quinta-feira, março 09, 2023

a falhe de foice

  - Nº 2571 (2023/03/9)


A verdade e o resto

Opinião

Escreveu Álvaro Cunhal na obra O Partido com Paredes de Vidro que «a verdade é um princípio inerente a toda a vida e actividade do Partido. O amor pela verdade é elemento componente da moral comunista». E não podia ser de outra maneira, aliás: na concretização dos objetivos a que os comunistas se propõem é determinante a participação empenhada, organizada e consciente de amplas massas, pelo que a mentira, a ocultação e a manipulação – a pensar em votos, manchetes ou reacções nas redes sociais – não são opções válidas. Não para quem se propõe a transformar o mundo e a vida.

O nosso ofício é outro: ouvir, esclarecer, agregar, mobilizar. E a tarefa, sabemo-lo, nunca se apresenta fácil, ou não fosse a ideologia dominante a da classe dominante e tão abissal a desproporção de meios. Quanto ao caminho, é o de sempre: insistir e persistir até que a verdade, que o povo diz ser como o azeite, acabe por vir ao de cima. Este firme compromisso é válido em todos os momentos e circunstâncias, mesmo – ou sobretudo – quando é mais forte a ofensiva anticomunista, que sempre oculta uma outra, mais vasta, contra direitos e liberdades.

Dito isto, algumas questões se impõem.

Poderia o PCP, para se furtar à violenta campanha contra si movida, ter calado as responsabilidades dos EUA, da NATO e da UE no agravamento da tensão no Leste da Europa, que conduziu à presente escalada de guerra? Poderia ter tratado como inofensivos pormenores o cerco militar que desde os anos 90 do século XX se vem apertando em torno da Rússia ou o abandono unilateral, pelos EUA, de sucessivos acordos de controlo de armamentos? Poderia elogiar a superioridade moral do chamado Ocidente ignorando o Iraque, o Afeganistão, a Jugoslávia, a Síria, a Líbia, o próprio Donbass?

E poderiam os seus deputados ter aplaudido de pé o «herói» Zelensky conhecendo o poder xenófobo e belicista que representa, os crimes cometidos contra a população ucraniana de língua e cultura russas, a ilegalização de partidos e organizações democráticas e a ligeireza – e submissão – com que sacrifica o seu povo a tenebrosos interesses externos?

Poderia ter-se juntado ao coro dos que exigem mais sanções, sabendo que elas prejudicam os povos – todos eles – na exacta medida em que beneficiam a acumulação de lucros fabulosos por um punhado de grupos económicos? Poderia reclamar mais armas e a continuação da guerra até à derrota total da Rússia, apesar de saber que isso pode conduzir o mundo a uma catástrofe de dimensões incalculáveis? Poderia deixar de lado a defesa intransigente de diálogo, de negociações, de paz?

Poder, podia. Outros fizeram-no sem hesitar. Mas tal opção seria faltar à verdade – e aí o PCP já não seria o que é, mas outra coisa qualquer.


Gustavo Carneiro de amplas massas, pelo que a mentira, a ocultação e a manipulação – a pensar em votos, manchetes ou reacções nas redes sociais – não são opções válidas. Não para quem se propõe a transformar o mundo e a vida.

O nosso ofício é outro: ouvir, esclarecer, agregar, mobilizar. E a tarefa, sabemo-lo, nunca se apresenta fácil, ou não fosse a ideologia dominante a da classe dominante e tão abissal a desproporção de meios. Quanto ao caminho, é o de sempre: insistir e persistir até que a verdade, que o povo diz ser como o azeite, acabe por vir ao de cima. Este firme compromisso é válido em todos os momentos e circunstâncias, mesmo – ou sobretudo – quando é mais forte a ofensiva anticomunista, que sempre oculta uma outra, mais vasta, contra direitos e liberdades.

Dito isto, algumas questões se impõem.

Poderia o PCP, para se furtar à violenta campanha contra si movida, ter calado as responsabilidades dos EUA, da NATO e da UE no agravamento da tensão no Leste da Europa, que conduziu à presente escalada de guerra? Poderia ter tratado como inofensivos pormenores o cerco militar que desde os anos 90 do século XX se vem apertando em torno da Rússia ou o abandono unilateral, pelos EUA, de sucessivos acordos de controlo de armamentos? Poderia elogiar a superioridade moral do chamado Ocidente ignorando o Iraque, o Afeganistão, a Jugoslávia, a Síria, a Líbia, o próprio Donbass?

E poderiam os seus deputados ter aplaudido de pé o «herói» Zelensky conhecendo o poder xenófobo e belicista que representa, os crimes cometidos contra a população ucraniana de língua e cultura russas, a ilegalização de partidos e organizações democráticas e a ligeireza – e submissão – com que sacrifica o seu povo a tenebrosos interesses externos?

Poderia ter-se juntado ao coro dos que exigem mais sanções, sabendo que elas prejudicam os povos – todos eles – na exacta medida em que beneficiam a acumulação de lucros fabulosos por um punhado de grupos económicos? Poderia reclamar mais armas e a continuação da guerra até à derrota total da Rússia, apesar de saber que isso pode conduzir o mundo a uma catástrofe de dimensões incalculáveis? Poderia deixar de lado a defesa intransigente de diálogo, de negociações, de paz?

Poder, podia. Outros fizeram-no sem hesitar. Mas tal opção seria faltar à verdade – e aí o PCP já não seria o que é, mas outra coisa qualquer.

Gustavo Carneiro

domingo, março 05, 2023

PELA PAZ!

 - Nº 2570 (2023/03/2)

Pela paz!

Opinião

Assumem grande importância e significado as diversificadas manifestações realizadas em várias capitais e outras cidades europeias, com a participação de muitos milhares de pessoas que, conscientes da grave situação na Europa e dos perigos que o seu ainda maior agravamento comporta, convergiram na rejeição da guerra, no repúdio do papel dos EUA e da NATO na promoção da escalada armamentista e do prolongamento do conflito que se trava na Ucrânia, na denúncia de que são os povos que estão a pagar os custos da guerra e das sanções, na exigência da paz.

Uma importância e significado que se revela tão mais evidente quanto estas manifestações pela paz foram quase completamente ocultadas, secundarizadas ou desvirtuadas nos seus objectivos pela generalidade dos meios de comunicação social que, diariamente e até à exaustão, destilam a apologia da guerra.

Da mais descarada mentira, deturpação e caricatura, à premeditada ocultação, vale quase tudo para fomentar e animar a campanha de desinformação quanto à convicção daqueles que se posicionam contra a guerra e a favor da paz – como faz o PCP – para melhor os atacar e estigmatizar, dando rédea solta às concepções mais reaccionárias e belicistas, ao ódio fascista.

Veja-se, como exemplo, a forma como a generalidade da comunicação social noticiou as recentes tomadas de posição do PCP, incluindo na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu, ocultando ou descaracterizando o que o PCP afirma, para falsamente lhe atribuir o que não defende.

Na verdade, por mais que se esforcem em fomentar um manto de névoa com que procuram encobrir a realidade, é cada vez mais evidente quem está do lado da paz e quem está do lado da guerra e interessado na sua continuação.

Veja-se como os EUA, a NATO e a UE têm sistematicamente boicotado, rejeitado ou desvalorizado os diversos apelos, iniciativas e propostas que têm sido avançadas com vista a uma solução política para o conflito, como se verificou, uma vez mais, relativamente à proposta recentemente apresentada pela China.

Uma proposta que, inserindo-se num caminho de paz, contribui para expor os reais propósitos dos EUA e de todos quantos alinham com estes na sua estratégia de confrontação e guerra ou, dito de outra forma, na criação de um estado de guerra permanente, para melhor impor a sua política de exploração e opressão, de saque, de domínio neocolonial, e assim procurar assegurar as condições para gerir a sua crise, contrariar o seu declínio económico relativo e salvaguardar a sua hegemonia mundial.

A realidade está a demonstrar que os EUA não olham a meios, incluindo às mais perversas e perniciosas provocações e manobras, para alcançar os seus objectivos. O imperialismo norte-americano, com o alinhamento da NATO e da UE, não quer parar a guerra que trava na Ucrânia, pelo contrário, aposta no seu prolongamento, porque necessita dela, aliás é o primeiro e principal responsável pela sua eclosão em 2014.

Quando por todo o mundo se expressa inequivocamente a aspiração à paz, o PCP expressa a sua solidariedade para com as vítimas de uma guerra que dura há nove anos e reitera o seu firme compromisso com a luta pela paz, pela verdade, contra o militarismo, o fascismo e a guerra, pela amizade e cooperação com todos os povos do mundo.

Pedro Guerreiro 

quarta-feira, fevereiro 22, 2023

Fim de invernos

Num outro desafio semanal (palavra puxa palavra):

                                                                    (*)

                        
(*) - nesta "reedição" da mensagem, pareceu oportuno 
(e necesssário)
sublinhar que os esforços para que haja PAZ na Europa
 se devem datar de 2014 (e de antes!) e não de Fevereiro de 2022.



Não se trata de tomar posição... trata-se de a dar a conhecer

 

O objetivo é eliminar a dominância do Ocidente

– O que disse Vladimir Putin na sua mensagem

Vladimir Vinnikov

Putin em 21/Fevereiro/2023.

O discurso presidencial de quase duas horas perante a Assembleia Federal, em 21/Fevereiro/2023, como é quase sempre típico dos discursos de Putin a este nível, foi inesperado. Antes de mais nada, no seu tom e nas suas prioridades.

O tom foi absolutamente calmo e confiante, e se tentar anotar as prioridades da mensagem a posteriori, não na ordem do seu significado, e não na ordem do seu enunciado (embora esta ordem seja também de considerável importância), mas na ordem de alguma coerência geral, então pode-se aproximadamente modelar o quadro seguinte.

O mundo moderno entrou numa era de mudanças radicais e irreversíveis (o que levou ao aparecimento de novas, bem como ao renascimento ou agravamento de conflitos anteriores). A Operação Militar Especial é um destes conflitos no qual há um combate não só pelas terras históricas da Rússia, como pela sua reunificação e também pela própria existência do nosso povo e do nosso Estado, uma vez que as elites ocidentais levaram ao poder um regime neo-nazi na Ucrânia exatamente do mesmo modo como anteriormente haviam levado ao poder o regime nazi na Alemanha. O objetivo de tais ações é infligir uma "derrota estratégica" à Rússia – e aos olhos do Ocidente este objetivo justifica quaisquer meios para o alcançar.

Os conceitos de honra, confiança e decência não se referem a estas elites ocidentais que praticamente ocuparam a Ucrânia, desencadearam ali um conflito e rejeitaram todas as tentativas da Rússia para resolver a situação pacificamente e criar uma nova arquitetura de segurança internacional. A Rússia está a usar a força para pôr fim a este conflito e está a fazê-lo de forma tão responsável, consistente e precisa quanto possível.

Contudo, o Ocidente, pelo contrário, está a fazer todos os esforços para escalar o conflito, gastando 150 mil milhões de dólares em assistência direta ao regime neo-nazi de Kiev, bem como a posicionar não só uma frente militar, informacional, mas também económica contra a Rússia (desconsiderando as suas próprias perdas decorrentes das sanções anti-russas).

Mas como resultado, nada foi conseguido – a Rússia acabou por se tornar muito mais forte do que os seus adversários esperavam. E a principal prioridade do nosso país agora não é a vitória sobre o regime neo-nazi Kiev "a qualquer custo", não "armas ao invés de manteiga", o seu objetivo é transformar todo o atual sistema de relações internacionais com acesso a posições de liderança tecnológica, social, financeira e económica. Temos todas as condições necessárias e suficientes para isto e precisamos aproveitá-las ao máximo.

Este objetivo é incompatível com o anterior posicionamento da Rússia como uma fonte de matérias-primas para o mercado livre global. De modo geral, a situação em que tecnologias chave, mercados de venda e empréstimos baratos para o nosso país estavam localizados exclusivamente no Ocidente já é uma coisa do passado. Portanto, os interesses financeiros e económicos das elites internas e, em geral, pós-soviéticas no estrangeiro deixarão de ser considerados na mesma medida (aparentemente, sem mencionar a sua proteção).

Estas elites, as quais agora enfrentam a realização da previsão de Putin "Torturem-se a engolir poeira!", devem fazer uma escolha: ou permanecem no Ocidente com o estatuto de "comida", ou ligam o seu futuro à Rússia com o apoio garantido do Estado e da sociedade.

Agora a linha da frente passa pelo coração de dezenas de milhões dos nossos compatriotas e os slogans "Pela Vitória! Pela Pátria Mãe" obtêm uma resposta poderosa por todo o país. Ao mesmo tempo, é garantido que todas as eleições, incluindo a eleição presidencial em 2024, serão realizadas em tempo útil e em total conformidade com a legislação russa.

Para os "parceiros" ocidentais foi feita uma declaração específica de que o nosso país ainda não se retirou do tratado estratégico de armas ofensivas, mas suspende a sua participação no mesmo. E no caso de reinício dos testes nucleares pelos Estados Unidos (ou outros Estados membros da "aliança de democracias", como o Reino Unido ou França) reserva-se o direito de efetuar tais testes.

Aqui deveria ser notado em especial que dados os modernos sistemas de armamento que a Rússia possui atualmente, pode-se pelo menos imaginar as consequências de testar "Poseidon" ou "Avangard" nas águas internacionais do Oceano Mundial – é pouco provável que esta perspetiva cause uma onda de entusiasmo em Washington, Londres ou Tóquio... A Rússia responderá a quaisquer desafios. A verdade está conosco!

Não há dúvida de que a reação da aliança de democracias que acabam de ameaçar Putin, o nosso país e todos nós pessoalmente com uma guerra de aniquilação, seguirá este discurso calmo e equilibrado do presidente russo.

Não só "em perseguição a quente", mas também a longo prazo. Como foi o caso com o Discurso de Munique de 2007 e o discurso federal de 2018. E pelo que esta reação acabar por ser, será possível julgar quão adequados são os líderes públicos do Ocidente coletivo. Embora este ponto, ao que parece, já esteja a tornar-se cada vez menos importante – e por razões puramente objetivas.

21/Fevereiro/2023


in resisstir-infp

domingo, fevereiro 05, 2023

Cá etamos

Do quase-diário:


04-05.02.2023

(06h30)

 

É reconfortante saber que as ausências de informações (frases ou livros) e/ou comentários nossos são sentidas

 

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Primeiro, a irregularidade de postagens no anónimo, depois um período significativo sem aparecer – por/e sem) razões diversas –, suscitaram algumas observações (não muitas mas todas simpáticas quando não preocupadas).  

 

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Poderia argumentar com a escassez de comentários, mas parece-me ser frca desculpa pois s intenção é /deveria ser sobretudo a de tentar compensar a escandalosa (para não dizer criminosa) manipulação da (de)sinformaçção

 

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Pois, valha o que valer (um leitor que seja), cá estamos.! 

ENTRE VISTAS

  - Nº 2566 (2023/02/2)


Entrevistas

Opinião

O General alemão Harald Kujat deteve o mais alto cargo militar das Forças Armadas alemãs e, mais tarde, da NATO (presidente do Comité Militar até 2005). O que diz sobre a escalada imparável de armamento da NATO para a Ucrânia e os riscos associados é relevante, tal como é relevante que a entrevista tenha aparecido num pouco conhecido órgão de imprensa suiço (zeitgeschehen-im-fokus.ch, 18.1.23, republicada em espanhol em ctxt.es, n.º 292). Afirma Kujat que «esta guerra devia ter sido impedida e podia ter sido impedida [...] Talvez um dia se faça a pergunta de quem quis esta guerra, quem não a quis impedir e quem não a pôde impedir». Adianta que «não, esta guerra não é sobre a nossa liberdade. Os problemas de fundo que conduziram à guerra e que fazem com que ainda decorra, embora pudesse ter acabado há muito, são bem diferentes». Adianta: «o objectivo [dos EUA] é enfraquecer a Rússia do ponto de vista político, económico e militar, a tal grau que depois se possa virar para o seu rival geopolítico, o único capaz de ameaçar a sua supremacia como potência mundial: a China». Kujat lembra que «de acordo com informações fidedignas, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson interveio em Kiev, a 9 de Abril [2022], para impedir a assinatura [do acordo Ucrânia-Rússia, alcançado nas negociações em Istambul]». Pergunta: «quem fez explodir o Nord Stream 2?». E lembra as declarações «claras» de Angela Merkel que afirmou «só ter negociado os Acordos Minsk II [2015] para dar tempo à Ucrânia. E a Ucrânia usou esse tempo para construir as suas Forças Armadas. O ex-presidente francês Hollande confirmou isso mesmo».

Os Acordos de Minsk previam que o Donbass agredido pelos golpistas de Kiev continuasse território ucraniano, com estatuto de autonomia. Os acordos não tinham apenas a chancela da França e Alemanha. Foram transformados (por unanimidade) em Resolução 2202 do Conselho de Segurança da ONU. Agora Merkel e Hollande dizem que não eram para cumprir. Estão a dizer que o eternamente dúplice imperialismo nunca quis a paz e a defesa da integridade territorial da Ucrânia. Falou de paz para melhor preparar a guerra. Diz o General Kujat: «Sim, é claro que foi uma violação do direito internacional [...]. Afinal somos nós que violamos os acordos internacionais». É sempre assim. Quando os acordos já não convêm, são rasgados. Como o acordo sobre o nuclear iraniano, país que está hoje a ser alvo de ataques militares. Como as resoluções e acordos sobre a Palestina, cujo povo está a ser massacrado todos os dias.

O imperialismo não muda a sua natureza, quer se vista de liberal, de «social-democrata», de «ecologista» ou de fascista. Só recua quando é obrigado. Diz Merkel: «A verdade é que a Guerra Fria nunca acabou realmente, porque em última análise a Rússia nunca foi pacificada» (Corriere della Sera, 27.12.22). Espantoso. Mas a «guerra fria» não era culpa «do comunismo» e da «ameaça soviética»? Afinal, a Rússia capitalista, saqueada e quase destruída pelo imperialismo após o fim da URSS, também precisa de «pacificação». Que é a expressão de todos os colonizadores quando falam da subjugação dos povos pela força. Mouzinho de Albuquerque também «pacificava» o império colonial português. A soberania dos povos é para eles intolerável, ontem como hoje.

Jorge Cadima

quinta-feira, dezembro 22, 2022

Casa roubada... (ou quem com ferro mata...)

 - Nº 2560 (2022/12/22)

Casa roubada...

Opinião

O que se passa entre os «aliados» dos dois lados do Atlântico merece reflexão. A UE, após aplicar infindáveis pacotes de sanções que, mais do que sancionar a Rússia, sancionam a própria UE; após assistir muda e queda à sabotagem dos gasodutos NordStream, encomendados e pagos pela Alemanha; após ver as suas empresas a falir ou fugir, à procura de energia mais barata, e ver os EUA vender à Europa gás a 4 e 5 vezes o preço que é vendido nos Estados Unidos; após gastar milhares de milhões a financiar e armar a guerra da NATO no seu continente – após tudo isto, a UE está agora a braços com o pacote de quase 400 mil milhões de dólares de subsídios à indústria norte-americana decretado pelo Presidente Biden, em nome do ambiente e do combate à inflação. O Financial Times (6.12.22) diz que este pacote de subsídios estatais, que dá pelo nome de Lei da Redução da Inflação (IRA, nas iniciais em inglês), «tem o potencial de seduzir dezenas de empresas alemães, levando-as a abandonar a sua base nacional». E exemplifica: «Ao abrigo do IRA, os subsídios para a compra de veículos eléctricos seriam apenas para os que tenham componentes produzidos nos EUA e aí sejam montados». Os efeitos do IRA juntar-se-ão ao que já se passou nos últimos meses. Segundo o FT, «estatísticas governamentais divulgadas no mês passado indicam que a produção nas indústrias de energia intensiva, que correspondem na Alemanha a 23% de todos os empregos industriais, caiu 10% desde o início do ano».

O jornal politico.eu dá conta das reacções ao IRA, públicas e privadas, de dirigentes da UE. Num artigo com título «A Europa acusa os EUA de lucrar com a guerra» (24.11.22) fala em «pânico total» em Bruxelas e nos «receios duma guerra comercial transatlântica». Anuncia que a UE está a preparar as suas respostas «para impedir que a indústria europeia sejam arrasada pelos rivais americanos». Faz lembrar o ditado «casa roubada, trancas à porta».

A verdade é que a UE entregou-se de mãos e pés atados aos EUA. Ao contrário do que para aí se diz, a UE não estava «na dependência energética da Rússia». Podia escolher onde comprar, e optou por fazê-lo com base em racionais considerações de mercado, comprando onde era mais barato. Dependente dos EUA foi como a UE ficou, depois de se auto-sancionar e de alguém (quem foi? quem foi?) fazer explodir os gasodutos NordStream, impossibilitando a UE de arrepiar caminho. Chama-se a isto «mercados livres». Os «aliados» são afinal lobos e as presas não são apenas os países que insistem em optar por caminhos soberanos. São também os que se põem a jeito, ou porque acreditam na sua própria propaganda, ou porque têm dirigentes que anseiam lucrativas carreiras como a de Durão Barroso, carrasco do Iraque e Portugal. O que a UE fez aos PIIGS, estão agora os EUA a fazer à UE.

Já vimos que velhos «tabus liberais», como as nacionalizações e subsídios estatais, deixam de ser tabús quando se trata de ajudar o grande capital. Também o proteccionismo é assim. Os «mercados livres» sempre tiveram Estados por detrás, a promover os interesses dos tubarões maiores pela repressão dos trabalhadores ou as guerras de rapina. Tubarões que também se degladiam entre si e apenas se aliam para, juntos, tentar esmagar os trabalhadores e povos.

Jorge Cadima 

Dois terroristas...

É assim - tal e qual - que está nas notícias do dia de ZAP-aeiou












Que é que lhes deu?

quinta-feira, dezembro 15, 2022

Escolhas e apagões... a talhe de foice


  - Nº 2559 (2022/12/15)


Escolhas e apagões

Opinião

O jornalismo – todo ele! – é feito de opções, sendo a primeira, porventura, a escolha, de entre uma infinidade de acontecimentos e assuntos, daqueles que serão notícia. Como se concretiza essa selecção depende de diversos critérios, nem todos meramente jornalísticos.

Outra questão, diferente mas não menos relevante, é a forma como essas notícias são elaboradas, mas esta crónica não é sobre isso: com ela pretende-se, apenas, recordar (ou, em alguns casos, até revelar) notícias que tiveram pouca ou nenhuma expressão na generalidade dos órgãos de comunicação social, pese embora o seu inegável interesse público.

Desde há meses que a situação na Ucrânia vem motivando – e justificadamente, reconheça-se – o interesse mediático, com dossiês e emissões especiais, debates e comentários quase diários. Contudo, passou despercebida a entrevista recente de Angela Merkel ao jornal Die Zeit, na qual a antiga chanceler alemã reconhece que a assinatura dos Acordos de Minsk teve menos a ver com uma real vontade de resolver o conflito que desde 2014 se travava no Donbass, e que custava milhares de vidas, do que com a intenção de dar tempo às forças ucranianas para se armarem e prepararem para o confronto com a Rússia.

Também em Outubro, as afirmações dos ministros da Economia da Alemanha, Robert Habeck, e de França, Bruno Le Maire, criticando os Estados Unidos por venderem gás natural aos seus países a preços astronómicos, não tiveram grande repercussão nas televisões, rádios e jornais do chamado mundo ocidental. Discreta foi, ainda, a divulgação dos dados que comprovam os brutais impactos das sanções na indústria dos principais países da UE (há já quem fale da desindustrialização da Europa) e a transferência de unidades da Volkswagen, da BMW, da Mercedes-Benz, da BASF, da Siemens ou da Lufthansa para os EUA, onde os custos com energia são mais competitivos.

Praticamente ausentes dos media estiveram igualmente as greves, concentrações e manifestações que, sobretudo desde Setembro, se têm vindo a realizar na Alemanha, na Bélgica, em França, em Itália, no Reino Unido, na República Checa e também em Portugal, pela valorização de salários e pensões, contra o aumento dos preços (sobretudo da energia), pelo fim da guerra e das sanções, por negociações de paz.

Assim, terão sido poucos os que ouviram os trabalhadores alemães a exigir «abram o NordStream já!», os italianos a criticar a adesão do seu país à «cruzada euro-atlântica de sanções contra a Rússia», os checos a acusar o seu governo de nada fazer para travar o crescimento da pobreza e os portugueses a afirmar que «o povo quer a paz, não o que a guerra traz».

A construção das narrativas «oficiais» faz-se tanto do que se mostra (e como se mostra) mas também do que se apaga.

Gustavo Carneiro