que o camarada se chamava José António Dias Coelho, que era escultor e que fora "assassinado a tiro em Alcântara, em circunstâncias que continuam por esclarecer e o funeral efectua-se na terça feira, a hora a determinar, do Instituto de Medicina Legal para cemitério a designar" (num jornal de 24 de Dezembro). 
Na terça feira seguinte à de 19 de Dezembro, quando a morte saíra à rua, a 26 de Dezembro de 1961 o corpo de José Dias Coelho desceu à terra que o abraçou.

3 -
A 25 de Abril de 1974, treze anos depois, floriram rosas de uma nação, depois de tantas covas feitas no chão. Seria o tempo de fazer justiça, com o "olho por olho", o "dente por dente" apenas como metáforas. Alguma justiça se fez, muita ficou por fazer. Aos assassinos de Dias Coelho até o louvor do próprio violento aparelho repressivo pelo "feito" (louvor de 27 de Dezembro de 1961!) serviu de atenuante no inacreditável julgamento e sentença do 2º Tribunal Militar, em 1976. 
Transcreve-se, da minuta do recurso à tal sentença, feito pelo advogado Fernando. Luso Soares, entre uma galeria de breves depoimentos, o de quem é hoje, 40 anos depois (e 55 anos depois do assassinato) Presidente da República:
"De um advogado, jornalista e político, Marcelo Rebelo de Sousa, no «Diário de Notícias de 6 de Janeiro de 1977: «Não pode deixar de causar preocupação, em termos políticos gerais, que um regime democrático, ao julgar os agentes de um aparelho repressivo, não seja capaz de julgar, de forma exemplar, o próprio aparelho»" 

adenda (à maneira de assinatura) -
Dedicatória de Fernando Luso Soares no seu livro O Caso Dias Coelho


Para o Camarada e Amigo Sérgio Ribeiro, no 2º dia da "Festa do Avante", com as saudações comunistas muito sinceras, em particular porque referidas, quanto a este opúsculo, à sua "presença" (oculta) neste drama, Lx, 10/9/1977  ass.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

19 de Dezembro de 1961-19 de Dezembro de 2012



A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte
o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

O "lugar sem nome" chama-se,
hoje e desde 1974,
Rua José Dias Coelho.
É preciso que toda a gente saiba porquê!
Dele foram as gotas rubras
que cairam sobre a calçada.

domingo, janeiro 01, 2012

Intervenção de Margarida Tengarrinha na sessão promovida para assinalar os 50 anos do assassinato de José Dias Coelho por agentes da PIDE

odiario publicou a intervenção de Margarida Tengarrinha na sessão realizada nos 50 anos do assassinato de José Dias Coelho.
Já nos referimos, aqui, a essa intervenção. Com o enorme respeito e a admiração que nos suscitou ao ouvi-la. Ao vê-la reproduzida na íntegra, queremos transcrevê-la. Aqui vai, com um nó na garganta e um agradecimento no punho erguido.

José Dias Coelho
- cinquenta anos depois da sua morte

Margarida Tengarrinha

Esta é, com toda a probabilidade, a última vez (sim, a última vez... porque já tenho 83 anos), que participarei numa cerimónia de homenagem ao Zé, recordando-o, neste dia 19 de Dezembro em que foi brutalmente assassinado.
Por isso, e porque o camarada Jerónimo certamente abordará a sua biografia como militante comunista, eu falarei dele num registo mais íntimo: a intimidade criada em mais de uma dezena de anos em que partilhámos desde as lutas estudantis e pela Paz às tarefas comuns, desempenhadas juntos na clandestinidade, de fornecer documentação falsa que defendesse os camaradas da vigilância da PIDE, de procurar renovar graficamente os documentos e a imprensa partidária, de iniciar um arquivo fotográfico do Partido e a partir dele redigir “A Resistência em Portugal’, assim como suportarmos juntos a ausência da família e dos amigos, a dolorosa separação da nossa filha, mas, juntos também, a felicidade do nascimento da mais nova e descobrirmos a alegria das pequenas coisas com um sabor intensificado pela austeridade do dia-a-dia, as festas de amor vividas com a força de não sabermos se, na madrugada seguinte, bateria à nossa porta uma brigada da PIDE a sobressaltar-nos na cama e a separar-nos. A constante ameaça da prisão.
Mas foi muito mais dura do que isso a separação imposta pelo crime que ali, na rua que hoje tem o seu nome, o tomou mais uma vítima do fascismo.
Não o vi depois de morto, só soube da sua morte no dia em que o enterraram. Não fiz, pois, o que se chama “o luto” e por isso arrastei dolorosamente ao longo dos anos coisas por dizer, remorsos por não ter dito, lamentos que não expressei.
Hoje, cinquenta anos passados depois da sua morte, vem-me claramente à ideia aquele livro de Anna Seghers – “Os mortos continuam jovens”. Porque a verdade é que, nem eu, nem ninguém que o conheceu poderá recordá-lo de outra forma que não seja aquele homem na força da vida, jovem e entusiasta. Sim, os mortos continuam jovens e ele, jovem para sempre.
Jovem e “sem vocação para a morte” como disse Eugénio de Andrade no poema “Discurso tardio à Memória de José Dias Coelho”:
"...Morre-se de ter uns olhos de cristal,
morre-se de ter um corpo, quando subitamente
uma bala descobre a juventude
da nossa carne acesa até aos lábios..."
Ou ainda, como o seu grande amigo José Cardoso Pires afirmou na primeira homenagem a José Dias Coelho logo a seguir ao 25 de Abril, na Sociedade Nacional de Belas Artes em 19 de Junho de 1974, dia em que, se fosse vivo, o Zé teria feito 51 anos:
“Sabemos que é um capítulo, ódio ou máscara do medo, a morte imposta aos militantes da liberdade. Mas sabemos igualmente que é dela que o fascismo faz moeda própria e alimento essencial, que onde haja exploração do homem está ela, a morte, disfarçada de comum e natural, e que, irmã traidora da fome, tem na guerra, em todas as guerras, o seu lucro mercenário. (…) É a morte, morte, sempre a morte, que aparece como exibição imperialista de orgulho e de poder. Por isso é que os verdadeiros revolucionários amaram e defenderam a vida com o risco do último sacrifício e entre esses, Dias Coelho, o meu amigo de longe e para sempre. Poucos como ele tiveram tão saudável e empenhado gosto de viver, e raros, raríssimos, usaram de tão serena tolerância no desejo de compreender e lutar”. Assim falou dele o amigo José Cardoso Pires.
E tinha razão, mesmo para além do que directamente conhecia. Gosto de viver, desejo de compreender e de lutar poderia ser uma biografia sintética do Zé.
E de lutar em diversas e variadas lutas, começando pelas suas intimas e não confessadas. Uma batalha que se inicia a partir de dentro de si próprio, entre a sua passividade de artista contemplativo que se expressava nos seus desenhos de uma simplicidade procurada e depurada, as suas “Líricas” e outros desenhos intimistas, mas por outro lado, como defensor activo do neo-realismo, uma arte militante e de combate, uma arte do povo, pelo povo e para o povo, pela qual se exprimiu também em muitos dos seus trabalhos de desenho e escultura.
Foi talvez na gravura “Morte da Catarina Eufémia”, gravura empenhada e revolucionária, mas de um claro lirismo, que melhor conseguiu a difícil simbiose entre o lirismo que lhe era próprio e a arte militante e de combate, que defendia.
Quanto ao seu “desejo de compreender”, o seu desejo de compreender tinha expressão na ideia de que, em qualquer momento da história, qualquer que seja o contesto social e político, é essencial compreender os homens. Foi essa sua característica pessoal que o levou a estabelecer relacionamentos não só com os intelectuais ligados ao Partido Comunista, mas ainda com muitos outros que, fora da organização, aceitavam colaborar em acções comuns, tal como disse o meu irmão, José Manuel Tengarrinha, acentuando que: “o prestígio de Dias Coelho e a confiança que lhes merecia [aos intelectuais sem partido], foi um importante factor de alargamento da frente intelectual antifascista, que nunca permitiu espaço de manobra e de credibilidade aos intelectuais servidores do regime.”
Isto no período da guerra fria e das tentativas de isolamento do Partido Comunista. “É nestas condições [diz o meu irmão], que podemos avaliar as grandes dificuldades do trabalho político desenvolvido por José Dias Coelho e o mérito da sua influência no campo intelectual”.Eu posso testemunhar que, no decurso das várias tarefas e na vida partidária, o Zé nunca abandonou esse desejo de compreender. E assim, nos dois últimos anos da sua vida, foi para ele como que um deslumbramento esclarecedor a alteração crítica à linha do Partido desenvolvida a partir da fuga de Peniche, realizada no dia 3 de Janeiro de 1960.
De facto, desde Janeiro de 1960, mais concretamente a partir da reunião extraordinária de Fevereiro desse ano e, com a aprovação dos documentos “A tendência anarco-liberal na organização do trabalho de direcção” e “O desvio de direita nos anos 1956-1959″, na reunião do Comité Central de Março de 1961, desenvolveu-se em todo o Partido um vivo debate critico (em que nós participámos activamente) ao desvio oportunista de direita e, consequentemente, à errada concepção da possibilidade de derrubamento do fascismo por uma qualquer “solução pacífica”, hipótese que era admitida desde fins dos anos 50 e tornada oficial a partir do V Congresso do Partido, realizado em Setembro de 1957.
A crítica foi dura, mas clara e lógica: - dado o carácter da ditadura fascista, determinada a manter o poder e resistir até ao fim por meio de uma política de repressão feroz, não era possível manter a ilusão de “uma transição pacífica” que vinha a ser admitida no Partido, por influência do chamado “Relatório de Kruchov” e desenvolvimentos posteriores a partir do XX Congresso do PCUS.
A orientação de que o derrubamento do fascismo só poderia ser efectuado por meio de uma solução violenta, uma insurreição popular, a luta do povo em união com os militares revolucionários, vencendo e destruindo o aparelho militar e repressivo fascista, viria ser aprovada no VI Congresso, juntamente com o Programa para a Revolução Democrática e Nacional. Quando o VI Congresso se realizou, em Setembro de 1965, já o Zé tinha morrido e o Congresso prestou-lhe uma sentida homenagem.
A rectificação ao desvio oportunista de direita, sem ilusões de saídas pacíficas, em cuja discussão o Zé participou activamente, deu-lhe a clara consciência do caminho real, muito duro e difícil, que se apresentava pela frente, que havia que assumir e enfrentar - o caminho da prisão e da tortura, da morte e do sangue derramado.
Ele sabia, portanto, os perigos que enfrentava.
Hoje, como então, os oportunismos tiram força à luta e aos combatentes, porque iludem a realidade e não perspectivam nem o caminho, nem apontam claramente os objectivos.
José Dias Coelho deu a vida, consciente dos perigos que enfrentava e certo de que a sua luta conduziria ao Portugal socialista pelo qual, morreu.
19 Dezembro 2011


Obrigado, Margarida!

segunda-feira, dezembro 19, 2011

José Dias Coelho - nos 50 anos do seu assassinato - 6

Fecho o dia de hoje, este dia assim, sem tocar em outro tema. Embora com muito a querer ser dito sobre tanta coisa. Mas, hoje... foi um dia assim.

Corremos da Galiza para Ourém.
Logo depois, deixei que o “expresso” me transportasse a Lisboa. Fui até ao Largo do Calvário, subi a Rua Dias Coelho, e andei por ali a pé, a recuar meio século no “meu tempo”. Pelos mesmos sítios de 19 de Dezembro de 1961, parando onde então parei o carro, caminhando, em caminho inverso, os que teriam sido os passos de José Dias Coelho, reconstituídos no processo dos “pides” que o assassinaram, e que foram louvados em 1961, e que tiveram todas as atenuantes em julgamento e recurso em 1976, incluso a de terem merecido o louvor por terem cumprido a sua missão, assassinando um comunista. Era assim o fascismo. Não erradicado.
Juntámo-nos, hoje, 50 anos depois, para o lembrar. Gritando “Fascismo nunca mais”. Mas quantos éramos?, quantos somos?
Foi contidamente comovente a cerimónia. De luta que continua.
Mais do que qualquer de nós, Margarida Tengarrinha teve a voz controlada, o tom firme, as palavras certas. “Servindo-se” do acto para dizer o que tem de ser dito, lembrado, ensinado. E também o que tem de ser dito, lembrado, ensinado – e foi-o por uma mulher que tinha 33 anos em 1961, e era companheira e mãe –: que somos seres humanos, com vida íntima, afectos, sofrimentos, e que lutarmos sempre. Porque só lutando somos.

Assim fechei o dia assim…

José Dias Coelho - nos 50 anos do seu assassinato - 5


«(...)
Dizia o libelo acusatório:
«O Ex.º Promotor de Justiça (…) acusa o réu António Domingues (…) de ter cometido um crime previsto e punido pelo art.º 349.º do Código Penal, concorrendo as agravantes 11.ª (espera), 25.ª (noite) e 28.ª (arma) do art.º 34.º do mesmo diploma porquanto, no dia 19 de Dezembro de 1961, os então agentes da pide António Domingues, Manuel Lavado e Pedro Ferreira (…) foram encarregados pelo seu chefe de brigada da mesma polícia, José Gonçalves, de localizar e prender José António Dias Coelho, também identificado nos autos e militante do Partido Comunista Português. Para tal efeito, deslocaram-se à zona da Rua dos Lusíadas, desta cidade de Lisboa, onde se colocaram já de noite, pelas 19 horas, a uns cem metros uns dos outros, aguardando a vinda do referido José António Dias Coelho. Tendo este passado pela Rua dos Lusíadas cerca das 20 horas e tendo-se apercebido até da presença dos referidos agentes, começou a correr pela mesma artéria, derivando depois para a Rua da Creche no sentido do Largo do Calvário. Em sua perseguição correram os agentes referidos. Já na Rua da Creche, sensivelmente em frente do nº 30 de polícia, foi o José António Dias Coelho agarrado pelo agente Manuel Lavado. Entretanto, chegou junto dele o réu que desfechou dois tiros de pistola marca “Star” – calibre 7,65 mm, examinada nos autos e que lhe estava distribuída – sobre o referido José António Dias Coelho.»

(transcrito páginas adiante de
50 anos de economia e militância)

José Dias Coelho - nos 50 anos do seu assassinato... num dia assim... - 4

... num dia assim...


A morte saiu à rua num dia assim


Naquele lugar sem nome pra qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai

E um rio de sangue dum peito aberto sai



O vento que dá nas canas do canavial

E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu

Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu



Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual

Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina à morte que te matou

Teu corpo pertence à terra que te abraçou



Aqui te afirmamos dente por dente assim

Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada há covas feitas no chão

E em todas florirão rosas duma nação

sábado, dezembro 17, 2011

José Dias Coelho - nos 50 anos do seu assassinato - 3

«(...)
Às 9 horas estava de novo no local do encontro, depois de uma outra volta de reconhecimento em que tudo me pareceu mais “limpo”, calmo, desanuviado, ou tinha sido eu que desanuviara, em contradição com alguma preocupação ou inquietação.
As ruas estavam quase desertas, com as pessoas recolhidas a casa, ou antes de saírem depois de jantar.
Foi mais um quarto de hora de espera. Em vão.
Desisti. Que outra coisa poderia fazer?
Fui ao quarto do camarada, ali a Campolide, onde me espera-vam os outros jovens economistas (o B., o G. e o Herberto, que se despachara da consulta e já chegara).
Dei-lhes conta do que acontecera – ou do que não acontecera, trocámos algumas impressões preocupadas, o Herberto ficou de tentar saber razões e medidas a tomar, e cada um foi para sua casa.
(...)»

(1ªs. páginas de 50 anos de economia e militância)

sexta-feira, dezembro 16, 2011

José Dias Coelho - nos 50 anos do seu assassinato - 2

«(...)
Apesar de três anos de militância que já levava, e de já ter feito a tarefa mais de uma vez, senti a habitual ansiedade, algum nervosismo.
Com tempo folgado, dirigi-me ao local marcado. Conhecia bem os sítios dos meus tempos no Liceu D. João de Castro. Dei uma volta larga de reconhecimento, que fui apertando, e não gostei do “ambiente”. A minha sensibilidade alertou-me. Havia “vultos suspeitos” pelas esquinas…
Sosseguei-me com um «lá estás tu a ver fantasmas… é a “cagufa” habitual e normal». Mas…
Uns minutos antes das 8 entrei na rua, vindo de cima, estacionei o carro voltado para baixo perto do cruzamento com a Rua dos Lusíadas, e esperei.
Logo passaram as 8 horas. E comecei, minuto a minuto, a olhar para o relógio. Alguma inquietação me ia tomando à medida que os minutos se somavam.
Que fazer? Cumprir as regras.
Passado um tempo considerado razoável (não mais que um quarto de hora), arranquei com o carro, dei a volta pelo Alto de Santo Amaro (o final da carreira 22 que tão bem conhecia), desci até à estação dos carros eléctricos, arrumei o carro no Largo do Calvário, fui a uma cervejaria comer qualquer coisa e fazer, com toda a naturalidade, tempo para esgotar a “hora de recurso”.
(...)»

(1ºs. páginas de 50 anos de economia e militância)



quinta-feira, dezembro 15, 2011

José Dias Coelho - nos 50 anos do seu assassinato - 1


(in avante! de 7 de Dezembro)

«A reunião fora marcada para aquele dia, 19 de Dezembro de 1961. Dois dias antes de eu fazer 26 anos.
A “célula dos economistas” reunira com o novo “funcionário” do Partido. Um homem maduro, calmo, discreto, mostrando uma grande solidez e sensibilidade.
Na reunião anterior tinha ficado marcado trabalho. Continuar e melhorar, com as estatísticas possíveis, o “balanço” do ano, para avaliar o impacto da guerra colonial na economia portuguesa, perspectivas. Depois das questões de organização – situação conspirativa, “avantes”, quotas, aliciamentos – e do “ponto político”
A tarefa de ir buscar o camarada era do Herberto. Mas a saúde sempre frágil do filho obrigou-os a uma consulta médica de emergência, e ele procurou-me para que o substituísse, embora não fosse faltar à reunião. Talvez chegasse um pouco mais tarde.
Deu-me todas as necessárias indicações.
Apanharia o camarada numa transversal à Rua dos Lusíadas, Travessa da Tapada, em frente da Escola Ave Maria, às 20 horas.
(...)»
(50 anos de economia e militância, 1ª página)