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terça-feira, julho 06, 2010

“Revisão de matéria dada” – 3 (poupança)

Insiste-se, hoje, na palavra poupança. Como um feitiço. Usando este recorrente recurso aos feitiços para esconder a essência das coisas.
Mas, como Marx dizia (mais ou menos, até porque o disse em alemão…), se a essência fosse igual à aparência não haveria ciência.
E a essência mostra que, no funcionamento do capitalismo, é impossível o crescimento em equilíbrio. Crescer (como andar) são desequilíbrios sucessivos, e o caminho, em capitalismo, mais que sucessivos desequilíbrios, são contradições sempre agravadas. Fautoras e frutos da crise que nas suas entranhas se engendra.
Por isso, ao feiticizar-se a poupança, não mais se faz que estar a procurar apresentar a solução aparente de problemas enquanto, no funcionamento essencial, tudo agrava os problemas.
Dado o facto de haver camadas da população que têm como seu rendimento os salários e que, por estes não serem suficientes para as necessidades emergentes – umas, artificialmente criadas (pela publicidade directa e outras formas de pressão consumista); outras, verdadeiros direitos porque resultado da história milenar –, recorreram a crédito desmesurado porque irrecusavelmente oferecido, dizer que estes estratos populacionais devem poupar, é anacrónico e é (ou deveria ser) irrisório.
Poupança foi o que (em tempos idos) não se despendeu em consumo como reserva para, ou para acautelar, consumos futuros pelo que, neste tempo em que se vivem as consequências de tudo funcionar a partir de expectativas, de antecipações de consumos, de “viaje hoje, pague depois”, de “compre agora o que queria comprar amanhã porque nós damos-lhe crédito”, virem co-responsáveis por esta “cultura” apelar à poupança é embuste, demagogia, insultuoso para quem tomou consciência deste funcionamento da economia, ou para quem dessa consciência se vá aproximando.
Agride a inteligência e faz parte da "tremenda ofensiva ideológica". Na luta de classes.
Aliás, enquanto se baixam estes rendimentos, por regateio e baixa dos salários, por aumento de impostos directos e indirectos, com dificultação do recurso ao crédito antes fácil, apelar à poupança de não tem que chegue para o consumo essencial (e pagar o que está a dever...) é como pedir, a quem vive no limiar da pobreza e já com o espectro da fome, que não gaste tanto dinheiro em comida!

segunda-feira, julho 05, 2010

“Revisão de matéria dada” – 2 (teorias em equação)

Apenas vou, de forma que não se pretende rigorosa, fiel, fidedigna (o que quiserem…), deixar um apontamento sobre formulações, ou equações, fulcrais para a compreensão do tal crescimento em equilíbrio, a começar pela articulação entre a micro e a macroeconomia, em contexto de luta de classes que se negava mas que se está sempre fazendo.
Pelo trabalho produz-se, transformando a natureza, pondo-a ao serviço da satisfação das necessidades históricas, isto é, em permanente evolução. Primeiro, (após tão-só colher) transformando apenas com as mãos nuas, depois prolongando o corpo com instrumentos e objectos de trabalho que são trabalho cristalizado, “morto” – os meios de produção.
E produz-se o quê?
A produção (P) é de bens de consumo (bc), para satisfazer necessidades, e de meios de produção, investimento (i) que substitua os meios gastos e reforce a capacidade produtiva.

P = bc + i
Para essa produção, definem-se vários contributos que são recompensados com um rendimento (R) a distribuir, que dá acesso ao que foi produzido. Simplifiquemos: quem trabalha recebe salários (s), quem possui os meios de produção procura lucros (l), quem empresta dinheiro para “ajudar” ao funcionamento da economia cobra juros (j), quem aluga terra ou imóveis onde se trabalhe e viva recolhe rendas (r).

R = s + l + j + r
Estes rendimentos são, a partir da sua utilização pelos seus detentores, a despesa (D), efectiva, potencial ou futura. D divide-se em consumo (c), que tanto resulta de s, de l, de j, ou de r (que todos têm de consumir) e em poupança (p), o que sobrou dos consumos.

D = c + p

A poupança terá fins vários, como reserva para necessidades futuras, substituição e reforço de capacidade produtiva, isto é, meios de produção, e outras mais para o especulativo, podendo tomar (ou ter tomado) a forma de “pé-de-meia”, “debaixo de colchões”, “porquinho com ranhura”, depósito em bancos, ou ser canalizada directamente para investimento. Neste último caso ficaria tudo equilibrado.

Isto é teoria, claro. Porque na prática, a realidade é outra. E há bases teóricas que explicam porquê. Porque a teoria do valor é outra, porque desta não se parte com/para o pressuposto de que não há classes sociais.
Adiante…

domingo, julho 04, 2010

“Revisão de matéria dada” – 1 (teoria geral)

Noutros tempos, em tempos passados há muito ou há pouco tempo (depende de a escala ser a da nossa individual curta vidinha ou a escala que tenha tamanho que possa medir a História), a economia procurava equilíbrio. Ou melhor: os economistas procuravam uma representação da economia que fosse de crescimento em equilíbrio, sem beliscar as relações sociais de produção que tudo condicionam no andamento da História (e de cada indivíduo, ou grupo, ou classe social).
Havia, ou haveria, um Estado protector, paternalista (mais para o padrasto…) que, na decretada ausência de classes sociais, em cada Nação politicamente organizada se dizia procurar, nas línguas respectivas, o que em português se chamava A Bem da Nação.
Isto sobretudo quando começou a ser evidente que o capitalismo engendra, nas entranhas do seu funcionamento, crise. Que, de vez em quando se manifesta ruidosamente enquanto se procura que as vítimas sejam “os do costume”, enquanto alguns saltam sobre as “oportunidades que as crises criam”.
Tempo em que havia alternativas no terreno, também evidentes, a fazerem o seu curso, com todas as dificuldades próprias e as resultantes do feroz cerco.
Nesses tempos, lá para os idos anos do fim da terceira década do século passado (que foi o XXº desta era), e em tempos que seguiram, um senhor chamado Keynes, elaborou a sua Teoria Geral (do Emprego, do Juro e da Moeda), um calhamaço que importa conhecer minimamente, e não só falar dele como se fosse um dos livros de cabeceira…
Evidentemente que não vou trazer para aqui, ou para outro lado qualquer, essa Teoria Geral. Por várias razões, e a maior de todas é a de que não me sinto habilitado. Acho, no entanto, curioso que, em “tempos de crise” como este, apareçam tantos leitores de Keynes, “leitores” que nem por osmose conhecem o resumo resumidíssimo do resumo dessa obra capital, e menos ainda a obra capital de Marx (O Capital), de que se publicou o 5º tomo da edição portuguesa (de edições avante!), falta traduzir os três tomos do livro terceiro, havendo ainda um livro quarto que se poderia juntar à obra que, como gosto de dizer, está a ser escrita (ou a poder sê-lo) na/pela realidade que se vive.
Adiante …