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sexta-feira, novembro 19, 2021

Informe-SE- 8.2

Na página 2, tem-se o Resumo e o Aconteceu, e logo na primeira coluna da página 3 a Crónica Internacional, neste número com artigo de Jorge Cadima, de quem muita vez aqui se transcrevem as opiniões: 

 - Nº 2503 (2021/11/18)

Hipocrisia sem limites

Vagas de refugiados é coisa que não falta. No Mediterrâneo, nas fronteiras EUA/México, Turquia/Grécia e até França/Inglaterra. Milhões de refugiados nem chegam aos centros imperiais-mediáticos. Ficam nos países vizinhos das tragédias humanitárias causadas pelas guerras EUA/NATO/UE, como sejam o Irão, Líbano, Turquia ou Paquistão. Mas quem ouvir a comunicação social pensará que se passa algo diferente na fronteira Polónia/Bielorússia.

«Ataque brutal contra a Polónia», proclama o presidente do Conselho Europeu Charles Michel (Morning Star, 14.11.21). «Ameaça híbrida» com que «Lukachenko usa as pessoas, com o apoio do Presidente russo Putin, para desestabilizar o Ocidente», vocifera o ministro do Interior alemão Seehofer (Guardian, 9.11.21). Segundo a CNN (15.11.21), «a Polónia, a Lituânia e a Letónia ponderam invocar o art.º 4.º da NATO […] que apela a consultas sempre que a ‘integridade territorial, independência política ou segurança de qualquer das partes seja ameaçada’».

Quem se lembra que há poucos dias havia uma grave crise entre a UE e a Polónia, por o Tribunal Constitucional polaco afirmar a primazia do Direito nacional sobre o Direito comunitário? O MNE luxemburguês acusava a Polónia de «brincar com o fogo» (Reuters, 8.10.21). A Presidente da Comissão Europeia, von der Leyen, ameaçava com uma «resposta célere». O Ministro francês para a Europa falava no «risco duma saída de facto da Polónia da UE». Havia apelos para que «todos os fluxos financeiros da UE para Varsóvia fossem congelados» (Guardian, 8.10.21). Num ápice, a Polónia passou de besta a bestial. Bastou que «desde Outubro, a polícia polaca tenha sido autorizada a expulsar sumariamente migrantes e ignorar pedidos de asilo» (Guardian, 9.11.21), apesar do «Alto Comissário para os Refugiados da ONU [o lugar que já foi de Guterres] ter declarado que a Polónia estava em violação do Direito Internacional ao forçar os migrantes a regressar à Bielorússia em vez de lhes oferecer asilo» (express.co.uk, 5.11.21).

A UE, cuja presidente da Comissão von der Leyen excluíra terminantemente «o financiamento de arame farpado ou muros» entre fronteiras (Guardian, 22.10.21) vem agora, pela boca do Presidente do Conselho Europeu Michel considerar que esse financiamento «é legalmente possível» (politico.eu, 14.11.21).

Trump foi muito criticado pelo seu muro na fronteira com o México (seria para se defender da «guerra híbrida» das Honduras?). Devia ser «pago pelo México» mas acabou por ser (em parte) pago com 601 milhões de dólares que os EUA saquearam à Venezuela Bolivariana (thegrayzone.com, 29.6.20). A UE não fica atrás das «melhores práticas» dos EUA. A Turquia construiu um muro na sua fronteira com a Síria «com a ajuda de financiamento da União Europeia» e «em Março de 2016 a UE e Ancara fecharam um acordo ao abrigo do qual os europeus pagariam 3 mil milhões de euros à Turquia se o país retivesse os refugiados no interior das suas fronteiras» (www.spiegel.de, 29.3.18). Já a Bielorússia leva com mais sanções.

Mas o assunto é sério. Multiplicam-se as provocações contra a Rússia. O CEMFA inglês, General Carter diz que «o perigo de guerra com a Rússia é hoje maior do que em qualquer momento da sua carreira» e «alerta os políticos que a beligerância dalgumas das suas políticas pode conduzir a uma situação onde a escalada conduza a um erro de cálculo» (RT, 13.11.21).
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ainda nessa página 3, é publicado o editorial, 

em jornal partidário endereçado aos militantes


quinta-feira, abril 23, 2020

Crónica internacional - Sem máscaras

 - Edição Nº2421  -  23-4-2020

Sem máscara

A situação decorrente do enorme impacto da COVID-19 na situação internacional veio demonstrar que as grandes potências imperialistas, e em particular o imperialismo norte-americano, não têm quaisquer escrúpulos em prosseguir, e até intensificar, a sua criminosa acção de desestabilização, confronto e agressão contra países que não abdicam da sua soberania e que, neste momento, empenham grandes esforços na prevenção e combate ao surto epidémico.
Os EUA, com o apoio activo (ou passivo) dos seus cúmplices, não só mantêm as sanções e bloqueios económicos que impõem à Síria, a Cuba, à Venezuela ou ao Irão, entre outros países, como impedem que instituições do sistema das Nações Unidas por si dominadas – como o FMI – concedam empréstimos de emergência solicitados pela Venezuela ou o Irão, procurando impedir que estes países adquiram os medicamentos e o equipamento médico necessário à salvaguarda da saúde dos seus povos.
Só pode ser motivo de indignação que, no momento em que o governo venezuelano implementa medidas para prevenir e combater o surto epidémico, a Administração Trump decida concentrar tropas norte-americanas e realizar intimidatórias manobras militares junto à fronteira da Venezuela, chantageando o povo venezuelano com a ameaça de uma agressão militar directa.
É nesta deriva do imperialismo que se insere a delirante operação de desinformação e difamação contra a China, lançada pela Administração norte-americana e amplamente reproduzida pelo coro de fiéis seguidores, incluindo em Portugal.
O que é insuportável para o imperialismo é o impressionante e evidente contraste entre a atitude dos EUA e das grandes potências da UE, caracterizada pelo «salve-se quem puder», e a acção da China, de Cuba, assim como da Rússia e de outros países, cuja atitude se pautou pela pronta solidariedade e cooperação, não só entre si, mas igualmente com dezenas de outros países afectados pelo surto epidémico. Um contraste que é igualmente patente na superior capacidade que estão a demonstrar a China ou Cuba na prevenção e combate ao surto epidémico nos seus países, face à incapacidade demonstrada por alguns dos países capitalistas mais desenvolvidos, com um destruidor legado de privatizações e desmantelamento de serviços públicos – nomeadamente de saúde – e de alienação de outros instrumentos essenciais para garantir necessidades básicas das populações.
A boçal hostilidade da Administração norte-americana contra a China, para além de constituir uma ‘cortina de fumo’ com que procura encobrir as graves consequências das incoerentes e inadequadas medidas adoptadas nos EUA para fazer face ao surto epidémico, revela igualmente a maquiavélica intenção de instrumentalizar o surto epidémico como arma na ‘cruzada’ que os EUA levam a cabo contra aquele país asiático.

O imperialismo, embora abalado pela actual situação, não deixará de tentar levar ainda mais longe a sua ofensiva exploradora e opressora. Ofensiva que, a não ser contrariada, significará uma ainda maior acumulação e centralização do capital, o agravamento das desigualdades, o aprofundamento de relações de dependência e de domínio económico e político, a subversão dos princípios inscritos na Carta das Nações Unidas e no direito internacional.



Pedro Guerreiro

quinta-feira, abril 16, 2020

Uma excelente LIÇÂO,...

 - Edição Nº2420  -  16-4-2020

Lições

A pandemia terá um impacto tremendo. Põe a nu, e agrava qualitativamente, realidades sociais, económicas e políticas. A marca de classe é evidente.
Antes dos EUA se tornarem no campeão mundial, o Financial Times (6.3.20) antevia que a epidemia «poderia alastrar aí mais depressa do que noutros países», devido ao «alto número de pessoas sem seguros [de saúde], a inexistência de baixas médicas pagas e uma classe política que minimizou o risco». Na superpotência imperialista, onde não existe SNS, «mesmo os que têm [seguros] podem ter dificuldades em pagar as contribuições que garantem esses cuidados». O New York Times dizia que o encerramento de escolas na cidade seria «um último recurso», pois «há cerca de 750 000 crianças pobres, incluíndo cerca de 114 000 sem abrigo [!]. Para esses, a escola pode ser o único sítio que garante 3 refeições quentes por dia e cuidados médicos, ou mesmo a lavagem da roupa» (9.3.20). O COVID-19 veio depois.
Em Itália, o epicentro da epidemia foi a região industrial da Lombardia. Mas como conta a jornalista Alba Sidera numa revista espanhola (ctxt.es, 10.4.20), «por incrível que pareça, a zona [Val Seriana, em Bergamo] com mais mortos de coronavírus por habitante em Itália – e na Europa – nunca foi decretada zona vermelha» devido às pressões dos grandes industriais da região. «Quem tem interesse em manter as fábricas abertas são, em alguns casos, os mesmos com interesses nas clínicas privadas». Foi apenas sob a ameaça duma greve geral, perante as trágicas dimensões da epidemia, que foi decretado o encerramento das actividades não essenciais. Mesmo assim, a lista inicial de actividades essenciais incluía «a indústria armamentista e de munições» e os call-centers publicitários.
Em apenas 3 semanas, 17 milhões [!] de trabalhadores ficaram sem emprego nos EUA. As ajudas são escassas. Mas para o grande capital o dinheiro nunca falta. Já foram oficialmente reservados quase 5.000.000.000.000 de dólares. Como em 2008, o Estado vai pagar e endividar-se, mas o dinheiro público servirá para a banca lucrar e quem trabalha se endividar: «Embora os governos e bancos centrais forneçam grande parte do dinheiro, está-se a pedir aos prestamistas que funcionem como ‘correia de transmissão’ para assegurar que o apoio chegue às empresas e consumidores que dele mais necessitam» (FT, 1.4.20). A Reserva Federal está a comprar tudo, sem limites, para «evitar a derrocada dos mercados» (FT, 24.3.20). É a «’nacionalização’ dos mercados de Títulos […] com muitas grandes empresas a aproveitar para vender» (FT, 24.3.20) e até o «apoio ao mercado das dívidas de alto rendimento das grandes empresas» (FT, 9.4.20). O Zé Povinho que pague. As Emergências servem também para isso.
A «guerra das máscaras» evidencia o salve-se quem puder, e também os efeitos de destruir a produção nacional. Mas não só: «a Alemanha irá proteger as empresas nacionais da tomada de controlo pelo estrangeiro» (reuters.de, 20.3.20). Explica o Ministro de Estado da Baviera: «se a maioria da economia da Baviera e da Alemanha acabar nas mãos de estrangeiros […] não terá sido apenas uma crise sanitária, mas uma alteração profunda da ordem económica global […] temos que nos precaver». A realidade da ‘solidariedade Europeia’ é isto. A entrega da nossa soberania e da nossa economia é um crime.
Jorge Cadima
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... como é costume

quinta-feira, abril 02, 2020

... e o capital dá tréguas?!


 - Edição Nº2418  -  2-4-2020

Não, não há tréguas

Ao contrário do que pretendem certas linhas da ideologia dominante, o combate ao surto de COVID-19 não se faz abdicando de direitos e liberdades fundamentais, nem põe entre parênteses a luta de classes. Isto é verdade tanto no plano nacional (nomeadamente com a vaga de despedimentos que o PCP não se cansa de denunciar), como no plano internacional. Convicto de que «as crises são também oportunidades», o imperialismo, incapaz de reunir meios para ocorrer a grandes calamidades naturais, continua (o SG da NATO confirmou-o com arrogância) a despender colossais somas para alimentar a indústria militar e as guerras de agressão.
Num tempo em que se trava um inédito combate pela vida humana e em que se impunha o reforço da cooperação e da solidariedade internacional – solidariedade em que a China e Cuba têm sido exemplares, confirmando a superioridade dos seus sistemas sociais – as grandes potências capitalistas não só dão provas do mais desumano egoísmo como reforçam a sua política de sanções e bloqueios que tanto sofrimento têm espalhado por esse mundo fora. Isso mesmo é denunciado em carta enviada por oito países (RP da China, Cuba, RPD da Coreia, Irão, Nicarágua, Rússia, Síria e Venezuela) ao SG da ONU colocando-lhe que «solicite o levantamento total e imediato dessas medidas ilegais, coercitivas e arbitrárias de pressão económica». Enquanto o FMI negava um empréstimo de emergência humanitária ao Irão, Mike Pompeo anunciava novo pacote de sanções a este país. E, em 26 de Março, os EUA, derrotados em sucessivas operações para desestabilizar e derrubar o governo legítimo da Venezuela, lançavam-se numa nova e odiosa provocação associando Nicolás Maduro e outros dirigentes ao tráfico de droga.
As implicações económicas e sociais do surto epidémico está a revelar-se muito grande. Num quadro de grandes incertezas, as diferentes projecções apontam para um abalo mais profundo que o da crise iniciada em 2008. Para o enfrentar e conduzir a luta para que não sejam uma vez mais os trabalhadores a pagar os custos de uma inevitável recessão mundial, é importante ter presente que, no contexto do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, estava já em desenvolvimento o pico de crise que a pandemia veio precipitar e agravar. Dois exemplos. Nos EUA, onde economistas como Stiglitz há muito denunciavam a propaganda de Trump sobre a saúde da economia, vê-se disparar em mais de 3,3 milhões o número de desempregados em apenas uma semana. Na União Europeia, onde as nuvens de recessão já pairavam sobre a Alemanha, o vergonhoso espectáculo do «cada um por si» é uma clara confirmação da pré-existente «crise na e da UE» que o PCP há muito apontou, crise que leva mesmo os mais furiosos e dogmáticos «europeístas» a temer o seu estilhaçamento.
Não, no combate ao surto de Covid-19 não estamos todos com as mesmas posições. A luta de classes pode assumir novas formas mas não desapareceu. A natureza exploradora, desumana e parasitária do capitalismo tornou-se ainda mais evidente e a luta em defesa dos que menos podem e menos têm não conhece tréguas.



Albano Nunes

sexta-feira, março 13, 2020

Crónica internacional - Outro virus

... a segunda transcrição é desta crónica de Jorge Cadima, como sempre informação imprescindível. Para todos:

 - Edição Nº2415  -  12-3-2020

Outro vírus

O coronavírus COVID-19 vai ser culpado dos males do mundo e talvez venha a justificar (Financial Times, 6.3.20) «empréstimos baratos aos bancos […e] uma injecção coordenada de liquidez no sistema bancário» (não deveria ser nos SNS?). Mas outro vírus, muito mais perigoso e mortal, está a alastrar: o vírus do belicismo imperialista, que ameaça a sobrevivência da Humanidade.
Na Conferência de Segurança de Munique (14-16.2.20), o Ministro da Defesa dos EUA, Mark Esper, atacou frontalmente a China e a Rússia: «a primeira prioridade» dos EUA é «implementar a Estratégia de Defesa Nacional» que proclama que «vivemos numa era de Concorrência entre Grandes Potências, sendo o nosso principal contendente a China, e logo depois a Rússia, e que devemos distanciarmo-nos dos conflitos de baixa intensidade e prepararmo-nos de novo para a guerra de alta intensidade[sic]» (www.defense.gov, transcrição oficial). Como «prioridades de segundo nível» indicou «os Estados párias, como a Coreia do Norte e o Irão». Apesar de ter acabado de tentar destituir Trump por outras questões, a Presidente da Câmara de Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, do Partido Democrático, confirmou em Munique que essa política unifica o grande capital e o poder nos EUA. Em resposta a uma pergunta sobre se concordava com a política de Trump em relação à China, foi clara: «estamos de acordo a esse respeito». E ameaçou os aliados europeus: «não se aproximem da Huawei» (vídeo disponível no site da Conferência). Já no discurso do Estado da União, em sessão conjunta do Parlamento dos EUA, Pelosi interrompeu momentaneamente o seu rasgar das páginas do discurso de Trump para aplaudir, de pé e em conjunto, o fantoche Guaidó, que Trump nomeou ‘Presidente’ da Venezuela. Por detrás das disputas pelo poder, estão unidos na imposição pela força do (senil) Império Estado-Unidense.
Poucos dias após Munique (25.2.20), a Comissão para as Forças Armadas do Senado dos EUA ouviu o Comandante Aliado Supremo da NATO para a Europa e Comandante do Comando Europeu dos EUA, General Todd Wolter (vídeo disponível em c-span.org). Declarou-se pronto a «curar a influência maligna da Rússia» que considerou um «inimigo potencial». Questionado sobre a sua opinião em relação à política de não utilizar armas nucleares antes da sua utilização por um adversário (a «no first use policy» que foi, até ao fim, a doutrina da União Soviética), Wolters foi franco: «sou fã duma política de first use flexível». Ou seja, o «uso flexível» de armas nucleares mesmo sem qualquer ataque nuclear prévio. Interrogado sobre os aliados da NATO, declarou que nunca conheceu «maior coesão». Exemplificou referindo que «pela primeira vez em mais de seis décadas, aprovámos uma Estratégia Militar da NATO. É um documento sigiloso, secreto, da NATO, que define a ameaça e a actividade que temos de empreender». Explicitou que essa Estratégia Militar da NATO «é muito semelhante à Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos» (aprovada em 2018, mas igualmente secreta, conhecendo-se apenas um resumo). Ficámos a saber pelo émulo do Dr. Estranhoamor que o Governo PS atrelou Portugal à secreta Estratégia de Defesa Nacional (dos EUA) de Trump e à ‘liberdade democrática e ocidental’ de provocar um holocausto nuclear.

Jorge Cadima

sexta-feira, abril 13, 2018

Ontem foi 5ª feira! (e apenas se adiou o que TEM DE se impedir)

do (quase) diário:


13.04.2018

Ontem foi 5ª. feira e todas as 5ªs. feiras há mercado em Ourém. Faz parte da minha rotina de referências, ainda que poucas vezes o frequente.

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Por exemplo(s): as crónicas Às 5ªs. … feira!, no Récord do ano de 1972; nas “aventuras” teatrais.

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Todas as 5ªs. feiras sai o avante! (desde Abril de 1974!). Faz parte das minhas obrigações militantes a compra e, sobretudo!, a leitura.

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Só assim me sinto informado…como serviço mínimo.

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Algumas “opiniões” transformam a informação, ainda que dura e preocupante, num gosto de leitura.

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Por isso, às vezes não resisto à inserção no diário, nesta série de Textos & Contextos.

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Por exemplo(s):

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·        Jorge Cadima 

Tudo cheira a provocação
para inventar pretextos para a guerra
À beira do desastre
A campanha do alegado envenenamento do espião Skripal começou a ruir. Logo deu lugar a nova campanha sobre um suposto ‘ataque com armas químicas do governo sírio’. São as patranhas do partido da guerra, que abrem caminho a novas agressões, guerras ou ‘mudanças de regime’. Vários ministros israelitas, com as mãos manchadas de muito sangue palestino, pedem abertamente um ataque militar dos EUA à Síria (Jerusalem Post, 8.4.18). Israel lança mísseis cruzeiro sobre aquele país soberano, cujo território dos Montes Golã ocupa há meio século. Trump ameaça, secundado por May e Macron. A parada é hoje perigosíssima. Há o perigo duma aventura catastrófica, dum confronto directo entre as maiores potências nucleares do planeta, provocado pelo desespero das velhas potências imperialistas perante a sua irresolúvel crise sistémica, a sua decadência e perda de hegemonia económica, política e militar, e o seu fracasso na Síria e noutras frentes.
A propaganda nunca precisou de ser racional, nem basear-se em factos. Não tem de explicar por que haveria o governo sírio de usar armas químicas às portas de Damasco, quando já libertou mais de 90% desse território e negociava a rendição do último reduto. Nem por que haveria Putin de querer assassinar um espião inglês que o governo russo libertou em 2010, usando uma arma química que poderia ser ligada à Rússia, em vez duma banal arma de fogo (que, além de menos identificável, seria mais eficaz: o espião e a filha estão afinal vivos). Ou por que, sem razão aparente, escolheria fazê-lo uns dias antes das eleições presidenciais russas nas quais era candidato, e três meses antes do Campeonato do Mundo de Futebol que o seu país irá acolher. Tudo cheira a provocação, montada por quem quer inventar pretextos para a guerra.
O historial de uso de armas químicas pelas potências imperialistas é longo e terrível. Inclui o uso de armas químicas pelos ingleses contra a Rússia bolchevique, no Verão de 1919, a mando de Winston Churchill (The Guardian, 1.9.13). E o uso em larga escala pelos EUA de armas químicas (como o Agente Laranja) nas suas genocidas guerras no Sudeste Asiático. Ainda hoje nascem crianças deformadas, como resultado dos seus efeitos. A actual histeria anglo-americano-israelita sobre o alegado uso de armas químicas é duma hipocrisia sem limites.
O verdadeiro ‘crime’ do povo e governo sírios foi terem resistido com êxito, e com a ajuda dos seus aliados da Rússia, Irão e Líbano, a mais uma guerra de agressão imperialista. É estarem a libertar a Síria e a derrotar os tenebrosos bandos de terroristas fundamentalistas que há muitos anos o imperialismo arma e financia, com a ajuda das mais bárbaras ditaduras do Médio Oriente (sempre sustentadas pelas ‘democracias ocidentais’) e do Estado sionista que massacra com impunidade o povo mártir da Palestina. Perante a derrota dos serventuários, os mandantes assanham os dentes.
Impõe-se a vigilância face ao perigo duma monumental provocação dos partidários da guerra, que encaram a Humanidade como o ministro da Defesa de Israel, Lieberman, vê os palestinos que massacra: «não há civis inocentes na Faixa de Gaza» (Times of Israel, 8.4.18).

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·        Anabela Fino 
Xosé
Todos os lugares e todos os dias têm histórias por contar, e por maioria de razões os locais e os tempos em que por força das circunstâncias se concentram gentes e atenções. Não é segredo que não raras vezes as histórias que passam à História carregam tantos silêncios, tantas omissões, tantos desígnios espúrios que em certas ocasiões se torna indispensável, para um correcto entendimento dos factos, raspar a patine do tempo e resgatar do olvido o que não pode nem deve ser esquecido. É o caso do conjunto formado pelo hotel Palestina, 7 de Abril de 2003 e José Couso, elementos que hoje pouco ou nada dirão à grande maioria das pessoas.
Em plena guerra do Iraque, no entanto, toda a gente sabia que o hotel Palestina acolhia os jornalistas internacionais que cobriam o conflito. Cadeias de televisão de todo o mundo divulgavam crónicas dos seus correspondentes feitas a partir das varandas do hotel transformado em quartel-general da imprensa, mostravam imagens colhidas através do telhado ou das janelas dos quartos, a exemplo do que sucedia com jornais e revistas. Era a guerra em directo como nunca antes tinha sido visto. É por isso que o sucedido no dia 7 de Abril de 2003 não só nunca devia ter ocorrido como continua a suscitar, 15 anos depois, a maior revolta: um tanque dos Estados Unidos atacou o edifício. Mais tarde a Associated Press citará militares norte-americanos que referem que estavam a ser alvejados por um atirador furtivo a partir do hotel e que conseguiram ver homens com binóculos no telhado do edifício a vigiar as movimentações dos soldados da coligação. Era mentira.
O «atirador furtivo» era José Couso, jornalista, e a «arma» dos disparos que não houve era uma câmara. Como então noticiou o Público (8.4.2003) «pouco depois do primeiro disparo foi declarado cessar-fogo na zona e que as tropas americanas decidiram não disparar sobre o hotel». Uma decisão tomada demasiado tarde. No local ficaram vários feridos e um morto, José Couso.
O inquérito do costume deu o que é costume: o Pentágono negou que as suas forças tenham cometido negligência e garantiu que os soldados norte-americanos agiram em defesa própria... Tiro de tanque contra uma câmara!
A família de Couso, que acusa Bush, Blair e Aznar – a troika da guerra às armas de destruição massiva que não existiam – do assassinato do jornalista, luta há 15 anos para que lhe seja feita justiça. Em vão. Após a reforma da lei da justiça universal em Espanha ter encerrado o processo e dos sucessivos governos terem imposto a lei do silêncio à morte matada do câmara e repórter fotográfico galego Xosé, o caso está agora em recurso no tribunal constitucional.
Década e meia depois, quando os novos senhores da guerra inventam novos cenários de ataques para servir as suas estratégias belicistas, o silêncio sobre o crime que vitimou José Couso continua a matar.

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... como entendo dever 
 tentar divulgar!

sexta-feira, março 09, 2018

Síntese de grande actualidade e oportunidade

 - Edição Nº2310  -  8-3-2018

Contradições


Chovem notícias indicando o aprofundamento da crise do capitalismo. A guerra comercial proteccionista, até aqui encoberta sob a capa de sanções, multas ou questões sanitárias, é cada vez mais aberta. Trump anunciou tarifas sobre todas as importações de aço (25%) e alumínio (10%), invocando a «segurança nacional» (Washington Post, 1.3.18). No ano passado o défice comercial dos EUA em bens e serviços foi de 566 mil milhões de dólares, «o maior desde 2008», com um défice recorde em mercadorias com a China de 375 mil milhões (New York Times, 2.3.18). Mas a China não figura sequer entre os dez maiores exportadores de aço para os EUA, sendo a lista encabeçada por quatro aliados dos EUA: Canadá (16% das importações dos EUA), Brasil (13%), Coreia do Sul (10%) e México (9%). O anúncio suscitou ameaças de represálias do presidente da Comissão Europeia, Juncker, entre outros. É previsível uma escalada. A cooperação é cada vez mais substituída pela confrontação entre potências que procuram sacudir para cima de outros os efeitos da crise.

O resultado das eleições em Itália é sintoma, e por sua vez factor de agravamento, da crise da/na UE. Por contraditório que seja, reflecte um profundo descontentamento com as políticas de ‘austeridade’ e com os efeitos devastadores do euro. Entre 2007 e 2016 o país perdeu uns estonteantes 22% da sua importante produção industrial (Repubblica, 23.9.16). O partido de governo, o PD, sofreu uma derrota importante. A tradicional revista da City de Londres, The Economist, propriedade dos Rothschilds e, desde 2015, também da família Agnelli (os grandes magnatas da FIAT), apelou nas vésperas da eleição ao voto no PD, cujo governo «introduziu reformas num sistema que ainda protege em demasia quem tem empregos permanentes, encorajando as empresas a empregar jovens apenas com contratos a curto prazo» (1.3.18). Não espanta que grande parte do voto popular tenha abandonado o PD e optado por quem era apresentado como crítico radical. Outrora um dos países mais ‘euro-entusiastas’, a Itália é hoje um dos mais ‘euro-cépticos’, e metade do eleitorado votou em quem criticou o euro. Como noutras paragens, as bravatas eleitoralistas de partidos do sistema que se proclamam ‘anti-sistema’ pouco têm que ver com as suas reais intenções. Mas a crise da UE vai tornar-se ainda mais complexa.

Digno de registo é o discurso do Estado da União do Presidente russo, sobretudo pelas declarações políticas, que não foram objecto de atenção mediática. Putin afirma que «estamos muito preocupados com certas passagens do [novo documento de estratégia nuclear dos EUA, anunciado por Trump em Fevereiro]. [...] Nós lemos o que está escrito. E o que está escrito é que esta estratégia [nuclear] pode ser concretizada como resposta a um ataque [apenas] de armas convencionais, ou mesmo a uma ciber-ameaça». Após reafirmar que a doutrina militar da Rússia apenas prevê a utilização de armas nucleares em resposta a um ataque nuclear, Putin acrescenta a seguinte frase: «Considero ser meu dever anunciar o seguinte. Qualquer uso de armas nucleares contra a Rússia ou os seus aliados, sejam elas de curto, médio ou qualquer alcance, será considerado como um ataque nuclear contra este país. A retaliação será imediata e com todas as consequências». Quem anda distraído, ou convencido de que a situação de quase conflito aberto entre as principais potências nucleares é coisa pequena, tem a obrigação de acordar.


Jorge Cadima

sexta-feira, outubro 13, 2017

Crónica internacional - PERIGOS

Leiam, por favor!

 - Edição Nº2289  -  12-10-2017

Perigos

A crise do capitalismo agrava-se de forma avassaladora. Trump dispara ameaças de acções militares em todas as direcções. Numa reunião com os principais chefes militares disse que esta «talvez seja a calma que antecede a tempestade» (cbsnews.com, 6.10.17). Multiplicam-se as indicações de que os EUA rasgarão o acordo nuclear com o Irão (Guardian, 6.10.17), e as ameaças contra a RPD Coreia (CNN, 8.10.17). Até o presidente republicano da Comissão de Negócios Estrangeiros do Senado dos EUA diz estar alarmado, pois Trump pode «conduzir à Terceira Guerra Mundial» (NY Times, 8.10.17).

É neste contexto que explode a crise catalã, mais uma expressão da profunda crise da UE, inseparável da sua natureza. Reagindo oficialmente à brutal intervenção policial contra quem queria votar no referendo, às prisões de membros do governo regional e à tentativa policial de ocupar sedes de partidos políticos catalães, o vice-presidente da Comissão Europeia, Timmermans, disse que «é dever de qualquer governo defender o primado do Direito, e isso por vezes exige um uso da força proporcional.[...] O respeito pelo estado de Direito não é uma opção – é essencial». As palavras de apoio ao governo de Rajoy podem parecer institucionalmente incontornáveis. Mas isso seria fazer de conta que não vimos a actuação das potências da UE no desmembramento pela força – pela ingerência e guerra – de inúmeros países, sempre violando o «primado do Direito», nacional e internacional. Quão diferente foi a reacção da Alemanha à proclamação unilateral da independência da Croácia e Eslovénia. Quão diferente foi a imposição pela força das armas da NATO da secessão do Kosovo que, mesmo segundo o acordo de cessar-fogo que pôs fim aos 78 dias de bombardeamentos da NATO, era parte integrante da Jugoslávia. As guerras que fragmentaram o Iraque, a Líbia, a Síria e outros países foram todas flagrantes violações do Direito Internacional. Hoje o feitiço balcanizador vira-se contra o feiticeiro. Semearam os ventos e estão a colher tempestades. E o outrora respeitável Washington Post não consegue melhor título para o seu editorial (2.10.17) do que o delirante: «A Catalunha realizou um referendo. A Rússia ganhou».
A situação catalã é complexa. São inegáveis os sentimentos nacionais de longa data e a vontade de soberania do povo catalão, bem expressos nas ruas e nas urnas. São também reais as manobras de sectores da burguesia catalã para canalizar para a questão nacional um descontentamento social crescente. É impossível conciliar a alegada defesa face a Madrid da soberania catalã, com a proclamada vontade de permanecer numa UE que destrói as soberanias nacionais dos povos. E é também impossível não ver a natureza do poder em Espanha, onde o franquismo que sobreviveu à ‘transição’ de 1978 está agora a deixar cair a máscara e a mostrar as suas garras. De saudação fascista em riste, nas ruas, mas também nas declarações dum dirigente do PP, que ameaçou esta semana o presidente catalão de seguir o exemplo de Lluis Companys, que em 1934 proclamou a República Catalã, acabando preso, e fuzilado por Franco em 1940.

É urgente para os trabalhadores e os povos retirar lições dos acontecimentos. Lições sobre a importância da sua acção independente em defesa dos seus reais interesses, de classe e nacionais. Lições sobre a natureza duma UE que – desde sempre – assenta na recusa da democracia e do respeito pela vontade soberana dos povos. Lições sobre a verdadeira face das ‘democracias’ do grande capital financeiro e sobre os enormes perigos que se adensam.

Jorge Cadima

domingo, setembro 10, 2017

Crónica internacional

 - Edição Nº2284  -  7-9-2017

Ventos de guerra e luta pela paz

O Verão tornou mais evidentes os perigos de guerra que pairam sobre a Humanidade. A situação mundial deteriora-se, com as ameaças militares de Trump à Venezuela, Coreia do Norte e outros países; as manobras e presenças militares dos EUA/NATO nas fronteiras da Rússia e China; a fúria sancionatória generalizada; a nova escalada dos EUA no Afeganistão (com o Paquistão na mira).
Há meio século, Martin Luther King descreveu o seu país como «o maior agente de violência do Mundo». King seria assassinado pouco depois, e a violência do imperialismo norte-americano não parou de crescer, em particular após o desaparecimento do contrapeso que a União Soviética e o campo socialista representavam. Hoje, Trump ameaça o planeta inteiro com intervenções militares. Já foi assim com Obama.
As contradições estalam por toda a parte. No seio das classes dirigentes do imperialismo norte-americano há um enfrentamento feroz, que apenas se acalma em momentos de afirmação do belicismo imperialista. As relações entre EUA e as potências europeias são publicamente caracterizadas como as piores desde a II Guerra Mundial, e apenas se compõem quando se trata de provocar a Rússia e agredir outros estados e povos. A União Europeia vive em crise permanente. Tudo isto é reflexo da crise estrutural do capitalismo. Uma crise que não foi resolvida pelos apoios extraordinários ao sistema financeiro pelos estados e bancos centrais, apoios que alimentam bolhas insustentáveis (veja-se as bolsas) e um sistema financeiro já sem qualquer relação com a realidade produtiva. De cada vez que se ensaia a redução das subvenções, estremece o castelo de cartas em que se tornou o ‘sistema financeiro internacional’. As contradições generalizadas reflectem também o declínio das velhas potências imperialistas (que no caso dos EUA se arrisca a ser explosivo) face à emergência de novas potências, com destaque para a aparentemente imparável ascensão da China à posição de maior economia mundial.
As classes dominantes reagem com o aumento brutal da exploração de classe e a imposição pela violência da sua hegemonia planetária. O inevitável corolário é o crescente autoritarismo, mesmo no seio das velhas democracias burguesas, alimentado também pelo alastramento dum terrorismo misterioso, cujos alegados autores têm sempre ligação aos serviços secretos e às guerras sujas patrocinadas pelo imperialismo. O autoritarismo aumenta à medida que as políticas de empobrecimento acelerado dos povos abrem fendas no controlo ideológico sobre os povos (até nos EUA e Reino Unido).
A guerra sempre foi intrínseca ao imperialismo. Hoje, como noutras fases de crise aguda, o ‘partido da guerra global’ ganha força. Mas a guerra não é inevitável. Está nas mãos dos povos afastar a catástrofe para onde o grande capital os conduz, erguendo-se para derrotar os senhores da guerra e da miséria. É por isso que é tão importante a solidariedade com todos quantos resistem aos ditames do imperialismo – na Venezuela e na Síria, em África e no Extremo Oriente, e também nos países do centro imperialista. A luta pela paz e a luta contra o imperialismo são cada vez mais indissociáveis. E urgentes.


Jorge Cadima 

sábado, agosto 19, 2017

Venezuela

 - Edição Nº2281  -  17-8-2017

A questão do Estado é a questão central de qualquer revolução
Venezuela, a questão central do poder

A violência da campanha contra a Venezuela bolivariana e a não menos violenta onda de anticomunismo vomitada contra o PCP só é explicável porque o que está em jogo é o destino de um processo revolucionário. A extraordinária agudização da luta que opõe as forças reaccionárias e o imperialismo às forças que defendem as conquistas alcançadas desde a histórica vitória de Hugo Chávez nas eleições presidenciais de 1998 não é apenas em torno da orientação política do poder, mas em torno do próprio poder, seu conteúdo económico e social e natureza de classe.
A questão do Estado é a questão central de qualquer revolução e na Venezuela o que tem estado em desenvolvimento com a aprovação da Constituição bolivariana que consagra uma orientação popular, anti-oligárquica e anti-imperialista é um original processo de transformações revolucionárias que já se traduziram em grandes avanços e conquistas democráticas, mas cuja defesa e consolidação exigem – como aliás prevê a própria Constituição – que o sistema de poder supere os métodos, ainda predominantes, da democracia formal burguesa e se aprofunde a componente participativa da democracia, de modo a enraizar o Estado nas massas trabalhadoras da cidade e do campo e a colocá-lo ao abrigo da demagogia, da sabotagem e da provocação, sempre prontas a aproveitar-se de factores conjunturais adversos para inverter e destruir o processo bolivariano .
Que não haja qualquer dúvida. O que faz correr tão agressivamente a «oposição» interna, o imperialismo norte-americano (e europeu) e a reacção latino-americana, não é a «democracia» nem os «direitos humanos», e muito menos o respeito pela Constituição bolivariana a que aliás sempre se opuseram. O ensurdecedor coro montado no plano internacional contra a Assembleia Nacional Constituinte – do qual, lamentavelmente, seguindo a posição hostil da União Europeia, participa o Governo português – mostra que é realmente a natureza de classe do poder que está em causa e que a reacção e o imperialismo estão dispostos a tudo para atingir os seus objectivos contra-revolucionários. Não é por acaso que tal coro esconde que a própria Constituição de 1999 prevê o seu aperfeiçoamento no interesse do aprofundamento do carácter popular e soberano do processo bolivariano. O que significa que a resposta do governo da Venezuela à ofensiva contra-revolucionária é não só legítima como inteiramente constitucional. Em qualquer caso, é bem sabido que uma revolução que se não defenda com todas as armas ao seu dispor é uma revolução perdida. A revolução bolivariana defende-se e tem ao seu lado os comunistas portugueses. O PCP não hesita em questões de princípio. Nenhuma campanha fará o PCP vacilar na sua posição internacionalista.
Apesar de frustrada no imediato, a ofensiva contra-revolucionária que desde Abril já provocou mais de cem mortos não terminou. A brutal ameaça de intervenção militar dos EUA, sem precedentes na história da Venezuela, mostra que a solidariedade com o processo revolucionário bolivariano tem de continuar.


Albano Nunes

sexta-feira, março 06, 2015

A isto chama-se INFORMAÇÃO . Crónica Internacional

 - Edição Nº2153  -  5-3-2015

O pântano
O General Wesley Clark tornou-se famoso como comandante supremo da NATO na sua guerra contra a Jugoslávia. Reavivou a fama em 2007, quando em entrevista ao programa Democracy Now da Rádio Pública Nacional dos EUA (2.3.07) revelou que, poucos dias após os atentados de 11 de Setembro, já estava tomada a decisão de que «iríamos limpar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque, depois a Síria, o Líbano, a Líbia, a Somália, o Sudão e para terminar o Irão». Agora, Clark informa-nos sobre as origens do famigerado bando de assassinos que dá pela sigla ISIS. Disse Clark à CNN (18.2.15): «o ISIS foi criado através do financiamento dos nossos amigos e aliados, porque como as pessoas da região lhe dirão, 'se queremos alguém que combata até à morte contra o Hezbolá, não se afixam avisos de recrutamento a dizer para se juntarem a nós, a fim de construir um mundo melhor'. Procuram-se os fanáticos e arregimentam-se os fundamentalistas religiosos – é assim que se combate o Hezbolá. É uma espécie de Frankenstein». Quando ouvirmos falar dos crimes e atrocidades do ISIS, lembremo-nos que – nas palavras do general norte-americano – estamos perante um monstro criado pelos «amigos e aliados» dos EUA.

Clark não esclarece quem são os «amigos e aliados» em questão. O vice-presidente dos EUA Joe Biden, ao discursar perante estudantes da Universidade de Harvard (em 4.10.14) já falara publicamente nos governos turco, saudita e dos Emirados Árabes Unidos. Mas convém lembrar o maior «amigo e aliado» dos EUA na região, Israel, cujo ódio ao Hezbolá é fácil de imaginar. O Estado sionista (que se considerava invencível) já foi por duas vezes derrotado pela organização da resistência libanesa: em 2000, quando foi obrigado a pôr fim à sua ocupação do Sul do Líbano que datava de 1978; e de novo em 2006, quando Israel lançou nova criminosa guerra de ocupação contra o seu vizinho do Norte. Já o New York Times titulou que «Interesses convergentes podem levar à cooperação entre Israel e os estados do Golfo» (31.3.14), acrescentando que a colaboração poderia passar pela «cooperação de israelitas e sauditas no treino dos combatentes da oposição síria». O jornal israelita Haaretz informa (7.12.14) que «relatórios dos observadores da ONU no[s Montes] Golã, entregues aos 15 membros do Conselho de Segurança, pormenorizam os contactos regulares de oficiais da IDF [Forças Armadas israelitas] e figuras da oposição síria armada, junto à fronteira». E o canal televisivo de notícias israelita, i24news, acrescenta (7.12.14) que em resposta a denúncias de que as forças armadas de Israel prestam socorro médico a todos os grupos armados da oposição síria «incluindo a Frente al-Nusra e Daesh [como o ISIS é conhecido no Médio Oriente]», o gabinete de imprensa militar israelita confirmou: «nos últimos dois anos, as IDF têm prestado auxílio humanitário e salvado vidas a sírios feridos, independentemente da sua identidade». Para quem chacinou centenas de crianças em Gaza, é comovente este 'humanismo'.

Mas Clark e Biden são falsos ingénuos. O problema não são apenas os «amigos e aliados». Já em 20.9.14, o New York Times titulava: «No Iraque há profundas suspeitas de que a CIA e o Estado Islâmico estão unidos». E segundo a agência noticiosa iraniana FNA (23.2.15), «o exército iraquiano derrubou dois aviões britânicos que transportavam armas para o ISIS», informação confirmada pela Comissão de Segurança Nacional e Defesa do Parlamento iraquiano. O presidente da comissão disse que «o governo de Bagdade recebe relatórios diários de pessoas e forças de segurança na província de al-Anbar, sobre numerosos voos de aviões da coligação chefiada pelos EUA que lançam armas e mantimentos nas zonas sob controlo dos terroristas do ISIL». O pântano criado pelas ambições hegemónicas do imperialismo está para além de qualquer imaginação doentia. Falta saber quem nele se irá afundar.


Jorge Cadima

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Esclarecedora viagem por paragens pouco (e mal) frequentadas pela comunicação social




Jorge Cadima

 - Edição Nº2149  -  5-2-2015

Ils sont Abdullah


Aproveitando-se da indignação pelos crimes de Paris, dirigentes políticos mundiais desfilaram de braço dado para TV ver, longe da multidão. Na primeira fila dessa alegada marcha anti-terrorista seguia boa parte dos principais responsáveis pelo terrorismo de Estado nos nossos dias: os criminosos Hollande e Cameron, seguidores de Sarkozy e Blair nas guerras de rapina e destruição no Médio Oriente e África; o carniceiro de Gaza, Netanyahu; e o carniceiro do Donbass, Porochenko. Por razões não totalmente claras, Obama faltou à chamada.



Duas semanas depois, grande parte dos mesmos dirigentes foi em peregrinação à Arábia Saudita, prestar homenagem ao falecido rei Abdullah. Não foram poupados elogios. Obama valorizou «a nossa amizade genuína e calorosa»(International New York Times, 24.1.15). Blair disse que era «um modernizador», «amado pelo seu povo e cuja falta será profundamente sentida» (declaração do seu gabinete, 23.1.15). O International NYT chama-lhe um «reformador saudita» (24.1.15). David Cameron louvou a sua «dedicação à paz» e a directora-geral do FMI declarou que «era um grande dirigente, que introduziu muitas reformas internas e, de forma muito discreta, era uma grande defensor das mulheres» (Channel 4 News, 23.1.15). O Presidente de Israel, Rivlin, disse que «as suas sábias políticas contribuiram muito para a nossa região e a estabilidade do Médio Oriente» (Times of Israel, 23.1.15). A verdade é que a Arábia Saudita é uma férrea ditadura governada por uma casta de multimilionários que devem a sua riqueza, o seu poder e o seu próprio país, às manobras do imperialismo e que sempre retribuiram esses favores. O Reino é um dos mais activos patrocinadores dos bandos terroristas ao serviço do imperialismo, e não apenas os de raiz religiosa. Quando em meados dos anos 80 o Congresso dos EUA proibiu o financiamento da contra-revolução nicaraguense, os sauditas entraram com o dinheiro (NYT, 13.1.87). Não são tolerados partidos nem sindicatos, nem se faz de conta que existe um Parlamento. Não existe qualquer liberdade de expressão. Nos meses finais do reinado «reformador» e «amigo das mulheres», duas mulheres foram levadas a um tribunal anti-terrorista por conduzir um automóvel (NYT, 25.12.14) e um cidadão foi condenado a 1000 chicotadas e 10 anos de prisão por criar um blog para discutir questões religiosas (Human Rights Watch, 10.1.15). O que não impediu que Hollande e Fabius se deslocassem a Riade para prestar tributo ao rei saudita e à «sua visão duma paz justa e duradoira no Médio Oriente» (Libération, 23.1.15) – visão partilhada pela França e bem patente na Síria. Sem pestanejar, Je suis Charlie deu lugar a Je suis Abdullah. O desplante é estonteante, mas não surpreendente. A Arábia Saudita nunca foi alvo das grandes campanhas mediáticas e políticas contra o fundamentalismo islâmico. Porque a verdadeira questão é outra. A Arábia Saudita e o seu «capitalismo avançado» (International NYT, 24.1.15) estão do mesmo lado da barricada que Obama, Hollande, Cameron e o sionismo.


A hipocrisia sem limites dos chefes imperialistas revela algo importante: o racismo e a islamofobia que de forma cada vez mais aberta é promovida na comunicação social é – tal como o anti-semitismo dos anos 30 – apenas uma arma das classes dirigentes para dividir os trabalhadores e povos e para os arregimentar às suas políticas de guerra, exploração e rapina. Os elogios a Abdullah mostram que não há «choque de civilizações» quando se trata de arranjar acordos entre o grande capital e garantir a continuidade dos seus chorudos lucros. Poderão existir choques de interesses. E se algum dia a classe dirigente saudita decidisse seguir outro rumo, então sim ouviríamos falar dos crimes e pecados da sua ditadura e todo o arsenal imperialista – dos mísseis Cruzeiro às agências de notação, dos drones às pseudo-ONG – cairiam sobre a Península. E se, 'pior' ainda, o povo saudita se erguer para varrer a sua corrupta e serventuária classe dirigente, serão ensurdecedoras as campanhas imperialistas sobre o «perigo duma nova ditadura». Foi assim no nosso país, há 40 anos.