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sábado, março 25, 2023

A caminho de uma nova (outra) ordem internacional

O ABSURDO COMO REGRA... POR ENQUANTO 

 - Nº 2573 (2023/03/23)

Regras...

Opinião

Os EUA e seus lacaios deixaram de falar em direito internacional, assente nos princípios da Carta da ONU, e falam agora numa «ordem internacional baseada em regras». O significado das «regras» imperialistas está à vista. Este mês passam 20 anos da invasão do Iraque pelos EUA, 24 anos do começo dos bombardeamentos da NATO sobre a Jugoslávia, 12 anos dos bombardeamentos da NATO sobre a Líbia e da guerra por procuração contra a Síria. Todas elas guerras ilegais, assentes na mentira, que causaram milhões de mortes e desalojados, destruíram países, deixaram atrás de si o caos e a ocupação. Os responsáveis por estes crimes e mentiras (como Clinton, Bush, Blair, Obama) dormem tranquilos. Agora, o Tribunal Penal Internacional emite um mandato de captura contra o presidente russo e a Comissária Presidencial para os Direitos das Crianças por – pasme-se – organizar a evacuação de crianças do Donbass em guerra, considerada «rapto».

Tranquilo anda o primeiro Presidente da Ucrânia após o golpe de 2014, Porochenko, apesar de, ao lançar a guerra contra o Donbass, ter declarado que «as nossas crianças irão à escola e ao jardim escola, enquanto que as deles ficarão fechadas em caves» (www.youtube.com/watch?v=aHWHqj8g7Bk).

Biden congratulou-se com a decisão do TPI. Mas não só os EUA não aderiram ao TPI, como ameaçaram prender os juízes que ousassem investigar os crimes de guerra dos EUA no Afeganistão (france24.com, 10.9.18) e sancionaram a sua Procuradora Bensouda (BBC, 2.9.20). O então Conselheiro de Segurança Nacional Bolton, afirmou: «Vamos proibir os seus juízes e procuradores de entrar nos Estados Unidos. Vamos sancionar os seus fundos no sistema financeiro dos EUA e vamos acusá-los no sistema penal dos EUA. Faremos o mesmo com qualquer empresa ou Estado que ajude investigações de americanos pelo TPI» (BBC, 11.9.18). Bolton acrescentou que a intenção dos palestinianos levarem Israel ao TPI pelos seus crimes de ocupação «foi uma das razões que levou o governo dos EUA a encerrar a missão diplomática palestiniana em Washington» (BBC, 11.9.18).

Obama e Biden mantiveram os EUA fora do TPI. Desde 2002 existe uma lei dos EUA, aprovada no Senado por 30 Democratas e 47 Republicanos, conhecida informalmente como a Lei da Invasão da Haia (a cidade holandesa onde o TPI tem sede), pois permite aos presidentes dos EUA usar «todos os meios necessários e adequados para obter a libertação de qualquer funcionário dos EUA e aliados que seja detido ou encarcerado pelo, em nome de, ou a pedido do, TPI».

Que o TPI não faz justiça sabem-no bem os países africanos, pois até 2020, «todos os julgamentos do TPI [...] dirigiram-se apenas contra africanos» (BBC, 2.9.20). A União Africana apelou ao abandono pelos países africanos do TPI (BBC, 1.2.17).

As «regras» das potências imperialistas são as coloniais: o total arbítrio para impor a sua dominação pela força. «Regra» há só uma: a defesa do grande capital imperialista e da sua hegemonia planetária. É também a «regra» dos cassetetes sobre os trabalhadores franceses enquanto se entregam biliões de dinheiros públicos aos banqueiros. Por detrás da hipócrita farronca está a decadência dum sistema em colapso, que nada tem para oferecer a não ser miséria, guerra e mentira.

Jorge Cadima


domingo, fevereiro 05, 2023

ENTRE VISTAS

  - Nº 2566 (2023/02/2)


Entrevistas

Opinião

O General alemão Harald Kujat deteve o mais alto cargo militar das Forças Armadas alemãs e, mais tarde, da NATO (presidente do Comité Militar até 2005). O que diz sobre a escalada imparável de armamento da NATO para a Ucrânia e os riscos associados é relevante, tal como é relevante que a entrevista tenha aparecido num pouco conhecido órgão de imprensa suiço (zeitgeschehen-im-fokus.ch, 18.1.23, republicada em espanhol em ctxt.es, n.º 292). Afirma Kujat que «esta guerra devia ter sido impedida e podia ter sido impedida [...] Talvez um dia se faça a pergunta de quem quis esta guerra, quem não a quis impedir e quem não a pôde impedir». Adianta que «não, esta guerra não é sobre a nossa liberdade. Os problemas de fundo que conduziram à guerra e que fazem com que ainda decorra, embora pudesse ter acabado há muito, são bem diferentes». Adianta: «o objectivo [dos EUA] é enfraquecer a Rússia do ponto de vista político, económico e militar, a tal grau que depois se possa virar para o seu rival geopolítico, o único capaz de ameaçar a sua supremacia como potência mundial: a China». Kujat lembra que «de acordo com informações fidedignas, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson interveio em Kiev, a 9 de Abril [2022], para impedir a assinatura [do acordo Ucrânia-Rússia, alcançado nas negociações em Istambul]». Pergunta: «quem fez explodir o Nord Stream 2?». E lembra as declarações «claras» de Angela Merkel que afirmou «só ter negociado os Acordos Minsk II [2015] para dar tempo à Ucrânia. E a Ucrânia usou esse tempo para construir as suas Forças Armadas. O ex-presidente francês Hollande confirmou isso mesmo».

Os Acordos de Minsk previam que o Donbass agredido pelos golpistas de Kiev continuasse território ucraniano, com estatuto de autonomia. Os acordos não tinham apenas a chancela da França e Alemanha. Foram transformados (por unanimidade) em Resolução 2202 do Conselho de Segurança da ONU. Agora Merkel e Hollande dizem que não eram para cumprir. Estão a dizer que o eternamente dúplice imperialismo nunca quis a paz e a defesa da integridade territorial da Ucrânia. Falou de paz para melhor preparar a guerra. Diz o General Kujat: «Sim, é claro que foi uma violação do direito internacional [...]. Afinal somos nós que violamos os acordos internacionais». É sempre assim. Quando os acordos já não convêm, são rasgados. Como o acordo sobre o nuclear iraniano, país que está hoje a ser alvo de ataques militares. Como as resoluções e acordos sobre a Palestina, cujo povo está a ser massacrado todos os dias.

O imperialismo não muda a sua natureza, quer se vista de liberal, de «social-democrata», de «ecologista» ou de fascista. Só recua quando é obrigado. Diz Merkel: «A verdade é que a Guerra Fria nunca acabou realmente, porque em última análise a Rússia nunca foi pacificada» (Corriere della Sera, 27.12.22). Espantoso. Mas a «guerra fria» não era culpa «do comunismo» e da «ameaça soviética»? Afinal, a Rússia capitalista, saqueada e quase destruída pelo imperialismo após o fim da URSS, também precisa de «pacificação». Que é a expressão de todos os colonizadores quando falam da subjugação dos povos pela força. Mouzinho de Albuquerque também «pacificava» o império colonial português. A soberania dos povos é para eles intolerável, ontem como hoje.

Jorge Cadima

quinta-feira, dezembro 22, 2022

Casa roubada... (ou quem com ferro mata...)

 - Nº 2560 (2022/12/22)

Casa roubada...

Opinião

O que se passa entre os «aliados» dos dois lados do Atlântico merece reflexão. A UE, após aplicar infindáveis pacotes de sanções que, mais do que sancionar a Rússia, sancionam a própria UE; após assistir muda e queda à sabotagem dos gasodutos NordStream, encomendados e pagos pela Alemanha; após ver as suas empresas a falir ou fugir, à procura de energia mais barata, e ver os EUA vender à Europa gás a 4 e 5 vezes o preço que é vendido nos Estados Unidos; após gastar milhares de milhões a financiar e armar a guerra da NATO no seu continente – após tudo isto, a UE está agora a braços com o pacote de quase 400 mil milhões de dólares de subsídios à indústria norte-americana decretado pelo Presidente Biden, em nome do ambiente e do combate à inflação. O Financial Times (6.12.22) diz que este pacote de subsídios estatais, que dá pelo nome de Lei da Redução da Inflação (IRA, nas iniciais em inglês), «tem o potencial de seduzir dezenas de empresas alemães, levando-as a abandonar a sua base nacional». E exemplifica: «Ao abrigo do IRA, os subsídios para a compra de veículos eléctricos seriam apenas para os que tenham componentes produzidos nos EUA e aí sejam montados». Os efeitos do IRA juntar-se-ão ao que já se passou nos últimos meses. Segundo o FT, «estatísticas governamentais divulgadas no mês passado indicam que a produção nas indústrias de energia intensiva, que correspondem na Alemanha a 23% de todos os empregos industriais, caiu 10% desde o início do ano».

O jornal politico.eu dá conta das reacções ao IRA, públicas e privadas, de dirigentes da UE. Num artigo com título «A Europa acusa os EUA de lucrar com a guerra» (24.11.22) fala em «pânico total» em Bruxelas e nos «receios duma guerra comercial transatlântica». Anuncia que a UE está a preparar as suas respostas «para impedir que a indústria europeia sejam arrasada pelos rivais americanos». Faz lembrar o ditado «casa roubada, trancas à porta».

A verdade é que a UE entregou-se de mãos e pés atados aos EUA. Ao contrário do que para aí se diz, a UE não estava «na dependência energética da Rússia». Podia escolher onde comprar, e optou por fazê-lo com base em racionais considerações de mercado, comprando onde era mais barato. Dependente dos EUA foi como a UE ficou, depois de se auto-sancionar e de alguém (quem foi? quem foi?) fazer explodir os gasodutos NordStream, impossibilitando a UE de arrepiar caminho. Chama-se a isto «mercados livres». Os «aliados» são afinal lobos e as presas não são apenas os países que insistem em optar por caminhos soberanos. São também os que se põem a jeito, ou porque acreditam na sua própria propaganda, ou porque têm dirigentes que anseiam lucrativas carreiras como a de Durão Barroso, carrasco do Iraque e Portugal. O que a UE fez aos PIIGS, estão agora os EUA a fazer à UE.

Já vimos que velhos «tabus liberais», como as nacionalizações e subsídios estatais, deixam de ser tabús quando se trata de ajudar o grande capital. Também o proteccionismo é assim. Os «mercados livres» sempre tiveram Estados por detrás, a promover os interesses dos tubarões maiores pela repressão dos trabalhadores ou as guerras de rapina. Tubarões que também se degladiam entre si e apenas se aliam para, juntos, tentar esmagar os trabalhadores e povos.

Jorge Cadima 

sexta-feira, novembro 11, 2022

"Alimentando a serpente"

  - Nº 2554 (2022/11/10)


Alimentando a serpente

Opinião

As eleições em Israel deram a vitória a uma direita ainda mais extrema do que a que já estava no poder. O ex-primeiro-ministro Netanyahu, afogado em escândalos de corrupção, regressa à frente duma coligação que inclui a terceira força política, a aliança Sionismo Religioso, defensor aberto da anexação da Cisjordânia ocupada, da expulsão em massa de palestinianos do seu território histórico, da destruição da Mesquita de Al-Aqsa para construir um templo judaico sobre os seus escombros e das linchagens de palestinianos ao grito de «morte aos árabes».

O editor-em-chefe do jornal israelita Jerusalem Post descreve Itamar Ben-Gvir, chefe do Sionismo Religioso, como «uma versão moderna israelita dum supremacista branco americano e dum europeu fascista» (18.10.22). Outro jornalista israelita, Yossi Klein, comenta os resultados eleitorais com um artigo entitulado: «Agora é oficial: o fascismo somos nós» (Haaretz, 4.11.22). Gideon Levy vai um pouco mais fundo, ao escrever: «Ninguém se deve surpreender com quanto aconteceu. Não podia ser de outra maneira. […]. Cinquenta anos de instigação do ódio contra os palestinianos e de terror sobre eles não podiam acabar num governo de paz. Cinquenta anos de apoio israelita à ocupação, ombro a ombro, da esquerda à direita sionistas, não podiam acabar de forma diferente» (Haaretz, 3.11.22). É uma lição importante.

Parafraseando Levy, podemos dizer que o apoio «ocidental» à Ucrânia, ombro a ombro, da «esquerda» à direita, não pode acabar de forma diferente senão na promoção do fascismo. Esse apoio incondicional finge-se cego ao fascismo que prolifera na Ucrânia. Cego ao culto de Stepan Bandera, colaboracionista nazi, genocida das populações soviéticas, polacas, judaicas. Cego face aos crimes do fascismo ucraniano desde 2014, incluindo o massacre na Casa dos Sindicatos de Odessa e a guerra no Donbass. Cego face ao ódio irracional e racista contra os russos (paradoxal, dada a grande afinidade entre os dois povos, mas a racionalidade nunca foi característica do fascismo).

A guerra é alimentada com o envio de toneladas de armas e rios de dinheiro (que não existe para as despesas sociais). É pretexto para sanções que estão a destruir as economias europeias. É usada para justificar a inqualificável atitude do «Ocidente» na Assembleia Geral da ONU, no passado dia 4 de Novembro, ao votar contra a moção de «Combate à glorificação do Nazismo». A moção, apresentada desde há anos por iniciativa da Rússia, foi aprovada por larga maioria, com 105 votos a favor. Mas EUA, países da UE e Ucrânia votaram contra. Invocaram como desculpa a intervenção militar russa na Ucrânia. Mas já no ano passado, antes dessa intervenção, EUA e Ucrânia haviam votado contra e a generalidade dos países da UE se havia abstido. Assim se vai branqueando, e alimentando, o fascismo.

O filo-fascismo de largos sectores da burguesia liberal não é novidade. Foi assim nos anos 20 e 30 do século passado quando, face à sua grande crise, a generalidade das classes dirigentes europeias alimentou o «salvador» nazi-fascista. As consequências trágicas são conhecidas. Face à sua grande crise de hoje, assistimos de novo ao alimentar da serpente, que vai saindo do ovo.

Jorge Cadima

sexta-feira, abril 22, 2022

... são os nossos borregos!

Tanto tempo sem aqui vir! Se alguém o terá notado - além de mim... -, apenas porque o virus que por aí andou não se quis despedir (se é que se despediu!) sem visitar esta casa, porque houve uns trabalhos extra... e daí o silêncio. Por vezes, dorido e soltando berros de irritação ou zanga... É que têm abusado da manipulação! E, como não estou para muitas conversas neste regresso, deixo, depois do sempre pedagógico Jorge Cadima , um poema-grito de Afonso Duarte (1884-1958), de que Lopes Graças fez uma extraordinária pequena canção coral.  


 - Nº 2525 (2022/04/21)

Mais guerra?

Opinião

É evidente a vontade dos EUA/UE em prolongar o mais possível a guerra na Ucrânia. Mas o belicismo está também patente no outro extremo do planeta: os EUA repetem na ilha Formosa (Taiwan) o guião da Ucrânia.

Contrariando as palavras de respeito pela integridade territorial da China, proferidas durante a video-cimeira entre os presidentes Xi e Biden em Março, a presidente da Câmara de Representantes e terceira figura na hierarquia do poder nos EUA, Nancy Pelosi, anunciou uma visita a Taiwan, entretanto adiada, alegadamente por COVID. Uma semana mais tarde, seis congressistas dos EUA «das comissões militar, dos serviços secretos, negócios estrangeiros, justiça e finança» (globaltimes.cn, GT, 15.4.22) visitaram a ilha chinesa, incluindo o falcão de todas as guerras Lindsey Graham. Já em Março, houve uma visita de altos funcionários militares e dos serviços secretos dos EUA.

Multiplicam-se as vendas de armas à ilha, que nem é oficialmente reconhecido como um país pelos próprios EUA: 750 milhões de dólares no ano passado (thedefensepost.com, 6.8.21); 100 milhões em Fevereiro (CNN, 8.2.22); 95 milhões em Abril (Al Jazeera, 6.4.22). Enquanto ardem as chamas da guerra na Ucrânia, seria lógico não instigar novos focos de conflito. Assim seria se o imperialismo em decadência não quisesse a guerra. Mas quer. E tal como empurrou a Rússia para a guerra da Ucrânia, está a tentar empurrar a China para uma guerra sobre Taiwan.

O jornal Global Times afirma que «a natureza enganadora e a duplicidade da política dos EUA face à China fica plenamente exposta» (GT, 9.4.22). O MNE chinês exigiu que Pelosi não apenas adie, mas cancele a visita (GT, 9.4.22). A resposta chinesa também tomou a forma de manobras militares, que o GT descreve (15.4.22) assim: «o Exército de Libertação do Povo está pronto para o combate e tomará todas as medidas necessárias para esmagar resolutamente quaisquer tentativas de ingerência por parte de forças externas e iniciativas secessionistas […] de forma a preservar a soberania nacional e integridade territorial». Entretanto, os EUA empenham-se também em desestabilizar o Paquistão e ameaçar a Índia, «culpados» de não terem alinhado com a estratégia de sanções e belicismo contra a Rússia (GT, 12.4.22).

O militarismo é sempre acompanhado pela mentira e autoritarismo. O Público, jornal do grande capital que defendeu todas as guerras do imperialismo incluindo a invasão do Iraque, indigna-se com quem levanta suspeitas sobre a propaganda de guerra. Suspeitas expressas pelo marine e ex-inspector de desarmamento dos EUA e ONU, Scott Ritter, que testemunhou directamente as mentiras do Iraque. Ritter afirma-se convencido que o massacre de Bucha foi uma provocação, em que «a Polícia Nacional Ucraniana assassinou civis ucranianos», atribuindo depois «a culpa aos russos» (consortiumnews.com, 13.4.22). Por argumentar essa posição, foi suspenso do Twitter.

Quem pensa que a censura se deve à Ucrânia lembre-se de Julian Assange. Preso no Reino Unido, muito antes da Ucrânia, por divulgar as mentiras e crimes das guerras imperialistas. A guerra e a mentira estão no ADN do sistema. Que hoje ameaça conduzir a Humanidade para a catástrofe.

 Jorge Cadima


A bacanal do mando continua,

Senhor da Cristandade!

E sobre a Cruz, uma criança nua

É a legitimidade


Senhor! Não somos nós que nos vendemos,

São os nossos borregos.

- Servos à corda, meu Senhor, bailemos!

Na Cruz há sangue e pregos!

quinta-feira, abril 15, 2021

Malhas que o império tece...

  - Nº 2472 (2021/04/15)


Teias

Opinião

Vivemos tempos perigosos, de potencial catástrofe desencadeada pelo imperialismo. Mas o jornal online do BE decidiu divulgar um texto com o polido título «O “anti-imperialismo” dos imbecis». Tenta-nos convencer que, se anteriores guerras dos EUA eram más, na Síria há uma genuína revolta popular.

A sério? Segundo o actual Presidente dos EUA, os aliados dos EUA no Médio Oriente «despejaram centenas de milhões de dólares e milhares de toneladas de armamento a todos quantos combatessem Assad. Mas quem estava a ser apoiado era a al-Nusra e al-Qaeda e os elementos extremistas do jihadismo vindos de outras partes do mundo». Foi assim, segundo Biden, «que surgiu o ISIS» (CNN, 6.10.14). Biden nomeou a Turquia e os Emirados. Calou o papel dos EUA e Israel. Mas o New York Times (2.8.17) informa sobre a «guerra secreta da CIA na Síria» com «um dos mais caros programas secretos da história» que durante 4 anos custou mais de mil milhões de dólares para «armar e treinar rebeldes sírios», tendo «algumas das armas fornecidas pela CIA acabado nas mãos dum grupo rebelde ligado à Al-Qaeda». Trump, no seu estilo, afirmou que «vamos ficar com o petróleo» da Síria (ABCnews, 28.10.19). Por maiores que fossem as razões de protesto, é isto uma genuína revolta popular?

Isto é o programa de sempre de subjugação imperialista. Documentos dos serviços secretos anglo-americanos revelam planos de 1957, antes de Assad ou seu pai serem Presidentes, para «financiar um “Comité Síria Livre” e armar “facções políticas com capacidade paramilitar”» enquanto «a CIA e o MI6 instigavam levantamentos internos» e «encenavam falsos incidentes de fronteira» para criar «um pretexto para uma invasão da Síria» (Guardian, 27.9.03). O General Wesley Clark revelou que em 2001 havia planos para «abater sete países em cinco anos», entre os quais a Síria.

O texto promovido pelo BE ataca «meios de comunicação social e jornalistas pouco recomendáveis» por «difundir propaganda perniciosa e desinformação». Coincidência ou não, tem data de 27 de Março, 16 dias após uma importante Declaração denunciando «preocupantes desenvolvimentos que lançam sérias e sustentadas suspeitas» sobre a investigação da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPCW) do alegado ataque químico em Douma, que serviu de pretexto para bombardeamentos da Síria pelos EUA, Reino Unido e França (couragefound.org). A lista de subscritores é digna de registo. Além do primeiro Presidente e quatro outros funcionários importantes da OPCW, há gente marcada pelas anteriores mentiras das guerras imperialistas. Como os ex-vice Secretários Gerais da ONU Denis Halliday e Hans von Sponeck, que se demitiram pelas sanções contra o Iraque anteriores a 2003; o Coronel Wilkerson, ex-Chefe de Gabinete de Colin Powell, MNE dos EUA no tempo das patranhas sobre o Iraque; e um ex-Chefe de Estado Maior da Marinha de Guerra do RU, Lord West of Spithead. Esta extraordinária Declaração foi silenciada na comunicação social de regime. Se a conhecemos, muito se deve aos meios que o texto publicado pelo BE ataca. Tal como a entrevista do ex-Embaixador inglês na Síria (thegrayzone.com, 20.3.21).

Num tempo de propaganda belicista, controlo férreo da comunicação e redes sociais e perseguição a quem denuncia as mentiras de guerra, como Julian Assange, Chelsea Manning, John Kiriakou ou, já com Biden, Daniel Hale (RT, 6.4.21), os ataques publicados pelo BE levam água ao moinho dos crimes actuais do imperialismo.


Jorge Cadima

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

O vaci-negócio (e ilustração)

  - Edição Nº2462  -  4-2-2021


O vaci-negócio

A saga das vacinas COVID está a virar uma «bagunça» (Financial Times, 30.1.21). Em final de Janeiro, «apenas 2% da população adulta da UE recebeu as vacinas» (Guardian 28.1.21) e sucedem-se azedas trocas de acusações sobre responsabilidades. Mas extraordinários são mesmo os contratos entre governos das potências capitalistas e a grande indústria farmacêutica.

O New York Times publicou (28.1.21) um artigo com o título: «Governos assinam acordos secretos de vacinas: eis o que escondem», onde diz: «Os governos têm gasto milhares de milhões de dólares para ajudar as empresas farmacêuticas a desenvolver vacinas e estão a gastar milhares de milhões adicionais para comprar as doses. Mas os pormenores desses acordos permanecem em boa medida secretos». As transferências de fundos públicos são colossais: «A empresa de biotecnologia Moderna não apenas baseou a sua vacina em tecnologia desenvolvida por entidades públicas, como recebeu mil milhões de dólares em financiamentos estatais para desenvolver o fármaco. Em Agosto o governo fez uma encomenda inicial de vacinas no montante de 1,5 mil milhões de dólares. A empresa já disse que o projecto foi integralmente pago pelo Governo Federal. […] Mas apesar dos colossais investimentos do contribuinte, tipicamente as empresas farmacêuticas ficam detentoras da totalidade das patentes»! O artigo relata que os esforços de vários países para que essa «propriedade intelectual» seja levantada «permitindo a produção de vacinas por laboratórios genéricos» está «condenada ao fracasso pela oposição dos EUA e Europa [União Europeia], cujas farmacêuticas afirmam que as patentes, e os lucros que geram, são a seiva vital da inovação». Tese interesseira, contraditada pelo que o próprio artigo relata sobre a origem pública da tecnologia subjacente à vacina da Moderna.

O escândalo não acaba aqui: «Um dos elementos fundamentais dos contratos de vacinas – o preço por dose – é frequentemente censurado nas versões públicas dos contratos governamentais. As empresas consideram-no um segredo comercial. […] Ao insistirem que os preços sejam confidenciais, as farmacêuticas levam vantagem sobre os negociadores governamentais, que desconhecem os montantes que estão a ser pagos por outros países». Da mesma forma, «os tempos de entrega são considerados informação proprietária» e «nos Estados Unidos, as farmacêuticas estão protegidas de praticamente qualquer responsabilidade legal no caso das suas vacinas não funcionarem ou provocarem efeitos secundários sérios».

A ‘bagunça’ é também uma negociata que assegura lucros colossais às grandes farmacêuticas, independentemente da eficácia que as vacinas venham a revelar ou dos seus eventuais efeitos secundários. É no que dá a promiscuidade entre governos e grande capital. Veja-se Durão Barroso, que de Primeiro Ministro passou (pela porta da Cimeira das Lajes) para a Presidência do Conselho Europeu, a Goldman Sachs e agora também a Presidência da Aliança Global pelas Vacinas (GAVI) que o Jornal Económico (29.9.20) descreve como «uma parceria público-privada» de âmbito mundial onde também pontifica a Fundação de Bill Gates. Mas nestas «parcerias» o público paga e o privado lucra, seja qual for o resultado do serviço. É sempre assim quando manda o grande capital.

Jorge Cadima

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sábado, setembro 12, 2020

Bielorrússia e os abutres

  - Edição Nº2441  -  10-9-2020


Abutres

Para perceber o que se passa na Bielorrússia basta ler Anders Aslund, um dos arquitectos da «terapia de choque» que restaurou o capitalismo na Rússia após 1991. Aslund é um criminoso da guerra de classes. Numa década, o PIB russo caiu para quase metade (data.worldbank.org). A esperança de vida dos homens russos desceu para 59,8 anos (Relatório Desenvolvimento Humano PNUD, 2000) e o país estava à beira do colapso. Mas a pilhagem não criou só miséria e morte – criou os milionários russos e encheu as contas dos oligarcas demo-ocidentais: entre 1992 e 1998 a fuga de capitais da Rússia para os bancos ocidentais atingiu 210 mil milhões de dólares (Financial Times, 27.8.99).

Diz agora Aslund (www.intellinews.com, 15.8.20): «Quem visita a Bielorrússia fica surpreendido: trata-se da última economia soviética, mas na realidade funciona. […] A sua economia altamente industrializada é dominada por cerca de 40 empresas estatais, em particular na indústria pesada. Ainda produzem produtos soviéticos […] mas são os melhores produtos soviéticos que alguma vez viram. […] Os problemas macro-económicos são diminutos. A inflação está sob controlo, em cerca de 5%. O deficit orçamental oficial é minúsculo, e a dívida pública total limita-se a 35% do PIB. […] Em geral a administração estatal está de boa saúde, provavelmente a melhor da ex-União Soviética. […] A Bielorrússia não tem grandes homens de negócios ou oligarcas privados. A corrupção é até ao momento surpreendentemente limitada». Apetece dizer: claro!

Mas Aslund não está a debitar elogios. Está a apresentar o catálogo de vendas do que espera ser a próxima temporada da mega-produção «pilhagem a Leste». Não vislumbra doença, mas exige a cura: «A maioria das grandes empresas terá de ser privatizada». Para serem saqueadas pelo capital imperialista (enchendo alguns bolsos) e depois fechadas (destruindo a concorrência). Nem os Estaleiros Navais de Gdansk, berço do Solidariedade, escaparam a esse destino. A preocupação de Aslund é que «uma venda aberta resulte em donos russos de quase tudo». Não foi para isto que deu vida aos oligarcas, a quem agora chama «lobos russos que rondam as suas potenciais vítimas». Para Aslund, só os abutres euro-americanos têm direito ao saque.

O presidente Lukachenko não está na mira pelo mal que possa ter feito, mas pelo bem que fez ao defender a economia da Bielorrússia dos apetites vorazes do grande capital globalista e também dos oligarcas russos, mantendo «três quartos da economia no sector público». Fosse outra a sua opção e, como Guaidó, seria considerado Presidente legítimo com zero votos. Teria o tratamento mediático dos democráticos Emirados Árabes Unidos, apreciados por Israel, os EUA e o legitimamente eleito Rei Emérito de Espanha que para lá fugiu de prestar contas à justiça.

Os discursos sobre manifestantes pró-democracia de Macron, Trump ou Biden são para enganar incautos. Pergunte-se aos Coletes Amarelos, contra os quais vale tudo – até arrancar olhos, às vítimas da violência policial nos EUA ou aos muitos milhares de nova-iorquinos que todos os dias fazem bichas de quarteirões para receber comida doada (New York Post, 22.8.20) enquanto os multimilionários aproveitam a pandemia para encher os bolsos.

Jorge Cadima

sexta-feira, março 13, 2020

Crónica internacional - Outro virus

... a segunda transcrição é desta crónica de Jorge Cadima, como sempre informação imprescindível. Para todos:

 - Edição Nº2415  -  12-3-2020

Outro vírus

O coronavírus COVID-19 vai ser culpado dos males do mundo e talvez venha a justificar (Financial Times, 6.3.20) «empréstimos baratos aos bancos […e] uma injecção coordenada de liquidez no sistema bancário» (não deveria ser nos SNS?). Mas outro vírus, muito mais perigoso e mortal, está a alastrar: o vírus do belicismo imperialista, que ameaça a sobrevivência da Humanidade.
Na Conferência de Segurança de Munique (14-16.2.20), o Ministro da Defesa dos EUA, Mark Esper, atacou frontalmente a China e a Rússia: «a primeira prioridade» dos EUA é «implementar a Estratégia de Defesa Nacional» que proclama que «vivemos numa era de Concorrência entre Grandes Potências, sendo o nosso principal contendente a China, e logo depois a Rússia, e que devemos distanciarmo-nos dos conflitos de baixa intensidade e prepararmo-nos de novo para a guerra de alta intensidade[sic]» (www.defense.gov, transcrição oficial). Como «prioridades de segundo nível» indicou «os Estados párias, como a Coreia do Norte e o Irão». Apesar de ter acabado de tentar destituir Trump por outras questões, a Presidente da Câmara de Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, do Partido Democrático, confirmou em Munique que essa política unifica o grande capital e o poder nos EUA. Em resposta a uma pergunta sobre se concordava com a política de Trump em relação à China, foi clara: «estamos de acordo a esse respeito». E ameaçou os aliados europeus: «não se aproximem da Huawei» (vídeo disponível no site da Conferência). Já no discurso do Estado da União, em sessão conjunta do Parlamento dos EUA, Pelosi interrompeu momentaneamente o seu rasgar das páginas do discurso de Trump para aplaudir, de pé e em conjunto, o fantoche Guaidó, que Trump nomeou ‘Presidente’ da Venezuela. Por detrás das disputas pelo poder, estão unidos na imposição pela força do (senil) Império Estado-Unidense.
Poucos dias após Munique (25.2.20), a Comissão para as Forças Armadas do Senado dos EUA ouviu o Comandante Aliado Supremo da NATO para a Europa e Comandante do Comando Europeu dos EUA, General Todd Wolter (vídeo disponível em c-span.org). Declarou-se pronto a «curar a influência maligna da Rússia» que considerou um «inimigo potencial». Questionado sobre a sua opinião em relação à política de não utilizar armas nucleares antes da sua utilização por um adversário (a «no first use policy» que foi, até ao fim, a doutrina da União Soviética), Wolters foi franco: «sou fã duma política de first use flexível». Ou seja, o «uso flexível» de armas nucleares mesmo sem qualquer ataque nuclear prévio. Interrogado sobre os aliados da NATO, declarou que nunca conheceu «maior coesão». Exemplificou referindo que «pela primeira vez em mais de seis décadas, aprovámos uma Estratégia Militar da NATO. É um documento sigiloso, secreto, da NATO, que define a ameaça e a actividade que temos de empreender». Explicitou que essa Estratégia Militar da NATO «é muito semelhante à Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos» (aprovada em 2018, mas igualmente secreta, conhecendo-se apenas um resumo). Ficámos a saber pelo émulo do Dr. Estranhoamor que o Governo PS atrelou Portugal à secreta Estratégia de Defesa Nacional (dos EUA) de Trump e à ‘liberdade democrática e ocidental’ de provocar um holocausto nuclear.

Jorge Cadima