quinta-feira, fevereiro 04, 2021

O vaci-negócio (e ilustração)

  - Edição Nº2462  -  4-2-2021


O vaci-negócio

A saga das vacinas COVID está a virar uma «bagunça» (Financial Times, 30.1.21). Em final de Janeiro, «apenas 2% da população adulta da UE recebeu as vacinas» (Guardian 28.1.21) e sucedem-se azedas trocas de acusações sobre responsabilidades. Mas extraordinários são mesmo os contratos entre governos das potências capitalistas e a grande indústria farmacêutica.

O New York Times publicou (28.1.21) um artigo com o título: «Governos assinam acordos secretos de vacinas: eis o que escondem», onde diz: «Os governos têm gasto milhares de milhões de dólares para ajudar as empresas farmacêuticas a desenvolver vacinas e estão a gastar milhares de milhões adicionais para comprar as doses. Mas os pormenores desses acordos permanecem em boa medida secretos». As transferências de fundos públicos são colossais: «A empresa de biotecnologia Moderna não apenas baseou a sua vacina em tecnologia desenvolvida por entidades públicas, como recebeu mil milhões de dólares em financiamentos estatais para desenvolver o fármaco. Em Agosto o governo fez uma encomenda inicial de vacinas no montante de 1,5 mil milhões de dólares. A empresa já disse que o projecto foi integralmente pago pelo Governo Federal. […] Mas apesar dos colossais investimentos do contribuinte, tipicamente as empresas farmacêuticas ficam detentoras da totalidade das patentes»! O artigo relata que os esforços de vários países para que essa «propriedade intelectual» seja levantada «permitindo a produção de vacinas por laboratórios genéricos» está «condenada ao fracasso pela oposição dos EUA e Europa [União Europeia], cujas farmacêuticas afirmam que as patentes, e os lucros que geram, são a seiva vital da inovação». Tese interesseira, contraditada pelo que o próprio artigo relata sobre a origem pública da tecnologia subjacente à vacina da Moderna.

O escândalo não acaba aqui: «Um dos elementos fundamentais dos contratos de vacinas – o preço por dose – é frequentemente censurado nas versões públicas dos contratos governamentais. As empresas consideram-no um segredo comercial. […] Ao insistirem que os preços sejam confidenciais, as farmacêuticas levam vantagem sobre os negociadores governamentais, que desconhecem os montantes que estão a ser pagos por outros países». Da mesma forma, «os tempos de entrega são considerados informação proprietária» e «nos Estados Unidos, as farmacêuticas estão protegidas de praticamente qualquer responsabilidade legal no caso das suas vacinas não funcionarem ou provocarem efeitos secundários sérios».

A ‘bagunça’ é também uma negociata que assegura lucros colossais às grandes farmacêuticas, independentemente da eficácia que as vacinas venham a revelar ou dos seus eventuais efeitos secundários. É no que dá a promiscuidade entre governos e grande capital. Veja-se Durão Barroso, que de Primeiro Ministro passou (pela porta da Cimeira das Lajes) para a Presidência do Conselho Europeu, a Goldman Sachs e agora também a Presidência da Aliança Global pelas Vacinas (GAVI) que o Jornal Económico (29.9.20) descreve como «uma parceria público-privada» de âmbito mundial onde também pontifica a Fundação de Bill Gates. Mas nestas «parcerias» o público paga e o privado lucra, seja qual for o resultado do serviço. É sempre assim quando manda o grande capital.

Jorge Cadima

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5 comentários:

Justine disse...

Um excelente texto, esclarecedor e didáctico, assim como o cartoon o é!

Olinda disse...

Estamos a assistir a actos de pura pirataria por parte das farmacêuticas privadas.Excelente texto de Cadima,ainda não o tinha lido.Bjo

João Baranda disse...

Bom cartoon... Ainda bem que estamos na UE ou não? Quero crer que se fosse cada um por si ... ainda esperaríamos muito pela vacina ...

Sérgio Ribeiro disse...

... ou talvez tivéssemos (também!) acesso a outras de outras bandas com menos "negócios de talho", i.é., de quem paga adiantado a carne para os bifes para os ter ao almoço e, se calhar nem para a ceia!
Saudações

Maria João Brito de Sousa disse...

Ontem, não consegui ler o Avante de ponta a ponta, os olhos falharam-me. Ainda não conhecia este excelente artigo.

Abraço!