É - como é que se diz?... - recorrente.
Quando, a propósito de qualquer coisa e sempre a despropósito, se quer atacar o Partido Comunista Português, vai-se buscar a Coreia de Norte. Ontem, foi o Expresso, no Cartoon de António. Que agressão (nas intenções!) mais infeliz e despropositada.
Paciência! Que é revolucionária.
Mas, agora, nestes dias de agora, e a propósito, impôs-se-nos uma recente leitura e transcrição da tradução da parte final de um texto do
com o significativo título de
"Guerra boa" e "guerra má"
- e a luta da memória
contra o esquecimento
O regime que Washington criou no Sul,
a “boa” Coreia, foi instalado e largamente mantido por aqueles que colaboraram
com o Japão e a América.
O artigo é de John Pilger, e foi publicado a 13 de Fevereiro de 2014.
Depois de uma abertura em que denuncia como a história tem sido escrita pelos se assenhoriaram do poder, ou pelos seus serventuários, o A. refere autores que têm procurado contrariar esse contar do passado - E.P.Thompson, Howard Zinn, Eduardo Galeano, Richard Overy.
E termina essa abertura sublinhando que hoje, mais do que nunca, essas clarificações são necessárias, pela força da informação e porque se quer fazer crer "que nós vivemos, como
afirma o jornal Time, “num presente
eterno”, no qual a reflexão é limitada ao Facebook e a narrativa histórica é o espólio
de Hollywood (e como no seu) 1984, George Orwell escreveu:“quem controla o passado controla o
futuro, quem controla o presente controla o passado”.»
Logo depois pode (e deve!) ler-se:
«O povo da Coreia compreende bem isto. A carnificina na sua península a
seguir à Segunda Grande Guerra é conhecida como “a guerra esquecida”, cujo
significado para toda a humanidade há muito vem sendo escondido por histórias
militares e de espionagem de guerra fria de"bons"contra"maus".
Acabei de ler A Guerra Coreana: uma
História, de Bruce Cumings (2010),
professor de História na Universidade de Chicago. Primeiro vi Cumings ser
entrevistado no extraordinário filme de Regis Tremblay Os
fantasmas de Jeju, que documenta o levantamento em 1948 na ilha sul coreana de Jeju, e a campanha dos seus actuais habitantes para impedir a
construção da base de mísseis dos EUA apontados provocadoramente para a
China.
Tal como a maioria dos coreanos, as famílias de agricultores e pescadores
protestaram contra a divisão sem sentido da sua nação entre Norte e Sul, em 1945
– uma linha desenhada ao longo do paralelo 38 por um oficial americano, Dean
Rusk, que tinha “consultado um mapa por volta da meia-noite ao dia seguinte a
termos destruído completamente Nagasaki com uma bomba atómica”, como escreve
Cumings. O mito de uma Coreia “boa” (o Sul) e uma Coreia “má” (o Norte) estava
inventado.
De facto a Coreia, Norte e Sul, tem uma notável história de resistência
do povo ao feudalismo e à ocupação estrangeira, particularmente à do Japão no
séc.XX. Quando os Americanos derrotaram o Japão em 1945, ocuparam a
Coreia e frequentemente etiquetararam os que resistiram aos japoneses como
“commies” (forma abreviada, popular e depreciativa de comunistas) . Em Jeju, cerca de 60.000 pessoas foram massacradas por milícias
apoiadas e, em alguns casos, comandadas
por oficiais estado-unidenses.
Esta e outras atrocidades não relatadas foram um prelúdio “esquecido”
para a guerra da Coreia (1950-53), na qual foram mortas mais pessoas do que os
japoneses que morreram durante toda a Segunda Grande Guerra. Cumings faz um
cálculo impressionante do grau de
destruição nas cidades do norte: Pyongyang 75%, Sariwon 95%, Sinanju 100%.
Foram bombardeadas grandes barragens no norte, a fim de causar tsunamis
internos. Armas “anti-pessoal”, tais como napalm, foram testadas em civis. A
excelente investigação de Cumings ajuda-nos a compreender por que a Coreia do
Norte de hoje parece tão estranha: um anacronismo sustentado por uma longa
atitude defensiva. “A avalanche de bombas incendiárias foi visita do Norte durante três anos” escreve ele,
“produzindo uma terra de ninguém e um sobrevivente povo toupeira que aprendeu a amar o refúgio de caves, montanhas, túneis
e redutos, um mundo subterrâneo que se transformou na base de reconstrução de
um país e uma recordação que levou ao surgimento de um ódio feroz na
população. A sua verdade não é um conhecimento frio, antiquado e
ineficaz”. Cumings cita Virginia Wolf
para descrever como o trauma deste tipo de guerra “confere memória”.
O líder guerrilheiro Kim Il-sung começou a lutar contra o militarismo japonês em 1932. Todas as características ligadas ao regime que ele fundou –
“comunismo, estado nocivo, inimigo diabólico” – deriva de uma resistência
implacável, brutal, heróica: primeiro contra o Japão, depois contra os EUA,
que ameaçaram atacar com armas nucleares os escombros deixados pelos seus
bombardeiros. Cumings revela como
propaganda a noção de que Kim Il-sung, líder da Coreia “má”, era um fantoche de
Moscovo. Em contrapartida, o regime que Washington inventou no Sul, a Coreia "boa", era dirigido maioritariamente por aqueles que tinham colaborado com o
Japão e a América.
A guerra da Coreia teve uma especificidade não reconhecida. Foi nas ruínas
ardentes da península que os EUA se voltaram para o que Cumings chama “um
arquipélago do império”. E quando a União Soviética ruiu nos anos 1990, foi como
se todo o planeta fosse declarado americano – ou quase.
Mas agora há a China. A base que está a ser construída na Ilha de Jeju
ficará em frente da metrópole chinesa de Xangai, a uma distância de menos de 300
milhas, e do coração industrial do único país cujo poder económico irá
provavelmente ultrapassar o dos EUA. “A China”, diz o Presidente Obama num
documento público, “é a nossa ameaça estratégica de mais súbita emergência”. Por volta de 2020, quase dois terços de todas as forças navais
estado-unidenses no mundo serão transferidas para a região Ásia-Pacífico. Num
arco desenhado desde a Austrália até ao Japão e além deste, a China estará
rodeada por mísseis e força aérea nuclear dos EUA. Será também “esquecida”
esta ameaça para todos nós?»
Coreia do Norte e PCP - a mesma luta?
Não será, antes, o povo coreano e o povo português
- a mesma luta?
Ou os povos do mundo - a mesma luta?
Ou, já agora..., sociais-democratas, liberais, fascistas - a mesma luta?
(a sobrevivências do capitalismo!),
com as suas profundas divisões e antagonismos.?
...matai-vos uns aos outros?
A questão é que, matando-vos, a nós nos matam!