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quinta-feira, agosto 09, 2012

Conversa no barbeiro

Visito o sr. A. entre todos os meses e meio e os dois meses, e muito conversamos enquanto ele, profissionalmente, me vai cortando o cabelo e aparando a barba. Como é próprio de quem está  a fazer o seu ofício e de quem se liberta do que estará a mais (uma vez que a calvície não me atacou...).
São conversas no barbeiro. Que talvez melhor lhe chamasse - sofisticadamente ... - audições de opinião pública, uma opinião pública pessoal e intransmissível!
Eu serei, segundo o sr. A.  "o político", e ele aproveita ter-me ali entre as suas mãos e tesouras para desancar na política, nos políticos... "nisto tudo" (para usar linguagem de salão); ele é, para mim, a oportunidade, de durante mais de uma meia hora ouvir o que pensa o "comum dos mortais" do estado em que estamos, o homem que lê o Correio da Manhã e A Bola, jornais que disponibiliza aos clientes em espera, a família que em casa não perde um noticiário e mais programas televisivos, o cidadão que reflecte a imagem que lhe inculcam do estado das coisas... e da nação.
Regresso, sempre, mais leve de pêlo mas, quase sempre, mais pesado de preocupações. Até porque aquilo não é bem uma conversa, mas mais um monólogo em que quase só respondo ao que mais provocador (amigavelmente) me parece, e me obriga a obrigar a parar as tesouradas para dar respostas ao que não pode ficar sem resposta.
Depois, já quando fazemos contas, ainda continuamos a (então) conversa, e faço balanço e procuro esclarecer o que me considero mais urgente e indispensável dar troco.
Hoje, foi mais ou menos assim, e não foi de todo desesperante- O sr. A. terminou a dizer "Tenho que lhe dar razão nalgumas coisas que diz... mas olhe que eu também tenho razão em muito das coisas que lhe digo...".
Resolvi acabar em tom de brincadeira amiga: "Também acho... o sr. A. tem sobretudo razão quando diz que eu tenho razão nessas coisas que digo!"
Daqui a 6/7 semanas faremos o "ponto da situação"...

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

A nova configuração do mapa e do sistema eleitorais - (em conversa de barbeiro)

Quando me encaminhava para o meu vizinho barbeiro, ia decidido: «Hoje, não vai haver "conversa"... não estou com vontade nenhum de discutir as presidenciais com o meu simpático cortador de cabelo e barba que, decerto, votou ou no Cavaco ("apesar de não me ser simpático, o homem, mas aqueles ataques que lhe fizeram... afinal o homem só fez o que todos nós..."), ou no Alegre ("... porque é preciso mudar, ele tem boas ideias e vocês os da esquerda...), ou no Nobre (porque isto dos partidos é do piorio, e o homem tem cá um passado..."), ou no Coelho ("o homem convenceu-me... tem mesmo graça, e disse umas boas..."), ou, o mais provável..., votou em branco ("porque isto não pode continuar assim, tenho de protestar, calcule que o banco...");
não, desta vez, não... estou um bocado cansado para ripostar, perguntando-lhe porque se "esqueceu" de um candidato ("ah!. pois... o vosso... olhe que o homem surpreendeu-me, chegou bem para eles, e tem mesmo a vossa marca, honesto, a dizer as coisas certas... mas... sabe?... não tinha hipóteses... vocês..".);
não!, desta vez vou fugir à conversa política lá porque sou eu o cliente nas mãos dele...»
Assim determinado entrei na loja de duas cadeiras e um profissional, saudámo-nos afectuosamente, como bons vizinhos e algumas actividades (teatrais) em que colaborámos com simpatia mútua, soubemos das respectivas famílias, olhei-me no espelho sem óculos, despedi-me da barba e do cabelo a pedirem tesoura, e sentei-me na almofadada cadeira...
e não é que, logo ao primeiro assalto, ainda sem estar armado da sua ferramenta e quando só me colocava a espécie de babete, ele me atira. «... então e aquela proposta de redução do número de deputados... cá por mim 180 ainda são demais... para o que eles trabalham e para o que nos custam... nem sei se seriam preciso alguns... que é que acha?»
Lá fui dizendo o que achava, primeiro. a ver se escapava, depois ganhando calor e até irritada agressividade... apesar da ameaçadora tesoura andar por ali à roda da minha cara, nariz, orelhas, lábios.
Olhem... foi mais ums três quartos de hora iguais aos que se repetem de mês e meio em mês e meio"
Quando voltei para o carro, mais leve e com a frialdade da manhã a aproveitar as abertas nas minhas defesas mais expostas ao vento e aragens, vinha a resmungar: «... mas para quê?... porque é que me entrego todo a estas discussões?... o que poderia ter convencido (ensinado!, pois... que o que ali mais há é desconhecimento, desinformação) vai sofrer uma barrela total no próximo noticiário e até ao próximo encontro... nem que viesse cortar o cabelo todos os dias!...».
O facto, e facto foi, é que ainda estive quase a voltar atrás para juntar mais um dado e um argumento. Dos definitivos. Como todos...
Fica para o próximo encontro.
segue

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Conversa no barbeiro

O vizinho que me corta o cabelo e a barba, no seu moderno estabelecimento do Fátima, é um homem simpático, de quem gosto.
Já aqui deixei, em Setembro - há mais de 4 meses! - um apontamento sobre as nossas conversas, com tesouras, espelho e muito pêlo pelo meio. Entre essa ida e esta volta houve uma outra que ficou sem apontamento. Não que não tivesse havido matéria... mas escapou.
Desta vez, antes que escape..., aqui vai ela. Fresquinha. Não como foi (claro!), mas como eu a retive e resumo.
- Então, ó doutor (é assim que ele me trata, como já o disse), qu'é acha daquela desgraça do Haiti?...
- ...
- Aquilo se não fossem os americanos, e a sua pronta ajuda, tinha sido bem pior...
- Ó amigo Arnaldo (é assim que o trato, como já o disse), olhe que a ajuda dos que chama americanos não tem sido lá grande coisa. e agora foi mais ocupação militar do aeroporto e do País (que já vêm ocupando e controlando, às vezes violentamente, há muitos anos), e olhe também que outros bem mais ajudaram, antes e depois da catástrofe, por exemplo, todos os médicos cubanos, que são centenas, que lá trabalham solidariamente, e o Brasil, e a Venezuela, e o ALBA, e a França, até contra a vontade e a força dos que chama americanos...
- Mas, ó doutor, não é essa a ideia que eu tenho - então esse louco Chavez... -, e penso que o mundo estaria muito pior se não fossem os americanos...
- Olhe que não, olhe que não... e já reparou que me fala das imagens e das ideias que querem que todos tenhamos, da informação que nos dão com esse objectivo de criar imagens - essa do Chavez ser louco, por exemplo... oiça ou leia um discurso dele, completo e não uma frase para ridicularizar, um gesto isolado e injustificado...
- Mas... os americanos é que...
- É que, o quê? No Iraque?
- Sim. Não me diga que o tal Sadam Hussein não era um bandido?
- Ah! era sim senhor, mas sempre o foi! Mas foi lá posto pela administração dos Estados Unidos para destruir a democracia que se instalava e matar milhares de comunistas... não passou a ser bandido quando deixou de servir os Estados Unidos, e estes inventaram aquele pretexto das armas químicas para o massacre que continua...
- Mas... ó doutor...
E assim continuou a conversa. De que vim, confesso, cansado e (quase) angustiado.
Esta máquina de formatação de pensamento tem uma força que parece (!!!) invencível. Num apressado balanço, talvez a única semente que deixei (para que o amigo Arnaldo pense pela sua cabeça...) foi a de que os Estados Unidos não são "os americanos", que americanos também são os brasileiros, os haitianos, e muitos etc., que nem sequer são os "americanos do norte" (há os canadianos e os mexicanos), que o povo (e os presidentes) dos Estados Unidos são uma coisa e a sua administração (e o complexo industrial-militar) outra bem diferente.
.
Nestes intervalos entre cortes de cabelo, não faltarão outras conversas e muitas 24 horas de... informação "à maneira" dos "americanos"...

sexta-feira, setembro 18, 2009

Na cadeira do barbeiro

É periódico. O cabelo não caiu e cresce. Também a barba cresce todos os dias, porque nem dia-sim-dia-não a faço (a expressão “fazer a barba” é mesmo aberrante…). Pelo que, mais ou menos de mês e meio em mês e meio, vou à loja do senhor Arnaldo, velho conhecido de andanças teatrais e quase-amigo, para que ele diminua a minha “moldura grisalha” (de um poema de Maiakovski).
É costume conversarmos muito enquanto ele dá à tesoura. As conhecidas conversas de barbeiro… Podemos começar pelo tempo, ou pelo teatro, ou pelo futebol, mas – é fatal! – acabamos no tema da política. Pois se sou eu que estou sentado na cadeira…
Desta vez, ontem, ele foi logo directo ao assunto. E mais isto e mais aquilo, e lá comecei eu a tentar ser pedagógico sem proselitismos excessivos. Até que ele arranca com esta pergunta:
Pois... mas, ó doutor (é assim que ele me trata),… diga-me lá… porque é que o seu partido não se junta ao Bloco de Esquerda?”
Se fosse eu que tivesse a tesoura nas mãos e a orelha dele à mercê, se calhar tinha havido sangue… Acalmei, disse-lhe que o tal meu Partido tinha sido criado em 1921, que atravessou o fascismo na clandestinidade a lutar pela democracia e pela liberdade, que tinha uma ideologia própria e bem definida (certa ou errada é outra coisa), que está aberto a fazer coligações e alianças com quem o respeite, e que o Bloco de Esquerda é outra coisa, outro partido… e terminei perguntando-lhe “ó amigo Arnaldo (é assim que o trato)… porque que me pôs a pergunta assim e não ao contrário? Não me perguntou porque que é que o Bloco de Esquerda não se junta ao PCP, pois não?
E enquanto pagava, ainda adiantei a pista, para a eventual resposta que ele (se) quisesse dar à minha pergunta, do modo absolutamente vergonhoso como a comunicação social do capital trata um e outro dos dois partidos.
A conversa continuará daqui a aproximadamente mês e meio.