terça-feira, março 09, 2010

Homenagem e testemunho a Sousa Monteiro e a Costa Martins

Que nos acontece quando morrem, e assim, por acidente brutal, homens a que tantos episódios da nossas vidas nos ligaram? Paramos, talvez perplexos. Ficamos lembrando, tristes, as relações pessoais, amigas, solidárias, que assim acabam.
E recordamos, inevitavelmente, os episódios mais marcantes da nossa vida que com eles partilhámos.
O Sousa Monteiro! Os seus gestos de solidariedade e amizade pessoais em momentos muito difíceis. Tão pessoais que os guardo bem dentro de mim.
E o Costa Martins! Para mim, um retrato do MFA. Não (só!) pelo acto heróico da tomada do aeroporto da Portela; não (só!) pelo que se pode ler em o cravodeabril. Também por comportamentos “curiosos” que para aqui não trago. Também por dois episódios que tão estranhos deverão parecer hoje, a quem julga que detém o poder político, a quem avalia os que, aparentemente, detém o poder político.
1. Aeroporto da Portela. Maio de 1975. Preparo-me para embarcar, integrado na missão à RDA composta por um oficial de cada ramo das Forças Armadas representando o MFA e o Ministro do Trabalho (o capitão Costa Martins), indo depois – o ministro e eu – para a Conferência anual da OIT. Um funcionário superior do ministério dirige-se-me e entrega-me um envelope “Sr. Dr., este é um envelope com X contos (não me lembro quantos) para qualquer despesa extra, de representação que o Sr. Ministro precise de fazer… assine aqui por favor… fica à sua responsabilidade!”. Olhei-o, se calhar não escondendo o espanto, sem saber que fazer. “É a regra, é assim…”. Fui ter com o Costa Martins. Expus-lhe a situação. “Ah!, pois… é o envelope. Deve ser o mesmo que o Barros Moura levou quando foi comigo à União Soviética… guarde lá isso!, não há-de ser preciso… mas eles querem…”. E lá embarcámos. Andámos, dia a dia, acompanhando-nos quase um mês, com o envelope esquecido, por ele e por mim, mesmo quando tínhamos algumas despesas… de representação. Quando regressámos, o envelope foi devolvido, intacto, sem ter sido aberto, como não o fora pelo Barros Moura.

reunião com o Ministro do Trabalho da RDA, Maio de 1975

2. Genève. Vindos da RDA, o Costa Martins e eu fomos recebidos no aeroporto pelo embaixador, e deixados no Sheraton, com limousine e motorista à disposição. Recuperados das viagens – bem cansativas – encontrámo-nos uns quartos de hora depois para conversar sobre a OIT, e intervenções na Conferência (aliás, histórica pela entrada da OLP e saída da sala dos representantes dos EUA e de Israel – que estiveram fora da OIT dois anos). Mas fizemos um ponto prévio. Perguntou-me o Costa Martins “É pá!, você que já cá esteve no ano passado… acha que vale a pena estarmos no Sheraton?, isto deve ser caríssimo… e precisamos de limousine com motorista?…”, eu respondi-lhe “… no ano passado, fiquei num hotel confortável e aluguei um carro razoável, com que a delegação transportou os ministros que cá vieram à Conferência – o Avelino e o Mário Murteira...”, réplica do Costa Martins “Porque é que não fazemos o mesmo?”. Fizemos!
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E foi deste homem que, nas notícias sobre a sua morte, voltou a ser insinuada a calúnia de se ter servido de dinheiros públicos, o que sentença de tribunal, em acção por ele pedida, negou totalmente sem qualquer margens para dúvidas.
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O meu testemunho e homenagem a Costa Martins. E ao amigo Sousa Monteiro.

11 comentários:

Justine disse...

Sentida, bonita homenagem. Homenagem viva, pelo testemunho do vivido em comum. E eles, os amigos que vão partindo, ficam em nós no que se viveu em comum...

Anónimo disse...

As Lágrimas bailaram nos olhos.

Nunca se poderá escrever o mesmo desta corja de malfeitores. Obrigado Sérgio

Maria do monte

Maria disse...

Ontem fiquei em estado de choque.
Hoje não tenho palavras.
Vou até aos Olivais... se conseguir.

Um Beijo.

jrd disse...

São estas as verdades que nos ensinam a Verdade.

Graciete Rietsch disse...

Obrigada camarada Sérgio pelos teus testemunhos sobre COSTA MARTINS e SOUSA MONTEIRO. Ao capitão de Abril Costa Martins eu ouvi-o discursar, no Porto, num 1º de Maio e ainda sinto o entusiasmo com que eu e todos os manifestantes o ouviram e aplaudiram. Nunca, nem por um milionésimo de segundo, duvidei da honestidade dele. Recordo, isso sim, o maravilhoso dia de trabalho que oferecemos à Nação.Quanta alegria,quanta esperança, quanta emoção!!!!!!!
Estou muito triste pelo desaparecimento desses grandes homens, mas eles ficarão na História como verdadeiros heróis.

Um beijo.

Antuã disse...

é devido à honestidade de Costa martins que Vasco Lourenço não se sente bem no seu funeral.

GR disse...

Um testemunho muito importante, contado na 1ª pessoa.
Impensável nos dias de hoje, com estes usurpadores.
Farei das bonitas palavras da Graciete Rietsch, as minhas, porque também o ouvi no Porto e trabalhei num dos dias mais inesquecíveis.

Curvo-me perante o Capitão de Abril, ficando para sempre na nossa memória.

Bjs,

GR

anamar disse...

Por todas as razões jamais será esquecido...(os).

Bela a sua homenagem...
Abraço

CS disse...

A honestidade fere os corruptos.

samuel disse...

Muito bom!
Não terem muitas estórias destas para contar deve deixá-los nervosos...

Abraço.

José B. C. Martins disse...

Em nome da nossa família os agradecimentos pelas vossas palavras. Sousa Monteiro ficará para sempre na minha memória como grande amigo do meu pai. O meu pai, não tenho palavras, mas quereria sempre que falasse de Sousa Monteiro primeiro, pois colocou sempre os outros em primeiro lugar...

José B. Costa Martins