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sábado, novembro 01, 2014

Em cada semana, a cada dia, a cada hora... - 2

... motivos de indignação:



Talvez nostalgicamente preparámo-nos. 
Não aceitámos, nem procurámos..., qualquer compromisso para hoje. Hoje, era dia de ficarmos em casa, na velhinha casa de aldeia, à espera. À espera do alvoroço do dia do bolinho.
À espera do alvoroço infantil, por nós partilhado, do alvoroço de ranchos de crianças entrando-nos pelo quintal e casa dentro a gritarem ó tia! dá bolinho!
Preparámo-nos! Comprámos umas guloseimas, tínhamos uns bolinhos com que vizinhos amigos nos tinham municiado. 
Esperávamos.
Relemos impressões aqui deixadas em anos idos. Por exemplo, este "post" de 2007:

Dia do bolinho, sempre!

A GR, no seu comentário ao post abaixo, levou-me a ir ver o que, sobre este dia especial, coloquei neste blog.
Está lá uma fotografia e um pequeno texto, e quase me comovi ao ver, na foto, caras que ainda agora por aqui passaram em grupo a gritar ó tia! dá bolinho?! com menos dois anos, e menos não sei quantos centimetros e quilos.
Depois, fui aos comentários de então e não resisto a reproduzir este (com tratamento gráfico de minha autoria):
Pedro Gonçalves disse...
As bruxas ficam nos livros e de lá não as tiro.
Às abóboras junto broa e carne grelhada.
O resto... enfio no bolso e saio a assobiar 
com o saco ao ombro e o passo apressado.
O bolinho não espera.
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Boa, Pedro!
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Mas estávamos a ficar ansiosos. Nada acontecia. 
Até que nos informaram:
alguém (alguns...) altar abaixo decidira que, dado o feriado do 1º de Novembro ter acabado (mas não é, por acaso, sábado?!), e por tal feriado ser seu (julgava que era nosso!...), o "dia do bolinho" passava para amanhã. Por ser domingo.
De ansioso, se passou a triste e a indignado! Não tinham o direito de nos tirar o que era nosso. O dia do bolinho que sempre conhecemos, há tantas décadas já, como o dia de hoje. Um dia do povo. Que uns decidiram que não seria feriado e outros que podia ser adiado.
Tiram-nos tudo. Mas... quando temos dignidade e nos indignamos, temos tudo!
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Foto de aqui. De 2005!


terça-feira, novembro 01, 2011

Dia do bolinho

Na pausa do almoço do dia do bolinho. Tradição que, aqui na aldeia, se mantém. Viva. Ainda bem!
Com as reservas (e muitas eram) quase esgotadas. E nada de €uros! A não ser de chocolate. Motivando alguma mal escondida desilusão em alguns.
Uma foto de 2005 (com a Dina, que, 6 anos passados, acompanhou o irmão, o Zézito).

 
Um comentário de há quatro anos:

Pedro Gonçalves disse...

As bruxas ficam nos livros e de lá não as tiro.
Às abóboras junto broa e carne grelhada.
O resto... enfio no bolso,
e saio a assobiar,
com o saco ao ombro e o passo apressado.
O bolinho não espera.

E a foto deste ano:


O tempo de trabalho, o voto "europeu" de Paulo Portas, a "zona de conforto" dos jovens desempregados, em "dia do bolinho"

Estamos a atravessar um período (histórico) de desnorte.
Não faço ideia, ninguém fará, quanto tempo demorará, mas por vezes é difícil atravessar o tempo que vivemos sem que uma grande angústia nos tome, sem que a indignação e a raiva cresçam em desmedida, sem que os dias sejam de ira. E só a luta, a luta contínua e continuada nos dá força para ultrapassar a angústia, a indignação, a raiva, os dias de ira.
Dies irae é uma expressão consagrada na música e na poesia, por tantos - Mozart e outros que tais, Miguel Torga e outros mais -, muitas vezes retirada do seu contexto literal e trazida para o significado religioso do dia do juizo final.
No fascismo, muitos dias sentimos como "dias de ira", e Miguel Torga os traduziu no seu Dies Irae, cujo começo tinha (e tenho) de cor, como um grito surdo, um berro mordido, sem angústias paradas porque sempre procurando a luta, onde e com quem, com as minhas forças e fraquezas, com "as incertezas dos homens com certezas".

  Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, Cântico do Homem
Dies Irae - Dias da Ira,
título de um hino do século XIII
escrito por Tomás de Celano.

São outros (e os mesmos...) os fantasmas.
Mostram-se num governante (?!) a falar do desemprego como "área de conforto" e a aconselhar a emigração  como que numa reprimenda a quem se acolhe nessa...´"área de conforto"; num ministro dos negócios estrangeiros a dizer que "Portugal votou europeu" ao votar a abstenção na entrada da Palestina na Unesco, quando os países da Europa (sem aspas) votaram também sim e não, como os interesses nacionais que defendem lhes recomendou; quando se discutem horários de trabalho de maneira que nos remete para tempos de servidão e escravatura pré-capitalistas.

Dies irae

Só a luta!
E a alegria do dia do bolinho!

A ira cresce
mas a esperança multiplica-se.
Até já!


   

segunda-feira, novembro 01, 2010

Ah!, as crianças!

Este dia parece ter sido (per)feito para a miudagem. Não foi só o dia do bolinho. Acabadas as visitas - e algumas dariam motivos para aqui contar coisas muito interessantes... se tivesse engenho e arte -, quase esgotadas as provisões de bolinhos, rebuçados e bolachas, decidi ir dar uma volta e ir à procura de um "tio" para lhe pedir o meu bolinho. O que seria fácil, até porque havia um convite implícito, insinuado e claro (isto da dialéctica...), por parte de uma família amiga.
No caminho para lá, o carro deu-me os programas habituais, os daquela hora. Um, que ouço de fugida - a uns tantos quilómetros por hora -, em que uns miúdos, com a ajuda de adultos bons profissionais, fazem o seu "Portugal dos Pequeninos".
Hoje, o tema seria o da crise, e já em andamento, o programa e eu, um miúdo, o Manuel, respondia à pergunta sobre o que era para ele a crise. Respondia o Manuel que não sabia lá muito bem mas que julgava que era coisa assim como o IVA. A entrevistadora, quis saber o que ele achava que era o IVA, e o Manuel, sempre sério e cauteloso, respondeu que não, sabia muito bem mas que lhe parecia que o IVA eram umas lojas onde as coisas se vendiam mais caras e que isso é que era a crise. Então, na sequênia da conversa, a jornalista perguntou ao Manuel se ele achava que alguém tinha culpa do IVA, da crise, dessas coisas... e o Manuel, sempre colocando as seríissimas reservas de não ter certezas, não hesitou: acho que é o Cavaco Silva.
Entretanto, tinha chegado à casa onde os "tios", o bolinho e um copo de palhete foram os adereços de um tempo de amizade e convívio.

Dia do Bolinho

Hoje, 1 de Novembro, é o dia do bolinho. Não o vivi, como criança, no Zambujal, mas já adulto habituei-me a viver este dia como um dia muito especial. Faz parte da minha infância, vivida por mim ou por mim revivida todos os anos pelos miúdos e miúdas que aqui por casa passam a gritar-me "oh! tia, oh! tio... dá bolinho?!".


E nós, nas vésperas do dia de hoje, recebemos dos vizinhos amigos o "nosso bolinho", feito em casas onde há forno a que se aquecem as tradições que não podem morrer, e encomendámos bolinhos ao padeiro que nos fornece o pão nosso de cada dia, reforçámos essa encomenda com a reserva de "bolinhos", bolachas e rebuçados acrescentados às compras semanais na grande superfície, e esperamos com algum calmo alvoroço a vinda das ranchadas de miudagem.


E eles já começaram. Vêm em grupos alegres, barulhentos (embora alguns muito contidos), os mais velhos ensinando, os mais atrevidos... atrevendo-se a uma graça, a um dichote. Converso com eles "... de quem és tu?...", "há quantos anos andas ao bolinhos?", "óh! menina, como cresceste!", "eh! rapaz, já com a barba a romper e ao bolinho... é assim mesmo... ensina aos teus irmãos e vizinhos mais pequenos..." "... quantos anos tens?, é a primeira vez que vens ao bolinho?".


É um dia de sol, colorido, na sequência destes dias de chuva, cinzentos e escuros.


Com uma única nuvem... que perpassa na logo ultrapassada alegria da tradição... porque aqui, nesta casa, aos bolinhos e aos rebuçados não se junta uma moeda, a moeda que muito esperam e que, para alguns, é o que mais desejariam... mas que - aqui, nesta casa - não se dá. E procura dizer-se, em duas palavras, porquê...


Assim se (pre)enche um dia importante na vida deles. E na nossa...




E
fotografias do dia do bolinho de há 5 anos.
Como eles e elas cresceram!