sábado, julho 02, 2022

Milhares de milhões para armamento e "quinhentas" para solidariedade

 - Nº 2535 (2022/06/30)


«Esmolas miseráveis» milhões e quinhentas

Internacional

A imprensa moçambicana deu destaque à iniciativa de alguns congressistas norte-americanos visando aprovar legislação que permita a Washington aplicar sanções unilaterais a países africanos que mantenham relações de cooperação com a Rússia.

Promovida por Gregory Meeks, do Partido Democrata, presidente do Comité de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, e por outros congressistas, a proposta, a ser aprovada, teria a esclarecedora designação de Lei para Contrariar as Actividades Malignas da Rússia em África. Tal legislação visaria, entre outras medidas, a imposição de sanções contra os governos africanos «cúmplices no apoio» a relações amigáveis com Moscovo. De acordo com o semanário Savana, de Maputo, a lei seria um instrumento de Washington para pressionar e ameaçar os países africanos – a larga maioria – que se recusam a tomar partido contra a Rússia no conflito na Ucrânia.

Na mesma altura, em meados de Junho, a subsecretária de Estado norte-americana para Assuntos Políticos, Victoria Nuland, visitou Moçambique e anunciou – segundo o jornal Notícias – que os EUA vão desbloquear, para auxiliar a «reconstrução» dos distritos afectados pelo terrorismo na província de Cabo Delgado, uma verba de 14 milhões de dólares por ano ao longo de uma década. «O fundo já foi aprovado pelo Congresso dos EUA e o acordo pode ser assinado nos próximos dois meses», pormenorizou.

Os planos de «ajuda» revelados pela governante norte-americana foram severamente criticados em Maputo.

O meio digital Carta de Moçambique, de grande difusão, qualifica a iniciativa como sendo uma «esmola desprezível» e sugere mesmo que a «ajuda» deveria ser recusada. O seu director, Marcelo Mosse, denuncia «este fingimento de ajuda», lembra que 14 milhões de dólares equivalem ao orçamento anual de uma qualquer ONG financiada pela USAID (a agência governamental dos EUA que distribui dinheiro por organizações «amigas») e sugere mesmo que «Moçambique devia ter a coragem de rejeitar este tipo de esmolas miseráveis». Realça que tal apoio americano «não passa de um grande insulto», «uma espécie de lavar as mãos», «um vexame», comparado com os milhares de milhões de dólares canalizados pela administração de Joe Biden para a Ucrânia em armamento de todo o tipo e «assistência humanitária». E resume: «Biliões para a Ucrânia e quinhentas para Cabo Delgado. Foi sempre assim… Uma “cooperação” que perpetua a nossa miséria».

No mesmo artigo, Victoria Nuland, antiga embaixadora norte-americana junto da NATO, é apontada como «uma das figuras mais proeminentes e mais sinistras da política exterior dos EUA», desde «os tempos de Barack Obama», tendo sido «um dos arquitectos da política dos EUA na Ucrânia». Recentemente, «esteve no Brasil a estudar como sabotar a quase inevitável vitória de Lula nas eleições de Outubro». E, agora, lamenta Marcelo Mosse, «anda por aqui… a anunciar migalhas para os sofredores de Cabo Delgado».

Estas dignas posições de defesa da soberania e de rechaço das ingerências estrangeiras, são hoje cada vez mais frequentes em África. Continente onde a maioria dos países mantém uma posição de neutralidade em relação ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia, apesar das pressões, ameaças e até chantagem da diplomacia dos EUA e da União Europeia.

Carlos Lopes Pereira 

sexta-feira, julho 01, 2022

Paz, SIM! guerra e corrida aos armamentos, NÃO!

 

IMAGEM  DO DIA     


Uma manifestação contra a guerra e a escalada armamentista, por uma solução negociada dos conflitos e por uma paz duradoura decorreu no Porto, a 29 de Junho de 2022. O Apelo “Paz Sim! Guerra e Corrida aos Armamentos Não!” tem como promotores 15 personalidades das mais diversas áreas e reúne uma centena organizações, 







e outros cidadãos que o decidiram subscrever

quarta-feira, junho 29, 2022

Resposta ao Provedor

 Exmo. Senhor Provedor

Grato pela pronta e expedita resposta… embora, como compreenderá, nada satisfeito com a expedição do que chama meu protesto para a instância decerto responsável por ele. Este caso (aliás, de somenos) terá a virtude de bem ilustrar as limitações de órgãos criados para ornarem os reais centros de poder de aparentes estruturas reguladoras e moderadoras de abusos e de desrespeito de direitos (de humanos). Assim encerro, por minha parte e contrafeito, esta nossa pontual correspondência,

                        com os melhores cumprimentos   

Resposta do Provedor

Acabo de receber a resposta:

Caro leitor Sérgio Ribeiro,

Muito obrigado pelo seu correio. Pelas razões expostas quando iniciei este cargo, os textos de opinião escapam às atribuições do provedor. Por outro lado, a publicação de qualquer coluna de opinião, na edição em linha do jornal ou na impressa, é da exclusiva competência da Direccção Editorial do Público - para quem tomo a liberdade de encaminhar o seu protesto.

Com os meus melhores cumprimentos

JM Barata-Feyo

 

Mail ao Provedor do Leitor do Público

 Ao  Exmo. Provedor do Leitor

do Público

 

No jornal de que VExa. é Provedor do Leitor, de que sou habitual leitor (logo, defendido por VExa. nos direitos inerentes), em particular do colunista José Pacheco Pereira, este faz um desafio público para que o esclareçam posições de signatários de anexo (anexo 1), de que sou um deles. Faz esse desafio em termos pouco correctos, usando expressões como “tretas” e “totó”, mas isso não me inibiu de responder ao repto.

Assim, no dia seguinte ao da publicação, escrevi um texto como Carta Aberta (anexo 2), de resposta – que era mais um desabafo – ao desafio, para que julguei curial procurar que fosse publicado no mesmo jornal.

Para tanto, dirigi um mail à redacção do jornal, com a Carta Aberta em anexo, pedindo publicação e, caso não se coadunasse com critérios editoriais, que “fechassem a Carta” e a fizessem chegar ao desafiador.

Dessa iniciativa resultou uma troca de mails, simpáticos e eficazes, com pedido de desejada referenciação e fotografia, que me levaram a prever que o pedido de publicação, “nos moldes consentâneos com o desafio”, fora aceite

Enganei-me, e não acuso ninguém, a não ser a minha boa-fé e a ignorância de um “sítio” chamado Público on-line. Ao que verifico, só terão acesso ao que escrevi os assinantes (claro que não o são todos os que tiveram acesso ao texto desafiador), havendo pequena chamada para o meu texto, perdida em floresta de publicidade no Público on-line.  

Deste modo se concretiza o que foi odisseia deste leitor:

Desafiado, como signatário de um apelo a explicar umas "tretas” como se fosse a um ”totó”, tentou fazê-lo na “capoeira” do desafiador, e foi “depenado”, ou seja, foi enviado para um anexo a “piar” sozinho, nem sequer com garantia de que é ouvido por quem o desafiou do alto do seu “poleiro”, das páginas do Público.

          Nestas circunstâncias, não sei se VExa. é endereço certo para reforçar o desabafo em que se pretende transformar a resposta a um desafio. Embora, seja de que maneira for, farei chegar ao doutor José Pacheco Pereira a minha reacção ao seu desafio.

                                                 Com os cumprimentos do



                                                                              

28.06.2022

 


terça-feira, junho 28, 2022

Carta aberta a Pacheco Pereira

Mandei este texto, por mail, à redacção do Público, pedindo publicação nos moldes consentâneos com o desafio que PP fez, na sua colaboração de sábado;

CARTA ABERTA A PACHECO PEREIRA

Ao colunista Pacheco Pereira

A sua colaboração deste sábado no Público é, na verdade, uma provocação. Assim assumida, travestindo-se de totó para ver se percebe o que tão bem percebeu, como o texto bem demonstra, a contrario sensu.

Para começar, um pouco de fair play. Como muito bem sabe, a sua provocação parece um desafio para uma luta de galos, em que o desafio é na “capoeira” do desafiador e o desafiado tem o esporão entrapado, as asas cortadas, o bico preso por elástico… e o árbitro é “da casa”. E se são mais do que muitas as provocações, explícitas umas, embora capciosas como a sua, ou eufemistizadas outras, pouca é a possibilidade (ou a vantagem) de lhes tentar sequer responder. Mas… vamos lá.

 

É verdade que as guerras não são todas iguais, que nada do que se passou no mundo é igual ao que se passa nos dias de hoje, o que não quer dizer que a luta pela Paz não possa ser sempre a mesma, embora devendo ter maneiras de se manifestar adequadas às escaladas e às formas que tomam as guerras de hoje.

Esta guerra na Ucrânia, pelas condições que a antecederam, como foi provocada, pela campanha de mediatização e manipulação que motivou e pelas sanções que desencadeou ao agressor (mediatização e sanções bem diferentes das de muitas outras guerras de ontem e também de hoje) é diferente e igual a toas as outras, pelo sofrimento imensurável de todas, pela luta pela Paz que exige e justifica.

Quem clama como sendo hipocrisia política não valorizar esta guerra como sendo única, apagando todas outras, hipocritamente esconde-se do espelho da sobrevalorização mediática que desta é feita até à náusea.

É por não se abstrair desta guerra e da sobrevalorização que lhe é dada e do despudorado aproveitamento difícil de escamotear que dela se faz, que se torna mais premente, mais exigente, mais necessariamente mobilizadora, a luta pela Paz, não deixando de começar por condenar a concreta agressão. Pelo que se recusa a ardilosa denúncia de intenção que se pretende colar às manifestações contra a guerra em concreto.

O Pacheco Pereira leva o seu exercício de avaliação, julgamento e condenação de intenções de outros, baseado em códigos de ética que o seu exercício em si mesmo desmente, baseando-se em factos passados, colando-os à prática política de um partido político, alvo sempre preferencial destes processos inquisitoriais.

E fá-lo com afirmações de homotéticas argumentações que não comprova. Mas que afirma existirem… e impressionarem-no! Também lhe diria que muito me impressiona a repetição  cartilhada dos mesmos factos e argumentos, sempre os mesmos, quase confissão que, afinal, poucos têm para mostrar. Fraqueza de quantidade que compensam com a dita repetição até à exaustão (para que me dispenso de fazer comparações… inevitáveis!).

Na minha opinião, e não peço autorização para a ter nem autorizo que a deturpem, há mesmo necessidade, diria vital, de uma “nova ordem mundial” que substitua a apregoada e mal instalada globalização, que se transformou numa unilateralidade imperialista que veio comprovar estar o capitalismo na sua fase extrema… e extremamente perigosa para a Humanidade, para a sua sobrevivência. E dessa opinião resulta a preocupação cidadã de contribuir, com a pouca força que ainda tenho, para a luta pela Paz.

Recuso conceder-lhe autoridade de qualquer tipo para confundir esta minha opinião etiquetando-a de correspondente ou coincidente com ideias de outros com objectivos ou “argumentos puramente (!?) geopolíticos”.

Sou (e não peço licença a ninguém para o ser) marxista-leninista e, como tal, militante desse partido-alvo de todos os ataques e omissões. Sempre considerei coerente com essa opção e postura ideológica a consideração da Paz (repare que troco as aspas da sua “paz” pelo p maiúsculo da minha Paz) como necessidade humana.

Sinto, por isso, orgulho em poder justificar a minha opção com factos como o decreto nº1 do primeiro Estado que se assumiu como socialista (decreto de 1917 que retira esse Estado da 1ª guerra mundial, e define, como regra para as relações internacionais, a coexistência pacífica), e no mesmo sentido de coerência dei todo o apoio e contributo de que era capaz à tentativa do final dos anos 60/década de 70 do século XX de instauração dessa regra na “ordem mundial”; e por isso mesmo tive a oportunidade de saudar a Acta de Helsínquia de 1975 como acto de grande importância mundial e humanitária.

Para mim, a coerência do ser humano (seja marxista-leninista ou não) faz com que esteja (e ao lado dos que estão) pela Paz.

Não quero tornar esta carta aberta demasiado longa.

Procuro, ainda, contrariar a sua afirmação de “comparações (que seriam) inevitáveis… por verdadeiras”. Antes de mais, parece-me abusivo considerar verdadeiro – e fazer assim ter de ser aceite por outros – o que, para cada um de nós todos, é verdade; mas trata-se de pecadilho usado e abusado por quem tem uma verdade, e só uma, no bolso. Depois essas comparações são abusivas porque comparam situações e argumentos que podem ter a mesma aparência mas que têm objectivos e procuram finalidades diametralmente opostas.

E, para terminar, não resisto ao contar dois episódios.

Um, que muito tenho recordado nestes últimos meses. Na sequência da luta no CPPC, fiz parte de grupo de portugueses que, no final da década de 80, ainda viva a esperança de se conseguir instalar a coexistência pacífica, desceu o Dniepre de Kiev a Odessa, num barco com grupos de outros “nacionais do ocidente” pela Paz e de igual número de soviéticos como anfitriões, iniciativa que repetia idêntica iniciativa realizada para descer o Mississipi.

Outro, de natureza mais pessoal, que não sei se se recordará. No mandato do Parlamento Europeu de 1994-99, o meu segundo e em que fui eleito questor, tarefa que levei a sério (e com seriedade), num dia de plenário em que o avião nos transportara de Lisboa, depois de ter assegurado o bom funcionamento do serviço de transporte dos deputados no trajecto aeroporto-hotel-hemiciclo, entrei no último carro onde já estava Pacheco Pereira; cumprimentámo-nos e conversámos durante o percurso, e não me esqueço que me contou conhecer-me desde a animação de um colóquio sobre economia no ISTécnico, em que a minha intervenção o ajudara a entender coisas da economia; foi a nossa primeira conversa, esta é a segunda, e espero ter-me feito entender.

Fica a resposta – que é mais um desabafo – ao desafio.


     


segunda-feira, junho 27, 2022

Cimeira da NATO em Madrid

 De resistir-info

Neste fim de semana Madrid acolheu a contra-cimeira da NATO, que mobilizou dezenas de milhares de pessoas em manifestações de rua. A Contracumbre de la OTAN efetuou-se como preparação para a próxima cimeira da NATO que será realizada em Madrid dias 29 e 30 de Junho.   Os media corporativos portugueses mantiveram um silêncio sepulcral quanto a este acontecimento.
Manifestação em Madrid contra a cimeira da NATO.
Por outro lado, em Munique, o povo alemão efetuou igualmente manifestações contra a cimeira do G7 ali realizada. Elas foram ocultadas com um silêncio igualmente sepulcral pelos media portugueses.
26/Jun/2022

sábado, junho 25, 2022

PAZ


 Milhares de pessoas participaram hoje, 25 de Junho de 2022, em Lisboa, no desfile Paz Sim! Guerra e Corrida aos Armamentos Não!, subscrito por dezenas de associações de diversos sectores da sociedade portuguesa. 
Os manifestantes exigiram o fim das guerras e sanções e defenderam o desarmamento e o diálogo, assim como a subscrição, por parte do Estado português, do Tratado de Proibição de Armas Nucleares. 

(em abrilabril... quase só!)

PAZ!


ESTAMOS CONVOSCO!

 

quinta-feira, junho 23, 2022

O caso Assange, posição de Lopez Obrador

I|MÉXICO

López Obrador insiste na libertação 

de Assange

O presidente mexicano defendeu, esta terça-feira, a libertação 

do jornalista australiano, pediu à ONU que faça o mesmo e disse 

que a questão será abordada na sua visita a Washington, em Julho.

Uma defensora de Julian Assange segura um cartaz em sua defesa e contra a extradição, junto ao Tribunal de Westminster, em Londres 
Uma defensora de Julian Assange segura um cartaz em sua defesa e contra a extradição, junto ao Tribunal de Westminster, em Londres Créditos/ globaltimes.cn

Na encontro diário com os jornalistas no Palácio Nacional, na Cidade do México, López Obrador reafirmou que as portas do país americano estão abertas para Julian Assange, caso seja libertado, e anunciou que, depois de já ter tratado o caso com o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, também vai solicitar a Joe Biden a libertação do co-fundador do WikiLeaks, cuja extradição para os EUA foi autorizada pela Justiça e o governo britânicos.

López Obrador exibiu um vídeo, divulgado pelo WikiLeaks, em que jornalistas que cobriam a invasão norte-americana do Iraque são assassinados por elementos da Força Aérea dos EUA, para assim expressar que as revelações de Assange não são espionagem e que é por isto que se encontra preso.

Neste sentido, considerou muito decepcionante que a Justiça britânica e o governo liderado por Boris Johnson tenham extraditado Julian Assange para os Estados Unidos e perguntou: «E as liberdades? Vamos tirar a estátua da liberdade de Nova Iorque? Vamos continuar a falar de democracia? Vamos continuar a falar de protecção de direitos humanos e liberdade de expressão?»

Assim, insistiu que, quando se reunir com o presidente dos EUA, na visita que deve fazer ao vizinho do norte em Julho, lhe vai pedir que preste atenção ao caso de Assange, tendo recordado que já fez o mesmo com Trump, uma vez que o chefe de Estado tem o poder de amnistiar.

«Tenho a noção de que [isto] vai contra grupos duros que há nos Estados Unidos, como em todos os países, mas deve prevalecer o humanismo», disse, citado pelo diário La Jornada.

Antonio Manuel López Obrador referiu-se a Assange como um dos melhores jornalistas da actualidade, que «partilhou e divulgou não apenas textos, mas também imagens de violações flagrantes dos direitos humanos por parte de tropas dos Estados Unidos».

«O seu crime entre aspas foi denunciar a ingerência da administração dos EUA nos assuntos internos de outros países», insistiu. Por isso, considerou Assange «um preso de consciência, injustamente tratado».

«Esperava que a Justiça no Reino Unido actuasse correctamente, que o protegesse, porque sabem o que o espera no país para o qual o vão extraditar; no entanto, aquilo que fizeram foi muito decepcionante», 

denunciou, citado pela Prensa Latina. 

O ala(r)gamento da "União" europeia

  - Nº 2534 (2022/06/23)


Um alargamento que expõe a natureza e o caminho da UE

Opinião


No actual contexto, marcado pela guerra e pela crescente confrontação no Leste da Europa, a adesão da Ucrânia à UE (tal como a da Moldova e da Geórgia) cedo se inseriu numa estratégia de instigação dessa confrontação. Em rigor, a perspectiva de associação da Ucrânia à UE, com a sua aproximação ao mercado único, sendo anterior à guerra, não deixa de estar associada à confrontação que nela desembocou.

Vale a pena recordar que a UE negociou durante anos um acordo de associação com a Ucrânia que, além da liberalização das trocas comerciais, pressupunha a realização de reformas estruturais, de recorte neoliberal, nas instituições e na economia ucranianas, envolvendo a famigerada «redução do peso do Estado na economia», privatizações, liberalizações, abertura de mercados. Os termos do acordo eram (são) leoninos para a UE, o que justificou resistências do lado ucraniano, contradições, avanços e recuos.

Significativamente, só após o golpe de Estado de 2014 o acordo foi assinado. A pressa foi tanta que a UE nem aguardou pela pseudo-legitimação eleitoral do governo golpista. O poder então instituído, integrando forças nacionalistas, incluindo de cariz assumidamente nazifascista, rapidamente se predispôs a assinar o acordo. Este poder foi responsável por profundas clivagens na sociedade ucraniana que vieram a desembocar no conflito interno e na guerra no Donbass.

Face a este enquadramento, qualquer perspectiva de procura empenhada da paz, tendo em vista uma solução política para o conflito, levará necessariamente à conclusão de que não faz sentido, nestas condições, travar o debate sobre a adesão da Ucrânia à UE. Que a UE o decida fazer, tendo presente a natureza do poder e do regime instalados em Kiev, por si só, diz muito da própria UE, do que dela se pode esperar quanto ao desenrolar do conflito e das opções geopolíticas a que se amarra – já há quem lhe chame o «pátio da frente dos EUA»...

Acresce que qualquer adesão à UE, a acontecer, deve resultar de uma decisão soberana, democrática, informada, de cada povo. No caso da Ucrânia, a situação actual impede, por razões óbvias, a verificação desta condição.

Imposições e soberania

Importa sublinhar, porém, que a atribuição do estatuto de candidato a um país não é sinónimo de adesão futura, menos ainda num futuro próximo. Há quem detenha tal estatuto há mais de 30 anos (caso da Turquia), não sendo claro que algum dia venha a aderir.

Aqueles que agora prometem uma adesão rápida à Ucrânia sabem-no bem. Sem afastar, neste caso, motivações geopolíticas que poderão determinar um tratamento diferenciado, a adesão à UE de um país com a dimensão da Ucrânia terá dois impactos inevitáveis, geradores de profundas contradições no seio da própria UE. Contradições que não se ultrapassarão sem sobressaltos.

Por um lado, introduzirá uma significativa alteração na relação de forças nas instituições e, por conseguinte, no processo de tomada de decisão. Algo que não é bem visto por quem manda. Por outro lado, perante um orçamento da UE que vem encolhendo desde há décadas (e que os beneficiários líquidos da integração não querem aumentar), a adesão da Ucrânia teria um impacto brutal na redução dos fundos recebidos por um conjunto significativo de países, incluindo Portugal. Seria o fim da política de coesão, como a conhecemos – mesmo sabendo-a já hoje parca e insuficiente, tal significaria dar rédea ainda mais solta aos efeitos assimétricos da integração.

Por tudo isto, alguns apostam num outro cenário: o da criação de um grande espaço de integração, uma grande área de influência das principais potências europeias, que admita graus diversos de pertença. Neste cenário, a Ucrânia (como outros países candidatos) até poderia integrar o mercado único da UE (digamos: abrir os seus mercados à colonização pelos grandes grupos económicos e financeiros europeus), integrar algumas políticas comuns da UE, mas ficar formalmente de fora, arrastando durante anos a condição de «candidato».

Independentemente do que ditarão desenvolvimentos nos quais sempre pesará a vontade soberana de cada povo, convém não ignorar a natureza profunda da integração capitalista, nem o significado dos alargamentos: submeter mais países aos objectivos de domínio económico e político das grandes potências e dos seus grupos económicos.

 

João Ferreira

PAZ, SIM!